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17 de Abril de 2014

Tríduo Pascal - Homilia de D. Manuel Clemente na Missa da Ceia do Senhor

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  Foto: Patriarcado de Lisboa  

MISSA DA CEIA DO SENHOR 2014

O que sucedeu então e nos pertence agora…


Caríssimos irmãos

Disse-nos o Evangelho que Jesus, «sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura…».


Pois bem, se queremos entender algo do que sucedeu então, para entendermos também o que nos pertence agora, havemos de assimilar profundamente estas curtas frases que manifestam o essencial da vida de Cristo, do Pai para nós e com todos para o Pai, eucaristicamente falando.


Estamos na Ceia do Senhor: “última” ceia, porque não haverá outra nenhuma, sendo esta maior do que o tempo todo. Como recomendava Teresa de Calcutá aos sacerdotes: «Celebra esta Missa como se fosse a primeira; celebra esta Missa como se fosse a última; celebra esta Missa como se fosse a única».


Quando o conseguirmos assim, também nós nos realizaremos completamente, isto é, eucaristicamente. Como Deus sempre quer e o mundo aguarda há muito, esperando como em dores de parto a manifestação dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 19.22), dos que com Jesus se retribuem inteiramente ao Pai, em plena ação de graças. Ação de graças, que só daremos em Cristo, participando na sua caridade, em que leva ao Pai os irmãos que do Pai recebeu, ou seja, nós todos.


Caríssimos irmãos, é isto o que mais importa, agora como sempre. E compreender significa participar, experimentar, reviver em si mesmo, de corpo e alma, o que Cristo viveu e nos proporciona viver também.


É tempo e mais que tempo de compreendermos, de facto e de vez, que participar da Eucaristia e legitimamente comungá-la não é coisa que se faça episodicamente, ou com sentimentos vagos de comunhão sem compromisso. É certo que há um caminho a percorrer e, como lembra o Papa Francisco, «a Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos» (Evangelii Gaudium, 47). Mas comungam-se eucaristicamente as sagradas espécies quando assim mesmo se vive, basicamente vive e crescentemente realiza.


Voltemos então ao trecho evangélico, e ponto por ponto. Diz saber Jesus que saíra de Deus e para Deus voltava. Nele por geração eterna, em nós por adoção batismal, é o que mais importa saber e viver. Não há momento em que Jesus não se determine pela saída e o regresso ao Pai, na circularidade completa duma vida em retorno, com obediência prática e ação de graças perfeita.


Mesmo nessa noite, quando pedir ao Pai que lhe afaste, se possível, o cálice de todas as amarguras, concluirá com a frase inteira que lhe resume o ser: «Faça-se a tua vontade, não a minha». Vontade divina de nos buscar a todos onde ali jazíamos, tão longe de Deus mas não do seu amor, que nos retoma em Cristo.


Por isso Cristo irá até ao fim, religando o homem ao Deus que esquecêramos. É esta a sua Eucaristia, vida devolvida no altar da cruz. Jesus sabia-o e ainda mais o fez, abrindo-nos um caminho estreito até às mãos do Pai. Agora sabemos que as mãos que nos criaram nos acolherão por fim. Finalmente, eucaristicamente.


Voltando ao Evangelho escutado, Jesus tirou o manto, tomou uma toalha e pô-la à cintura, para lavar e enxugar os pés dos discípulos. – Queremos, também nós, prosseguir deste modo? Tirou o manto e cingiu a toalha, resumo simbólico duma vida toda, deixando a veste de senhor para tomar a de servo, e servo ajoelhado, a lavar os pés dos circunstantes…


Não admira que Pedro resistisse, vendo o seu mestre a agir dessa maneira, e em tal contraste com a nossa habitual pretensão e costume. No entanto, não há outro modo eucarístico de ser e proceder, senão este de Cristo, que não se serve de ninguém, antes serve a todos.


Reconheçamos e confessemos, nesta hora alcançada, que a Eucaristia tem a exigência da entrega de Cristo, ao Pai e a todos por amor do Pai, como alimento de cada fome e partilha de todas as vidas. Reconheçamo-lo particularmente agora, quando precisamos de reinventar, mais do que prolongar apenas, uma sociedade que realmente o seja, isto é, um mundo solidário de companheiros do mesmo “pão” partilhado. Nas famílias, nas escolas, nas empresas, em todas as concretizações da nossa vida conjunta, só assim deveremos estar, pois não haverá futuro a não ser de todos para todos.


Assim mesmo e só assim: depondo mantos e cingindo toalhas, devolvendo-nos aos outros em quem Deus nos espera, irrecusavelmente espera. E, na própria Igreja, sejamos do mesmo modo, pois nela não há mais, legitimamente mais, senão serviço concreto e permanente lava-pés de humildade prestante. Assim comungaremos, de direito e de facto, ativando em nós, e por nós, a Eucaristia do mundo.

Se aprendemos algo com a história vivida, é que nenhuma mudança responde pelo geral, se não começa pelo particular. Como fermento na massa, na consideração evangélica das coisas. A Eucaristia do mundo estava ali iniciada, naquele pão concreto que Jesus abençoava e fazia sinal do seu corpo entregue – sinal verdadeiro e indispensável, como depois o vinho, para o sangue derramado.


Assim acontecera um dia, para matar a fome a muitos, sem dispensar os poucos pães que entretanto lhe deram, mas assinalando já a sua própria entrega, como definitivo pão da vida. O episódio começara por aí, pelos cinco pães de cevada e dois peixes que um rapazito trouxera. Mas foi a eles que Jesus tomou, para dar graças e iniciar uma distribuição sem fim, que todos comeram quanto quiseram (Jo 6, 9-11), e nós continuamos a comer, no sentido pleno que a seguir lhe deu: «Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que eu hei de dar é a minha carne pela vida do mundo» (Jo 6, 51)


É nesta ordem de ideias – mas, ainda mais, de sentimentos e práticas coerentes – que a Liturgia Eucarística refere na apresentação dos dons o pão, que é fruto da terra e do trabalho do homem e se tornará Pão da vida; e depois o vinho, que se tornará Vinho da salvação. Não ultrapassemos o enunciado, nem teológica nem praticamente. A Eucaristia de Cristo começa na sua incarnação e alarga-se ao mundo por idêntica entrega da terra ao céu, que necessariamente se faz através de cada um de nós. Comunga quem vive em comunhão – e para comungar cada vez mais inteiramente na entrega de Cristo ao Pai e por todos, de Deus para todos.       


Começou ali e então, continuando em nós, onde estamos agora. Como há vinte e cinco anos aconteceu em Lisboa. Agradeco do coração a presença e a ação da Comunidade Vida e Paz na nossa diocese e além dela. Desde que a Irmã Maria Gonçalves e os primeiros colaboradores a iniciaram, até aos que hoje com tanta generosidade a continuam, tem sido constante, diária e generosa a sua presença junto dos sem-abrigo, proporcionando-lhes o apoio imediato e uma vida reencontrada, acompanhada e digna.


De seguida, lavarei os pés a alguns deles; mas é somente um sinal do que na Comunidade Vida e Paz acontece cada dia. Agradeço-lhe profundamente a possibilidade de assim reforçar o sentido autêntico desta Missa da Ceia do Senhor. O gesto vale o que vale, a ação vale sobretudo.


 E o realismo eucarístico do que a Comunidade faz nos confirme agora na verdade de Cristo.


+ Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa

17 de abril de 2014


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