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Homilia de D. Manuel Clemente no Encerramento do Ano da Fé, em Peniche
24 de Novembro de 2013
Homilia de D. Manuel Clemente no Encerramento do Ano da Fé, em Peniche

A fé em Cristo na caridade do seu reino



Reunimo-nos aqui, caríssimos irmãos, para concluir o Ano da Fé. E fazemo-lo neste santuário de Nossa Senhora dos Remédios, porque é em lugar mariano que melhor celebraremos a fé de todos, que antes de mais foi a d’Ela. Sim, a fé com que aderiu inteiramente ao propósito divino de vir a este mundo e viver entre nós. Como em Jesus Cristo, o Filho de Maria, finalmente aconteceu.

- E que importante é esta primeira alusão! Da anunciação do anjo à hora da cruz, é com Maria que vivemos a fé, com ela aprendida. Com Maria, recebemos o Cristo que Deus Pai nos oferece; com Maria, crescemos em Cristo, guardando no coração as palavras com que Ele mesmo se revela, mais e mais; com Maria, permanecemos ao pé da cruz, onde Ele nos dá a sua vida e partilha connosco a sua mãe.

Por isso estamos aqui, provindos de tantos lugares do nosso Patriarcado, para com Maria nos salvarmos na cruz do seu Filho. E assim mesmo compreenderemos como a Igreja tem em Maria o seu resumo e imagem, pois se trata de repercutir nas nossas vidas pessoais e comunitárias os sentimentos com que Ela recebeu, seguiu e assinalou a vinda de Cristo ao mundo.

Presença de Cristo que inaugura o Reino. Os nossos antepassados do Antigo Testamento, guardavam a memória do rei David, que representara quase tudo o que Israel tivera de grande entre os povos. Os profetas divisaram depois um novo Reino, ainda maior na dimensão e nos propósitos, concentrado num “Filho de David”, como o próprio Jesus seria anunciado e aclamado.

Mas, em Jesus, se há continuidade e resposta em relação às melhores expectativas humanas, há sempre novidade no modo desse mesmo acontecer. Porque, em Jesus, Deus não se limita a responder-nos no sentido curto do que imediatamente nos conviria. Em Jesus, Deus dá-nos respostas definitivas, a que só poderemos aceder se nos dispusermos a viver definitivamente a vida. Na cruz, a entrega divina é total. Ao pé da cruz, a adesão de Maria é completa, representando já a da Igreja toda – o que a nossa há de ser, como verdadeira obra da fé.


Caríssimos irmãos, eu creio e quero crer que tudo quanto aconteceu nas nossas vidas e comunidades ao longo do Ano da Fé, hoje concluído, serviu de facto para nos convencer ainda mais de que, enquanto cristãos, só podemos ser assim, definitivos e totais no acolhimento e seguimento de Cristo. Cristo nas Escrituras, sempre ouvidas e lembradas. Cristo nos sacramentos, outros tantos sinais da sua entrega e companhia, pedindo-nos coerência e progresso na comunhão com Ele. Cristo nos irmãos, em que clama pela nossa atenção e serviço, para afinal nos retribuir a cem por um.

Isto mesmo creio e espero, como fruto dum Ano da Fé traduzido em caridade. Porque a nossa fé não tem nada de imaginário ou abstrato, antes se focaliza inteiramente na vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, o Filho de Maria e nosso Cristo. E, assim focalizada, não tira os olhos de quanto aconteceu do presépio à cruz, aí mesmo apercebendo os primeiros fulgores da ressurreição garantida. E, se assim nos fixamos, também assim o experimentamos, verificando como o Espírito vai reproduzindo em nós a vida, morte e ressurreição do mesmo Cristo.

- Pois não é espantoso, irmãos, sabermos e reconhecermos que, em todos e cada um dos que aqui viemos, a vida de Cristo se prolonga no mundo?! – E que assim mesmo se alarga aquele Reino e convivência nova em que tudo em nós ganha e realiza a caridade, que outra coisa não é – mas isso mesmo há de ser! – do que o amor com que Cristo nos amou?!

Aqui estamos, pois, e graças a Deus, com Maria ao pé da cruz. Aqui começa o Reino anunciado, porque, acontecendo no coração do mundo, só poderia ser onde o coração humano mais sofre e mais ama. Nada nos é oferecido em Cristo, senão na cruz do mundo, em que inteiramente se entrega. É por isso também que a nossa fé nada tem de alienante, pois, longe de nos alhear do drama e das dores da condição humana, nesta mesma nos faz encontrar a Deus, que exatamente aí nos espera, em Cristo crucificado, e donde Cristo ressuscita.

Por isso São Paulo podia resumir assim a sua pregação, escrevendo aos coríntios: «Julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este crucificado» (1 Cor 2, 2). E isso dizia, por experimentar vivamente o amor com que Cristo o salvara, como que fazendo dos dois uma só vida. São de fogo estas palavras de Paulo aos gálatas: «Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gl 2, 19-20).

Amados irmãos, importa saber, importa reter, que a fé cristã é um compromisso total com a cruz do mundo, em que Cristo nos espera. Aí mesmo experimentaremos – quando nos abeirarmos de todas as dores e expetativas dos outros – a presença de Cristo, que tão solidariamente nos salva. Aí e só aí se repetirá o diálogo que ouvimos no Evangelho; sendo agora Cristo e nós, cada um de nós, os protagonistas: «E acrescentou [um dos que foram crucificados com Jesus]: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com a tua realeza”. Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”».

Compreendemos pois que, concluindo o Ano da Fé, o nosso programa diocesano seja agora “atuá-la pela caridade”. Direi até que, com este ou outro lema, nesta ou noutra oportunidade, sempre teria de ser assim, para ser autenticamente cristão. E nunca nos faltam ocasiões para crescer na fé, atuando a caridade.                  

Olhe cada um para si, para a família, para os outros, na cruz que aí permanece e onde Cristo nos espera. Como Teresa de Calcutá, que, duma multidão compacta, que enchia uma imensa gare, ouviu um dia o clamor de Cristo na cruz: «Tenho sede! “. E nunca mais deixou de ouvi-lo… É nesta sede compartilhada que também nos dessedentaremos a nós.


Durante o Ano da Fé, repetimos com consciência renovada as frases dum Credo que resume tudo o que aprendemos de Cristo. Sobre o Pai, magnificamente revelado na misericórdia com que aguarda e refaz todos os pródigos, que somos nós. Sobre o próprio Cristo, verdadeiro irmão mais velho, que – ao contrário do da parábola – partilha inteiramente da misericórdia do Pai e nos vem buscar aonde estamos e mal estamos, para nos levar à casa paterna. Sobre o Espírito, em que nos envolve no amor que partilha com o Pai. Sobre a Igreja, que somos nós todos, na comunhão com Ele, para glória de Deus e salvação do mundo. Sobre a vida eterna, outro nome da caridade que o seu Espírito infunde nos nossos corações e não acabará jamais.

 Quando cada um destes artigos articula de facto o nosso ser, em contemplação e ação, estamos deveras no seu Reino e alargamo-lo diariamente neste mundo que, sendo nosso, há de ser finalmente o seu. Finalmente de Cristo, único modo de ser de todos, na caridade, na justiça e na paz.

Ainda na cruz que nos cabe, voltemo-nos para Ele na sua, como fez o bom ladrão. E as duas serão uma só, pois por todos se entrega e a todos oferece a sua vida, como aconteceu naquele dia derradeiro: ao bom ladrão ofereceu o paraíso, ao discípulo amado a sua mãe, a todos a própria vida, no sangue e na água que lhe brotaram do inextinguível coração.

Uma última coisa vos quero dizer, caríssimos irmãos, e especialmente operativa, programática quase: Quando professamos o Credo, há um momento central em que quase nos detemos, sempre inclinamos – e até genufletimos, no Natal e na Anunciação: é quando lembramos que Jesus Cristo, Filho de Deus, «encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem».

Tiremos daqui toda a consequência contemplativa e prática, pois assim mesmo e só assim cresce o Reino de Cristo no mundo. Incarnação significou para Cristo fazer sua a natureza humana, no que esta tem de promessa e igualmente de carência, contradição e até miséria. E aí mesmo estar connosco, estar com todos, com aquela proximidade absoluta que só Deus pode ter, como Criador que absolutamente nos conhece e como Salvador que inteiramente nos redime.

Pois bem: se já vivemos da sua misericórdia, sejamos também sinais ativos dela, junto de todas as necessidades do próximo, único modo de sermos concidadãos e testemunhas do seu Reino. Isso mesmo lembra outro passo evangélico, falando o próprio Cristo: «Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me de vestir, adoeci e visitastes.me, estive na prisão e fostes ter comigo» (Mt 25, 34-36).

E não nos pareça grande demais o enunciado, pois se trata dum único sentimento, repercutido nos diferentes campos em que a nossa vida se desdobra, em relação indispensável com os outros. Trata-se sempre da caridade de Cristo, única naturalidade do seu Reino, a alargar no mundo pelos que queiram ser realmente seus.

Deste Reino somos e queremos ser. Por isso aqui estamos e assim daqui partimos, para os compromissos diários da nossa fé, que sempre atua pela caridade, e apenas nesta se credibiliza e demonstra (cf. Tg 2, 18).

Connosco temos a Mãe de Cristo, que diante de todas as carências, nossas e alheias, nos repetirá o que disse nas bodas de Caná: «Fazei o que Ele vos disser!» (Jo 2, 5). Assim fez sobretudo Ela, e agora reina com Cristo, no coração de Deus e do mundo. Assim nos ensinará a fazer, para que o Reino de Cristo seja a imbatível esperança de nós todos!


+ Manuel Clemente

Nossa Senhora dos Remédios (Peniche), 24 de novembro de 2013, solenidade de Cristo Rei e encerramento do Ano da Fé.


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