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DOCUMENTOS

21 de Outubro de 2008

Conferência do Cardeal-Patriarca na Fundação Calouste Gulbenkian

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“Literatura e o drama da Palavra”

 

Conferência na Fundação Calouste Gulbenkian

Lisboa, 21 de Outubro de 2008

 

1. Nunca me tinha sido feita uma proposta tão aberta e tão pouco definida, como a que recebi da Fundação Calouste Gulbenkian para proferir esta Conferência. Certamente por isso a recusa apareceu-me como resposta plausível e, pensava eu, fácil de ser aceite. Não foi assim: percebi que, mais do que escutar-me sobre um tema concreto, num âmbito em que não sou especialista, queriam ouvir-me na minha experiência de relação com a Palavra, simpatia que me comoveu e agradeço. Isso colocou-me perante o desafio, de há muito aceite, sempre relegado para o âmbito íntimo da privacidade pessoal: lançar o olhar sobre uma vida já longa, construção árdua de uma liberdade, no labirinto complexo de modelos feitos, palavras apodícticas, simbólicas sugestivas, mas indefinidas, assumindo sempre a responsabilidade de construir a própria vida, sem negar nenhum desafio, mas com dificuldade em imitar fosse quem fosse; e reconhecer que nessa aventura da liberdade, a palavra foi elemento decisivo, tantas vezes dramática, mas também sugestiva e iluminadora, abrindo caminhos à minha descoberta da vida, tantas vezes não explicitamente pensados na mensagem de quem falou ou escreveu. A partir da palavra dos outros, aquela que trazia luz ao meu caminhar era pronunciada por mim. Na construção de uma vida, a palavra reveste-se da densidade do drama, em que o leitor ou ouvinte é protagonista central.

Aceito balbuciar convosco alguns tópicos desse drama: faço-o com pudor e humildade, na certeza de que a última palavra, mesmo que já tenha sido pronunciada, ainda não foi por mim completamente escutada. Como diz o P. José Tolentino Mendonça, a propósito dos diversos sentidos para que abre a leitura do texto bíblico, “O paraíso é o endereço perene da leitura”[1].

E as suas portas abrir-se-ão para nós ao escutarmos atentamente a Palavra.

2. No horizonte da memória da minha vida procurada por mim, como experiência de vida pessoal, nas primeiras etapas não descortino nenhum papel significativo da leitura. Foi o tempo dos modelos vivos de pessoas que me marcaram. De alguns, recordo que desejava ser como eles. Esse é o perigo da influência marcante de personagens cuja vida nos atrai: fazer da vida uma imitação. Só mais tarde, conceptualizei que a vida também é palavra e que as mais belas expressões da liberdade e da generosidade são o fruto fecundo da palavra escutada.

Este risco da imitação bem depressa foi relativizado pelo confronto com pessoas “não-modelo”, ou mesmo “anti-modelo”, o que me obrigou a sujeitar à crítica do meu caminho pessoal todos os modelos com que me confrontava, e a encontrar outros, o mais variados possível, o que só a literatura me proporcionava. Foi uma experiência nova confrontar-me com modelos que não conhecia, que me atraíam ou que rejeitava só pelo que escreviam. Se o facto de não os conhecer me deixava maior liberdade para acolher a sua palavra, como desafio à liberdade, ficava-me a interrogação de saber se o que escreviam era um testemunho, uma intuição ou desejo, ou uma teoria sobre a vida.

De qualquer modo, o confronto com “modelos” e “não modelos”, levou-me a uma interrogação sobre a minha vida já vivida e aquela que procurava dramaticamente descobrir e construir. Confrontei-me com questões fundamentais sobre o sentido da vida, entre as quais a da existência de Deus ganhou uma centralidade inevitável, porque decisiva. Procurei respostas na literatura, mais do que em modelos vivos de pessoas que conhecia. Mais tarde, vim a perceber que estes dois caminhos de procura de respostas se entrecruzam inevitavelmente e se iluminam mutuamente.

3. No que à existência de Deus dizia respeito procurava afincadamente uma convicção racionalmente fundada. Li autores que procuravam demonstrar racionalmente a existência de Deus, comentando as vias tomistas para o conhecimento natural de Deus; basculhei autores que questionavam a existência de Deus, de Marx a Camus. Mas se os argumentos da razão não conseguiam dar-me força para comprometer a vida com Deus, a negação de Deus em nome da grandeza do homem e a história concebida sem o desafio da transcendência mergulhavam-me numa dolorosa sensação de vazio e de ausência de sentido. Ainda não tinha percebido que “Deus não é prisioneiro de nenhum tipo de conhecimento ou de sabedoria”[2]. Deus só se torna o absoluto da nossa vida pela fé, e esta nasce da escuta de uma Palavra eterna, que brota do próprio coração de Deus. Ajudou-me a encontrar a luz nesses tempos de busca dramática da palavra, uma página da história do Profeta Elias, que devorado pela atracção de Deus, mas em crise de fé devido à descrença do seu povo, entra numa gruta e luta, em silêncio, com o seu drama. Escuta a natureza, a veemência do trovão, a insegurança do terramoto, a força do fogo, o suave ruído de uma brisa ligeira. E é nessa paz tranquila da brisa, que lhe pacificou o coração, que ele reconhece a presença do Deus vivo (cf. 1Re. 19,9ss). Lembro-me que a paisagem bucólica de uma várzea povoada de choupos verdejantes, horizonte da casa de meus pais, me trazia essa serenidade, certamente sentimento acolhedor para a escuta da Palavra de um Deus presente e amoroso, mesmo quando duvidamos ou O negamos.

Talvez isso me tenha levado a ler autores que diziam encontrar Deus contemplando a beleza e a harmonia do Universo. Ainda hoje estou grato a Thiamertot ou mesmo a Fulton Sheen. O Universo aparecia-me marcado por um Deus belo, harmonioso e omnipotente. Era um Deus pacífico e pacificador, que se afirmava pela marca da Sua beleza no Universo criado, que não precisava dos meus argumentos para existir e de tal maneira presente que exorcizava qualquer tentativa de negação. É-me grato recordar ainda um livro que foi como a cereja no bolo desta busca de uma palavra que me pacificasse o coração. Refiro-me ao “Le Petit Prince” de Saint-Exupéry. Com ele percebi que é preciso deixar-se cativar, “se laisser aprivoiser” e que o segredo da verdade passa pelo nosso coração.

4. Esta etapa que referi e me levou a perscrutar a palavra em tantos escritores, desaguou numa grande serenidade. Tinha percebido, como Elias, que é na suavidade da brisa, que se escuta a palavra reveladora. Reorientei a direcção das minhas leituras, voltando a procurar os testemunhos em textos que eram, sobretudo, narrativas de vida. Só mais tarde me viria a interessar pela história. Lembro-me de Graam Greene e de Bernanos, ou Gustavo Coração; foi também a época de visitar a grande literatura portuguesa: Eça de Queiroz, Camilo, Júlio Dinis, Almeida Garrett. Tive dificuldade em digerir romances que possuem apenas a vida inventada, sem uma ponte com a vida real tornada narrativa. Mas continuava em mim uma mistura de insatisfação e de desejo de que essas narrativas me levassem mais longe, à escuta de uma Palavra que recria e regenera.

Procurei então narrativas de experiências espirituais, em que a busca do absoluto fosse o centro do enredo, o rosto do drama e a resposta de salvação. Eu precisava de escutar aqueles e aquelas que viveram um drama semelhante ao meu e que através de todas as palavras, buscavam a Palavra. Já não me lembro por onde comecei, mas guardo no meu coração aqueles e aquelas que se tornaram meus irmãos, companheiros fortes na aventura da descoberta da vida. Agostinho de Hipona, nas suas “Confissões”, Teresa de Lisieux, na “História de uma alma”, Isabel da Trindade, Charles Foucault, sobretudo através da pena de René Voyaume e, já mais tarde, Edith Stein, que me ajudou a fazer a reconciliação entre a Filosofia e a Fé. Eram textos fortes, de grande qualidade literária, que sublinhavam a centralidade envolvente do amor e me revelavam corações inquietos na busca da luz definitiva. Se no Céu houver notícia do que se passa connosco que ainda peregrinamos neste mundo, Teresa de Lisieux, “la petite Thèrése” sabe a influência decisiva que teve na minha vida.

Neste tempo em que tentei construir a narrativa da minha vida através das narrativas desses autores, procurei completar as intuições mais belas com a beleza da poesia. Descobri que a beleza pode exprimir o drama e a densidade da existência e que a etapa final da nossa caminhada é sempre a atracção da beleza. Lembro alguns desses poetas que visitei e a quem procurei escutar: Antero de Quental, Florbela Espanca, José Régio, Fernando Pessoa, Sofia de Mello Breyner, Miguel Torga. Percebi que tantas vezes o poeta, na sua palavra, se transcende a si mesmo, exprimindo o recôndito do que não quer ser, mas deseja ser. Todos eles, crentes ou descrentes, acabam por tocar pontos altos da sua poesia na evocação do sagrado, sobretudo na beleza com que cantam Maria, a Mãe de Jesus. Acabei por vir a tocar, pessoalmente, esta experiência de, na nossa palavra, nos transcendermos a nós mesmos, o que nos põe o problema de saber onde está a nossa verdade, no que já somos, ou no que desejamos ser.

5. Tocar de perto este encontro da verdade com a beleza, proporcionou uma das páginas mais gratificantes da minha caminhada, o contacto com a arte, sobretudo a pintura. Foi um procurar escutar a palavra através de outra linguagem, que não a escrita. Umberto Eco, na sua “História da Beleza” veio dar forma magistral à minha intuição de que a longa caminhada da humanidade na busca da verdade e do sentido pode ser escrita sob a forma de uma história da beleza. Foi particularmente marcante o contacto com os pioneiros da pintura moderna, como Césanne, Van Gogh, Rouault, Chagall e depois toda a arte não figurativa, que deixa ao “leitor” um papel decisivo na captação da mensagem. Aliás o leitor como protagonista de toda a leitura, foi, mesmo na literatura, algo que descobri pessoalmente. Num texto, o leitor não lê apenas o autor, mas lê-se a si mesmo e encontra-se na sua busca do sentido da vida. É por isso que os textos mais apaixonantes são aqueles em que o autor deixa um vasto espaço para o leitor. É aliás esse factor que distingue a literatura de uma outra qualquer escrita. Toda a verdadeira literatura tende a tornar-se clássica, porque “um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”[3].

O dar lugar ao leitor constitui a dinâmica interna de um texto, o que lhe permite ser classificado como literatura. A mensagem de um texto não se esgota no pensamento do autor; o texto é aberto à reacção e à descoberta do leitor. A literatura encontra a sua verdade na leitura. Como diz Umberto Eco, “hoje o fantasma do leitor inseriu-se no centro”. “O leitor é requerido, suposto e esperado pelo próprio texto. Este é uma máquina preguiçosa que pede ao leitor que colabore para preencher uma série de espaços vazios. A preguiça do texto, isto é, a sua incompletude, permite tornar o acto de leitura numa espécie de pacto: compreender o texto constitui para o leitor não uma compreensão que lhe seja existencialmente alheia. Compreender é compreender-se diante do texto”[4]. Já São Gregório Magno dizia acerca do próprio texto da Bíblia: “Scriptura cum legente crescit!, isto é, a Escritura cresce com quem a lê[5].

É por isso que a leitura ganha relevo na caminhada pessoal do leitor em busca da verdade e do sentido da vida. Já fiz uma vez ou outra a experiência de, depois da leitura, dialogar com o autor sobre o seu texto. Devo confessar que senti que não se adiantou muito sobre o diálogo silencioso do leitor com o texto. E compreendo. O mais que o autor consegue é considerar o seu texto aberto à leitura do leitor, não podendo lobrigar como cada um se situa a si mesmo frente ao seu texto. Tocamos, aí, no imponderável da liberdade e da criatividade. Contaram-me que um dia Pablo Picasso dialogou com um grupo de visitantes que, perante o painel da sua autoria na Sede da Unesco em Paris, discutiam o que ele significava. E perante a surpresa da presença do autor, perguntaram-lhe qual era a sua mensagem, o que queria dizer. E ele respondeu que não sabia, estava antes interessado em ouvir a leitura deles.

Fiz esta experiência de leitor de uma forma viva e apaixonada. E quando, de memória, recordo algum desses textos lidos, não tenho a certeza do que recordo mais: se o que o autor me disse, ou o que eu percebi de mim mesmo e do meu caminho lendo esse texto. É por isso que é apaixonante revisitar, de vez em quando, esses textos marcantes, que foram na nossa vida, marcos perenes na busca de um ideal.

A Bíblia e a dimensão transcendente da Palavra

6. Quando se fez um longo percurso na compreensão de si mesmo em diálogo com a palavra dos outros, sobretudo quando o aspecto fulcral dessa busca é a procura de Deus e da Sua importância decisiva na vida humana, é espontâneo acabar por dar-se uma centralidade irrecusável à Bíblia, expressão da dramatização radical da Palavra. A Bíblia aparece-nos, então, como um conjunto de textos literários, os mais abertos textos da literatura, a desafiarem o leitor para a inter-acção na busca do sentido e da verdade.

A importância da narrativa, sem a preocupação da precisão positiva da história, como reposição de factos e eventos, mas, sem se desligar da verdade histórica, introduz-lhe a liberdade simbólica, deixando vasto espaço para a compreensão do leitor, faz a unidade e garante a inserção fácil em toda a narrativa literária, que procura o sentido da vida a partir da vida vivida. Como escreve José Tolentino Mendonça, “é necessário tomar em consideração a originalidade do pensamento bíblico, de extracção hebraica, tão silencioso quanto a formulações abstractas, e tão atento ao concreto, à escassez fulminante e essencial do concreto, ao seu pormenorizado realismo. Este pensamento organiza-se de forma narrativa e, como tal, toma aquilo que narra, da experiência, e transforma-o em experiência daqueles que escutam a sua história. Não colhe o seu sentido no plano conceptual, mas na arte de nos aproximar de uma história que vai sendo contada na pluralidade das histórias e nos ingredientes que são próprios das narrações”[6].

7. O primeiro salto a que a leitura da Bíblia conduz o leitor é o mergulho na transcendência da Palavra. Esta identifica-se com o mais profundo da interioridade daquele que fala e não se esgota na linguagem que procura exprimi-la. Toda a linguagem é sempre uma expressão aproximativa da densidade da Palavra. Santo agostinho estabelecerá a distinção entre o Verbo e a voz, que se aplica à Palavra de Deus comunicada em linguagem humana, mas que nos desvela também o mistério da própria palavra humana. A voz procura anunciar aproximativamente a densidade interior da palavra, silenciosa por natureza. Quando à voz não corresponde essa densidade interior, a linguagem humana torna-se fútil e insignificativa, não tem lugar no quadro da nobreza da literatura.

A palavra da Bíblia pretende dizer-nos Deus e o que Deus tem para nos dizer, o que desencadeia no leitor a busca do acolhimento de Deus e descoberta da própria vida, à luz do que Deus procura dizer-nos acerca de nós e do conjunto da história da humanidade.

Ao procurar dizer-nos Deus, apresenta-no-l’O como potência criadora, como Palavra, como Espírito de amor. Intuímos que Deus é Palavra e é amor e que a sua potência criadora se realiza através da Palavra e do amor. Que Deus é Palavra, tornou-se radicalmente claro em Jesus Cristo, a Palavra feita Homem. A sua força criadora e de transformação do homem e da história, próprios da Palavra, realiza-os a partir da intensidade de amor com que abraçou a humanidade, na totalidade da sua existência. N’Ele, a força criadora da Palavra atingiu o seu auge quando nos inundou com o Seu Espírito de amor. Em Jesus Cristo, a força criadora da Palavra e a capacidade transformadora do amor unem-se na eficácia de uma mesma pessoa, o Verbo encarnado, princípio e Senhor do Homem e da História.

Na Bíblia, a força criadora da Palavra preside à criação e conduz a história que se torna, assim, o lugar decisivo da manifestação de Deus e do Seu encontro com os homens. Quando o Novo Testamento diz de Jesus Cristo, Verbo encarnado, que por Ele todas as coisas foram feitas (cf. Jo. 1,3; Col. 1,16), além de anunciar a força criadora da Palavra, abre para uma inteligibilidade da criação e da história, pois a Palavra, além de criadora, revela o sentido e desvela a compreensão e a inteligibilidade. A história humana é uma história com sentido, que esconde na sua trama o segredo da sua compreensão. É por isso que na fé bíblica a relação e inter-acção entre a Palavra de Deus e a palavra humana, entre a inteligibilidade da fé e a inteligibilidade racional são naturais e congénitas. É a própria Palavra que sugere e exige uma racionalidade da fé. É que o sentir a força transformadora da densidade interior da Palavra é uma experiência que nos é dado fazer no interior do diálogo intra-humano, sobretudo quando a palavra é uma expressão do amor.

O Verbo e a voz

8. Tentar exprimir a densidade da Palavra divina em linguagem humana é o fenómeno profético. Embora aparentado com práticas semelhantes nas religiões e cosmogonias do Oriente médio, o profetismo bíblico é um fenómeno com características únicas. O profeta é alguém que Deus escolhe para transmitir na sua palavra humana a densidade da Palavra divina, para que os homens possam desvendar o sentido radical da vida e da história. O profeta começa por ser possuído, pessoalmente, pela densidade da Palavra divina. Os segredos da intimidade de Deus são-lhe comunicados, numa experiência forte, que chega a ser violenta, para que a sua linguagem seja verdadeiramente humana. O profeta não é um repetidor; fala, tentando comunicar essa densidade interior, de que foi possuído, sentindo ele próprio o drama da desadaptação da sua palavra humana à Palavra de Deus de que está possuído. Essa desadaptação atenua-se no caso de Jesus Cristo, onde a Palavra e a voz se identificam. Mas nos cristãos, que reproduzem as palavras de Cristo, essa inadaptação volta a acontecer e só se atenua quando, em silêncio, deixam que o ser de Jesus Cristo tome conta do seu próprio ser. A escuta definitiva da Palavra divina tem a marca da eternidade, quando veremos como somos vistos e conheceremos como somos conhecidos.

Esta desadaptação entre o Verbo e a voz é o lugar para a inter-acção entre o texto bíblico e o leitor. O texto relança-nos para uma caminhada de busca pessoal da verdade e do sentido, que nos permitirá descobrir a centralidade decisiva do amor de Deus pelos homens e de Jesus Cristo, enquanto expressão radical do Seu inter-agir connosco na construção da história. Todas as narrativas do Novo Testamento nos podem conduzir a descobrir, sempre de novo, essa centralidade de Jesus Cristo. É assim nas narrativas de factos e eventos, é assim nas parábolas, onde a abertura ao caminho do leitor é componente dinâmica do próprio género literário; é assim, por exemplo, naquele texto que é considerado a nova edição da Lei, a carta magna do cristianismo, conhecido como “bem-aventuranças”. Este texto de Mateus 5,1-12, início do vulgarmente chamado Sermão da Montanha, é um bom exemplo deste horizonte dinâmico e aberto dos textos da Escritura. Segundo André Chouraqui, um exegeta de origem judaica, a palavra que Jesus teria usado “ashréi”, que o grego traduziu por Makarioi, e as traduções modernas por “bem-aventurados”, “felizes”, “bien-heureux”, não designa uma felicidade presente, já adquirida, mas a alegria de quem se põe a caminho, à procura daqueles valores que hão-de constituir a felicidade definitiva, no Reino de Deus. Felizes, “bien-heureux” são aqueles que, escutando Jesus, descobrem o seu caminho e decidem percorrê-lo no realismo concreto da vida[7]. Mais uma vez o texto prepara o encontro com o leitor.

 

Uma caminhada em comunidade

9. Na Escritura o interlocutor de Deus e, por isso, do autor e do texto sagrado, é o Povo de Deus. A caminhada sugerida pelo texto é feita em comunidade. A Palavra surge como elemento congregador da comunidade. Os caminhos sugeridos, sem deixarem de ser pessoais, são caminhos de todo um Povo peregrino, unido e reunido no dinamismo da esperança e da descoberta da vida. Ainda hoje, na Igreja, a leitura comunitária é o modo privilegiado de se confrontar com o texto bíblico. Desde a sua origem, a Bíblia foi Migra, isto é, leitura comunitária e em alta voz. “A Bíblia foi leitura, antes de ser livro. E nela persistem marcas dessa gestação oral, puramente sonora, dessa recitação ininterrupta, por gerações”[8].

Esta dimensão comunitária garante a objectividade da recepção da mensagem através das gerações. A comunidade crente, que escuta a Palavra e que, escutando-a, se põe a caminho é a mesma que, há muitas gerações, se congrega para escutar. A maneira como receberam a Palavra defende-nos do subjectivismo radical na captação da sua mensagem, embora essa objectividade de sentido, apoiada no ensinamento progressivo da Igreja, nunca feche o texto a novos desafios e a novas descobertas da exigência da caminhada da vida.

Merecerá a Bíblia a qualificação de obra literária?

10. É comummente aceite que a Bíblia é o livro mais lido e com maior número de edições. Mas a Bíblia não é um livro, é uma biblioteca, comporta dezenas de livros e de autores distintos, de diversas épocas e em variados estilos literários, que vão da narrativa histórica ou simbólica, ao género epistolar e à poesia. Esta variedade oferece-nos um contacto com uma grande variedade de culturas antigas, sempre enriquecidas com as culturas que, em cada tempo, procuraram aí a referência à Palavra, na sua riqueza e no seu drama. Se “um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”, a Bíblia cumpre cabalmente essa definição. Como escreve José Tolentino Mendonça, “A Bíblia representa uma espécie de «atlas iconográfico», um «estaleiro de símbolos». É um reservatório de histórias, um armário cheio de personagens, um teatro do natural e do sobrenatural, um fascinante laboratório de linguagens. Desconhecer a Bíblia não é apenas uma carência do ponto de vista religioso, mas é também uma forma de iliteracia cultural, pois significa perder de vista uma parte decisiva do horizonte onde historicamente nos inscrevemos. Compreender a Bíblia é compreender-se, já que, como escreve Giombi, «a Bíblia participa de modo determinante no circuito das relações que ligam experiência religiosa e consciência civil na Europa Moderna, a ponto de poder iluminar a própria identidade europeia»”[9].

Erich Auerbach, escrevendo sobre o realismo na literatura do Ocidente, considera dois paradigmas fundamentais: a Odisseia e a Bíblia; a aventura humana, na viagem fundadora que a Bíblia propõe, não termina num ponto preciso, o regresso à própria casa do herói da Odisseia, mas uma “viagem para uma terra desconhecida, só divisada pela promessa desmedida de Deus”[10].

A dimensão e qualidade literárias não constituem um pormenor frente à exigência da sacralidade do texto, mas faz parte intrínseca da linguagem em que Deus comunica a Sua Palavra. A riqueza literária faz parte integrante da exegese contemporânea. A propósito dos Evangelhos um exegeta do nosso tempo “alerta para o perigo de ainda aprisionarmos os evangelistas a uma imagem de teólogos que possuem visões doutrinais bem definidas e não se tomar em devida conta o facto de serem criadores de uma forma literária que, em diálogo com as concepções artísticas do seu tempo, modelaram uma composição forte e original”[11].

A Palavra sufocada pelas “vozes”

11. A Palavra exprime a densidade do drama humano, do sofrimento, do desejo e anseio, da busca da verdade, da definição de um projecto. Só ela relativiza o individualismo e afirma o homem como necessariamente solidário, corresponsável de uma história colectiva. Mais do que o balbuciar intimista, a História é o lugar da Palavra e é através dela que Deus é também, com o Seu Povo, protagonista da História. Esta densidade existencial da Palavra é comum a Deus e ao homem. O poder ser possuído pela Palavra é, no homem, uma concretização da afirmação bíblica, segundo a qual o homem é imagem de Deus.

Esta densidade da Palavra é silenciosa, em Deus e no homem. Quando se torna exigente, porventura inevitável, comunicá-la, usa-se a linguagem, as palavras, a voz, no dizer de Santo Agostinho. Ao contemplar a sociedade em que vivemos, assusta-me a hipótese de que as “vozes” possam abafar a Palavra. Antes de falar é urgente reassumir o silêncio. George Steiner faz um diagnóstico duro sobre a morte da Palavra no nosso tempo: “Os usos da fala e da escrita habituais nas modernas sociedades do Ocidente estão doentes, e a doença é fatal. O discurso que tece as instituições sociais, o dos códigos jurídicos, o do debate político, da argumentação filosófica e das obras literárias, a retórica leviatânica dos meios de comunicação – todos esses discursos, em suma, estagnam em clichés sem vida, gírias sem sentido”[12].

É um diagnóstico severo, que José Tolentino Mendonça comenta assim: “A crise da consciência moderna é também uma crise da palavra. Afirmação que parecerá um contra-senso quando, como em nenhuma outra época da história, homens e sociedades se viram envolvidos (os mesmo submersos!) pela sobre-abundância dos signos verbais. Hoje as palavras não salvam: adiam ou simulam redenções. Que caminhos outros teremos, então, de percorrer para nos reaproximarmos da confiada prece do centurião a Jesus: «diz somente uma palavra e o meu servo será curado» (Lc. 7,7)[13]. Isto leva-me a implorar a todos os que falam ou escrevem, na Igreja e fora dela, nos palcos da política, da cultura, da comunicação social, que salvem a Palavra, não a matem sufocada pelas “vozes”, pois só a Palavra maturada no silêncio será ouvida e desencadeará nos outros caminhos de vida.

12. Termino como comecei. Sinto-me cada vez mais atraído por esse silêncio onde a Palavra é fonte de sentido e me convida a voltar aos modelos, antes do texto ou através do texto.

Que os queridos modelos da minha juventude mo perdoem, mas, à imitação de Paulo de Tarso, de quem estamos a celebrar o segundo milénio de nascimento, um só modelo me atrai e me interpela: Jesus Cristo morto e ressuscitado. Só Ele me desinstala de todos os presentes humanamente conseguidos e me convida a encetar sempre um caminho novo, para O conhecer melhor, para experimentar amá-l’O. Viver é caminhar e Ele é o caminho.

 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

 

 

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 [1] José Tolentino Mendonça, A Leitura infinita, pg. 15

[2] Ibidem, pg. 81

[3] Ibidem, pg. 47

[4] Umberto Eco, in J. Tolentino, op. cit. Pg. 29

[5] In J. Tolentino, op. cit., pp. 15 e 77

[6] Ibidem, pg. 68

[7] Cf. André Chouraqui, Les Évangiles, pg. 53

[8] J. Tolentino de Mendonça, op. cit., pg. 14

[9] Ibidem, pg. 46

[10] Ibidem, pp. 32-33

[11] Ibidem, pg. 39

[12] Ibidem, pg. 185

[13] Ibidem, pg. 185


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