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DOCUMENTOS

24 de Setembro de 2014

Apresentação do livro "Filhos... de quem?"

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Pai Nosso oração da família

Stefano TARDANI, Filhos de... quem?, Lisboa, Paulus, 2014
Lisboa, Auditório da igreja de S. João de Deus, 24 de Outubro de 2014

1. Um comentário ao Pai Nosso
Um cristão, qualquer que ele seja, e qualquer que seja a sua vida espiritual, não pode deixar de se confrontar com o Pai Nosso, ou seja, com a Oração Dominical, uma vez que ela nos conduz ao próprio centro do ser cristão. Afirma o Papa Bento XVI, acerca do Pai Nosso:

Jesus torna-nos participantes da sua oração, introduz-nos no diálogo interior de amor trinitário, eleva, por assim dizer, as nossas necessidades humanas até ao coração de Deus. Mas isto significa também que as palavras do Pai Nosso indicam o caminho em direção à oração interior, representam orientações fundamentais para a nossa existência, querem confirmar-nos à imagem do Filho. O significado do Pai Nosso vai para além da comunicação de palavras de oração. Quer formar o nosso ser, quer exercitar-nos nos sentimentos de Jesus (cf. Filp 2,5)1.

E continua Joseph Ratzinger:
Para a interpretação do Pai Nosso, isto tem um duplo significado. Por um lado, é muito importante escutar com a maior precisão possível a palavra de Jesus, tal como nos foi entregue na Escritura. Devemos procurar reconhecer verdadeiramente como melhor nos for possível, os pensamentos de Jesus, que Ele nos queria transmitir com estas palavras. Mas devemos também ter presente que o Pai Nosso provém da sua oração pessoal, do diálogo do Filho com o Pai. Tal significa que ele atinge uma grande profundidade, para além das palavras. Compreende toda a vastidão da existência humana de todos os tempos e, por isso, não pode ser esfrangalhado com uma interpretação meramente histórica, por muito importante que ela seja.
 Os grandes orantes de todos os séculos, pela sua união íntima com o Senhor, puderam descer nas profundidades para além da palavra, e ficaram desse modo capazes de abrir ulteriormente a riqueza escondida da oração. E cada um de nós, com a sua relação eminentemente pessoal com Deus, pode encontrar-se acolhido e guardado nesta oração. Sempre de novo deve com a sua mens — com o próprio espírito — ir ao encontro da vox — ao encontro da palavra que nos é dada pelo Filho, deve abrir-se a ela, e por ela deixar-se conduzir. Assim se abrirá também o próprio coração e fará conhecer a cada um como o Senhor quer rezar precisamente com ele2.

Ao longo deste dois mil anos de vida cristã, muitos foram os comentários à Oração do Senhor realizados pelos grandes nomes da espiritualidade e da teologia cristã. Basta recordar, apenas como exemplo, os comentários de Orígenes, Cipriano, Tertuliano, Agostinho, Gregório de Nissa, João Crisóstomo, Francisco de Assis, Tomás de Aquino, Duns Escoto. E, nos anos já nossos contemporâneos, Romano Guardini, Clément Olivier, Carlo Maria Martini, Giacomo Biffi, para não falarmos do próprio Joseph Ratzinger, que escutámos ainda agora.
Todos eles sublinharam a importância da oração do Senhor para a vida e a espiritualidade cristã, mas nenhum o fez na perspectiva da família, como o realizou o P. Stefano Tardani, com a obra que agora nos ocupa. E esta é a primeira originalidade deste livro: um comentário ao Pai Nosso na perspectiva da vida familiar em todas as suas dimensões: da realidade intra-familiar à perspectiva mais global de uma presença cristã no seio da sociedade contemporânea. No Prefácio ao livro, Mons. Giovanni d’Ercole, Bispo Auxiliar de l’Aquila, afirma, aliás:

Recolhendo o fruto de catequeses e experiências pastorais com noivos e famílias, Stefano Tardani traça, neste livro, um itinerário de formação modelado precisamente sobre o Pai Nosso. Parece-me uma opção singularmente eficaz. Repassando estas páginas, vemos entrelaçar-se doutrina e experiência, Palavra de Deus e pesquisa humana, doutrina perene da Igreja (nomeadamente o magistério dos últimos Papas depois do Concílio Vaticano II, e de forma muito especial João Paulo II e Bento XVI [no momento da sua redação, o autor ainda  não podia contar com os contributos do Papa Francisco] e resultados da ciência que investiga os segredos do íntimo humano. Cada petição do Pai Nosso constitui um maior aprofundamento da descoberta de si mesmo — o conhecimento do “eu” —, à procura da verdade do bem. Aquilo que foi experimentado durante anos de sério trabalho pastoral no âmbito do Movimento do Amor Familiar, Stefano Tardani apresenta-o aqui de forma sistemática, colocando-o à disposição de todos3.

Trata-se, como diz o próprio autor na introdução da obra, de «voltar ao princípio», não apenas enquanto lá permanece o «início da vida, mas também o seu mistério e sentido: é lá que encontramos o fundamento e as raízes da vida humana, da família e da sociedade» (11).
Mas não se trata apenas de um olhar para o passado. A obra faz uma constante análise do momento cultural europeu do presente, embora reconhecendo que grande parte das questões que vivemos e sofremos encontram a sua raiz no esquecimento das «raízes profundas» do nosso ser. Como afirma Tardani, «na maior parte da cultura e da visão atual da vida parece faltar sobretudo o alicerce» (12). E deixa uma interrogação: «Conseguirão os cristãos, juntamente com tantas pessoas de boa vontade, fazer voltar a vida pessoal e social aos caminhos de Deus Pai e do amor verdadeiro, dando de novo ao nosso mundo um rosto de humanidade e de fraternidade?» (13).

2. Um Deus que não é solitário e que nos cria
Não nos é possível aqui percorrer e resumir as várias invocações do Pai Nosso, os comentários e observações que nos são proporcionados por esta obra. Por isso, seja-me permitido sublinhar apenas algumas daquelas que creio serem as intuições mais felizes e centrais que podemos encontrar ao longo do livro de don Stefano Tardani.
A primeira afirmação que gostaria de sublinhar — não direi original, mas fundamental para a compreensão de toda a obra e do objectivo a que se propõe — é a de que «Deus não é um solitário»: é o Pai de Jesus, o Filho, «que é o Verbo, Eterno com Ele, “gerado” por Ele, e igualmente Deus» (26). E acrescenta Tardani:
Descobrir as raízes da verdadeira fé leva-nos a descobrir também as raízes da nossa vida. Jesus, no mistério de Deus, traz-nos o mistério da vida e o mistério da Comunhão. Esta revelação possui uma força extraordinária, porque nos faz compreender que Deus tem em Si o segredo que procuramos acerca da vida e do relacionamento. O casal procura este segredo: como se consegue permanecer juntos sem se separar, sendo diversos — homem e mulher e cada um com a sua própria maneira de ser? (26-27).
Mas esta comunhão em Deus é igualmente cheia de consequências para cada um de nós, para cada pessoa humana: «A nossa liberdade maior é a de sermos profundamente nós mesmos, isto é, sermos filhos de Deus Pai. Não há uma liberdade maior!» (31).
É esta constante dependência e referência a Deus uma das maiores realidades que aprendemos no seio da família. Antes de mais, somos de Deus: não nos pertencemos a nós próprios. Nisto reside uma das grandes missões da família: a paternidade humana é «imagem e transparência» de Deus Pai. Por isso mesmo, «negar Deus Pai e afastá-lo do coração e da vida das pessoas é o erro mais grave e insano que a sociedade de consumo ou qualquer ideologia pode cometer» (33). Aliás, é no seio deste acto de paternidade divina —e apenas nele — que podemos ter a oportunidade de falar de fraternidade humana. Efectivamente (como aliás o sublinharam o Papa Bento XVI e o Papa Francisco na sua encíclica Lumen Fidei), não há fraternidade sem paternidade; pelo que não há fraternidade universal sem um Pai comum e universal: Deus.
Desta relação com Deus, cada ser humano traz consigo, de acordo com Stefano Tardani, 4 sinais: o infinito que é cada um de nós, para si e para os outros (74); a liberdade (76) que nos dá a possibilidade e a responsabilidade de nos construirmos para o bem, mesmo que seja uma liberdade finita (ou seja: sempre uma liberdade em relação com a liberdade infinita de Deus); a consciência do existir (77) e, finalmente, a busca da felicidade (79). Como afirma o nosso autor: «os animais contentam-se, mas os seres humanos andam sempre à procura… do paraíso» (80).Com Deus, tudo muda no ser humano: «é precisamente encontrando Deus na oração que se transformam as nossas capacidades humanas, abrindo-se a Deus Pai e ao próximo» (94).

3. Família e crescimento do Reino
Assim, percebemos igualmente que «o humano não é algo inventado pelo homem» mas por Deus (115), e que «permanece um dom»:
Família, sexo, vida… não fomos nós que os inventámos, mas são uma criação de Deus, feita à Sua imagem e semelhança e da qual Deus é “cioso”, tendo-no-la entregue com extrema solicitude. Então, a primeira criação mais próxima de Deus é a família, formada pelo homem e pela mulher que se amam e pelo dom da vida que dela nasce. Só o amor compreende o amor (115).
Por isso, «o reino de Deus cresce através da família e através dos filhos» (116). O amor é sempre fecundo e cuida por si próprio da especificidade humana. Não espanta, pois, que o autor afirme: «a família é um dom de Deus que se há-de compreender, amar e cuidar» (117) e «amar é, de certo modo, entrar no Reino de Deus» (120).
E, citando S. João Paulo II, o autor afirma: «Na unidade dos dois, o homem e a mulher são chamados, desde o início, não só a existir um ao lado do outro ou juntos, mas também a existir reciprocamente um para o outro» (121).
Ou seja, «Não é verdade que, no casal, basta serem cúmplices»: é necessário que um sejam para o outro e que ambos se apresentem «inteiros», sem reservas, num amor que «engloba toda a […] vida que eles se doam como dom sincero e total de pessoa a pessoa» (126).

Também esta união é, assim, imagem de Deus. Com efeito, a imagem de Deus não há-de ser apenas encontrada em cada um dos membros do casal, mas no próprio casal — e aqui reside aquilo a que chamamos a dimensão espiritual da vida em matrimónio: Deus é o elemento comum que une homem e mulher que se amam.
É pois também a falta de Deus que mostra a fraqueza das relações pré-matrimoniais e da chamada «convivência»: «mais que uma preparação para o amor, tornam-se com muita frequência uma fuga do verdadeiro amor» (131), até porque «As coisas podem ser objecto de prova; a vida dos seres humanos não» (131).
Assim, acrescenta Stefano Tardani: «Não basta que se unam; eles devem amar o seu mistério: o mistério da “imagem” comum que os torna capazes de se amarem e o mistério de Cristo que os une» (132). E o Reino de Deus «tem início nas pessoas em quem reina a verdade, a liberdade, o amor, o bem. Manifesta-se, depois, no casal e na família, na medida em que é imagem de Deus, transparência do amor e do dom de pessoa para pessoa» (138). Dito doutro modo: «Como cresce e se difunde o Reino de Deus? Através do nosso crescimento» (139).
E este não pode ser um «crescimento virtual». Isso significa que não nos basta o uso e o domínio da técnica. Porque desligada das raízes humanas que se encontram em Deus, ela pode mesmo constituir uma «fuga perigosa da nossa mente humana» (143), em que caem não raras vezes os adolescentes do nosso tempo, até porque constitui um mundo mais «fascinante e verdadeiro», «mais fácil de construir com as suas fantasias, sem necessidade de Deus nem dos adultos» (143).
Também aqui, no crescimento de cada um dos seus membros, a família se mostra sumamente importante: ela é o «lugar do dom, o lugar da gratuidade e da participação livre, onde o amor deve crescer na humanidade dos filhos» (145). Por isso ela é importante, não apenas no seio da Igreja como também no seio do todo social — e por isso o próprio Estado não pode deixar de a ter em conta.
Aliás, podemos dizer que um Estado — como infelizmente acontece na maioria das nações ocidentais — deixa de exercer cabalmente as suas funções quando se esquece da realidade familiar e da vida que nela encontra o seu lugar mais excelente de crescimento, em favor da atenção a muitas outras realidades, eventualmente importantes, mas não centrais para a própria sociedade. Infelizmente, não podemos apenas falar de «esquecimento» mas da implementação de políticas que são mesmo contrárias à realidade familiar, e que facilmente sublinham a tendência que o próprio ser humano tem naturalmente para ser egoísta, angustiado, confuso, inerte ou (reagindo de modo oposto) arrogante.

4. O caminho do regresso
O impedimento do crescimento da nossa vida de acordo com o nosso ser e de acordo com a vontade divina não deriva obviamente apenas de políticas governamentais. Trata-se antes do reflexo bem alargado do pecado que contamina a nossa vontade e a nossa existência, que nos tolhe a própria liberdade.
Como afirma Stefano Tardani, «Deus quer fazer-nos voltar a Ele, que é Pai. Ele é o Bem Supremo do Amor, a nossa Pátria e o nosso futuro. Precisamente porque Deus é Amor, tal como de amor é o seu Reino, só há uma estrada para regressar: a do amor, isto é, da nossa vontade que retorna livre e amorosamente a Ele» (179).
Jesus volta a abrir-nos o Reino: «Jesus traz de volta à Terra a vontade do Pai e repõe-nos na direção justa, ou seja, “aquilo que é para Deus”, pois só isto é “verdadeiramente nosso” e ninguém no-lo pode arrebatar. Então podemos encontrar-nos em Deus como irmãos e construir um mundo mais justo para todos» (192).
Trata-se da petição do Pai Nosso «na Terra como no Céu». Ou, melhor dizendo, da nova relação entre Terra e Céu possibilitada por Jesus e expressa precisamente no como do Pai Nosso:
Começamos a compreender que o Pai Nosso não é uma oração como qualquer outra. É única e fenomenal: nela se encontram o “coração” de Deus, a explicação da nova relação Céu-Terra, realizada com a Páscoa de Jesus, e também a revelação da nossa identidade, do modo como viver sobre a Terra para podermos renovar as pessoas e a civilização. Podemos dizer que o Pai Nosso, a oração do Senhor, é a nova oração da vida nova. O amor de Deus, “derramado nos nossos corações”, faz com que possamos amar não só com o nosso amor humano, parcial, fraco, seja ele confuso ou entusiasta, mas com o próprio dom do Espírito Santo recebido no Batismo (205).
Deste modo, não é simplesmente a nossa vontade que realizamos, mas a do próprio Jesus: «Jesus ensina-nos a pedir para cumprir a Sua vontade, porque é Ele que a realiza em nós, mas também através de nós e das nossas obras» (206). Assim, fazer a vontade de Deus, encontra-se necessariamente relacionado com o dom do Amor (como dom do Espírito Santo), no qual a vida humana amadurece e o Reino de Deus se realiza e vem até nós. Dito de outro modo, numa feliz expressão do nosso autor:

Os cristãos constroem a cidade dos homens juntamente com os outros homens, mas com um “como” que é próprio de Deus e constrói o Reino de Deus. Este “como” cristão é a expressão da comunhão entre Deus e o homem: Deus dá, juntamente com a sua graça, a própria presença e ação, enquanto o homem traz de volta a Deus, com a novidade da sua contribuição, aquilo que é de Deus e que Deus lhe confiou na natureza e suas possibilidades, no universo e suas energias (226).
É este «como» que o próprio Jesus nos confia, e que o Espírito realiza em nós e connosco, pois que «o “como” de Deus não é uma norma externa, nem é formado por uma série de leis, mas é um modo de existir na verdade, na liberdade e no amor» (231). Ou, como afirma igualmente Tardani (231-232):

Há um “como” dos filhos de Deus no amor humano entre homem e mulher ao construir o casal e a família.
Há um “como” dos filhos de Deus ao conceber a vida de um ser humano, que não existe em mais nenhuma das possíveis concepções.
Há um “como” dos filhos de Deus no evitar a concepção com os métodos naturais, que não é com os meios contraceptivos.
Há um “como” dos filhos de Deus no mundo do trabalho, para contribuir para o desenvolvimento e o progresso humano.
Há um “como” dos filhos de Deus no divertimento: de facto, no divertimento do mundo, há um “como” que, em vez de refazer o homem no melhor das suas capacidades, o desagrega.
Há um “como” dos filhos de Deus no combater o mal.
Há um “como” dos filhos de Deus ao construir a cidade dos homens.
Há um “como” dos filhos de Deus, no uso da ciência e da técnica.
Há um “como” dos filhos de Deus ao levar a paz de Jesus: “Não é como a dá o mundo — diz Jesus —, que Eu vo-la dou”.
Há um “como” dos filhos de Deus ao viver e ao morrer.

5. O perdão de Deus 
«Para sermos pessoas e construirmos famílias e uma sociedade com dimensão humana, precisamos de sentir e viver a dimensão da misericórdia de Deus» — afirma Stefano Tardani. E acrescenta:
Quando Jesus nos ensina a pedir, no Pai Nosso, o perdão dos pecados, ajuda-nos a descobrir e a viver a dimensão da misericórdia nas pessoas, nas famílias, na sociedade e no mundo inteiro. Como sem o Pão de Deus se embrutece na vida, assim sem a misericórdia de Deus os seres humanos embrutecem o coração a ponto de se tornarem “duros de coração” (263).
E acrescenta: «A misericórdia é indispensável ao ser humano. A redenção não é apenas o resultado da justiça; mas realiza-se também com a misericórdia que permite, ao homem, encontrar a sua preciosa realidade de filho de Deus» (265).
A atitude de misericórdia é essencial aos nossos dias. Precisamos dela e precisamos de estar conscientes da sua necessidade — seres humanos, família, sociedade — porque ela apenas é capaz de ultrapassar a formalidade da justiça legal e restaurar as relações na verdade. Sem a misericórdia e o consequente perdão, o mundo fica abandonado ao seu mal (280).
A misericórdia — afirma Stefano Tardani — é feita de verdade, tal como é feita de justiça. Mas é feita também de uma superação da aplicação da justiça, porque reconhece um valor maior para além das limitações históricas ocasionais e transitórias: esta é a misericórdia que traz consigo o perdão e a reconciliação. O mundo não pode crescer na justiça e na paz sem misericórdia, porque o mundo não pode ser o fruto apenas de uma economia, de uma sabedoria matemática e de uma justiça legalista (280).
É que a misericórdia abre-nos ao dom: é a forma de viver de Jesus. Como afirma Tardani, «ou a pessoa vive na misericórdia e então é capaz de a acolher e oferecer, ou então está fechada, não a vive com ninguém, convencida, porém, que não a recebe de Deus» (288). É por isso que «perdoar é servir o irmão» (289).

6. As tentações do mundo contemporâneo
Deixai que, finalmente, elenque as sete tentações do mundo contemporâneo, apresentadas pelo autor como uma forma muito clara de concretização da oração cristã do Pai Nosso:
Em primeiro lugar, a tentação de viver como se Deus não existisse, seja na indiferença (Deus não seria importante para a vida), seja na irreligiosidade (é inútil o nosso diálogo com Deus), seja no ateísmo declarado. Não levamos Deus a sério.A segunda tentação é a do narcisista que se crê o centro do mundo, tão cheio que está de si mesmo e vazio que está de espírito.
Depois, o relativismo. Trata-se de julgar que não existe a verdade absoluta e, portanto, a afirmação da inexistência de uma ordem no seio das próprias verdades relativas, ao mesmo tempo que se dá uma «desconfiança na sabedoria de Deus, que guia o homem com a lei moral» (313). E, desse modo, o homem acha-se capaz de decidir acerca do absoluto, ou ignora a sua existência.
A quarta tentação «diz respeito ao homem que não quer dar ouvidos à Palavra de Deus e não acredita na vida eterna» (315).
Vem depois a tentação da superficialidade, alimentada pela preguiça e pela desconfiança (319) e aquela outra de escutar antes os falsos profetas, «pessoas que atraem e suscitam admiração» (320), para terminarmos o elenco com o desalento e a perplexidades humanas frente ao mal que parece sempre crescer perante uma aparente ausência e indiferença de Deus (321).
Deixai que termine usando de novo palavras de Stefano Tardani, desta vez na conclusão da sua obra: «Deus espera por nós na oração, como nos espera entre os homens. Vimos de Deus, Bem Supremo e Supremo Amor, sendo esta a nossa raiz mais profunda e também a nossa verdadeira meta. Só no âmbito deste horizonte, podemos permanecer humanos sem nos perdermos, porque perfeitamente inseridos na nossa realidade» (425).

+ Nuno, Bispo Auxiliar de Lisboa

1) J. RATZINGER, Jesus de Nazaré I, Milano, Rizzoli, 2007, 162.
2) J. RATZINGER, Jesus de Nazaré I,162-163.
3) G. D’ERCOLE, «Prefácio», Stefano Tardani, Filhos de... quem?, Lisboa, Paulus, 2014, 8.


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