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Homilia de D. Manuel Clemente na ordenação de D. José Traquina
01 de Junho de 2014
Homilia de D. Manuel Clemente na ordenação de D. José Traquina

Ascensão do Senhor, promessa da ascensão do mundo 


Celebramos hoje a ascensão do Senhor, ascendendo também ao mais elevado de nós próprios, das nossas aspirações e anseios. Se há apelo íntimo e inextinguível que nos define como humanos, nos materializa como civilização e nos anima como cultura, é aí mesmo que reside, nessa incontida vontade de sermos mais e melhor.

A ela devemos o melhor do que está feito e o melhor que apresentamos. A ela, essa vontade de “subir na vida”, podemos atribuir, pelo contrário, o pior do que acontece no mundo, quando se degrada e isola em materialismo egoísta, tanto particular como coletivo.


Como tudo o que é criatural e humano, precisa de ser completada e redimida: de vontade de subir na vida, precisa de transformar-se em aspiração a uma vida mais subida, como em Cristo aconteceu e no seu Espírito nos é possibilitado.

Vida de caridade perfeita, que só o Espírito infunde nos nossos corações (cf. Rm 5, 5), pois se trata da solidariedade levada ao ponto em que Cristo a viveu e derramou. Desta que precisamos agora, desta que precisaremos sempre, rumo àquela coesão social que tanto urge e que a comunhão eclesial há de assinalar, como que sacramento dela (cf. Lumen Gentium, 1).


Vida subida em Cristo, que o seu Espírito nos proporciona, em conversão permanente de critérios e escolhas. Assim aconteceu com os primeiros e assim acontecerá connosco, quando escolhermos ser dos últimos, tomando para aqui o que também foi dito: «há últimos que serão dos primeiros» (Lc 13, 30). Basta de grandezas não convertidas, ostentações vazias e contrafações completas da ascensão verdadeira. Como discípulos de Cristo, o nosso critério é outro, e apenas este, que lhe ouviremos sempre: «Quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo» (Mt 20, 27). E ainda: «O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado» (Mt 23, 11-12).


É esta a ascensão que celebramos hoje, atingido cume e fonte inesgotável daquele Reino de que a cruz foi o trono e em que os espinhos floriram em magnífica coroa.

Reino que os primeiros discípulos também esperavam e a presença do Ressuscitado lhes parecia garantir, instantâneo e súbito, grandioso e imperativo. Ouvimo-los, há pouco: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?». Mas a resposta converteu-lhes as expectativas em missão: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra».


Assim na primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos. Mudando de lugar para acrescentar significados, o Evangelho coloca os discípulos na Galileia, onde tinham começado há uns três anos, para recomeçarem agora, para toda a terra e para o tempo todo: «Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei». Numa companhia garantida: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

Assim hoje e aqui com todos nós, caríssimos irmãos e irmãs; e assim particularmente contigo, caríssimo D. José Traquina, que o mesmo Espírito agregará de seguida à sucessão apostólica daqueles onze: Não saberás tu, nem saberemos nós, o que só a Deus compete, princípio e fim de tudo e de todos... Mas saberás o quê e saberás com quem. Saberás do Reino, no acontecer eclesial de cada dia, que também por ti e tão centralmente sucederá. Saberás com quem, na intimidade de Cristo que tudo garante, aprofunda e alarga.


Sabemos o que seja o Reino de Deus, apresentado em Cristo, como pleno cumprimento da vontade do Pai. Sabemos o seu enunciado, na oração do Pai Nosso: pão que seja de todos e plenamente satisfaça, reconciliação universal e no coração de cada um, libertação do mal e dos mais profundos cativeiros da alma.

Em Jesus e em torno de Jesus tal começara, de modo ativo e não ostensivo, como igualmente o dizia: «O Reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Ninguém poderá afirmar: “Ei-lo aqui” ou “ei-lo ali”, pois o Reino de Deus já está entre vós» (Lc 17, 20-21). «Entre» ou «no meio» de nós, assim é o Reino, em Jesus começado e pelo seu Espírito alargado, século após século, terra após terra, através da Igreja, seu corpo ativo para bem do mundo. Sim, da Igreja que a Carta aos Efésios nos apresentou como «Corpo [de Cristo], a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos».


Como bispo da Igreja e a trabalhar no Patriarcado, inseres-te a novo título na caminhada sinodal que, até ao fim de 2016, todos empreenderemos para localizar também aqui o claríssimo desígnio do nosso Papa Francisco, tão sugestivamente enunciado como «o sonho missionário de chegar a todos» (Evangelii Gaudium, 31).

À maneira de Cristo e unicamente no seu Espírito, trata-se de reproduzir em cada comunidade cristã o seu caminho de imanência ascendente, como aquela semente lançada à terra, que daí mesmo florescerá por fim. Nos mais pequenos gestos, nas presenças mais concretas e tantas vezes mais sofridas do acontecer da vida de toda a gente, com especial atenção aos mais pobres de todas as pobrezas, aí mesmo encontrará cada discípulo de Cristo e cada comunidade o indispensável campo da sua ação e compromisso.   


É sempre de ascensão que se trata, mas no significado autêntico do percurso de Cristo, da incarnação à glória, trilhado agora pelo seu corpo eclesial e ao serviço da verdadeira ascensão do mundo. Cabendo muito bem aqui o ensinamento conciliar: Lembra-nos que, como discípulos de Cristo, «também nós devemos levar a cruz que a carne e o mundo impõem aos ombros dos que buscam a paz e a justiça». E que, levando o seu Espírito, sobremaneira a alguns, «a dar um testemunho manifesto do desejo da morada celeste e a mantê-lo vivo na família humana», também chama prementemente «ao serviço terreno dos homens, preparando com esta atividade a matéria do reino dos céus». É no mundo e bem no mundo que o Reino se inicia a partir de Cristo e na difusão do Espírito, libertando os que impele «para que, renunciando ao amor próprio e reunindo todas as energias terrestres em favor da vida humana, se lancem para as realidades futuras, em que a própria humanidade se tornará uma oferenda agradável a Deus» (Gaudium et Spes, 38).

Caríssimo D. José Traquina: É este roteiro de ascensão autêntica que tens seguido, num caminho cristão e sacerdotal agora confirmado pelo nosso Papa Francisco. Assim prosseguirás, como sucessor dos Apóstolos, ajudando-nos a todos no percurso sinodal que estamos a começar. Não te faltará o alento divino e a presença da Mãe de Cristo, primeira seguidora do seu Filho e solícita Rainha dos Apóstolos.


Santa Maria de Belém, 1 de junho de 2014

+ Manuel Clemente


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