Youtube
Patriarcado de Lisboa

Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena: Um século a fazer o bem no Hospital de Sant’Ana

Imprimir
Partilhar
A presença das religiosas no hospital é uma consolação para os doentes. É assim há 100 anos. As Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena estão presentes no Hospital de Sant’Ana, na Parede, e desejam continuar a sua missão.
  A madre geral, o provedor da Santa Casa, e D. Carlos Azevedo  

 

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão

 

Cem anos. A Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena – uma congregação fundada em Lisboa no século XIX, por Madre Teresa de Saldanha, cujo processo de beatificação foi introduzido em Roma – está presente no Hospital de Sant’Ana, na Parede, Cascais, desde há um século. A missão é apenas uma: fazer o bem.

 

A irmã Celina Laranjeiro é uma das seis religiosas da congregação que está presente nesta instituição hospitalar e está envolvida na organização do centenário. À VOZ DA VERDADE, esta religiosa aponta que “a presença das irmãs no Hospital Ortopédico de Sant’Ana é fundamental para manter o espírito da instituição”. Se nos primórdios do hospital as irmãs estavam presentes em todos os serviços, hoje a realidade é diferente. Mas o espírito de entrega ao doente e aos necessitados é o de sempre.

 

Chegada ao Hospital de Sant’Ana

Em Portugal, em 1910, praticamente todas as congregações e ordens religiosas foram fechadas. No entanto, esse ano assinalou o início da missão destas irmãs no hospital. “Curiosamente, ao contrário do que talvez fosse de esperar, a nossa congregação foi chamada para o hospital por D. Claudina de Freitas Chamiço, a fundadora do então sanatório, devido à expulsão das Irmãs de São Vicente de Paulo (Filhas da Caridade), que foram repatriadas por serem de origem francesa. D. Claudina entendeu que o seu projecto, o projecto do sanatório, não podia sobreviver sem a presença de uma comunidade religiosa católica para manter o espírito da instituição”, conta a irmã Celina.

 

Numerosas religiosas

Chegaram então ao Hospital de Sant’Ana três religiosas. O máximo que a lei da época permitia. “Sem hábitos, sem rezas; se quisessem rezar as religiosas podiam-no fazer apenas à noite, na cama, de cabeça tapada! Não era fácil, na altura, a presença das irmãs”, assegura a irmã Celina Laranjeiro.

 

Estes constrangimentos no início do século passado não impediram as irmãs de cumprir integralmente a sua missão e de lidar com as doenças da época. “As irmãs ocuparam-se de todos os serviços do sanatório, que na época se encontrava cheio de doentes, em especial jovens, com tuberculose óssea, doenças linfáticas e algum raquitismo. Tinha também uma ala destinada a doentes adultos cancerosos ou cardíacos”. Há um século, o Sanatório de Sant’Ana tinha 100 camas, sendo 60 destinadas a crianças e jovens e as restantes a adultos. Apesar de se ocuparem de todos os serviços – desde a lavandaria até às enfermarias, passando pela cozinha, a rouparia, a capela –, as mais de 30 religiosas presentes no sanatório contavam com a colaboração de algumas empregadas, todas internas. “Era uma casa que quase se bastava a si própria, porque também criava animais e tinha uma horta”.

 

A fundadora do sanatório estava já na fase final da sua vida quando dispôs o seu testamento em favor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. “A D. Claudina Chamiço entendeu ser a instituição que, pela sua antiguidade e credibilidade, maiores garantias lhe dava de continuação da sua obra”. Esta medida iria garantir também a manutenção da presença religiosa na instituição. “A D. Claudina queria muito que os doentes tivessem assistência religiosa, fossem instruídos na doutrina, tivessem catequese e aprendessem a escrever e a ler”. Durante muitos anos, as irmãs ocuparam-se de todas estas actividades.

 

À medida que a tuberculose foi desaparecendo, o sanatório foi evoluindo para hospital e para hospital ortopédico. Algo que se concretizou em 1961. “Os primeiros ortopedistas do país foi aqui que surgiram e as irmãs acompanharam toda essa evolução, quer como enfermeiras, quer como auxiliares”, conta a irmã Celina.

 

Uma presença (sempre) disponível

Ao longo do século XX, a presença das Irmãs Dominicanas no Hospital de Sant’Ana fez também surgir muitas vocações religiosas no seio da comunidade. “Nasceram aqui muitas vocações religiosas. Já fizemos o levantamento desse dado e neste momento julgo que ainda há 29 irmãs cuja vocação surgiu aqui. Sete já faleceram”. Entraram na congregação não só antigas doentes, como também antigas empregadas e enfermeiras. “O hospital foi um alfobre de vocações, mas hoje a sociedade está muito modificada e temos falta de vocações, não só aqui, como nas outras comunidades”, lamenta a irmã Celina.

 

Actualmente, a comunidade das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena conta com seis religiosas no Hospital de Sant’Ana. “Neste momento, fazemos o acolhimento e acompanhamento aos doentes e famílias, acolhemos e ouvimos os funcionários e acompanhamo-los nos momentos difíceis e também nos alegres. Ocupamo-nos da pastoral da saúde, a nível hospitalar, sobretudo com os doentes internos, dinamizamos a liturgia e somos ministros da comunhão. Visitamos também os doentes dos lares vizinhos e colaboramos nas actividades do hospital”. Por desejo expresso da fundadora, uma irmã faz parte do Conselho Directivo do Hospital de Sant’Ana, em representação da congregação, e outra religiosa integra a Comissão de Humanização do hospital. “Estamos totalmente disponíveis, na medida das nossas possibilidades, para colaborar em tudo o que nos é pedido”, salienta a irmã Celina.

 

Sobre a assistência religiosa hospitalar, a irmã Celina não tem dúvidas do bem que faz aos doentes. “Mesmo os que se dizem não crentes, sentem-se aconchegados e acolhidos numa casa como esta. Quando se apercebem que há religiosas no hospital, acolhem muito bem a nossa visita! Muitas vezes, as palavras que lhes damos, ou a escuta que prestamos, servem de fortalecimento num momento de muita ansiedade e incerteza”.

 

Uma irmã-enfermeira

A irmã Celina é natural de Ourém, perto de Fátima. Educada no seio de uma família cristã, é a mais nova de seis irmãos. “Comecei a pensar em ser religiosa aos 11 anos, quando ainda estava no colégio das Oblatas do Sagrado Coração de Jesus, no Porto. Admirava muito as irmãs, sobretudo a professora, a irmã Isaura. Gostava muito da sua maneira de estar e de ser”, conta. Com 14, 15 anos, a pequena Celina gostava de rezar o Ofício Divino – hoje chamada de Liturgia das Horas – e do hábito religioso. Como nas Oblatas não encontrou nenhum destes dois aspectos, Celina fez um estudo, descobrindo as Dominicanas. “É curioso que conheci as Irmãs Dominicanas precisamente através do Hospital de Sant’Ana. Tinha cá uma prima, que era (e é) religiosa, e que estava como enfermeira chefe no hospital”, recorda.

 

Quando tinha 30 anos, a superiora geral da congregação convidou a irmã Celina a inscrever-se na Escola de Enfermagem de São Vicente de Paulo. Após três anos no curso de enfermagem, decorria o ano de 1973 quando foi enviada para Sant’Ana. “A superiora provincial disse-me que tinham falta de enfermeiras e enviou-me para o Hospital de Sant’Ana”. Nestes anos, a irmã Celina percorreu todos os serviços da instituição, tendo-se reformado o ano passado como enfermeira chefe.

 

Cinquenta anos de dedicação

A irmã Cármen Ferreira está presente, ininterruptamente, desde 1968 no Hospital de Sant’Ana. Já tinha estado entre 1954 e 1957, mas os últimos 43 anos da sua vida passou nesta instituição. Mais velha de 10 irmãos, a irmã Cármen é natural da Benedita e conta como foi difícil seguir a vida religiosa. “A verdade é que eu fazia muita falta em casa. O meu pai lá acabou por aceitar a minha vocação, mas a minha mãe nem se despediu de mim quando fui para o convento”. Lembra-se que sempre quis ser religiosa. “Quando era pequena e íamos a Fátima, sempre que nos cruzávamos com uma freira a minha mãe mudava para o outro lado da rua para eu não a ver…”.

 

No Hospital de Sant’Ana começou por ser responsável pela secretaria. “Quando vim para cá, havia 230 camas e 32 irmãs”. E recorda-se bem de como se processava a admissão dos doentes. “Apenas havia crianças até aos 7 anos e senhoras de todos os pontos do país. Só vinham para cá pessoas com atestado de pobreza passado pela câmara municipal”. Em relação aos dias de hoje, a irmã Cármen Ferreira, já reformada, diz que “ajuda no que pode”, em especial nos serviços administrativos. “De manhã rezo o Ofício com a comunidade; depois, como temos as tarefas distribuídas entre nós, cada uma vai cumprir a sua missão”. Sempre, procurando fazer o bem…

 

 Bispo Auxiliar lembra “marca humanista cristã” do hospital

Na festa do 107º aniversário do Hospital Ortopédico de Sant’Ana, que assinalou também os 100 anos da presença das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, D. Carlos Azevedo salientou que o hospital “mantém a sua marca humanista cristã”. Na Eucaristia celebrada na capela do hospital, o Bispo Auxiliar de Lisboa lembrou a importância da assistência religiosa hospitalar. “Damos graças por tantas dificuldades ultrapassadas de modo a permitir manter a plenitude do cuidado que só a dimensão espiritual perfaz. A intuição da fundadora, D. Claudina Chamiço, ao recorrer ao melhor da técnica e profissionalismo, incluiu a dimensão religiosa no cuidar pleno das doenças”.

 

Na celebração, que decorreu no dia de festa de São Joaquim e Sant’Ana, a 26 de Julho, D. Carlos sublinhou, ainda, qual deve ser o papel do cristão perante a doença. “A existência de um segundo de dor numa só pessoa não nos pode deixar, como cristãos, indiferentes, na apatia. O cristão é chamado a estruturar e orientar a sua vida com este objectivo: evitar, aliviar e compadecer-se da dor dos seus irmãos”. Para D. Carlos, “esta é a forma mais simples para encher a vida de amor e de sentido”. “Assim fez D. Claudina, assim fizeram as Irmãs Dominicanas ao longo destes 100 anos. Assim continuem os que dirigem, trabalham e servem este hospital. Continue esta geração a fazer deste lugar fonte de esperança!”, desejou.

 

 Bênção da estátua de Sant’Ana

Após a Eucaristia, D. Carlos Azevedo benzeu a estátua de Sant’Ana, situada junto à entrada do hospital. Na cerimónia de inauguração, a madre geral da congregação, madre Rita Maria Lourenço Nicolau, frisou que “a presença da estátua de Sant’Ana, mãe e mestra da Virgem Santíssima, evoca e perpetua a vocação maternal de tantas mulheres e também irmãs que ao longo de 100 anos serviram, cuidaram e ensinaram os que por aqui passaram”. O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Rui Cunha, realçou que “a comunidade religiosa da congregação residente no hospital não se dissociou mais do percurso transformador e pioneiro que esta casa representa”.

 

 Ministro enaltece missão das religiosas

O ministro da Solidariedade e Segurança Social sublinhou a importância da presença das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena no Hospital de Sant’Ana. “Não podia deixar de enaltecer hoje, também, o trabalho realizado ao longo dos últimos 100 anos, de forma ininterrupta, pela Ordem Dominicana de Santa Catarina de Sena. De pouco ou de nada servem estes espaços sem uma acção humana que lhes dê um propósito, que lhes dê uma propriedade”, salientou Pedro Mota Soares, na sessão solene comemorativa do 107º aniversário do Hospital de Sant’Ana.


Siga-nos em:
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter
Patriarcado de Lisboa
© 2013 - Patriarcado de Lisboa, todos os direitos reservados
Desenvolvido por  zoomsi.com