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03 de Setembro de 2019

Conferência - Atualidade de Nun’Álvares

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Conferência no Estado-Maior-General das Forças Armadas

A atualidade de Nun’Álvares (1360-1431), como de qualquer outra personagem de qualquer tempo que seja, reside na capacidade do que façam ou fizeram, digam ou disseram, para responder positivamente ao presente, ao que devemos ser aqui e agora. Neste sentido, não é questão de tempo cronológico. Há factos de ontem ou anteontem que não foram atuais e há factos de há muitos séculos que o continuam a ser. Podemos considerar atual o que simplesmente continua a atuar, ou a motivar atuações.
Para aquilatar a atualidade de Nun’Álvares importa antes de mais relembrar o que disse e fez. Para tal, retomarei alguns passos da sua primeira fonte biográfica, a Chronica do Condestabre de Portugal Dom Nuno Alvarez Pereira (Revisão, prefácio e notas por Mendes dos Remédios, Coimbra, França Amado – Editor, 1911). Um dos seus biógrafos recentes apresenta-a assim: «A Crónica do Condestabre (ou Estória de Dom Nuno Álvares Pereira) é uma biografia anónima do Santo Condestável, escrita entre 1431 e, no máximo, 1443. Estas datas limite correspondem, por um lado, ao ano da morte de Nun’Álvares, mencionada no capítulo 79 da obra, e, por outro, ao ano em que sabemos que Fernão Lopes – que utilizou abundantemente a Crónica do Condestabre – estava a escrever o capítulo 163 da Primeira Parte da Crónica de D. João I, dedicada à ‘sétima idade que se começou no tempo do mestre’» 1)

Comecemos por este trecho, no princípio da crise de 1383-1385, momento tão decisivo para a independência portuguesa como as campanhas de D. Afonso Henriques no século XII, ou as da Restauração no século XVII. A citação é um pouco extensa, mas todas as frases importam: «Dois ou três dias depois que Nun’Alvares chegou a Lisboa como já acima se faz menção foi-se ao paço do mestre e falou-lhe nesta guisa: “Senhor, grandes dias há que muito desejei e desejo de vos servir e não foi minha ventura de o até ora poder fazer. E porque ora vós sois em tal ponto que entendo que poderei cobrar o que desejei em vos servir e me ofereço a vosso serviço com boa vontade; e vos peço de mercê que daqui adiante me hajais por todo vosso e servindo-se vossa mercê de mim em todas as coisas como de um homem que para elo [= isso] serei muito prestes. E o mestre lhe agradeceu muito sua boa vontade porque dias havia que o conhecia por bom e o recebeu por seu, pondo logo em seu conselho com os outros que em ele estavam e dali em diante não fazia cousa de que ele parte não soubesse. E estando assim em Lisboa com o mestre, Iria Gonçalves madre de Nun’Alvares que era boa e mui honrada dona, chegou a Lisboa com recado de el-rei de Castela […]. E porém sua palavra nem largas promessas prestaram pouco cá por cousa que dissesse nunca pôde mudar Nun’Álvares seu filho de sua boa tenção, antes contrariava a sua madre dizendo: “que Deus não quisesse que por dádivas e largas promessas ele fosse contra a terra que o criara mas que antes despenderia seus dias e espargeria seu sangue por amparo dela” de guisa que onde ela vinha para reduzir seu filho para serviço d’el-rei de Castela Nun’Alvares reduziu a ela para serviço do mestre» (Crónica, XIX, p. 46-47, atualizei a grafia).
Saliento dois pontos, um que podemos considerar antigo e outro já atual. Antiga é a lógica e a linguagem do “serviço”, com a nota pessoal que tinha na sociedade de então. Tenha ou não tenha existido feudalismo em Portugal, no sentido estrito do termo, é nessa órbita que podemos entender a vinculação de Nun’Álvares ao Mestre de Avis. Tratava-se de servir alguém, sobretudo militarmente, que reciprocamente habilitaria e protegeria o seu servidor ou vassalo.
Falecido o rei D. Fernando (1383), a nobreza do país passaria normalmente a servir a sua filha e herdeira, D. Beatriz. Acontecia porém que estava casada com o rei D. João de Castela, que passaria a mandar em Portugal. É compreensível que, além doutros fatores, a lógica do serviço levasse muitos, a maioria até, a aceitar os reis de Castela como reis de Portugal e assim aconteceu na família de Nun’Álvares. 
Tudo isto era próprio daquele tempo. Mas em Nun’Álvares encontramos outra lógica, de inegável atualidade. Revela-a no apego à “terra que o criara”, sobrepondo um sentido que já podemos chamar nacional (= da terra onde se nasce) a qualquer vinculação pessoal, por estimável que fosse. Reparemos que se põe ao serviço do Mestre de Avis pela razão superior de defender a sua terra de um domínio estrangeiro.
Di-lo depois, com mais veemência ainda, para convencer alguns renitentes a aderirem à causa nacional: «E Nun’Álvares lhes disse: “Amigos! Eu não sei que vos em isto diga mais do que já vos disse pero ainda vos quero responder ao que dizeis que que os castelãos são muitos e grandes senhores: tanto vos virá maior glória e louvor de os vencerdes. E da dúvida que parece tendes por aí virem meus irmãos não a deveis de ter cá vos digo e prometo de verdade que posto que aí viesse meu pai eu seria contra ele por serviço do mestre meu senhor e por defender a terra que me criou”» (Crónica, XXVIII, p. 66).
Na batalha de Aljubarrota resumirá tudo isto num só brado: «Ah portugueses! Pelejar, filhos e senhores, por vosso rei e por vossa terra!» (Crónica, LI, p. 124). Um outro biógrafo recente escreve, a propósito: «Da guerra, a que foi chamado e em que teve papel decisivo, tinha ele o conceito que coincida com a “guerra justa”, ou seja, de legítima defesa […]. Ora, para Nun’Álvares a referência não era o senhor, a quem servisse, mas o seu povo e a terra onde lhe fora dado nascer; assim opera-se nele uma deslocação de serviço e verifica-se com isso uma autonomia maior da parte do cavaleiro…» 2).

Nun’Álvares ficou encarregado de defender a fronteira além Tejo e na batalha de Atoleiros alcançou logo um importante triunfo. A Crónica descreve-o com notas muito esclarecedoras. Mantenho a prosa, para não lhe tirar expressão: «E Nun’Álvares com sua gente era já em um lugar bem convenhável para a batalha onde chamam os Atoleiros uma meia légua pouco mais ou menos aquém de Fronteira de contra Estremoz. E como Nun’Álvares foi em aquele lugar sendo já certo que os castelãos vinham à batalha fez logo descer a pé terra todos os seus homens de armas. E dessa pouca gente que tinha concertou suas batalhas da vanguarda e retaguarda. E alas direita e esquerda. E fez concertar os besteiros e homens de pé para as alas e para onde entendeu que melhor estaria para bem pelejar. E tudo isto feito e concertado começou de andar pelas batalhas encima de uma mula esforçando todas gentes com boas palavras e gesto ledo. E dizendo a todos que lhes lembrassem bem em seus corações quatro cousas. A primeira que se encomendassem a Deus e à Virgem Maria sua madre e o tivessem assim em suas vontades. E a segunda que era ali por servir seu senhor e a calçar [= alcançar] honra grande que a Deus lhe prazeria de lhe dar. E a terceira como ali vinham por defender [a] si e suas casas e a terra que possuíam e se tirar da sujeição em que os el-rei de Castela queria pôr. E a quarta que sempre tivessem nos entendimentos de sofrer todo o trabalho e de porfiar em pelejar não uma hora mas um dia todo e mais se cumprisse. E ditas estas palavras os castelhanos eram mui acerca deles. E Nun’Álvares se desceu logo da mula em que andava e se pôs a pé na vanguarda ante a sua bandeira por cumprir aquilo que em Estremoz dissera que com ajuda de Deus ele seria dos primeiros que começasse a obra» (Crónica, XXVIII, p. 70-71).      
A primeira nota é a atualidade da sua tática. Diferentemente do que era usual na cavalaria, organizou os seus homens como ouvimos, com ele próprio a pé, tudo em lugar escolhido por conveniente. Era uma novidade entre nós, aprendida com os ingleses. De novo um biógrafo: «Nun’Álvares, chefe prestigiadíssimo, que teve a argúcia para introduzir em Portugal o modelo tático inglês, que em Trezentos dava cartas na Europa; chefe carismático e tremendamente eficaz, quer a vencer batalhas campais, quer a armar emboscadas, quer a comandar operações de forragem ou a penetrar ardilosamente nos castelos […] – logo se tornou um herói sem rival na história militar portuguesa» 3)
Depois vem o elenco de motivações: A primeira é religiosa, como em qualquer circunstância vivida por crentes. A segunda é ainda medieval, formulada como servir ao seu senhor e assim mesmo alcançar honra. A terceira é já moderna e nacional, de defesa da sua terra do domínio estrangeiro. A quarta é anímica e de qualquer tempo, de o fazer tanto e quanto fosse necessário. 

A Crónica, escrita por quem certamente o conheceu, não deixa de anotar caraterísticas pessoais de atualidade permanente. Vimo-lo atrás a participar no combate, de pé entre a sua tropa. Vê-lo-emos agora partilhando o pouco que tinha para chegar a todos, esperados ou inesperados. Atitudes assim alimentam a confiança no chefe e predispõem para o que for preciso. 
É um trecho particularmente significativo, até por se tratar de estrangeiros: «E dali se partiu el-rei e o Condestável com sua gente regida para cerca de Muge passaram outra vez o Tejo contra a estrada que vai para Lisboa e pousaram em um pomar em que não havia fruta nenhuma. E em todo o arraial era grande míngua de mantimentos. E em tanto que diziam que em todo o arraial não havia senão um pão salvo se o rei levava ou o Condestável. E sendo o Condestável comendo tendo cinco pães na mesa que na sua saquitaria não havia mais. Chegaram a ele cinco cavaleiros ingleses dizendo que morriam de fome e que queriam com ele beber e ele disse que lhe prazia muito e mandou-lhes trazer água às mãos e des[de} aí mandou-os sentar e eles disseram que queriam beber de pé e cada um lançou mão de seu pão e comeram e beberam duas vezes e foram-se. E assim nem ficou ao Condestável pão nenhum nem o comeu àquele comer senão carne sem pão e isto com grande sabor» (Crónica, XLVIII, p. 114).
Atitudes destas, conhecidas e reconhecidas, contribuiriam para consolidar a aliança inglesa. Aliança que, antes e depois, foi firmada por tratados e pelo casamento do rei com a filha do Duque de Lancastre. É uma memória a reter nas atuais circunstâncias, alimentando a política geral com boas atitudes pessoais. 
No caso referido tratava-se de estrangeiros aliados. Mas a boa vontade do Condestável não se ficava por aí, alargando-se a território de inimigos, religiosamente qualificado. É um passo muito atual da Crónica, ligando religião a não-agressão: «De Villa Garcia se partiu o Condestável com sua hoste com intenção de ir em romaria a Santa Maria de Guadalupe e deixou de o fazer porque lhe disseram que seria forçado [a] sua gente fazerem grande dano na terra de Santa Maria e deu volta atrás» (Crónica, LIV, p. 133). Não foi caso único, antes correspondia ao seu comportamento geral na guerra e na administração: «Obrigado a entrar em luta, continha-se nas suas atitudes e morigerava as dos outros: não agia por cupidez, nem permitia que houvesse discriminações ou que se retirasse para seu proveito algo que o seu legítimo proprietário não quisesse ceder; não permitia que os bens dos inimigos fossem destruídos…» 4).  

Nestes modos de ser e de fazer há duas notas da Crónica que nos interpelam especialmente. Uma refere-se à representação, nos tempos pré-democráticos da altura ou nos tempos democráticos de hoje. Nun’Álvares apresentava-se a si mesmo e às convicções que tinha, com muito desassombro e fosse aonde fosse. Mas representava já uma ideia atual em termos de nacionalidade, como temos visto. Teve também de representar o seu grupo em cortes, o que lhe custou especialmente por falta de solidariedade de quem o escolhera. Oiçamos: «El-rei ordenou de fazer cortes na cidade de Braga e mandou recado ao Condestável que estava entre Tejo e Guadiana que fosse às ditas cortes. […] E os fidalgos do reino o fizeram seu procurador que refertasse por ele a el-rei cousas que lhe cumpriam. E ele se escusou delo tanto quanto pôde pero tanto o afincaram que houve de aceitar sua procuração. E presente eles disse a el-rei o que por bem deles entendia. E disto não aprouve a el-rei segundo palavras que ao Conde respondeu. E como quer que todos os fidalgos que aí estavam nenhum não falou a el-rei em ajuda do Conde só uma coisa. Por a qual razão o Condestável por então nem depois nunca jamais tal procuração quis aceitar nem falar em seus feitos quanto assim em geral querendo-se ater ao exemplo antigo que diz “que quem serve comum não serve nenhum”» (Crónica, LVIII, p. 149-150).
Sem anacronismo, retenhamos a consequência que o trecho pode ter ainda hoje, quer para representar os que elegem como para lhes exigir corresponsabilidade e coerência. 
A outra nota refere-se à justiça e ao seu exercício. O Condestável era equânime e não admitia exceções. A certa altura foi-lhe incumbido administrá-la no sul do país, conjuntamente com as funções militares que lá tinha. Não foi fácil nem quis continuar. Reparemos no como e no porquê: «E sendo já el-rei em sua terra e chegando a Alter do Chão rogou ao Condestável que tomasse encargo de toda a justiça de entre Tejo e Guadiana e do reino do Algarve. E o Condestável sabendo que a terra era minguada de justiça por serviço de Deus e de el-rei tomou dele encargo e pôs em ela mão tão de rijo que com ajuda de Deus tostemente [= depressa] a terra foi assentada. E a justiça sentida porque ele não havia lei com grande nem com pequeno nem parente nem criado nem amigo, senão todavia fazer direito sem nenhuma afeição. Em tal guisa que os grandes e bons que com ele acompanhavam em serviço d’el-rei se afastavam dele por a maneira que com eles tinha em feito de justiça, e vendo o Condestável isto entendeu que tal encargo lhe não cumpria. E que somente pertencia a el-rei. E porém pediu a el-rei por mercê que lhe tirasse tal encargo e de feito o deixou e não quis dele mais usar» (Crónica, LXXIV, p. 197-198).              
Juntemos as duas notas: Primeiro a integridade pessoal de Nun’Álvares, na justiça como no mais. Depois o entendimento da distinção de funções, que já fazia caminho. Uma e outra, de inquestionável atualidade. 

Exercício militar e prática de humanidade não têm de estar separados, hoje como então. Em Nun’Álvares, muito pelo contrário, estão unidos num grau surpreendente. Os casos são vários, pelo que escolho apenas alguns particularmente expressivos. O primeiro surpreendeu o próprio cronista: «E logo se o Mestre levantou do cerco [ao castelo de Torres Vedras] e se foi a Coimbra para fazer cortes sobre o título de rei que era requerido que o tomasse se o tomaria ou não. E Nun’Alvares com ele e levava consigo seiscentas lanças das quais não iam encavalgadas senão cento e cinquenta lanças e todos os outros iam armados e a pé indo com eles todos os homens e mulheres que moravam no arrabalde de Torres Vedras e no termo que não quiseram aí ficar e até um cego que no arrabalde morava bradava que o não deixassem ali entre aquela gente má. Nun’Álvares o ouviu e havendo dele piedade o mandou pôr atrás de si nas ancas de uma mula em que ia com o Mestre. E assim o levou quatro léguas onde o cego foi contente de ficar. - Oh que humano e caridoso senhor!» (Crónica, XLII, p. 102).
Outro caso refere-se à honestidade de Nun’Álvares, mesmo por coisa relativamente pouca e passasse o tempo que passasse: «… e foi-se [o Condestável] a Vila Garcia [em Castela] lugar de Dom Garcia Fernandes que depois foi Mestre de Santiago e acharam o Castelo só e desamparado porque toda a gente com temor fugia. E foram-se dele deixando aí todo o seu como quer que o Castelo fosse assaz de forte e o Condestabre o foi dentro ver e foi aí achada uma formosa e grande caldeira. A qual o Condestável mandou levar para a sua cozinha. E ao cabo de dezasseis anos lhe foi dito que aquela caldeira era de uma confraria de São Pedro por a qual razão logo de Portel onde estava mandou tomar ao lugar de Vila Garcia donde viera» (Crónica, LIII, p. 131). 

Tanta consistência humana não deixava de se impor por si mesma, causando a admiração geral. Garantia-lhe a fidelidade dos seus homens, levando-os a ações que eram muitas vezes temerárias, dada a disparidade de meios. Mas podia atrair também os outros, mesmo do campo adversário, como neste caso, tão invulgar decerto: «… e foi aquela noite alojar e dormir em um sobral que é entre os lugares de Cáceres e do Roy del Porco e esta noite ente lobo e cão vieram a ele ao sobral onde pousava dez escudeiros castelãos que pareciam homens de bem sem havendo dele seguro nenhum para aí poderem vir e falaram ao Conde e ele os recebeu bem e lhes perguntou que homens eram. E eles lhe responderam que eram daquele reino de Castela. E o Conde lhes disse como eram ousados a vir assim sem segura[nça] e eles responderam que em atrevimento de sua grande bondade e muitas virtudes que Deus em ele pusera lhes fazer haver tal ousadia e então lhes perguntou o Condestável que pois assim era “que era o que lhes prazia”. E eles disseram que não outra cousa senão vê-lo como já tinham visto. E o Condestável lhes mandou dar de cear e eles não quiseram cear e foram-se» (Crónica, LXVI, p. 166-167).   
Não queriam outra coisa senão vê-lo… Aproveitemos esta extraordinária alusão para o revermos também, de corpo e espírito, segundo um atual biógrafo: «Nuno Álvares Pereira seria homem de estatura média ou ligeiramente acima disso, com um rosto comprido e pele clara, cabelo e barba arruivados, olhos pequenos e expressivos, sobrancelhas arqueadas, nariz afilado e uma boca pequena. A estes traços poderemos acrescentar que, segundo Fernão Lopes, que ainda o terá conhecido pessoalmente, Nuno era homem “de pouca e branda palavra”, mas nem por isso menos enérgico e forte nas convicções, acrescentaria eu» 5).  
Tudo isto é humanamente atual e motivador. Escolho um trecho mais, para concluir, pela projeção que pode ter agora. Em qualquer conflito vale o que enfraqueça o campo oposto, ou receia-se naturalmente quem quer que de lá venha. Alargada a países, a tendência é para reforçar fronteiras, mesmo a não militares que nos procurem. Nem preciso de aludir ao que se passa na fronteira líquida do Mediterrâneo, pois tal reação se verifica em escalas menores e menos trágicas. Mas vejamos o que se passou com Nun’Álvares: «E ainda não bastava fazer bem e esmolas aos do reino de Portugal mas ainda aconteceu que um ano foi minguado de pão no reino de Castela pela qual míngua se vieram de Castela à comarca de entre Tejo e Guadiana bem quatrocentas pessoas de castelãos entre homens e mulheres e moços pequenos. Os quais lhe foi dito bem padeciam a fome. E deu encargo a dous pobres da terra que andassem à comarca de entre Tejo e Guadiana que soubessem parte de todos os homens e mulheres e criaturas pequenas que aí eram com míngua de pão se vieram de Castela e que lhos trouxessem por escrito. E depois que assim os houve em escrito ordenou de lhes mandar a cada um cada mês quatro alqueires de trigo. E que estes quatro alqueires de trigo houvesse cada mês assim homens e mulheres como moços pequenos. E deu encargo àqueles mesmos dous pobres que dos seus celeiros lhe fosse dado este pão cada mês para eles e assim o fizeram por seu mandado. O qual mantimento lhes foi dado quatro meses e então se seguiu a novidade e foram-se para suas terras» (Crónica, LXXIX, p. 208-209).
Referimos a humanidade de Nun’Álvares, nalguns trechos duma Crónica quase coeva cuja simplicidade e concisão melhor o definem e nos convencem. Bom será hoje, como excelente foi então, que humanidade e atualidade coincidam em tal grau. No Condestável, foi assim, nas palavras de Fernão Lopes: «Como a estrela da manhã foi claro em sua geração, sendo de honesta vida e honrosos feitos, no qual parecia que reluziam os avisados costumes dos antigos e grandes varões» (Crónica de D. João I, I, 193). 


Manuel Clemente
Lisboa, 3 de setembro de 2019


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1) MONTEIRO, João Gouveia, Nuno Álvares Pereira. Guerreiro, senhor feudal e santo. Os três rostos do Condestável, Lisboa, 2017, p. 38.  
2) NASCIMENTO, Aires A., Nuno de Santa Maria, Fragmentos de memória presente, Lisboa, Associação Regina Mundi, 2010, p. 210-211.
3) MONTEIRO, Nuno Álvares Pereira, p. 159.
4) NASCIMENTO, Nuno de Santa Maria, p. 211.
5) MONTEIRO, Nuno Álvares Pereira, p. 77.


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