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Homilia na Solenidade de São Vicente
22 de Janeiro de 2020
São Vicente
Homilia na Solenidade de São Vicente
A palma de Vicente reverdecerá de novo

Caríssimos irmãos e especialmente vós, diáconos do Patriarcado de Lisboa, que tendes em São Vicente o vosso especial padroeiro:

«Vós livrais aqueles que esperam em Vós e os salvais das mãos dos inimigos», ouvimos a Ben Sirá, nesta solenidade de São Vicente, diácono e mártir, padroeiro principal do Patriarcado de Lisboa.
Ouvimo-lo nos dias que correm, em que tantos irmãos nossos não podem celebrar os respetivos padroeiros, com a serenidade e a paz de que disfrutamos aqui. Infelizmente, tantos séculos depois do martírio do santo que a Lisboa portuguesa logo tomou como seu, guardando as relíquias de quem a guardaria a ela, continuam e crescem por esse mundo além perseguições semelhantes às que ele próprio sofreu.Estava-se ainda na época em que o império Romano ligava a sua segurança ao culto imperial, perseguindo os resistentes. É certo que o Fundador do cristianismo já distinguira os planos, mandando dar a César o que é de César, sem esquecer de dar a Deus o que só a Deus pertence. Ele próprio o cumprira, quando reconhecera a autoridade de Pilatos no campo temporal, mesmo que tão mal exercida, reservando-se para Deus no que ao espiritual pertence. Mas os poderosos da altura não entendiam assim as coisas e por isso ser cristão arriscava a morte.
Aconteceu com Vicente, com particular ferocidade, pois quiseram fazer dele um caso notório, que atemorizasse os outros. Conseguiram, bem pelo contrário, que fosse ainda mais conhecido o seu exemplo, numa e outra margem do Mediterrâneo, pouco depois e para sempre. Mártir quer dizer “testemunha” e com Vicente assim foi e continua gloriosamente a ser. 
Há muito de semelhante hoje em dia, com as notícias que nos chegam de perseguições aos cristãos, em mais do que um país e continente. A fé cristã resiste a qualquer apropriação totalitária e por isso mesmo aparece como obstáculo a todo o poder sem freio. É muito elucidativo verificar - a propósito e sem anacronismo – que, quando algum poder se quis único e total no passado, mesmo dizendo-se cristão e para defesa dum pretenso cristianismo, encontrou sempre cristãos autênticos e críticos convictos entre aqueles que perseguiu. 

Retomemos o versículo de Ben Sirá.
Diz que Deus livra os que n’Ele esperam e os liberta de mãos inimigas. São três os agentes: Os inimigos que perseguem, Deus que liberta e os que esperam em Deus. Com São Vicente, tudo aconteceu assim. Os inimigos que o condenaram e torturaram, com mãos particularmente atrozes. Deus que o recebeu e libertou da “lei da morte”, ou seja, do esquecimento do que fora e tanto assinalara. E Vicente, que venceu e convenceu, na mais ativa das esperanças.
Perante as dificuldades e oposições, por graves e gravíssimas que sejam, o verdadeiro crente comporta-se também assim. Sabe que a fé encontrará resistências, bem duras por vezes. Sabe que não faltarão soberanias que, circunscrevendo o horizonte à dimensão temporal que dominam, não suportam nos governados qualquer ligação que as transcenda e possa criticar. Assim acontece com quem detenha o poder pelo poder e igualmente em nome de ideologias várias que, impondo-se pelo geral, não respeitam a irredutível singularidade de cada um. Prepotência e consciência nunca se deram bem.
No passado e ainda no presente, pôde e pode ser assim no campo imediatamente político, quando não se respeitam as declarações universais de direitos, a liberdade religiosa e a indispensável distinção de poderes, entre quem legisla, quem governa e quem julga. Pode acontecer também de modo direto ou indireto, se, por exemplo, não se contemplar a objeção de consciência face a práticas legalmente permitidas mas legitimante questionáveis, em especial no que concerne ao direito à vida, da conceção à morte natural. Ou quando se contrariasse na prática o direito dos pais à educação dos filhos, dentro do quadro dos valores essenciais que nos constituem como sociedade.Estes e outros pontos requerem a nossa presença, tanto no que fazemos como no que não fazemos. Assim aconteceu com o nosso Padroeiro e assim nos irmanamos hoje com muitas outras pessoas de boa vontade, inclusive de outros credos e até além destes, em base humanitária comum. Em pleno oitavário de oração pela unidade dos cristãos, lembremos que a colaboração em tudo o que respeita ao bem do próximo é uma das alíneas principais do progresso que pretendemos.  
No país e na cidade em que estamos, decerto com a proteção de São Vicente, vivemos em democracia e convivência cívica que nos permitem dialogar e propor, agir e reagir, em termos geralmente satisfatórios face a tantas outras geografias. Mas não esqueçamos o que disse Ben Sirá no versículo que comentamos: Deus livra os que n’Ele esperam. A consequência é dupla, como sentimento e como ação. Como sentimento, porque esperar em Deus é não desistir nunca d’Aquele em quem acreditamos, mesmo que tudo parecesse contradizê-Lo e ausentá-Lo. Como ação, pois a esperança é performativa e realiza já aquilo que a transporta, pela ação possível e sem omissão alguma. 

Dizia Jesus no Evangelho e testemunhava-o São Vicente no martírio: «Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto.»Falaria Jesus imediatamente de si, que seria morto e sepultado, fazendo da sua morte a doação total da vida e da sepultura a comunhão plena com a nossa condição comum. Em tudo isso não ficou só ele, porque nos acompanhou absolutamente a nós e nos fez reviver a todos. Assim abriu caminho aos seus discípulos, verdadeiros discípulos, como o foi São Vicente. O nosso padroeiro foi diácono, sacramentalmente servo dos pobres de então. Servo sobretudo no testemunho que deu, de ser fiel até ao fim, na fé que demonstrava, na esperança que o levava e na caridade para com os próprios carrascos, que não conseguiram que os odiasse. Na celebração coerente deste dia, teremos de seguir a Cristo assim também, como o fez Vicente. Dispostos a cair na terra comum da necessidade de todos, sem resistir ao dom de nós próprios, nem nos fecharmos em isolamentos sem saída. Pelo contrário, preenchamos a solidão dos outros com a nossa atenção e companhia; colmatemos tanto vazio e lacuna sociocultural e mediática com a presença solidária e criativa que oferece humanidade às ideias e às artes; estejamos sempre onde devemos estar, disponíveis e totais, pascalmente oferecidos.São muitas as necessidades e urgências, outras tantas oportunidades de entrega. Quando chegaram as relíquias de São Vicente, recrudesceu o ânimo para reconstruir a cidade e a convivência, nos moldes portugueses que começavam. Foi uma lembrança criativa, uma presença fecunda. A barca em que chegara com os corvos guardiães lembrou-o emblematicamente depois. Boa lembrança e permanente estímulo.Especialmente agora, em que a cidade se há de reencontrar mais à frente, com novos habitantes e visitantes de toda a parte do mundo. E sem esquecer os que cá estavam e devem continuar a estar, respeitados e dignificados na tradição que transportam. Quando se há de refazer em ecologia integral, conjugando o natural e o edificado, a bem da integralidade psicofísica e espiritual de cada ser humano, pessoal, familiar e socialmente integrado. Assim em Lisboa e pela diocese inteira. 
 - E a palma de Vicente reverdecerá de novo!

Sé de Lisboa, 22 de janeiro de 2020
+ Manuel, Cardeal-Patriarca                               

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