Início
Voluntariado no hospital: Igreja convida a olhar a perspectiva humana dos doentes
16 de Fevereiro de 2011
Voluntariado no hospital: Igreja convida a olhar a perspectiva humana dos doentes
Sabia que a Igreja assegura todo o trabalho de voluntariado num dos maiores hospitais do país? Por ocasião do Dia Mundial do Doente, fomos conhecer a missão da Capelania do Hospital Amadora-Sintra, em Lisboa.

Odete Sabino, de 62 anos, é da paróquia de São Brás, na Amadora, e é voluntária no Hospital Amadora-Sintra desde há 11 anos. “Quando me reformei, vim logo aqui para o hospital fazer voluntariado. Foi uma coisa que eu sempre quis fazer, mesmo sem saber muito bem onde concretizar”, conta à VOZ DA VERDADE. Diz que não sabia que o Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca – vulgarmente conhecido por Hospital Amadora-Sintra – tinha voluntariado, mas assim que tomou conhecimento sentiu-se chamada a ir ter com os doentes e a dar um pouco do seu tempo.

De há uns tempos a esta parte, Odete é também coordenadora do voluntariado desta unidade hospitalar. Mas o que mais a entusiasma é mesmo o contacto com os doentes. “Acompanho os doentes do serviço de internamento e dos vários serviços do hospital. Fazemos a visita e damos uma ajuda na alimentação aos doentes”.

Odete vai ao Hospital Amadora-Sintra duas vezes por semana. Variam os dias, mas não a disponibilidade, a entrega e a dedicação. “Acima de tudo procuro dar conforto, fazer companhia e afastar um pouco a solidão em que os doentes vivem”. A solidão, segundo conta, “sente-se mais naqueles que estão numa fase terminal, porque os familiares nem sempre podem estar presentes”.

Da sua missão com os doentes, Odete Sabino gosta de salientar a entrega. “O voluntariado tem muito a ver com a pessoa, com aquilo que queremos dar. Os doentes falam muito da sua vida, principalmente os mais idosos. As horas aqui no hospital são muito longas. Os dias são grandes. E os doentes gostam de relembrar a sua vida, mas também os seus problemas e a solidão que sentem”.

 

Voluntariado entregue à Igreja

Nos últimos anos, o rosto do voluntariado tem mudado no Hospital Amadora-Sintra. À VOZ DA VERDADE, o capelão conta que a capelania desta unidade hospitalar tem uma particularidade: tem voluntariado social e ao mesmo tempo religioso. Mas nem sempre foi assim. “O voluntariado surgiu neste hospital ligado à capelania, pelo anterior capelão, padre Duarte Jorge. Na época, tinha uma componente estritamente religiosa, de apoio espiritual. Tinha os ministros da comunhão e os visitadores”, conta o padre Carlos Manso Fernandes. Anos mais tarde, alguns serviços do hospital, como o de oncologia, começam a pedir voluntários com uma dimensão mais social, que ajudassem sobretudo na alimentação dos doentes. A Igreja responde novamente de forma afirmativa. “Hoje, todo o voluntariado do Hospital Amadora-Sintra está ligado à capelania e tem uma vertente religiosa, mas tem sobretudo uma vertente social”, salienta o capelão.

O padre Carlos Manso Fernandes, que é também vigário paroquial (coadjutor) da paróquia da Póvoa de Santo Adrião, pertence à Congregação dos Padres Monfortinos, fundada por São Luís Maria de Montfort (1673-1716), santo que viveu na Bretanha, em França, e que dedicou toda a sua vida às missões populares. Segundo o padre Carlos, São Luís Maria de Montfort “passou também muitos anos nos hospitais, acompanhando os doentes em Poitiers”. Também por isso, foi com entusiasmo que, no ano 2000, o padre Carlos aceita o convite do então bispo auxiliar de Lisboa D. José Alves para assumir a capelania do Amadora-Sintra. Já em Castro Verde, onde esteve oito anos como pároco, o padre Carlos Manso Fernandes tinha tido o primeiro contacto com o mundo hospitalar, uma vez que foi capelão do centro de saúde, que na época era o hospital concelhio.

“Quando cheguei ao Amadora-Sintra, já tinha alguma experiência de falar com os doentes e com os profissionais de saúde. Mas o desafio era e é muito grande. Este é um outro mundo. O hospital é enorme, tem mais de 800 camas…”.

 

Ser voluntário no Amadora-Sintra

O grupo de voluntários no Hospital Amadora-Sintra conta actualmente com cerca de 80 elementos. Alguns estão na casa dos 30 anos, mas a predominância é a faixa etária dos 60. “Sentimos que com as pessoas a reformarem-se mais cedo, há muita vontade de ajudar os doentes”, destaca o capelão.

Na opinião do padre Carlos, o voluntariado tem de ser entendido de uma forma profissional. “Uma das características de quem se compromete tem de ser a assiduidade. Quem vem, tem de dar o equivalente a um dia útil por semana: sensivelmente das 10 horas da manhã, até meio da tarde”. A cada voluntário é prestada formação específica. “Há um rigor na triagem dos voluntários. As pessoas devem amadurecer a vontade que têm de ser voluntárias”, sublinha o capelão, responsável pelo voluntariado.

O credo de cada um não é factor de selecção, segundo explica o capelão. “Temos voluntários católicos, outros que não são católicos e temos também evangélicos. Todos são muito úteis porque dão o apoio humano e muitas vezes até apoio espiritual, sem entrar naquela piedade popular a que muitos católicos estão habituados a lidar quando se fala de hospitais”.

No Amadora-Sintra, os voluntários começam a missão de voluntariado nos internamentos. “É muito importante começar pelos internamentos porque é nesse espaço que mais encontramos os doentes”. Depois, tendo em conta o perfil psicológico e a idade do voluntário, podem ser convidados para outro tipo de serviços, seja nas urgências ou no ambulatório.

O grupo de voluntários tem a escala de serviços perfeitamente delineada. “Quem vem para o voluntariado deste hospital tem a sua missão perfeitamente definida. Tudo é feito em harmonia com a direcção hospitalar”, garante o capelão do Hospital Amadora-Sintra, padre Carlos Manso Fernandes.

 

A presença da Igreja nos hospitais

Para o capelão do Hospital Amadora-Sintra, é fundamental a presença da Igreja nos hospitais. “Todo o ser humano tem uma espiritualidade. E hoje nota-se que os doentes estão carentes da espiritualidade”, assegura.

A espiritualidade, para este responsável, assume diversas formas. “Há uma espiritualidade natural, em que as pessoas querem falar, desabafar, querem muitas vezes até encontrar momentos de silêncio com alguém que os compreenda; mas há também toda uma espiritualidade mais cristã, que é mais sacramental e também mais orante”, sublinha o padre Carlos Manso Fernandes.

Dos anos que percorre os corredores do hospital, o padre Carlos garante que são muitos os doentes que pedem assistência religiosa. “A nossa missão aqui no Hospital Amadora-Sintra não se acaba nunca. A presença da Igreja será sempre importantíssima!”.

 

 

Dia Mundial do Doente desafia os cristãos a acompanharem os doentes

Partindo da sugestão do Papa, a Comissão Nacional da Pastoral da Saúde propôs para o Dia Mundial do Doente de 2011 o slogan ‘Acompanhar o doente, um desafio para o cristão’. Na sua mensagem para este dia, Bento XVI pede que nenhum doente seja “esquecido ou marginalizado” por causa da sua situação, destacando a importância de compreender o sofrimento. “Se cada homem é nosso irmão, tanto mais o fraco, aquele que sofre e aquele que precisa de cuidados no campo da saúde deve estar no centro da nossa atenção, para que nenhum deles se sinta esquecido ou marginalizado”, escreveu o Papa. O padre Carlos Manso Fernandes aponta o sofrimento como sendo libertador e salvador. “Na sua mensagem, o Papa fala do sofrimento, mas do sofrimento libertador e salvador. Isto é muito importante porque há muitas vezes na Igreja uma concepção de olhar para os doentes como os ‘coitados’. Ao olharmos para os doentes, temos de olhar para a perspectiva humana. A nossa missão passa também por ajudar as pessoas a ultrapassar o sofrimento e a reencontrarem-se consigo próprias”.

No documento, o Santo Padre dirige ainda uma saudação aos que se dedicam “a cuidar e a aliviar as chagas de cada irmão ou irmã doentes, nos hospitais ou casa de cura, nas famílias”. “Nos rostos dos doentes, sabei ver sempre o rosto dos rostos: o de Cristo”, apela o Papa.

O Dia Mundial do Doente é celebrado anualmente pela Igreja Católica a 11 de Fevereiro, memória litúrgica da Virgem de Lourdes (França).

 

 

“Ano Europeu do Voluntariado é um desafio”

Para o capelão do Hospital Amadora-Sintra, o Ano Europeu do Voluntariado 2011 é um desafio. “É importante este ano dedicado ao voluntariado porque ajuda os cidadãos a tomarem consciência da necessidade de se comprometerem no voluntariado. Seja o voluntariado que for!”, salienta o padre Carlos Manso Fernandes.

Para este responsável, o ano especialmente dedicado ao voluntariado “pode também ajudar a um despertar do voluntariado hospitalar” que, na sua opinião, é um voluntariado nada fácil: “Eu costumo dizer que todos podemos ser voluntários, mas nem todos temos perfil para realizar esse trabalho num hospital. No hospital lidamos com muitas pessoas. Nas enfermarias há pessoas com diferentes concepções de vida e o voluntário tem de se adaptar a todos aqueles que encontra”.


ORGANOGRAMA DA CÚRIA
© 2020 - Patriarcado de Lisboa. Todos os direitos reservados.