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17 de Abril de 2014

Semana Santa - Homilia de D. Manuel Clemente na Missa Crismal

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  Foto: Patriarcado de Lisboa  

MISSA CRISMAL 2014

«Uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão» (Papa Francisco)


Caríssimos irmãos, tão plenamente reunidos nesta Missa Crismal:

Na oração coleta de há pouco, pedimos a Deus que, participando na consagração de Cristo, sejamos testemunhas do seu Evangelho. Petição que nos revela, a todos os batizados, uma condição essencial, que é também a nossa destinação irrecusável. Participamos da consagração de Cristo, oferecidos com Ele inteiramente ao Pai. Somos sagrados e consagrados pelo batismo recebido e, sendo o caso de tantos aqui, pelas ordens sacras também. Não são atos exteriores ou meramente formais, são momentos de graça para a vida toda, dando-lhe devoção e obrigação. E a obrigação é sobretudo uma, não forçada mas forçosa, a de alargarmos no mundo o Reino de Deus, levando a toda a parte o Evangelho de Cristo.


A consagração cristã é a de Cristo em nós, assim destinados à glorificação de Deus. Glória de Deus que é o homem vivo, manifestando o seu poder criador; glorificação de Deus, respeitando a sua obra pela salvaguarda de quanto criou e cria, e muito especialmente de cada ser humano. Para que tudo aconteça de Deus para Deus, na vida da humanidade e do mundo, sem se perder num caminho irrecusavelmente entregue à nossa responsabilidade. Nisto mesmo nos insere a todos a consagração batismal, na dimensão mais ampla do sacerdócio comum dos fiéis; a tudo isto nos destinamos também, os que recebemos a consagração sacerdotal de Cristo, no sentido ministerial do termo e em benefício geral do Povo de Deus. Seja dum modo, seja doutro, é a Deus que pertencemos, é na sua obra que estamos e queremos estar, porque o Pai trabalha sempre e Cristo igualmente o faz (cf. Jo 5, 17) - e assim nós com Ele, por Ele e n’Ele.  


Ganha aqui todo o sentido a Missa Crismal que celebramos. Na Palavra que ouvimos, nos óleos que benzemos, no Pão que comungamos, no envio final em que saímos, tudo é consagração a Deus para a evangelização do mundo. Somos de Deus quando Lhe recuperamos a semelhança, coincidindo com os sentimentos do Pai, que todos se resumem na salvação do mundo. Continua em nós a revelação disto mesmo: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16).


Comprová-lo hoje e nas difíceis circunstâncias atuais, é obrigação e há de ser devoção de cada um de nós: dos que no batismo recebemos o Espírito filial de Cristo; e dos que o Espírito constituiu, pela ordenação, sinais vivos e operantes de Cristo Sacerdote e Pastor.


Na Diocese de Lisboa, tais disposições e propósitos têm um significado concreto e programático até ao final de 2016. Refiro-me ao caminho conjunto de oração, reflexão e ensaio que nos levará ao Sínodo do final desse ano, quando se comemorarem os três séculos da nossa qualificação “patriarcal”. Qualificação que o Papa Clemente XI justificava pelo empenho na propagação da fé. Empenho régio, como fora então; empenho de todos, como há de ser agora.


Corresponderemos deste modo à determinação insistente do Papa Francisco, que a exortação apostólica Evangelii Gaudium expressa com tanta clareza e encargo, em frases como as seguintes: «Sublinho que, aquilo que pretendo deixar expresso aqui, possui um significado programático e tem consequências importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma “simples administração”. Constituamo-nos em “estado permanente de missão”, em todas as regiões da terra» (EG, 25). E ainda: «Na sua missão de promover uma comunhão dinâmica, aberta e missionária, [o bispo] deverá estimular e procurar o amadurecimento dos órgãos de participação propostos pelo Código de Direito Canónico e de outras formas de diálogo pastoral […]. Mas o objetivo destes processos participativos não há de ser principalmente a organização eclesial, mas o sonho missionário de chegar a todos» (EG, 31). Ora, o primeiro “órgão de participação” que o Papa refere em nota é precisamente o Sínodo diocesano, como nós nos dispomos a cumprir, depois da aprovação unânime e até entusiástica do Conselho Presbiteral, em janeiro passado.      


  O Sínodo reunir-se-á, querendo Deus, no final de 2016. Terá a composição prevista no Código e dele sairão indicações para reforçar o empenho missionário de toda a vida diocesana, no sentido que a “missão” ganhou nos últimos tempos, mais sociocultural do que geográfico. E, como cada assembleia do Sínodo dos Bispos é preparada por Lineamenta, que são antes estudados pelos seus membros e dioceses, e depois por um Instrumentum laboris que, concentrando a reflexão feita, é a base próxima dos trabalhos sinodais propriamente ditos, também o nosso sínodo será precedido pela reflexão das comunidades cristãs da diocese, durante os dois próximos anos pastorais, tendo por base e como que lineamenta o próprio texto da exortação apostólica do Papa Francisco. Trimestre a trimestre e capítulo a capítulo, assim se fará do Outono deste ano até à Páscoa de 2016.     


  A reflexão será acompanhada pela oração intensa e o reforço ou ensaio de modos e meios de projeção missionária de cada comunidade – paróquias, institutos, famílias e todas as formas agregativas da vida cristã -, local a local, ambiente a ambiente, processo a processo. Certamente apoiados pela comissão preparatória e outras instâncias diocesanas, todos procuraremos a melhor maneira de concretizar o sonho do Papa Francisco, que assim corresponde à leitura dos “sinais dos tempos”; leitura que o Concílio indicou como necessária e as atuais mutações tanto requerem. Com tudo o que formos acrescentando nesse sentido, a comissão preparatória poderá depois elaborar como que um instrumentum laboris, sobre o qual trabalharão os membros do sínodo diocesano.


É disto que fundamentalmente se trata e assim basicamente faremos nos próximos anos pastorais, a partir de cada meio e local. Não tanto da diocese para as comunidades, mas sobretudo destas para o todo, que se há de apurar depois. E não encontraremos melhor inspiração para a caminhada sinodal que começamos do que estas palavras do já saudoso Cardeal Policarpo, que continua bem presente na nossa memória agradecida. Escreveu ele, o constante perscrutador de “sinais”: «Por mais exigente que seja esta pastoral de encarnação, temos de continuar a incentivá-la. A formação dos cristãos, sobretudo dos jovens, tem de criar neles esta atenção amorosa à realidade dos homens, onde são chamados a ser testemunhas. Sem esta atenção e esta paixão pela realidade concreta da vida dos homens, a leitura dos “sinais dos tempos” não passará de um exercício cultural. Só a fé e o amor geram a intuição profética» (D. José da Cruz Policarpo, Obras Escolhidas, vol. 1, p. 434).


Ouvimos no Evangelho que, naquele dia, «estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga». Fácil é de verificar, na presente “crise”, como algo de semelhante acontece agora, em relação à Igreja e aos cristãos, cada cristão, ordenado, consagrado ou leigo, desde que conhecido como tal. Crentes e não crentes, olham-nos com expectativa e exigem-nos redobrada coerência de ideias e comportamentos. Não podemos defraudá-los, especialmente aos pobres de todas as pobrezas, as que sobram de ontem e as que aparecem agora.


Ouvimos Jesus, a apresentar-se como o “ungido” – que no grego dos Evangelhos é “Cristo” – para «anunciar a boa nova aos pobres». Em Missa Crismal, reforcemos a convicção de que, por unção batismal e sacerdotal, não nos apresentamos para outra coisa se não esta mesma e tão urgente. Lembra-o o Papa Francisco, em palavras fortes: «Embora se possa dizer, em geral, que a vocação e a missão próprias dos féis leigos é a transformação das diversas realidades terrenas, para que toda a atividade humana seja transformada pelo Evangelho, ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social» (EG, 201).


Verifico, várias vezes por conhecimento direto, que há leigos bem presentes nas várias realidades sociais afetadas pela crise e que, por palavras e atitudes práticas, procuram realmente a transformação evangélica das coisas, impregnando-as de solidariedade e justiça. No legítimo pluralismo de opções e métodos que inteiramente lhes cabe, não esquecem o objetivo essencial que o Papa recorda. Igualmente verifico que, quer pela exortação dos seus pastores, quer pela ação de instituições sociocaritativas de incidência vária, as comunidades cristãs se têm redobrado nas respostas que dão às necessidades sociais acrescidas.


Por tudo dou graças e por eles peço a Deus, que os inspire e reforce. Nenhum de nós deixará cair os braços ou fechará o coração ao clamor dos pobres. Pelo contrário, levaremos muito a sério a centralidade dos pobres na vida e na ação da Igreja, que para eles diretamente existe. Como não sentir e assumir profundamente as palavras que brotaram do grande coração do nosso Papa Francisco: «Desejo uma Igreja pobre e para os pobres. […] A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas e a colocá-los no centro do caminho da Igreja» (EG, 198).         


Quando se fala assim de pobreza, não só no sentido de carências a colmatar com prontidão, mas também como verdade de cada um de nós, que não subsiste sem Deus e sem os outros, transitamos para a verdadeira chave da questão, que o Papa Francisco identifica como “antropológica”, ou seja, respeitante ao que é o ser humano e como há de ser reconhecido, salvaguardado e promovido. Por isso escreve na sua exortação que «a crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano» (EG, 55).


Também o têm dito os Bispos de Portugal, em sucessivos pronunciamentos, que importa receber e cumprir. Insistem no valor da família, que há de ser defendida na grande potencialidade social que realmente contém. Na verdade, os valores da solidariedade espontânea, da transmissão da vida, do mútuo cuidado de mais novos e mais velhos, encontram no ambiente familiar tanto a melhor base como a melhor escola, bem como o comprovado reduto, em tantos casos: «A família é o modelo, o dever ser de qualquer convivência humana», afirmam os Bispos, requerendo para ela um apoio social e político logicamente prioritário (cf. Conferência Episcopal Portuguesa, Nota Pastoral – A força da família em tempos de crise, 11 de abril de 2013. Cf. Carta Pastoral – A propósito da ideologia do género, 14 de novembro de 2014).


É também sobre essa solidariedade aprendida e alargada, da família à sociedade, que, entendem os Bispos, pode e deve ser encarada a gravíssima problemática do trabalho e da sua falta. Problemática que todos somos chamados a resolver, com a inadiável responsabilidade de cada um, do Estado às empresas e a todos os parceiros sociais, uma vez que «estão em causa um direito humano e um aspeto fundamental do bem comum, que requerem uma maior sensibilidade social e mais fortes laços de solidariedade, que levam à corresponsabilização pelos que estão em piores condições» (Conferência Episcopal Portuguesa, Mensagem – Desafios éticos do trabalho humano, 14 de novembro de 2014).        


Nisto estamos e havemos de estar, irmãos e irmãs, com a máxima urgência e empenho. Espero mesmo que a caminhada sinodal que encetamos - refletindo, rezando e ensaiando algo de inovador, para corresponder aos desafios e perplexidades que a atualidade nos apresenta - contribua também nesse sentido da família mais possibilitada e do trabalho mais distribuído. Não será a primeira vez, se as comunidades cristãs se tornarem verdadeiros “laboratórios” daquela humanidade nova que começou em Cristo, para glória de Deus e felicidade de todos.  


Finalmente, antecipo já o que vos pedirei de seguida, caríssimos diocesanos, nesta Missa Crismal: «Rezai pelos vossos presbíteros, para que o Senhor derrame abundantemente sobre eles as suas bênçãos, a fim de que sejam ministros fiéis de Cristo Sumo Sacerdote e vos conduzam a Ele, única fonte de salvação».  


Sendo verdade que depende da oração o número bastante de servidores da messe, não é menos verdade que também depende da vossa oração a qualidade requerida, com que os atuais levaremos o nosso ministério. Rezai, rezai muito pelos vossos sacerdotes, pois só na oração se acrescenta aquela graça que transforma criaturas frágeis em sacramentos vivos de Cristo Sacerdote e Pastor.



Sé de Lisboa, Missa Crismal, 17 de abril de 2014

+ Manuel Clemente


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