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13 de Dezembro de 2015

Homilia na abertura do Jubileu da Misericórdia

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Porta aberta para um mundo diferente
Homilia do Domingo III do Advento, na abertura do Jubileu da Misericórdia
  Arlindo Homem / Patriarcado de Lisboa  

Alegremo-nos, estimados irmãos e irmãs. Alegremo-nos, pois de alegria está cheio este Domingo, qual advento da misericórdia. Assim insistiram as leituras bíblicas. Primeiro foi Sofonias: «Clama jubilosamente, filha de Sião. […] O Senhor, rei de Israel, está no meio de ti, e já não temerás nenhum mal». A seguir foi Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor. […] O Senhor está próximo». Finalmente, João Batista: «Está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias».
Fundamental é a ligação: A alegria provém duma chegada, da chegada da misericórdia divina, em Jesus oferecida. Sofreremos, com dores próprias e alheias. Mas já não sofreremos sós, antes com Aquele que da própria morte fez vida, e vida para todos. E, porque já venceu a última batalha a travar, a nossa alegria é outro nome da esperança. 
Não há nada mais a esperar de essencial, pois tudo nos foi dado em Jesus, nome e figura da divina misericórdia, que nisso mesmo consiste: coração voltado para a nossa pequenez, oferecendo-lhe vida e convivência infinitas. Nada mais a esperar na essência, mas tudo a repassar na circunstância de cada um – e de cada um com os outros.
Abrimos hoje a Porta da Misericórdia, iniciando aqui um Jubileu que se prolongará até à Solenidade de Cristo Rei – quando estivermos em pleno Sínodo Diocesano, comemorativo dos trezentos anos da qualificação patriarcal de Lisboa. Motivo de redobrado júbilo, como de reforçado empenho missionário, pois a isso mesmo aludiu o título que o Papa Clemente XI nos deu em 1716. Missão que, como canta o nosso hino sinodal de Lisboa, se concretiza precisamente na manifestação a todos dum advento acontecido. E assim mesmo cantamos: «É o sonho missionário / de chegar a toda a gente. / Longe ou perto, o necessário / é mostrar Cristo presente!»

Na bula Misericordiae Vultus, de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, disse-nos o Papa Francisco: «Na “plenitude do tempo” (Gl 4,4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano de salvação, [Deus] mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem o vê, vê o Pai (cf. Jo 14,9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus» (MV, 1).     
Como nos lembra o Papa, chegara o tempo de Deus nos mandar o seu Filho, nascido da Virgem Mãe; diz-nos também que assim nos foi revelado inteiramente o amor de Deus; e que tudo quanto Jesus disse e fez é nome e figura da misericórdia divina. 
Fixemo-nos um pouco em cada um destes pontos, que tanto oferecem agora. O tempo completou-se. – Mas de que plenitude se trata para nós e para todos? Diremos que o diálogo entretecido na história do povo eleito – paradigmático duma história universal que Deus elege também – teve da sua parte a última palavra, final e completa. Tudo o mais, nos dois milénios que já leva e nos que continue a levar, não será senão eco e repercussão do que, de sempre e para sempre, nos proferiu em Jesus, do Natal à Páscoa – e hoje Pentecostes em todas as línguas do mundo. E o que nos diz, tradu-lo precisamente o Papa como “misericórdia”. Misericórdia de Deus para nós e para chegar a todos, também através de nós.Foi tal a consciência desta realidade culminada, que um autor do Novo Testamento já pôde escrever o seguinte, como que resumindo toda a teologia propriamente cristã: «Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo» (Heb 1, 1-2).
Admira-nos sempre uma consciência tão matinal e perfeita do acontecimento “Cristo” e do seu inteiro significado. Como se já partíssemos do fim para o princípio – e assim sendo de facto. Em qualquer ponto ou momento em que nos situemos, de toda a geografia do universo ou de toda a geografia da alma, encontramo-nos num tempo não linear mas em círculo, cujo centro-cume é definitivamente ocupado por Cristo. Cristo, Palavra profetizada; Cristo, Palavra dita e feita; Cristo, Palavra inesgotável. Se já a ouvimos e acolhemos, transformamo-nos em seu eco, para que finalmente chegue a quem a aguarda, saiba-o ou não. E essa mesma é a missão – e a misericórdia atuada.
Continuava o Papa Francisco, dizendo que Cristo nos revelou definitivamente o amor do Pai. Importante afirmação, que nos esclarece sobre o que seja o próprio amor. Como sabemos, é das palavras mais frequentes, a propósito de tudo e também de quase nada… Mas, se pode diluir-se e perder intensidade, também se recupera e consolida, quando demonstrada em Cristo. À sua luz, de Belém ao Gólgota, o amor divino é procura constante de cada um de nós, do nascer ao morrer, acompanhando-nos onde precisamos de ser acompanhados e assim mesmo nos salvando onde precisamos de ser salvos. Na fragilidade e no drama da existência humana, incide pleno o amor divino, como misericórdia e definição exata do seu ser e acontecer, connosco e para nós. 
Isto mesmo é o amor, como em Cristo se revela. E só isto Ele nos pede, habilitados pelo seu Espírito – que é Espírito de amor, onde a vida sai de si para ser vida do outro, para ser vida de todos. Sempre com o Papa Francisco, concluamos que neste amor com que Deus assim mesmo se revela está o cerne e alma do Jubileu que iniciamos. 
“Misericórdia” é palavra nossa que traduz todos os vocábulos com que a Bíblia nos comunica os sentimentos de Deus para com o povo eleito. Amor profundamente sentido e por isso mesmo “entranhado”; compaixão indefetível, mesmo que não correspondida; atenção prioritária aos mais pobres e humildes. Assim mesmo se traduz a misericórdia divina: um coração voltado para quem mais precisa; como todos afinal precisamos, “mendigos do seu amor”.

Quando a Doutrina Social da Igreja insiste na “opção preferencial pelos pobres”, outra coisa não faz senão escolher quem Deus escolhe, para que ninguém se perca por descuido nosso, e para não nos desviarmos nós do caminho que Ele próprio percorreu e onde unicamente O encontraremos. 
É por isso também, caríssimos irmãos e irmãs, que, como adianta o Papa, o sentimento de misericórdia se traduz necessariamente em “obras de misericórdia”: «É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia, corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina» (MV, 15).
Creio bem que, a esta plena luz, poderemos corresponder às indicações práticas e concretas que ouvimos a João Batista, no Evangelho de há pouco. Como ele respondia às multidões, que lhe perguntavam o que deviam fazer: «Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos, faça o mesmo». E aos publicanos, que exorbitavam na cobrança: «Não exijais nada além do que vos for prescrito». E ainda aos soldados: «Não pratiqueis violência com ninguém, nem denuncieis injustamente».   
Tudo isto dizia o Precursor, preparando o encontro final que pressentia. Tudo isto e ainda mais nos diria agora, para que nos encontremos no único lugar que tanto basta como tarda: a misericórdia divina, feita nossa e para todos. Ouvimos o convite, entrámos pela porta santa, abeiramo-nos da Eucaristia. Assim começamos por onde havemos de concluir, depois dum ano de práticas de conversão e graça. O mundo espera, Deus corresponde em Cristo, sejamos agora o seu eco ativo. Ajuda-nos a Mãe de Misericórdia, para sermos nós como Ela foi. 

Sé de Lisboa, 13 de dezembro de 2015
+ Manuel, Cardeal-Patriarca


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