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Homilia na Ordenação Episcopal de D. Américo Aguiar (c/ vídeo)
31 de Março de 2019
Homilia na Ordenação Episcopal de D. Américo Aguiar (c/ vídeo)
Porque o Pai nos espera e a festa é possível!

A parábola que acabamos de ouvir apresenta-nos várias personagens em sentimento e ação. Comecemos pelo filho mais novo, que abandonou a casa paterna e partiu para terra distante, onde perdeu quanto levava e por pouco não se perdia a si. É natural determo-nos neste filho mais novo, por com ele nos identificarmos tantas vezes, no repetido afastamento da casa paterna, ou seja, de Deus e da verdadeira comunhão com Ele - que consiste em dar-Lhe graças e nunca desperdiçar os seus dons.
Mas do filho mais novo fiquemos, ainda assim e sobretudo, com a decisão de regressar e a confiança na inabalável disposição do pai em recebê-lo. A Quaresma que vivemos é tempo favorável disso mesmo, da decisão em levantarmo-nos e voltarmos a Deus que sempre nos espera, como agora mesmo e nesta ocasião celebrativa. Temos Deus à nossa espera, fruamos sempre com Ele os dons que nos oferece, partilhando-os também.
Espera-nos com os sentimentos que a parábola manifesta: Por longe que ainda estejamos, já nos avista e distingue; quando voltamos finalmente, contritos e esperançosos, restitui-nos a dignidade atingida e transborda em afeto – aquele afeto e alegria que preenchem o Céu por cada pecador que se converte (cf. Lc 15, 7). Por cada um de nós, quando realmente regressamos e nos reavemos como filhos de Deus. Sem Deus nos perdemos, com Deus nos recuperamos, seja qual for a distância interior que nos afastasse. 
Isto se diga de cada um e isto se diga de todos. Quando pressentimos o coração de Deus, o sentimento com que nos cria a aviventa, o anseio de que a dignidade e o bem dos seus filhos sejam respeitados, garantidos e recuperados, apercebemo-nos também de que o máximo regozijo que terá é que tal seja assim e só assim, fosse o que fosse e aconteça o que acontecer. É este o único lugar de Deus, é esta a casa do Pai, disponível sempre.
Apercebidos disso, compartilharemos também a misericórdia que O define, para que ninguém se perca e não percamos ninguém. Isto se diga de nós, e muito especialmente dum bispo, do lado do Pai e à espera de todos. 

O que nunca poderemos fazer é imitar a outra personagem da parábola: O irmão mais velho, que se julgava impecável por não se ter afastado do espaço físico daquela casa – ainda que jamais tivesse entrado no infinito espaço do coração paterno.Longe de se alegrar com o regresso do irmão, protestou e não quis participar na festa, levando o pai a sair de novo, para instar com ele. E fazendo-o com palavras que nos revelam o que o Evangelho tem de essencial e mais profundo, de Deus para nós: «Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado».  
Reparemos que a parábola acaba assim, sem nos dizer o que aconteceu depois e se o irmão mais velho sempre entrou na festa, ou teimou em ficar de fora… Deste modo, a “palavra de salvação” torna-se para cada um de nós “palavra de interrogação”, à espera que lhe demos resposta positiva. 
Positiva em relação aos nossos sentimentos para com quem esteja mais perto ou mais longe da casa do Pai, dispostos a fazer tudo para que regresse ao lugar onde a festa acontece. E em termos aí a nossa alegria, sem alheamento nem despeito pela chegada de alguém, mesmo que já não contássemos. Na casa do Pai os últimos são sempre os primeiros.   

Também a esta luz daremos graças a Deus na Ordenação Episcopal que celebramos. Na verdade, o ministério ordenado é na Igreja, e da Igreja para o mundo, a revelação concreta do coração divino, como sacramento de Cristo Pastor. Cristo Pastor, que, bem ao contrário do irmão mais velho da parábola, é o nosso irmão absoluto, partilhando inteiramente dos sentimentos do Pai e vindo Ele próprio buscar-nos onde estivermos e mesmo onde nos perdêssemos. Um trecho anterior ao que escutámos, ilustra-o com a parábola do pastor que, tendo perdido uma ovelha, deixa as outras todas para a procurar só a ela; e que, encontrando-a, põe-na aos ombros e, chegando a casa, tudo festeja com os amigos e vizinhos (cf. Lc 15, 4 ss).
A graça e o encargo do sacramento que hoje celebramos, caríssimo D. Américo, são isto mesmo para ti, como para todos nós em Cristo Pastor: participar do sentimento de Deus, na procura incansável de cada um e no acolhimento feliz de quem regressa. É também este o critério com que a Igreja escolhe os seus ministros. Assim Jesus escolheu os Doze, para serem “pescadores de homens”, recolhendo-os em redes de convivência verdadeira e feliz, como cada comunidade “cristã” há de ser e necessariamente ser.
Ouvimos São Paulo apresentar-se como “embaixador de Cristo” e a proposta que faz é de reconciliação com Deus. É a nossa proposta também, mas exigindo-nos conformidade com Cristo, exemplo perfeito de comunhão divina. Como ministros de Cristo, em tempos de hoje e em tempos de sempre, temos de viver e apresentar-nos como quem foi recuperado por Cristo para viver com Deus e de Deus para os outros. Nada menos do que isto importa e urge, de nós para todos e para cada um que encontremos aqui, ou busquemos mais longe.
- E há tanto que encontrar e buscar nos nossos dias, para que a festa de Deus aconteça! Distanciamentos sempre houve, físicos e morais, nos “pródigos” que somos. Porém acontece que, quando dispomos de tantas possibilidades de comunicação e reencontro, o convite demora e a escuta é difícil. A acumulação do que se emite atropela as mensagens, dispersa a atenção, dilui as perguntas e adia as respostas. 
Só a definição pessoal e clara de quem pergunta poderá interpelar quem responda. O que mais importa a todos nós, discípulos e ministros de Cristo, é sermos verdadeiramente tais, contritos e convictos, coerentes e límpidos no anúncio e na vida. É esta a “purificação” que o Papa Francisco tanto exige à Igreja, é esta a conversão que a Quaresma requer e o mundo aguarda.
Como “homem da comunicação” que és realmente, caríssimo D. Américo, assim será decerto contigo no ministério que inicias. Assim terá de ser também com todos nós, porque o Pai nos espera e a festa é possível.
Possível e certa, como o é agora para a tua querida mãe, cujo passamento foi também chegada à Casa do Pai, destino final da nossa existência. Casa de Deus, lugar omnipresente, além e aquém. Rezamos por ela, certos e bem certos de que te acompanha agora, como o fará sempre.                 


Porto, igreja da Santíssima Trindade, 31 de março de 2019

+ Manuel Clemente
Cardeal-Patriarca de Lisboa 



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