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Comunicação ao Conselho Presbiteral do Patriarcado de Lisboa
26 de Maio de 2015
Comunicação ao Conselho Presbiteral do Patriarcado de Lisboa
Em pleno Ano da Vida Consagrada, dedicamos boa parte da presente sessão do Conselho Presbiteral à partilha sobre essa componente indispensável da Igreja e ao seu modo de acontecer entre nós. Uma partilha tão oportuna como exigente para a Igreja de Lisboa, rumo ao Sínodo que no final de 2016 assinalará o tricentenário do Patriarcado e a sua natureza missionária.
Pois é da missão que sempre se trata, como o Papa Francisco nos lembra e empolga: «O sonho missionário de chegar a todos» (Evangelii Gaudium). A Igreja não subsiste fechada em si mesma, ou na mera conservação do que já tenha ou pense ter… A Igreja, como corpo eclesial de Cristo, participa ativamente, pelo Espírito, na vida e intenção do seu Fundador, sempre para o Pai em ação de graças, sempre para o mundo em Boa Nova anunciada. Quando tal se esquece ou abranda, a Igreja definha; e definhamos nós, como ramos cortados e secos daquela Videira cuja seiva é o Espírito – o Espírito de louvor e missão, precisamente (cf. Jo 15).
Todas as nossas comunidades - famílias, paróquias, institutos religiosos e seculares, associações e movimentos – ou são “missionárias” ou não são verdadeiramente Igreja. E, estando na Europa, não esqueçamos que o nosso continente já foi declarado terra de missão, não apenas aludindo às tradicionais missões populares, mas de novo às missões ad gentes – aliás, não mais difíceis do que a “nova evangelização” que temos por diante. Digo “de novo”, porque o Evangelho não nasceu na Europa e foi para cá trazido pelos primeiros missionários cristãos. Refiro a dificuldade acrescida da “nova evangelização”, pois se trata de reapresentar o Evangelho a quem já o esqueceu, ou tem dele uma ideia obscurecida ou deturpada.
E digo missão ad gentes, pois disso mesmo nos temos de convencer, fixando bem o que São João Paulo II referiu, numa passagem paradigmática: «A Europa faz parte já daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além duma nova evangelização, se requer em determinados casos a primeira evangelização. A Igreja não pode subtrair-se ao dever dum corajoso diagnóstico, que lhe permita predispor as terapias mais oportunas. Mesmo no “velho” continente, existem extensas áreas culturais, onde se torna necessária uma verdadeira e própria missio ad gentes» (Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, 46, citando Redemptoris Missio, 37).

No Patriarcado, são vários os Institutos religiosos e seculares de múltipla incidência ativa ou/e contemplativa, alguns deles vocacionados para a missio ad gentes em terras de além-mar. Estes últimos ativam entre nós o que tanto caraterizou Lisboa noutros tempos e até ocasionou o seu título patriarcal (cf. bula de Clemente XI, 7 de novembro de 1716). De Santo António de Lisboa, que se fez franciscano para partir para Marrocos, a São João de Brito, que missionou na Índia, ou a tantos e tantas que daqui partiram e continuam a partir, todos nos lembram que «o campo é o mundo», como na irrecusável sementeira evangélica. Assim foi, assim é e assim há de ser.
Esta tradição viva, tem hoje outros componentes, dada a facilidade de comunicações e transportes. Todos os anos partem voluntários para várias partes, que regressam depois e animam as suas comunidades daqui com o espírito e a experiência que ganharam. E este envolvimento mais largo na missão faz crescer as nossas comunidades em fecunda geminação com outras mais distantes, num vai vem salutar.
Aliás, o facto de várias das nossas paróquias estarem confiadas a sacerdotes religiosos e missionários – de missões ad gentes ou populares, no sentido clássico dos termos –  aviventa nas vigararias e na diocese inteira esta dimensão essencial do ser Igreja, tão presente nas primeiras comunidades cristãs.

Como sabemos, a Padroeira universal das missões é uma jovem religiosa francesa que não “saiu” fisicamente do seu mosteiro – Santa Teresa do Menino Jesus. Esta realidade é muito de reter, para compreendermos o significado da vida consagrada, também entre nós e no tempo que vivemos: «Longe ou perto, o necessário / é mostrar Cristo presente!», canta o hino sinodal de Lisboa.
A Igreja é missionária no seu todo, começando por sê-lo no próprio coração - nesse “lugar” a que Jesus nos remeteu, em conversão e propósito. Daí que a força e a eficácia da missão, seja onde for, se garantam pela disponibilidade total para o que Deus queira, quando queira e como queira. E a vida consagrada tem esse sentido principal, de levar o batismo à sua raiz, renascendo de Deus e para Deus, como único absoluto e universal vontade. 
É ainda São João Paulo II a dizer, falando da Europa e para a Europa – partindo, ficando ou voltando - em quatro dimensões essenciais: «O contributo específico que as pessoas consagradas podem oferecer ao Evangelho da esperança tem como ponto de partida alguns aspetos que caraterizam a atual fisionomia cultural e social da Europa. Assim, a busca de novas formas de espiritualidade, que hoje surge na sociedade, deve encontrar uma resposta no reconhecimento do primado absoluto de Deus, vivido pelos consagrados através da sua doação total e da conversão permanente duma existência oferecida como verdadeiro culto espiritual. […] Por outro lado, na situação pluricultural e plurirreligiosa de hoje, urge o testemunho da fraternidade evangélica que carateriza a vida consagrada, fazendo dela um estímulo para a purificação e a integração de valores diversos através da superação dos contrastes. A presença de novas formas de pobreza e marginalização deve suscitar a criatividade no cuidado pelos mais necessitados, que caraterizou muitos fundadores de institutos religiosos. Por último, uma certa tendência a fechar-se sobre si mesmo precisa de encontrar um antídoto na disponibilidade das pessoas consagradas a continuarem a obra de evangelização noutros continentes, apesar da diminuição numérica que se verifica em vários Institutos» (Ecclesia in Europa, 38).
Primado de Deus, fraternidade evangélica, cuidado dos mais necessitados, saída evangelizadora: quatro notas eclesiais que a vida consagrada assinala e promove. Cuidemos nós dela no Patriarcado, agradecendo-a, encaminhando-lhe vocações e integrando-a plenamente na vida eclesial, que é igualmente sua.                    

Lisboa, 26 de maio de 2015
+ Manuel, Cardeal-Patriarca

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