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Encontro do Cardeal-Patriarca com a Comunicação Social
30 de Outubro de 2001
Encontro do Cardeal-Patriarca com a Comunicação Social

ENCONTRO DO CARDEAL PATRIARCA COM A COMUNICAÇÃO SOCIAL

NO INÍCIO DO ANO PASTORAL DE 2001-2002

    1. O início de um novo ano pastoral foi marcado em toda a Igreja e, consequentemente, também no Patriarcado de Lisboa, por três ordens de acontecimentos, diversos entre si, mas que se podem iluminar mutuamente:

  • A Carta Apostólica de João Paulo II, "Novo Millennio Ineunte", que enuncia os grandes desafios que se apresentam à Igreja neste início de novo milénio. A nossa programação inspira-se nesse documento.

  • A X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em Roma, convocada para reflectir sobre o tema "O Bispo servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo".

  • A nova situação internacional, despoletada pelos dramáticos acontecimentos de 11 de Setembro nos Estados Unidos da América, abrindo subitamente, no contexto da globalização em curso, um novo contexto nas relações internacionais e no futuro da humanidade.

    2. Como disse, a simultaneidade destes acontecimentos, torna inevitável que se interpenetrem, iluminando-se mutuamente, em ordem a inspirar a acção pastoral da Igreja. O Sínodo foi convocado, tendo em conta que o início do milénio constitui "um momento novo da história humana" que "põe no centro da consciência mundial um futuro a construir e, por isso, o tema da esperança" (Instrumentum Laboris, n.1). Estas afirmações ganharam uma densidade nova, com os acontecimentos do dia 11 de Setembro. O futuro novo a construir assume a densidade dramática de uma mudança de rumo da história e a esperança, se se tornou mais necessária e inevitável, tornou-se mais difícil e exigente.
    O entrecruzar-se destes dois acontecimentos sentiu-se vivamente no ambiente sinodal. A preocupação palpável no rosto do Papa, a presença do Cardeal Arcebispo de Nova York, em relevo porque era o relator principal deste Sínodo e que, por duas vezes, abandonou os trabalhos, para estar com a sua Igreja, em tempos difíceis; a presença do Bispo de Karachi, no Paquistão, que abandonou os trabalhos, logo no início, para estar com a sua comunidade; a visita inesperada ao Papa do pai do Presidente Bush, o ex-Presidente George Bush, que o Papa recebeu na própria sala do Sínodo no intervalo da manhã e a que fez uma referência imediata na Aula Sinodal; a densidade da comemoração do dia 11 de Outubro, em que o Sínodo se transformou, por momentos, em assembleia de oração densa e confiante; o início das actividades militares no Afeganistão e os contínuos apelos do Papa à paz, uma paz que respeite a justiça.
    E como pano de fundo o tema que nos reunira: "O Bispo servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo". O tema surgira numa consequência lógica das últimas assembleias ordinárias, no contexto do desafio da nova evangelização: a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo, em 1987; a formação dos sacerdotes, em 1990; a vida consagrada, em 1994. Para um novo anúncio do Evangelho da esperança, a reflexão sobre o ministério do Bispo tinha o sabor de uma síntese e de um clímax a atingir, dada a relevância desse ministério no ser e no acontecer da Igreja. Anunciar a um mundo agitado pela surpresa dos acontecimentos, que Jesus Cristo e o seu Evangelho são a mais válida e definitiva fonte de esperança, não depende só dos Bispos, pois é missão de toda a Igreja, mas a missão dos Bispos é decisiva, na medida em que lhes compete ir à frente, como pastores, conduzindo corajosamente a Igreja pelos caminhos do amor e da fraternidade, alicerçados na fé e na certeza de que o Espírito de Deus nos acompanha, não se limitando a falar da esperança, mas a serem, no meio dos sofrimentos da família humana, testemunhas vivas da esperança.
    Deixai que vos confesse que aquela assembleia foi, para mim, o primeiro sinal vivo de esperança e confiança. Bispos de todo o mundo, pastores das Igrejas de Cristo em todas as latitudes geográficas e culturais, que se apresentam fortes na comunhão que os une, fiéis crentes como qualquer fiel das suas comunidades, humildes na renúncia a grandezas e poderes, dispostos a dar a vida e a procurar apenas a melhor maneira de servir. Eles eram ali testemunhas de outras tantas Igrejas, inseridas na complexidade da realidade humana actual, certamente com os seus pecados e limites, mas determinados a viver em comunhão com Deus e com os irmãos, a construir a justiça, a dar prioridade absoluta a quem sofre, independentemente da sua raça ou credo, a proclamar corajosamente a verdade que liberta, que abre clareiras de luz para os caminhos da construção de uma nova harmonia mundial.
    Das inúmeras intervenções na Assembleia Sinodal, ressaltavam imagens fortes, inspiradas no Evangelho, dos pastores que Deus pôs hoje a guiar as Igrejas: o pastor solícito pela sorte dos seus fiéis, o guardião vigilante, o pai, o irmão, o amigo, o consolador, o servo, o mestre, o homem forte, sacramento da bondade de Deus. Como sintetizou o relator principal, o já referido Card. Arcebispo de Nova York, trata-se de imagens que apresentam o Bispo como homem de fé e de visão, homem de esperança e homem de luta, homem de mansidão e de comunhão.
    Neste nosso mundo em convulsão, a Igreja de Cristo presente em toda a parte, pode ser apenas um fermento e uma semente, mas que é sinal de esperança de que um mundo novo ainda é possível. Senti que a Igreja não se limita a falar da esperança. A sua realidade, no mundo de hoje, é já um sinal de esperança.

    3. Porque o mundo, devido aos acontecimentos referidos, se tornou tremendamente concreto nestes dias, o anúncio da esperança é empenhativo e comprometedor. O Sínodo teve, permanentemente, como pano de fundo, essa realidade concreta do nosso mundo. E a pergunta surgia no coração de cada um de nós: o que é anunciar a esperança? Que lugar há para a esperança? A sua porta de entrada pode estar nas rupturas provocadas pelos acontecimentos, que se podem transformar em aberturas para a mensagem da esperança.
    Nas análises de reacção aos acontecimentos que me foi possível seguir durante este mês, detecto três linhas de força, sem pretensão de ser completo e, muito menos, exaustivo.
    A primeira é a que situa os acontecimentos no contexto da globalização da pobreza, acabando com a visão bipolar do mundo, entre países desenvolvidos e países não desenvolvidos, em que as regras da convivência são as da inter-relação funcional entre estes dois universos. Pareceu-me particularmente significativo o resumo que nos foi distribuído de uma conferência do Presidente do Banco Mundial, o Sr. James Wolfensohn, na Assembleia Geral da Sociedade Inter-Americana de Imprensa, em Washington.
    A sua tese é de que esse mundo bipolar acabou, o mundo é só um, onde a pobreza de uns acaba por ser problema de todos, porque a pobreza num lugar começou a ser exportada, sob a forma de violência, para todos os lados. "Os dois mundos desapareceram. Hoje há só um mundo. E na comunidade internacional, devemos preparar-nos para ser cidadão globais e preparar os nossos filhos para serem cidadãos globais, num mundo que será muito menos bipolar do que o mundo em que vivemos agora". "Quem acreditava que havia uma parede entre estes dois mundos, penso que agora já crê que, simbólica e realmente, essa parede se desmoronou. Para mim isso significa uma mudança enorme em termos de interdependência global e do papel da instituição a que presido, e muito para além dela, da forma de pensarmos o desenvolvimento". Temos de nos habituar a pensar para além dessa parede, a pensar globalmente. Para nós Ocidentais isso obriga-nos a perceber que já não vivemos protegidos, numa cultural Ocidental, mas numa cultura global.
    A sua conclusão é clara: o 11 de Setembro tornou evidente para todos, que "o tema da desigualdade entre os ricos e os pobres não é um tema que se possa continuar a evitar; talvez a nossa geração ainda o consiga fazer, mas a dos nossos filhos não conseguirá". Há um dado novo que ressalta destes acontecimentos: a pobreza globalizou-se e começou a ser problema também para os ricos, pois quando não há soluções válidas, ela é exportada como violência. "Enquanto existir pobreza, os ricos não terão paz".
    Esta mensagem é carregada de interpelações aos que pensam e decidem o ritmo do desenvolvimento económico mundial. Estas interpelações vêm ao encontro da doutrina social da Igreja, e das corajosas intervenções de João Paulo II. A partir deste Sínodo vai, com certeza, ser uma linha de força contínua da missão dos Bispos em todo o mundo. O mundo vai mudar, o mundo começou a mudar, embora não se conheçam os difíceis caminhos desse percurso. Ainda estamos a tempo de essa mudança ser fruto da escolha de um caminho novo; se isso não acontecer, essa mudança será o fruto final de um sofrimento colectivo, que ainda se pode evitar ou mitigar.

    Uma segunda linha de força das reacções é a que tenta situar os acontecimentos no contexto de um confronto entre religiões, entre o islamismo e o ocidente cristão. Sem deixar de ter o seu fundo de objectividade, é perigosa esta grelha de análise, sobretudo se for exclusiva. Permito-me referir algumas coordenadas a exigir particular ponderação de todos nós: antes de mais, a identificação feita pela corrente fundamentalista do Islão, entre o Ocidente e a Cristandade. Sabemos da importância do cristianismo no caldear das civilizações ocidentais, mas também da importância que a laicidade adquiriu no evoluir da cultura ocidental; por outro lado, esta crise tem feito vir ao de cima as clivagens existentes entre o Islão, as suas correntes teológicas interpretativas do Corão, as suas seitas, as leituras mais religiosas ou mais políticas da fé. Em artigos de opinião surgidos do universo islâmico, essas clivagens são evidenciadas, o próprio Bin Laden é denunciado como querendo ser o novo profeta Maomé, presidindo a um Islão dominador do mundo de amanhã; é também de sublinhar a sensatez das reacções, que vão desde o Santo Padre ao Presidente Bush, de não confundir o Islão com esta imagem de terror. O Papa tem reafirmado que nenhuma religião pode ser factor de violência. Estive igualmente atento ao surgir de um dado, que não sendo novo, apareceu neste contexto com insistência peculiar: o falar de nação islâmica, congregando numa única nação, com um projecto único, todos os que, no contexto actual, seguem essa religião, relativisando os Estados e os respectivos líderes políticos.
    Perante estes dados, a reacção da Igreja é a de continuar a promover o diálogo inter-religioso, o serviço de toda a pessoa humana na sua dignidade, a de não cerrar fileiras num "ocidente cristão" que se defende, porque hoje - e essa é a diferença em relação à época das cruzadas - a zona de implantação do cristianismo é o mundo, mesmo que seja apenas como semente de esperança. Os nossos irmãos muçulmanos sabem que os cristãos estarão a seu lado nas verdadeiras lutas pela dignidade da pessoa humana, sobretudo pela dignidade da mulher - acredito que a mulher muçulmana terá uma palavra importante a dizer neste caldear de uma nova ordem mundial. Mas também esperamos deles sinais de esperança, sinais de respeito pela liberdade de consciência, pela liberdade cultural e religiosa.
    Uma terceira via de reacção, foi a do ateísmo militante e agressivo em ordem ao fenómeno religioso. Perante acontecimentos dramáticos, dizem-nos: eis o resultado das religiões. Todas elas são violentas, o pior mal que aconteceu à humanidade. Foram vozes isoladas, é certo, mas chocantes num contexto de grande densidade existencial. Chocou-me a perspectiva cultural dessas reacções. Claro que não posso esperar de um ateu que introduza a dimensão religiosa como elemento constitutivo de uma orientação e de um sentido. Mas tenho o direito de esperar que homens de cultura reconheçam que a maior parte da cultura da humanidade, desde os mais remotos tempos, foi inspirada pelas diversas religiões. Sem as religiões, a história cultural da humanidade esvanecer-se-ia no vácuo. A fé religiosa inspirou as mais significativas expressões da beleza ao longo da história. E como se pode esquecer a força inspiradora de amor fraterno, dedicação ao próximo que sofre, que a fé religiosa, de modo particular a fé cristã, foi ao longo dos séculos? Não, a lição a tirar destes acontecimentos não pode ser um convite ao ateísmo ou agnosticismo generalizados, como fonte inspiradora de valores. Deus, procurado na humildade da nossa fé, no reconhecimento das nossas fraquezas, pessoais e colectivas, é a única fonte sólida para a esperança da humanidade.

    Servos do Evangelho, nós os Bispos somos chamados a ser profetas da esperança, pela nossa fidelidade ao Evangelho de Jesus, acreditado na unidade da Igreja e pela nossa determinação de servos e discípulos, sermos pastores solícitos e condutores intrépidos do Povo que o Senhor nos confiou, mas atentos e decididos ainda, num momento em que pairam tantas incertezas sobre o destino da humanidade. Aquele "fazei-vos ao largo" da Carta Apostólica de João Paulo II é, afinal, o desafio a que enfrentemos, com uma determinação renovada, neste nosso mundo que começou apenas a gestação de um tempo novo.


    Mosteiro de S. Vicente de Fora, 30 de Outubro de 2001

† JOSÉ, Cardeal Patriarca


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