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DOCUMENTOS

17 de Janeiro de 2008

Conferência do Cardeal Patriarca sobre a Paróquia e a Nova Evangelização

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Conferência do Cardeal Patriarca

 

A Paróquia e a Nova Evangelização

Estimadíssims amics:

Bé voldría jo adreçar-me a tots vostès en la llengua de Pompeo Fabra o Jacint Verdaguer, una llengua que forma part d’un dels ingredients més importants de la vostra cultura secular. Ho faria malament i, per tant, comprendreu que ho faci en portuguès. Imagino que tots teniu la traducció castellana per, en el vostre enriquidor bilingüisme, entendre millor les meves paraules.

Introdução

1. A minha Conferência é, sobretudo, um testemunho. Como certamente sabeis, o Patriarcado de Lisboa realizou, em conjunto com as Dioceses de Viena, Paris, Bruxelas e Budapeste, o Congresso Internacional para a Nova Evangelização, respondendo ao desafio lançado por João Paulo II. A iniciativa do Congresso nasceu com duas ideias chave: evangelização das grandes cidades, o que sugeria novos métodos e iniciativas inovadoras, algumas já experimentadas e protagonizadas por grandes movimentos.

Bem depressa tomámos consciência que o Congresso exigia uma revitalização evangelizadora de toda a comunidade diocesana, nas pessoas e nas estruturas. Novo ardor situava-se no campo da conversão e da profundidade da vida cristã: os evangelizadores, pessoas e comunidades têm de ser testemunhas. Ao falar de novos métodos, suscitava a comparação e, porventura, o confronto com as mais antigas estruturas da Igreja para a realização da sua missão, entre as quais está a Paróquia. Tomámos consciência de que ou as Paróquias entravam no ritmo do Congresso, ou este seria limitado ou mesmo impossível. E foi deste esforço de dinamizar as Paróquias, pondo-as ao ritmo do Congresso, que foram surgindo interpelações, se tomou consciência de dinamismos latentes, se formularam interrogações. Este é um processo que ainda está em curso. Enquanto comunidade base da Igreja diocesana, a renovação da Paróquia toca em todas as outras realidades da Diocese: Cúria, Movimentos e Associações de Fiéis, mecanismos de colaboração inter-eclesial, na linha da universalidade da Igreja.

Paróquia e unidade do Presbitério

2. A unidade do Presbitério, a que preside o Bispo, Sucessor dos Apóstolos e Pastor da Igreja particular, é um elemento fundamental para a unidade da Diocese e para a dinamização das Paróquias. A Paróquia existe onde uma comunidade de cristãos, convocada pelo Bispo, se reúne para escutar a Palavra e celebrar a Eucaristia. A essas comunidades o Bispo, ou preside pessoalmente, ou através de um Presbítero, que participa do sacerdócio apostólico e representa o Bispo no exercício desse ministério. É bom relembrar o texto da Lumen Gentium, sobre os Presbíteros: “Cooperadores diligentes da ordem episcopal, de que são ajuda e instrumento, chamados a servir o Povo de Deus, os sacerdotes constituem, com o seu Bispo um único presbitério, na diversidade de funções. Em cada lugar onde se encontra uma comunidade de fiéis, de uma certa forma eles tornam presente o Bispo, ao qual estão associados com coração confiante e generoso, assumindo os seus encargos e a sua solicitude, pondo-os em prática, com a solicitude permanente pelo bem dos fiéis” (n.28).

Estas comunidades foram-se afirmando, ao longo dos tempos, com algumas características:

* São a comunidade habitual de referência dos cristãos à Igreja, e concretizam o seu sentido de pertença à comunidade eclesial. O sentido de pertença à Paróquia está mais enraizado do que o sentido de pertença à Diocese. A Paróquia torna a Igreja visível no mundo, no seio da sociedade. Citemos ainda um texto da “Sacrosanctum Concilium”: “Como o Bispo, na sua Igreja, não pode presidir, pessoalmente, a todo o seu rebanho, nem sempre, nem em toda a parte, deve necessariamente constituir assembleias de fiéis, entre as quais as mais importantes são as Paróquias, organizadas localmente sob a orientação de um pastor que faz as vezes do Bispo; porque, de uma certa maneira, elas representam a Igreja visível estabelecida no Universo” (n. 42);

* Não são dioceses, mas parte da Diocese, o que exige uma unidade de critérios e dinamismos pastorais. Nelas deve exprimir-se todo o dinamismo pastoral do Bispo e da Igreja diocesana;

* Acabaram por se organizar a partir do território onde as pessoas habitam, por vários motivos: estarem próximas e entrosadas com a vida humana das pessoas; consequência de uma visão de cristandade onde a quase totalidade das pessoas eram cristãs; influência da organização civil do território; consciência de que a Paróquia tem uma missão evangelizadora de todas as pessoas que nela habitam.

A unidade da Igreja diocesana depende, em grande parte, da unidade de dinamismos e opções pastorais das Paróquias e para isso é crucial a unidade do Presbitério: unidade na amizade e na caridade, na visão da Igreja e da sua missão, na sintonia dos critérios e das opções pastorais. Isso inclui a formação nos Seminários, prolongada na formação permanente do clero, a informação contínua a circular entre todos; exige a obediência pastoral. O Bispo não deve simplesmente impor; deve estudar com os sacerdotes essas opções pastorais, sobretudo nos órgãos colegiais, como o Conselho Presbiteral e o Conselho Pastoral.

Esta unidade pastoral do Presbitério não é fácil e nunca está definitivamente conseguida. A falta de sacerdotes veio trazer dificuldades acrescidas. Aos sacerdotes formados nos seminários diocesanos juntaram-se, no serviço das Paróquias, outros sacerdotes com outras tradições, quer religiosos, quer estrangeiros que acolhemos. Olhando para a totalidade das Paróquias da Diocese, pode ficar-nos a imagem de Igrejas diferentes. Acrescenta-se a isso uma certa tendência para a autonomia de certos sacerdotes, generosos no serviço, mas autónomos na maneira de o conceber.

Na realização do Congresso em Lisboa demos grande importância a este aspecto da sintonia do Presbitério. É que o gosto pela evangelização não pode ser, apenas, um programa; é uma paixão de amor, em nome da Igreja, verdadeiro sujeito da missão evangelizadora. Conseguir que o Presbitério estivesse em uníssono com o Bispo neste novo dinamismo evangelizador, foi preocupação que presidiu a todas as expressões do trabalho com o clero: formação permanente, Conselho Presbiteral, equipas vicariais. Esta abertura dos sacerdotes a um novo dinamismo evangelizador era decisivo para que as paróquias se lhe abrissem e ganhassem ritmo missionário, se reconhecessem no que são na realidade, células da Igreja diocesana. Paróquias com ritmo autónomo em relação às grandes opções da Igreja particular são sempre um entrave a qualquer dinamismo inovador.

A Paróquia ao ritmo da mudança

3. Nos últimos 50 anos verificou-se uma profunda evolução da Paróquia, na sua compreensão teológica, na sua adaptação às novas características da sociedade, no modo de exprimir a fé e de se empenhar na missão. Durante o Congresso, ao procurarmos dinamizar as Paróquias para a missão, tivemos de enfrentar essa evolução e a realidade de Paróquias realmente diferentes umas das outras na sua compreensão e dinamismo.

A primeira fonte desta evolução das paróquias é intra-eclesial. O Concílio Vaticano II significou uma viragem na compreensão teológica da Paróquia, ao acentuar a dimensão comunitária e a eclesiologia de comunhão. A Paróquia era, principalmente o lugar da busca individual da salvação, proporcionando os meios sobrenaturais para o conseguir. Na dimensão comunitária, a comunidade é um valor em si mesma, é o contexto da caminhada pessoal, sublinha a corresponsabilidade de todos na construção da comunidade e na realização da missão da Igreja. A comunidade eclesial aparece como o verdadeiro sujeito da missão da Igreja, na evangelização, no testemunho da caridade, no empenhamento dos cristãos na humanização da sociedade.

Esta nova consciência fez surgir na Igreja novas realidades: os fiéis organizam-se, seguindo carismas próprios, para a busca da santidade e realização da missão da Igreja. Um sem número de Movimentos e Associações adquirem fisionomia e autonomia próprias, apresentando-se, por vezes, como alternativa à própria Paróquia, até porque alguns são protagonistas de modelos alternativos de Igreja. A convergência dessas realidades com a paróquia não é fácil, e as relações mútuas foram, frequentemente, marcadas pelo desconhecimento e mesmo pela hostilidade. A sua convergência com a Paróquia exige que esta se abra à pluralidade, abandonando o monolitismo, tão próprio de uma visão clerical da Igreja. Tal como a Diocese é, necessariamente, comunidade de comunidades, a Paróquia, ao aceitar a diversidade é, ao seu nível, também comunidade de comunidades, procurando a unidade na diversidade, unidade que se constrói na Eucaristia e se exprime na busca comum dos diversos caminhos da missão.

Na realização do Congresso esta foi uma das dimensões que tivemos em conta. A iniciativa do Congresso surgiu sob a influência de alguns destes novos Movimentos, o que poderia, à partida, dificultar a abertura das Paróquias à iniciativa. Fazê-los convergir para uma missão de toda a Igreja, na diversidade das suas expressões, não foi tarefa fácil. Já o Concílio lançava este desafio à paróquia enquanto comunidade integradora da variedade dos carismas: “A Paróquia oferece um exemplo notável de apostolado comunitário, porque ela reúne na unidade tudo o que nela representa as diversidades humanas e insere-as na universalidade da Igreja”[1]. E o Papa Bento XVI, na Mensagem que enviou à Igreja de Lisboa no início do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, lança-nos este desafio: é preciso “reforçar a comunhão entre as estruturas paroquiais e as várias realidades carismáticas largamente presentes nas vossas cidades, a fim de que a missão possa atingir todos os ambientes de vida”[2].

A realização do Congresso e o dinamismo que com ele se criou, significaram um passo importante nesta convergência. Isso exige mudança de atitude, tanto dos Movimentos como das Paróquias; estas devem organizar-se dando lugar à variedade e à diferença, promover a iniciativa e a justa autonomia dos leigos, definir os caminhos da missão de evangelizar, comum a todos e valorizar a Eucaristia como sacramento da unidade e da comunhão.

4. Mas a evolução da Paróquia deve-se, também, às características sociológicas e culturais da sociedade, e que se fazem sentir, de modo particular, nas grandes cidades. Não é por acaso que são as paróquias urbanas a sentirem mais profundamente essa mutação.

Quais são as características das nossas cidades que mais se repercutem nas paróquias urbanas e na sua missão evangelizadora? Antes de mais a mobilidade. “Trata-se de uma característica das grandes cidades, em evolução crescente desde há dois séculos, mas que deu um salto qualitativo com a civilização do automóvel e o alargamento da rede de transportes públicos. Tudo isto provocou alterações sucessivas na concepção das cidades e na vida das populações. A cidade passou a organizar-se a partir das exigências dos transportes, e não das pessoas. Os chamados “peões” perderam espaço nas grandes cidades, que privilegiaram a deslocação, de casa para o trabalho, da periferia para o centro e vice-versa, na busca dos múltiplos centros de interesse das pessoas e das famílias, que parecem passageiros em trânsito.

            A mobilidade introduz alterações profundas na compreensão da vida. Antes de mais na definição do “tempo humano”, isto é, a relação da vida com a ocupação do tempo, ou o tempo concebido como espaço para a vida. “Passageiros em trânsito”, não têm tempo para a leitura, para o convívio, para a oração e vida religiosa, para o lazer que passa a ser, apenas, e quando o é, mais um número de um programa sobrecarregado. O cristianismo introduz na vida uma dimensão contemplativa, o que supõe um tempo humano mais pacificador. Há dimensões essenciais da felicidade humana que, para não as perder, é preciso lutar contra o boliço da cidade. A Igreja não se pode deixar arrastar para essa voragem do “tempo-sem-tempo”, e oferecer às pessoas o espaço-tempo da tranquilidade e da paz”[3].

Esta característica faz das Paróquias dos centros históricos da cidade lugares de passagem. A sua pastoral deve estar mais voltada para os que passam, os tais “passageiros em trânsito”, do que para os residentes, por vezes muito poucos.

Uma outra característica das grandes cidades com influência na compreensão da Paróquia é a alteração do “sentido de pertença”, fruto da mobilidade e das características psico-sociais do “homo urbanus”.

Já referimos atrás que a Paróquia, expressão visível da Igreja num lugar, definia a pertença à Igreja. Este dado alterou-se. “Na cidade, marcada pela mobilidade, surgem novos critérios de pertença: a comunidade que se elegeu, o grupo a que se pertence, o lugar onde se trabalha, as práticas de lazer que se cultivam. O cidadão da cidade moderna define a sua vida num sistema de «multi-pertença», que se relativiza e até choca com o sentido de pertença definido a partir do território”[4].

Em termos eclesiais, os cristãos partilham deste sentido de multi-pertença: frequentam a paróquia da sua eleição, o seu sentido principal de pertença à Igreja concretiza-se no Movimento que integram ou noutras comunidades de referência. É posto em questão o território como único critério de definição da Paróquia, que acaba por ser incómodo, porque só se dá por ele perante exigências canónicas, sobretudo por ocasião dos sacramentos do baptismo e do matrimónio. Sem precipitações, temos de reflectir sobre a relação entre a paróquia territorial e as outras comunidades de referência.

A Paróquia definida a partir da missão

5. Na reflexão sobre a renovação da Paróquia não podemos cair numa tentação: pensá-la só, ou sobretudo, a partir dos dados culturais e sociológicos da sociedade. Estes só têm interesse como meio de conhecer os homens destinatários da missão da Igreja e de nos sugerir os caminhos da missão. Mas é a partir desta e das suas exigências no tempo presente, que havemos de ir descobrindo e construindo o novo rosto da Paróquia. O Papa Bento XVI, na já referida Mensagem à Igreja de Lisboa e aos congressistas, afirmou: “As Paróquias devem assumir um comportamento mais missionário na pastoral quotidiana e abrir-se a uma colaboração mais intensa com todas as forças vivas de que a Igreja dispõe hoje”[5].

Ao falar da dimensão missionária da Paróquia, Bento XVI diz que ela se deve exprimir na pastoral de todos os dias e não apenas na perspectiva missionária em sentido clássico, ou seja, em tudo o que a Paróquia faz. Partilho convosco, sempre à maneira de testemunho, alguns dados da nossa reflexão pastoral “post-Congresso” acerca da renovação da Paróquia.

Comunidade crente que aprofunda e comunica a fé

6. É um aspecto decisivo da renovação da Paróquia: fazer tudo ao ritmo da fé, dos seus dinamismos, das suas exigências. A fé é a principal atitude que Deus nos pede e espera de nós, um abandono confiante, um desejo de O descobrir, de O conhecer, de O louvar, de O anunciar. Como acto de louvor de Deus, a fé é a primeira expressão da caridade e, na vida de Deus experimentada, é a semente da esperança. Tomámos dolorosamente consciência de tanta coisa feita nas nossas paróquias com pouca fé: a Palavra de Deus mal proclamada e acolhida; sacramentos celebrados por tradição e hábitos sociais; uma catequese que ensina coisas mas que nem sempre comunica a fé; a vivência da caridade, muito pouco sobrenatural, em manifestações de simples solidariedade; fraca experiência de oração pessoal na maior parte dos cristãos; falta de ousadia para assumir Jesus Cristo na cidade.

Estabelecemos algumas prioridades: retomar a exigência de uma autêntica iniciação cristã, através da catequese, de crianças, jovens e adultos e da preparação para os sacramentos. Formar os catequistas ao ritmo da iniciação cristã. Valorizar a Palavra de Deus, na Liturgia, na “Lectio Divina” e sobre outras formas. A preparação do Sínodo é mais um incentivo para isso. Acentuar a dimensão cultural da fé, levando os cristãos a uma unidade de vida e de critérios, assumindo a fé numa autêntica racionalidade crente. A evangelização da cultura e a expressão da fé através da cultura é um elemento que leva a paróquia a abrir-se à comunidade humana mais alargada. Dar um relevo particular à qualidade da Liturgia. Uma comunidade revela-se e define-se na maneira como celebra.

Uma comunidade de acolhimento

7. O acolhimento é, hoje, nas nossas paróquias em sociedades de tradição cristã, um momento importante da acção evangelizadora da Paróquia. Há muita gente que se afastou da prática religiosa habitual, mas que ainda bate à porta da Igreja em certas circunstâncias da vida: o baptismo das crianças, a catequese dos filhos, o casamento, a morte. A maneira como são acolhidos pode aproximá-los ou afastá-los mais da Igreja. Mais, no próprio acolhimento pode ser anunciado o amor de Deus por eles. Uma certa burocracia, a rigidez das normas, umas canónicas, outras impostas localmente pelo pároco, podem comprometer esse acolhimento. Ele deve ser expressão do amor da Igreja e deve ser feito por pessoas preparadas. Os sacerdotes não podem dispensar-se completamente desse acolhimento, delegando apenas nos leigos.

O acolhimento deve ser particularmente cuidado em relação às pessoas que sofrem: os doentes, os pobres, os aflitos. Devem poder sentir, na maneira como são acolhidos, o amor da Igreja por eles.

A “casa da comunhão”

8. Neste aspecto, cada paróquia deve ser o espelho de toda a Igreja, sem esquecer que, como nos ensina São João, “a nossa comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo” (1Jo. 1,3).

A base da comunhão eclesial é a caridade. Tudo na Paróquia deveria ser expressão da caridade: a oração e o louvor de Deus, o anúncio do Evangelho e o testemunho da fé, o amor dos irmãos, sobretudo dos mais fragilizados, os pobres, os doentes, as pessoas idosas, os aflitos. Só a caridade faz com que todos os membros da comunidade convirjam num mesmo objectivo: ser a Igreja de Jesus Cristo. Nunca esquecer que o sacerdote é aquele que preside à caridade.

Aspecto particularmente exigente da comunhão é a aceitação da diferença e da pluralidade de dons e carismas. Muitos Movimentos definem-se como “supra-paroquiais”, mas encontram na Paróquia a sua base de recrutamento e de implantação. Alguns deles aparecem mesmo como modelos alternativos da Igreja com tendência a identificarem a Igreja com o próprio Movimento. Isso gera, por vezes, conflitos e expressões de “não-comunhão”. Um esforço contínuo de conhecimento mútuo e de colaboração na missão comum da Igreja é essencial. Também aí o ministério do sacerdote pode ser decisivo. Surgem problemas quando o sacerdote se identifica com um Movimento ou o privilegia. Ele é o primeiro a ter que reconhecer a variedade dos dons de Deus e a fazê-los convergir para a unidade.

A comunhão com a Diocese, de que são uma parte e uma expressão, é dimensão essencial desta comunhão. paróquias autónomas, como se fossem dioceses, não perceberam a beleza e a exigência da comunhão eclesial. É importante que esta dimensão esteja continuamente presente na formação e na acção pastoral e que acções concretas exprimam esta dimensão da comunhão da Igreja diocesana, que se alarga à comunhão universal. Só a comunhão de fé, de caridade e de solicitude pela missão exprime verdadeiramente a universalidade da Igreja.

Uma comunidade onde todos são corresponsáveis

9. Todos os fiéis são iguais em dignidade na comunidade eclesial e esta é o verdadeiro sujeito da missão. A visão comunial da Igreja, muito acentuada a partir do Concílio Vaticano II, pôs fim a uma visão de Paróquia centrada na pessoa do Pároco, que dita as regras e presta serviços. Mas se ao nível da eclesiologia isso está praticamente adquirido, na prática não é tão fácil: um certo “clericalismo” continua a prevalecer em muitas paróquias. Uma formação específica para os sacerdotes que exercem as funções de Pároco é cada vez mais necessária. O ministério sacerdotal é central, devido à sua importância sacramental, mas isso não exige que tudo se centralize no pároco, anulando o campo de iniciativa e a legítima expressão dos outros fiéis, quer sejam religiosos ou leigos.

São importantes, neste aspecto, os órgãos de corresponsabilidade, como os Conselhos de Pastoral e os Conselhos Económicos. Eles são, em si mesmos, escolas de formação para a corresponsabilidade eclesial de todos os fiéis. Tenho verificado que alguns párocos podem cair num de dois extremos: ou delegam tudo nos leigos, não assumindo a sua missão de presidir à comunhão, ou chamam tudo a si, num autoritarismo que já não tem base, nem teológica, nem canónica, desmobilizando a participação dos leigos.

Os leigos devem ser ajudados a entrar neste dinamismo da comunhão à qual preside o sacerdote, não por ser autoridade, mas por participar no sacerdócio ministerial, serviço específico de um povo sacerdotal. Já o Concílio Vaticano II recomendou: “Os leigos habituem-se a trabalhar na paróquia em estreita união com os seus sacerdotes, trazendo à comunidade da Igreja os seus próprios problemas e os problemas do mundo e todas as questões que dizem respeito à salvação dos homens, para as examinar e resolver, tendo em conta o parecer de todos. Na medida das suas possibilidades darão o seu contributo ao esforço apostólico e missionário da sua família eclesial”[6].

A condução de uma paróquia em ambiente de corresponsabilidade exige que o sacerdote seja verdadeiramente pastor.

Uma comunidade com dinamismo missionário

10. Na sequência da afirmação que a Igreja, comunidade dos fiéis, é o verdadeiro sujeito da missão que Cristo lhe confiou, a Paróquia deve ter, nas suas expressões fundamentais, a evangelização. No que toca aos membros da comunidade paroquial praticante, essa missão está claramente assumida, embora a prática possa ser desigual de paróquia para paróquia. A catequese, a pregação, a preparação para os sacramentos, a Liturgia, são as suas expressões habituais. Esta evangelização interna é primordial pois, como disse Paulo VI na Evangeli Nuntiandi, só uma comunidade evangelizada pode ser evangelizadora.

Mas no que respeita à evangelização dos que andam fora do redil da Igreja, também se aceita teoricamente essa missão, mas são maiores as dificuldades para a concretizar. Entre nós há uma particular sensibilidade à “missão ad gentes”, certamente devido ao glorioso passado missionário das nossas Igrejas. Há paróquias que se geminam com outras dos países considerados tradicionalmente de missão, há experiências de leigos, sobretudo jovens, que partem, por um tempo, pondo-se ao serviço dessas Igrejas e o ofertório anual para as missões é o mais generoso de todos.

Mas como evangelizar os que convivem connosco na mesma cidade? Este foi, é preciso confessá-lo, um dos objectivos do Congresso Internacional para a Nova Evangelização. Do Congresso fez parte uma “missão na cidade”, com participação internacional. Teve lugar um conjunto muito variado de iniciativas de evangelização nos espaços públicos, com a participação de Movimentos e das Paróquias. Este dinamismo permanece. Gerou-se uma nova sensibilidade para actividades de proposta do Evangelho fora dos espaços estritamente eclesiais e um certo número de paróquias têm mantido este dinamismo. O grande desafio destas acções, além da ousadia, é a qualidade.

Mas o campo principal desta evangelização passa pela presença consciente e coerente dos cristãos na cidade, no trabalho, na família, nas organizações da sociedade civil. Levar os cristãos leigos a considerarem isso como uma missão específica. É função da dinamização pastoral mostrar meios de apoio e de formação para esses cristãos cuja missão principal é a presença no mundo. Esta é, actualmente, uma prioridade do nosso Programa Diocesano de Pastoral.

Uma comunidade eucarística

11. A Eucaristia faz e define a Paróquia como comunidade eclesial com todas as características que acabamos de indicar: é momento de formação e de escuta da Palavra, é expressão máxima de comunhão e de unidade na variedade, é experiência de oração e de louvor, exigência de conversão e envio em missão. O dinamismo de uma Paróquia avalia-se pelo modo como celebra a Eucaristia e pelo lugar que esta ocupa na vida da comunidade. É por isso que a pastoral litúrgica é abrangente, inspirando todos os outros sectores da acção pastoral.

A Paróquia como comunidade eucarística descobre e aprofunda a experiência da adoração. Este é um dos frutos já detectáveis da experiência do Congresso: não só aumentou a frequência da Eucaristia durante a semana, como se estão a desenvolver experiências várias de adoração eucarística, incluindo uma de adoração contínua.

A Paróquia atenta à evolução da sociedade

12. Se a Paróquia se define a partir da missão ela evolui espontaneamente ao ritmo das novas exigências e condicionantes da missão. Dados como a relação entre territorialidade e mobilidade, o novo sentido de pertença, a aparente laicização da cidade, interpelam a missão antes de porem em questão as estruturas. Estas precisam de ser continuamente repensadas, porque estão ao serviço da missão, sem precipitações, mas também sem medo. A sintonia entre o ritmo das Paróquias e o da Diocese é prévio a qualquer reestruturação das paróquias. Por isso começámos por uma profunda reestruturação da Cúria Diocesana, articulando-a com a vida real da Diocese que se passa, em grande parte, nas paróquias que temos. Queremos que elas continuem a ser a presença visível da Igreja na cidade, com capacidade de atrair e congregar, de formar na fé, de celebrar bem e de enviar em missão para o meio do mundo; que elas ofereçam aos homens do nosso tempo o sentido e a alegria de se sentirem chamados e enviados, de pertencerem à Igreja de Jesus Cristo.

Desitjo acabar i fer-ho, com vaig començar, en la vostra llengua. I ho faig per invocar ara la intercessió de les vostres advocacions més estimades: Nostra Senyora de la Mercè i el centre neuràlgic de Catalunya, que no és una altra cosa que la “rosa d’abril, la Morena de la serra, l’estel de Montserrat”. De la mateixa manera que la invoqueu en el Virolai, que ella beneeixi els nostres treballs pastorals, augmentant la fe, i que, cada dia més, protegeixii la unitat de l’Església comuna que viu a tota la península ibèrica.

Barcelona, 17 de Janeiro de 2008

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca 


 
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[1] Concílio Vaticano II, Apostolicam Actuositatem, n. 10

[2] In J. POLICARPO, Obras Escolhidas, vol. IX, pg. 42

[3] Ibidem, vol. VIII, pg. 84

[4] Ibidem, pg. 85

[5] In Vida Católica, 21, 2005, pg. 153

[6] Concílio Vaticano II, Apostolicam Actuositatem, n. 10


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