Início
Homilia - Missa de recordação e sufrágio de D. António dos Reis Rodrigues
04 de Fevereiro de 2019
Homilia - Missa de recordação e sufrágio de D. António dos Reis Rodrigues
Um caminho aberto, percorrido em Cristo

Lembramos e sufragamos D. António dos Reis Rodrigues, no seu centenário, há alguns meses cumprido. E justamente o fazemos pelo que foi e pelo que fez no Patriarcado de Lisboa e na Igreja em Portugal.
Acontecendo em celebração eucarística, há de ser com a Palavra de Deus e a partir dela. O que não é difícil nem forçado nas leituras deste Domingo. Efetivamente insistem num ponto que foi muito assumido e expresso pela figura que lembramos: o caminho a que Deus nos chama, o caminho que o próprio Deus percorre em Cristo e nos impele a percorrer também.
Ouvimos o profeta Jeremias, naquele tempo tão difícil: «A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: “[…] Cinge os teus rins e levanta-te para ires dizer tudo o que Eu te ordenar”». Ouvimos, depois do Salmo, o trecho de São Paulo: «Aspirai com ardor aos bens espirituais mais elevados. Vou mostrar-vos um caminho de perfeição que ultrapassa tudo […]. Agora conheço de maneira imperfeita, depois, conhecerei como sou conhecido». E o Evangelho concluía, depois de terem querido precipitar Jesus, montanha abaixo: «Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho».
Prontidão perfeita com o profeta, aspiração elevada com o apóstolo, seguimento do caminho com Cristo. Nada mais e nada menos do que tudo isto, para realizar uma vida autêntica e inteira. Uma vida inteiramente pascal, melhor dizendo, que seja também caminho para os outros. 
São notas constantes na escrita e exortação do prelado que recordamos. Nunca conformistas e sempre exigentes, para serem conformes com o apelo evangélico.

A partir daqui, não falarei eu, falará ele, de modo muito concorde com o que acabamos de ouvir. Começando pela homilia que fez nas suas Bodas de Ouro sacerdotais, celebradas a 3 de março de 1997, no nosso Seminário Maior, em que se formara e fora ordenado. Disse assim, entre muito mais que será bom reler: «Não estou preso a nada do que fui, a nada do que fiz, a nada do que vivi […]. Cinquenta anos de ministério não me cansaram; o corpo sem dúvida, não o espírito. E digo como diziam os jovens católicos espanhóis da geração com a qual privei […]: “Há tanto que fazer!”»
Prosseguia, portanto, num caminho aberto. Tanto mais quanto espiritualmente impelido pela constante demanda que justifica as vidas. Como escreve num pensamento publicado na obra há pouco apresentada: «Todos temos necessidade de Deus. Como as águas que caem das montanhas e correm em direção ao mar, todos caminhamos irresistivelmente para Ele» (A semente lançada à terra, p. 13).
Podia ser apenas uma aspiração genérica. Em Cristo, porém, é revelação e possibilidade concreta, adianta: «Jesus não é para nós apenas um caminho; é, sem mais, em termos absolutos, o caminho» (ibidem, p. 26). 
D. António insiste sempre na necessidade de ir em frente, que Cristo tornou possibilidade, de si para nós. Não sendo fácil, mas exigente e forte: «Porque – assevera – O Evangelho não é positivamente um rebuçado para consolação de infelizes ou de falhados, como queriam os românticos. É um dinamismo criador, perpetuamente atualizado pela insatisfação de sermos o que somos e pela vontade decidida de sermos um pouco mais como Deus nos quer» (ibidem, p. 46). 
Ou, noutro passo, igualmente decidido e jamais tolhido por qualquer percalço: «Importa não ficar olhando para trás, para o caminho já percorrido. A cada momento, é preciso emergir da aluvião dos incidentes quotidianos que nos limitam o horizonte, erguer a cabeça e olhar em frente, porque há sempre um resto de caminho que falta percorrer» (ibidem, p. 109).
Vida de combate, afinal, como o próprio Cristo nos ensina a travar e nos permite vencer. D. António concretiza: «Só depois de atravessarmos essas contradições – o combate da sensualidade, do ódio, da cupidez, do orgulho, e também o do erro e da incerteza – só depois, “no termo do esforço”, a paz de Cristo “que ultrapassa todo o sentimento”, será para nós realidade» (ibidem, p. 47).
Paz de quem trava o combate do espírito, tão oposta à quietude retraída de quem se exime a ele. Porque a perfeição de que não podemos desistir é, como o nome indica, a ação completa que só em Deus se alcança: «A perfeição – lembra também ele - não é um dado adquirido, é um desafio. É um caminho a percorrer, em direção a um horizonte que, no entanto, nunca se atinge. Pois, consoante o Discípulo amado, numa das suas cartas, “Deus é maior que o nosso coração” (1 Jo 3, 20)» (ibidem, p. 69).          
Este trecho joânico devia ser-lhe caro, pois não o cita só aqui. A realidade absoluta de um Deus maior purifica e salva as limitações que sofremos. Não desistiremos, pois.     
Caminho, portanto, como Cristo nos abre no que Ele próprio é para o Pai, em constante retorno; e nos permite ser, participando no seu Espírito. Infindo como Deus, infindo é o caminho. D. António soube bem que, nisto mesmo, “parar é morrer”. Agradecemos a sua vida e ensino, para o percorrermos também.

Como lhe agradeceu o saudoso Cardeal Ribeiro, nas referidas Bodas de Ouro Sacerdotais. Foram estas palavras, entre outras, proferidas por quem o conhecia tão bem e tão de perto: «Para usar a expressão do Papa [São João Paulo II], direi que o seu sacerdócio é dom e mistério. É dom da graça divina que, há 50 anos, o tornou participante do sacerdócio ministerial de Nosso Senhor Jesus Cristo, único sacerdote da Nova Aliança. E é mistério de grande fecundidade espiritual, que tantos e tão notáveis frutos sobrenaturais tem produzido, nos diversos campos de exercício da sua atividade apostólica». 
E concretizando, mais à frente: «Sem a lucidez da sua inteligência, a determinação da sua vontade e a eficácia da sua ação pastoral, muitas iniciativas, felizmente realizadas na Diocese, não alcançariam o êxito que as distingue». 
Palavras que ganham a maior relevância, quando sabemos que o saudoso cardeal-patriarca não exagerava os elogios. O que dizia tinha o peso certo das realidades comprovadas, como era o caso de D. António dos Reis Rodrigues. Isto mesmo ilustra a verdade vivida das frases que acima lhe recolhi, para nós agora: Um caminho aberto, percorrido em Cristo.      

+ Manuel, Cardeal-Patriarca
Lisboa, igreja de S. Nicolau, 3 de fevereiro de 2019 


ORGANOGRAMA DA CÚRIA
© 2020 - Patriarcado de Lisboa. Todos os direitos reservados.