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Homilia na Vigília Pascal
20 de Abril de 2019
Homilia na Vigília Pascal
Surpreende-nos uma vida triunfante

Podemos perguntar-nos pela razão de estar aqui esta noite, de ouvirmos o que ouvimos e vermos o que vemos… Podemos e talvez devamos, para que tudo fique mais claro na nossa consciência e definido na nossa vida. 
No antigo Israel era assim que os mais novos perguntavam pela Páscoa, ouvindo a resposta do que Deus fizera pelos seus antepassados e estava disposto a fazer com eles, em gestos libertadores. Agora e connosco, tudo nos fala da mesma disposição divina e tudo nos pede inteira adesão humana. 
Como acontecerá decerto. Os próprios ritos de iniciação, que faremos com alguns e retomamos para todos os que aqui estamos, significam tal adesão, vivendo intimamente a Páscoa, passando na verdade com Jesus para o Pai. Por um caminho certo, como o que o Evangelho nos acaba de anunciar. 
« - Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou!» O que aquelas mulheres, tão fiéis a Jesus, ouviram então, ouvimo-lo nós também, tendo realmente ouvidos para ouvir. 
Eram fiéis, voltaram ao sepulcro, encontraram-no vazio, ouviram o anúncio. É connosco agora: Acompanhamos o Senhor no Sagrado Tríduo, não esquecemos a sua sepultura, voltámos esta noite e ouvimos o Evangelho da ressurreição. 
Fidelidade, persistência e reencontro, ultrapassando este as expetativas. Já não velamos um morto, surpreende-nos uma vida triunfante.Cada um dos momentos importa e também a sequência. Aquelas mulheres eram fiéis desde a Galileia e assim permaneceram até ao Calvário, mesmo quando quase todos fugiram. Voltaram logo que puderam, para concluir os ritos da sepultura, que tão apressada fora. Sendo fiéis, ouviram antes dos outros o que nunca ninguém ouvira: Jesus vencera a morte, o seu cadáver sepultado era agora corpo glorioso, infinita presença em qualquer espaço e tempo. Como o celebramos aqui, como muitos o celebram por esse mundo fora, mesmo onde arriscam a vida para o fazerem também.
Dando todo o lugar às surpresas de Deus, é normalmente assim que acontece. Por isso Jesus dissera que «quem procura, encontra» (Lc 11, 10). A persistência das mulheres deu-lhes antecedência na descoberta. Estou certo de que quem mais seguiu Jesus nesta Quaresma de oração, jejum e esmola, também melhor distingue, sente e saboreia a sua presença ressuscitada.
Assim também os que vieram, não trocando esta Vigília por outra coisa qualquer, porventura mais cómoda ou distrativa… Também não foi cómodo para aquelas mulheres saírem de madrugada e irem ao sepulcro. Não foi cómodo nem seguro, mas redundou numa surpresa absoluta. Esta mesma que nos atinge agora.

Sigamos-lhes então os passos. Tinham vindo com Jesus da Galileia até Jerusalém. Não era assim tanta a distância, com alguns dias de marcha. Mas algum fora o risco e séria a decisão. Não o seguiram apenas, porque o serviam também e aos discípulos. 
Pela Galileia de toda a gente, podemos tomar a terra de cada um de nós, onde encontrámos Jesus e começámos a segui-lo. Porque ouvimos falar dele em nossas casas ou paróquias, porque o conhecemos mais tarde nalgum contacto ou exemplo, porque desta ou outra maneira fomos vislumbrando a sua presença aqui ou ali. 
E fomo-lo seguindo nos lugares onde mais se encontra. Aqui no culto cristão, ali no gesto caritativo, neste ou naquele diálogo, leitura, ou momento mais forte, inesperado até. Pouco a pouco, fomo-lo reconhecendo. A voz evangélica ressoou-nos, mais clara e distinta; as suas parábolas traduziram perfeitamente as nossas vidas, no que elas hão de ser; os sinais da sua presença marcaram os nossos dias. 
Tanto assim quanto mais o seu caminho connosco se tornou no nosso caminho. Caminhamos com Ele, servindo Aquele que tão absolutamente nos serve a nós. Como aquelas mulheres fizeram, também com o que tinham, para receberem afinal muito mais. 
Depois chegaram a Jerusalém e assistiram à paixão e morte de Jesus. Terão sido as únicas, ou quase únicas, a assistir a tudo, arriscando-se também. Menciono-as as elas, mas gostaria de mencionar igualmente a todos quantos seguimos Jesus até ao fim, ou até onde o fim começa, onde a fidelidade se joga inteiramente. 
Como elas então, estando nós agora onde o Evangelho se afirma com inteira coerência em qualquer situação e espaço, em qualquer momento e altura. Tem muitas traduções esta atitude. Como seja não calar o que deve ser dito, não dissimular o que deve ser patente, não esbater o que deve ser claro. 
Quando Jesus foi preso e depois julgado e por fim condenado, onde estavam os que apareciam antes a seu lado, onde soavam os hossanas e se levantavam os ramos de há poucos dias? Pouco ou nada se notava já, voz nenhuma o defendia ainda. No Calvário estavam tão poucos, como aquelas mulheres – ou como a Mãe e o discípulo que o quarto Evangelho não esquece.

Tão poucos, ainda que indispensáveis. Mas agora mesmo, quando algum constrangimento social quer inibir o protagonismo cristão propriamente dito. Ou quando um certo reducionismo cultural normaliza por baixo as convicções, afastando-as daqueles espaços que, exatamente por serem públicos, deviam ser de todos. Como legitimamente são e não de nenhuns, como acabariam por ser… Com respeito pelos outros, certamente, mas sendo o próprio respeito a exigir-nos a partilha.
Seguir Jesus até o fim, como tão poucos fizeram, é o que importa e o caminho certo para o que aconteceu depois. Depois, quando aquelas mulheres voltaram ao sepulcro, sem medo da noite que desaparecia. Era o que restava ainda do seu Jesus de sempre, bastando isso mesmo para irem lá. 
E assim mesmo foram e assim mesmo souberam da sua vitória e presença nova. Esta mesmo que nos tem aqui, certos e seguros da ressurreição de Cristo. Da ressurreição que nos ressuscita também, como ouvíamos a São Paulo: «… uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer; a morte já não tem domínio sobre ele. […] Assim vós também considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus».
Seguindo este caminho, tão estreito como vitorioso, teremos a resposta sobre o estarmos aqui, nesta santa noite que se fará claro dia. Saberemos dum “saber de experiência feito”. Experiência nossa e anúncio para todos.
A vós, que a seguir celebrareis o início sacramental das vossas vidas, dirige-se o apelo e garante-se a certeza. O apelo angélico a reconhecer Cristo vivo, como o sentis agora; a testemunhá-lo sempre, seja aonde for. E a garantia do seu Espírito, que fará de vós um Evangelho vivo!  


Sé Patriarcal, 20-21 de abril de 2019
+ Manuel, Cardeal-Patriarca  

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