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Comunicação do Cardeal-Patriarca no Sínodo dos Bispos
01 de Outubro de 2001
Comunicação do Cardeal-Patriarca no Sínodo dos Bispos

Sínodo dos Bispos 2001

O Diálogo, fonte de Esperança

A Esperança do Diálogo



Comunicação do Cardeal-Patriarca de Lisboa

        1. A minha intervenção, a título pessoal, relaciona-se com os n.os 129-131 do Instrumentum Laboris* e inspira-se na Relatio ante disceptationem*, em que se afirma que o diálogo é o último dos desafios que interpelam nesta hora, o ministério dos Bispos. Todos nós o sentimos no dia-a-dia da nossa missão pastoral. Todos esperam de nós uma atitude dialogante que seja compreensível e acolhedora.
   A primeira dificuldade que se nos depara é a noção cultural e sociológica do diálogo. Valor da convivência democrática, o diálogo parte do reconhecimento da liberdade individual e do direito à diferença no modo de pensar, viver e conceber a verdade.
    Nesta óptica, o diálogo significa o reconhecimento dos outros e das suas diferenças e supõe uma aproximação das partes em ordem à convivência social. O diálogo aconselha a amortecer a rigidez das nossas posições, a dispor-se a fazer concessões em nome da concórdia. É em virtude desta concepção do diálogo que a Igreja é frequentemente acusada de rigidez doutrinal.

    2. Para compreender o diálogo como uma parte integrante da nossa missão, devemos partir de uma perspectiva teologal: a primeira concretização do diálogo é a escuta; acolher é com efeito escutar o outro e, para um crente, esta escuta é antes de mais, a escuta da Palavra de Deus. Jesus deu-nos o testemunho acerca d'Ele mesmo: o que vos digo, escutei-o de meu Pai. Escutar o Senhor é pois o fundamento de todo o diálogo. A Palavra abre-nos o horizonte mais profundo da verdade, e ensina-nos que a verdade e a caridade são uma só coisa. Há coincidência entre a "agapê" (caridade) e a "alitheia" (verdade); não é necessário afastar-se da verdade para amar, pelo contrário, a verdade recebida do Senhor leva-nos a um amor mais radical e mais verdadeiro.
    A oração, enquanto escuta de Deus, revela-se como o ponto de partida autêntico de todo o diálogo. É escutando Deus que escuto e compreendo os outros no amor.

    3. O sujeito central deste diálogo é a Igreja, enquanto "pessoa-mística" e não cada um de nós individualmente. É a Igreja que ao longo dos séculos, escutou a Palavra do seu Senhor. É por isso que cada um de nós, ao preparar-se para o diálogo, deve escutar continuamente os Padres da Igreja, os Bispos que nos precederam, muitos dos quais sacrificaram a sua vida por esta verdade que escutaram.
    Colegialidade e comunhão exprimem-se também nesta escuta contínua do magistério da Igreja, do Santo Padre, dos nossos irmãos no episcopado. Que riqueza e que alegria poder escutar permanentemente a palavra dos nossos irmãos e das conferências episcopais que anunciam a mesma verdade em circunstâncias tão diversas e que os media hoje nos tornam possível. A unidade da Igreja, unidade na verdade e na caridade exprime-se sempre no nosso diálogo.

    4. Fortalecidos pela escuta do Senhor e da Igreja, podemos percorrer todos os caminhos de diálogo, sempre certos da unidade do amor e da verdade. A concretização fundamental do diálogo continua a ser a nossa capacidade de acolher e de escutar.
    Escutar os pobres, os jovens, os casais, os que vivem na angústia e não encontram resposta para os seus sofrimentos e dúvidas. Quantas vezes nos encontramos como Pedro não podendo dar-lhes o que nos pedem, mas tendo a coragem de anunciar o que temos verdadeiramente para lhes dar: a Boa Nova que Deus os ama em Jesus Cristo. O verdadeiro diálogo deve ser, da nossa parte, o testemunho da nossa fé e da nossa coerência.
    Ninguém fica excluído desta atitude acolhedora: cada um na sua cultura, na sua crença ou descrença, nos seus erros e na sua partilha da verdade, sejamos peregrinos com todos aqueles que querem percorrer connosco os caminhos da vida, da justiça e da paz e não escondamos a ninguém que connosco, como companheiro de viagem, vai o Senhor que não posso esquecer ou pôr de lado em nome do diálogo com quem quer que seja.


Cardeal José da Cruz Policarpo - Patriarca de Lisboa


* Documentos preparatórios do Sínodo (em Latim)


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