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02 de Março de 2013

Terceira Catequese Quaresmal: "A Fé da Igreja" (com vídeo)

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Catequese do 3º Domingo da Quaresma
de D. José Policarpo, lida por D. Joaquim Mendes, Bispo Auxiliar de Lisboa.

Sé Patriarcal, 2 de Março de 2013

  Foto: Patriarcado de Lisboa  

1. Os crentes católicos ao proclamar a sua fé fazem-no confessando a Fé da Igreja. Numa das fórmulas de confissão da fé, sob a forma de pergunta e resposta, utilizada por exemplo na administração do Sacramento da Confirmação, o ministro sagrado que preside remata, assim, o diálogo: “Esta é a nossa fé. Esta é a fé da Igreja, que nos gloriamos de professar, em Jesus Cristo Nosso Senhor”. Não diz “esta é a minha fé”, mas a “nossa fé” e o “nossa” refere-se à Igreja Povo de Deus.

 

 

Esta é uma questão importante em todos os tempos, mas é-o, de modo particular, no nosso tempo, com uma sensibilidade particular à liberdade individual que pode levar a um certo individualismo que relativiza a identificação com a comunidade a que se pertence. Um recente estudo sociológico encomendado pela Conferência Episcopal, revelou a relativização do sentido de pertença a uma comunidade, a família, a paróquia, a diocese, a Igreja Universal. Se não se assume completamente esta pertença, pode cair-se facilmente numa fé individual, acreditando no que se quer e da forma que se achar melhor. Até que ponto uma outra realidade revelada por aquele estudo, a dos que se declaram “crentes sem religião” não significa exatamente isso? Eu tenho a minha fé, não quero estar sujeito a nenhuma instituição religiosa que me diga no que devo acreditar e me aponte as exigências éticas da fé.

 

A Igreja é sujeito da fé

 

 

2. Por detrás desta questão está a natureza da Igreja como um “nós coletivo”, uma verdadeira comunidade. Ela é um Povo, o novo Povo de Deus, é um “corpo” que se identifica com o “Corpo de Cristo”. Para cada um dos seus membros é esse “nós coletivo” que é o sujeito da verdade. Como cada um de nós, a Igreja como “corpo” pode realmente confessar a fé, dizer “eu creio”. A oposição não pode ser entre o coletivo e o individual, mas entre o pessoal e o comunitário. O facto de a minha fé ser a fé da Igreja não lhe tira a qualidade de fé pessoal. Significa, isso sim, que eu me identifico como pessoa, não apenas pela minha inteligência e pela minha liberdade, mas também na minha adesão total à comunidade a que pertenço, a qual, tratando-se de uma comunidade crente, exige a profissão da mesma fé.

 

A fé que repassa todos os documentos do Concílio é verdadeiramente a fé da Igreja, que os padres conciliares assumiram como fé pessoal. Esta dimensão sublinha a grandeza da nossa fé, garante-lhe a solidez, porque afirmada ao longo dos séculos, numa Tradição viva, por comunidades tao diferentes culturalmente. A fé da Igreja é uma das expressões da unidade da Igreja.

 

O Concílio afirma: “A Santa Igreja Católica, que é o Corpo místico de Cristo, é composta de fiéis que estão organicamente unidos no Espírito Santo pela mesma fé”[1]. Aliás esta unidade na confissão da mesma fé permite as diferenças e a variedade na Igreja. Esta adesão à mesma fé é obra do Espírito Santo. O texto conciliar fala de “obediência da fé”. “O Espírito Santo que chama todos os homens a Cristo pelas sementes do Verbo e pela pregação do Evangelho e que suscita nos corações a obediência da fé, quando a fonte batismal gera para uma nova vida os que creem em Cristo, congrega-os no único Povo de Deus”[2].

 

O todo da Igreja identifica-se com Cristo, é o Corpo de Cristo. “Cristo mediador único constitui e sustenta indefetivelmente, neste mundo, a sua Igreja Santa, comunhão de fé, de esperança e caridade, como organismo visível e, por meio dela, comunica a todos a verdade e a graça”[3]. É esta intimidade com Cristo, que ama a Igreja com amor esponsal, que é, para ela, a garantia de permanecer na verdade. A Lumen Gentium afirma: “A totalidade dos fiéis, que possuem a unção que vem do Espírito Santo, não pode enganar-se na fé e manifesta esta propriedade particular através do sentido sobrenatural da fé do povo inteiro, quando desde os Bispos até ao último dos fiéis leigos, manifesta consenso universal a respeito das verdades da fé e costumes”[4].

 

A comunhão com Cristo, no Espírito Santo, garante à Igreja a infabilidade da fé. Esta garantia que é de todo o Povo crente, só é dada à fé de cada membro da Igreja se a sua fé for a “fé da Igreja”. Visões individualistas da fé ficam sujeitas ao erro e ao desvio das verdades da fé. É uma garantia que só nos pode ser dada pelo facto de Cristo e o Espírito Santo fazerem parte do mistério da Igreja.

 

A confissão da fé

 

 

3. A Igreja, povo crente, é o verdadeiro sujeito da confissão de fé e do seu anúncio, da sua celebração nos sacramentos da salvação. Na confissão da fé a Igreja exprime-se como povo profético, que proclama e anuncia, e povo sacerdotal que celebra a fé que proclama. A celebração sempre foi considerada como uma forma de profissão da fé. Aliás as fórmulas de confissão da fé acontecem no contexto da celebração litúrgica. O Concílio ensina: “Os fiéis, incorporados na Igreja pelo Batismo, recebem o caráter que os delega para o culto cristão, e, renascidos como filhos de Deus, são obrigados a professar diante dos homens a fé que, pela Igreja, receberam de Deus. Pelo sacramento da Confirmação vinculam-se mais perfeitamente à Igreja e recebem especial vigor do Espírito Santo: ficam assim mais seriamente comprometidos a difundir e a defender a fé, por palavras e obras, como testemunhas verdadeiras de Cristo”[5].

 

É sempre a Igreja que professa e celebra a fé. Cada crente fá-lo como membro do Povo crente e a fé que celebra e que professa só pode ser a fé da Igreja.

 

A profissão de fé faz parte da celebração litúrgica, numa consciência clara de que a proclamação da fé é ato de louvor. Ela explicita a fé com que celebramos os sacramentos, especialmente os da iniciação cristã, o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia.

 

As fórmulas da confissão comunitária da fé foram, ao longo dos séculos, cuidadosamente elaboradas, muitas vezes em Concílios, como é o caso dos “credos” ou símbolos da fé. São expressão importante da Tradição viva da Igreja, onde se realiza essa síntese harmónica entre a fé recebida dos Apóstolos e a sua expressão ao ritmo do tempo e das circunstâncias presentes.

 

As fórmulas de profissão da fé podem e devem transformar-se em formas de oração pessoal, levando os crentes a essa harmonia entre a fé pessoa e a fé da Igreja. Bento XVI, fiel a uma antiga tradição, aconselha-o para este Ano da Fé: “Não foi sem razão que, nos primeiros séculos, os cristãos eram obrigados a aprender de memória o Credo. É que este servia-lhes de oração diária, para não esquecerem o compromisso assumido com o Batismo. Recorda-o, com palavras densas de significado, Santo Agostinho quando afirma numa homilia sobre a redditio symboli (a entrega do Credo): «O símbolo do santo mistério, que recebestes todos juntos e que hoje proferistes um a um, reúne as palavras sobre as quais está edificada com solidez a fé da Igreja, nossa Mãe, apoiada no alicerce seguro que é Cristo Senhor. E vós recebeste-lo e proferiste-lo, mas deveis tê-lo sempre presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração continue de vigília por ele»”[6].

 

A confissão da fé reforça a comunhão eclesial

 

 

4. A profissão da mesma fé manifesta a unidade da Igreja. E esse é um testemunho que a Igreja presta à humanidade, tão necessitada de modelos que sejam estímulos. O Concílio vê nesse testemunho de comunhão um serviço prestado pela Igreja à humanidade[7]. O testemunho da comunhão é, em si mesmo, uma confissão de fé. Leiamos um texto do Decreto sobre o Ecumenismo: “O Espírito Santo habita nos crentes, enche e dirige toda a Igreja, realiza a maravilhosa comunhão dos fiéis e une-os firmemente a Cristo como princípio da unidade da Igreja. O Espírito Santo distribui as graças e os carismas (cf. Cor. 12,4-11), enriquecendo a Igreja de Jesus Cristo com diversos dons, «em ordem a preparar os Santos para uma atividade de Serviço, para a construção do Corpo de Cristo» (Ef. 4,12)”[8].

 

Ao contrário, o sublinhar de perspetivas individuais na afirmação da fé, enfraquece a comunhão da Igreja. Só o Espírito Santo nos concede essa graça: de professar sempre a fé da Igreja, mesmo quando a expressão da nossa fé tem a densidade da nossa vida pessoal.

 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca



[1] Decreto sobre as Igrejas Orientais Católicas (OE), nº 2

[2] Ad Gentes (AG), nº 15

[3] Lumen Gentium (LG), nº 8

[4] Ibidem, 12

[5] Ibidem, nº 11

[6] Porta Fidei (PF), nº 9

[7] cf. GS, nº 42

[8] Unitatis Redintegratio, nº 2


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