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Introdução à Assembleia do Presbitério de Lisboa
28 de Janeiro de 2009
Introdução à Assembleia do Presbitério de Lisboa
“A comunhão do Presbitério na Igreja comunhão”
   Queridos Padres, 
            1. Convoquei-vos para esta Assembleia para meditarmos, aprofundarmos e sentirmos o mistério que nos une e faz de nós um corpo, o Presbitério de Lisboa: a participação no sacerdócio e na missão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que quer já, no tempo histórico, edificar uma Igreja com quem Se identifica, que tornou sacramento de salvação de todos os homens e antecâmara da assembleia escatológica dos redimidos.
            O que tenho para vos dizer é, no fundo, uma meditação sobre o ministério que me foi confiado: ser Pastor desta Igreja. É uma meditação que faço pessoalmente muitas vezes e que se adensa ao ritmo do tempo pessoal que, inexoravelmente, caminha para o seu termo, porque só o tempo da Igreja pode caminhar para a plenitude. Só ela poderá um dia exclamar, como Cristo, que o “tempo chegou ao fim”.
            Mas tenho sentido que esta meditação pessoal é mais do que um exame de consciência: é incompleta sem o confronto com a realidade da Igreja que servimos; é impossível, se não for uma meditação sobre o Presbitério a que presido. Nunca me tinha dado conta, com tanta acuidade, que a minha fidelidade e a vossa fidelidade se entrecruzam, como expressão da fidelidade a Jesus Cristo e continuação, no tempo, da fidelidade de Jesus Cristo. Tenho bem presente aquela definição de Diocese, dada pelo Concílio Vaticano II, que tantas vezes expliquei, ensinando, e que hoje me julga, nos julga, como encarnação do amor de Cristo à Igreja: “Uma Diocese é uma porção do Povo de Deus confiada a um Bispo para que, com a cooperação do seu presbitério, seja o seu Pastor”[1]. Ponhamos os nomes às coisas: esta Diocese é a de Lisboa, o seu Bispo, sou eu há mais de 10 anos; o presbitério sois vós. Em conjunto, como corpo unido, recebemos do Senhor a missão de sermos pastores desta porção do Povo de Deus. Só unidos, como corpo, podemos continuar, na Igreja, a caridade pastoral de Cristo, o Bom Pastor. É como corpo que recebemos essa missão. Numa Diocese, a tal porção do Povo de Deus, não há um pastor principal e pastores secundários. O verdadeiro Pastor é Cristo, que continua a apascentar o Seu rebanho através dos Apóstolos e seus sucessores, e aqueles que, pela imposição das mãos, são agregados a este ministério pastoral. Espero que compreendais que só em conjunto, em comunhão, podemos fazer esta meditação sobre a nossa fidelidade a Cristo e à Igreja.
 
            2. Esta fidelidade é o nosso caminho de santificação. Há, hoje, uma grande riqueza de Magistério a indicar-nos a fidelidade ao nosso ministério como caminho da nossa santificação. A título de exemplo cito alguns textos: a Pastores Gregis, diz aos Bispos: “é sobretudo no exercício do seu ministério, inspirado pela imitação da caridade do Bom Pastor, que o Bispo é chamado a santificar-se e a santificar, tendo como princípio unificador a contemplação do rosto de Cristo e o anúncio do Evangelho da Salvação”[2]. E aos Presbíteros diz o Concílio: “é o exercício leal, incansável, das suas funções no Espírito de Cristo que é, para os presbíteros, o meio autêntico de chegar à santidade”[3]. 
            Mas se o nosso ministério, o meu e o vosso, estão unidos, estamos comprometidos uns com os outros neste chamamento à santidade. E o Concílio lembra aos Bispos essa responsabilidade maravilhosa, mas tremenda: “é sobre eles, antes de mais, que recai a grave responsabilidade da santidade dos seus padres”[4].
            Para tomar a sério esta afirmação, entro em preocupação contínua, não preocupação sistemática, mas tornada viva por cada notícia que recebo das vossas dificuldades, dos vossos problemas, das vossas necessidades, porventura das vossas infidelidades que me doem tanto como as minhas. É também do Concílio esta afirmação: “em razão desta comunhão no mesmo sacerdócio e no mesmo ministério, os Bispos devem considerar os seus padres como irmãos e amigos, preocupar-se, na medida em que lhe for possível, do seu bem, em primeiro lugar material, mas sobretudo espiritual”[5].
            O sermos membros de um Presbitério torna cada um de nós corresponsável na fidelidade e na santidade de todos os outros membros. Confesso-vos aqui, não sou capaz de meditar nesta responsabilidade partilhada sem um certo sofrimento interior, antes de mais porque não tenho a certeza de termos assumido todos esta corresponsabilidade, sempre e em todas as suas concretizações.
 
Comunhão de consagração e de missão
            3. Não é agora o momento de apresentar a fundamentação teologal ou teológica do sacerdócio ministerial. Mas ele é um dinamismo histórico fundamental para a realização da missão de Cristo até à Sua manifestação definitiva. É a afirmação clara que Jesus Cristo, através do Espírito Santo que comunica à Igreja, é o único Pastor do Seu Povo, é Ele quem realiza a salvação. Jesus Cristo quis agregar à realização dessa Sua missão os Apóstolos que escolheu, chamou e consagrou, última consequência do mistério da encarnação. Unidos a Cristo e por Ele enviados, os Apóstolos, os seus sucessores e aqueles que agregaram ao ministério, não são só beneficiários da salvação, são protagonistas e agentes da salvação. O seu ministério é o mesmo de Jesus Cristo, porque o Senhor exerce a Sua força salvífica através do seu ministério. É por isso que os actos desse ministério são a Palavra e os sacramentos, através dos quais Cristo continua a realizar a Sua missão de salvação. O Concílio afirma: “o fim que os presbíteros prosseguem no seu ministério e na sua vida, é dar glória a Deus Pai em Cristo”[6]. Pelo seu ministério, Cristo continua a glorificar o Pai.
            A unidade do presbitério tem a sua fonte na consagração que os faz participar no único sacerdócio e no único ministério de Cristo[7]. A união a Cristo, com particular intimidade e intensidade, é a expressão central da espiritualidade do sacerdote. O entusiasmo que pusermos no exercício do nosso ministério, é a paixão pela realização, no tempo presente, da missão de Jesus Cristo. Quem não ama o Senhor, não está disposto a dar a vida pela sua missão.
            O ponto de referência visível da fidelidade ao nosso ministério é a Igreja, que Cristo ama, com a qual Se identifica, a Igreja como Ele a deseja e a quer. “Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental de Jesus Cristo, Cabeça e Pastor (…) Têm como referência fundamental a relação com Jesus Cristo, Cabeça e Pastor (…) Mas intimamente ligada àquela, encontra-se a relação com a Igreja (…) Enquanto representa Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da Igreja, o sacerdote coloca-se não apenas na Igreja, mas também perante a Igreja”[8].
            Esta relação com Cristo e com a Igreja, são a mesma e única relação: reconhece Cristo na Igreja, e descobre em Jesus Cristo a beleza da Igreja que ajuda a construir.
            A meditação sobre o nosso ministério só se pode fazer neste confronto com Cristo e com a Igreja como Ele a quer e ama. E no nosso caso concreto de Presbitério da Igreja de Lisboa, esse confronto com a Igreja tem de ser com a Igreja de Lisboa. Mas antes de descermos a esse concreto, tenhamos presente um belíssimo texto da Pastores Dabo Vobis: “A relação do sacerdote com Jesus Cristo e, n'Ele, com a Sua Igreja situa-se no próprio ser do presbítero, em virtude da sua consagração/unção sacramental, e no seu agir, isto é, na sua missão ou ministério. Em particular, «o sacerdote ministro é servo de Cristo, presente na Igreja mistério, comunhão e missão. Pelo facto de participar da 'unção' e da 'missão' de Cristo, ele pode prolongar na Igreja a sua oração, a sua palavra, o seu sacrifício e a sua acção salvífica. É, portanto, servidor da Igreja mistério porque realiza os sinais eclesiais e sacramentais da presença de Cristo ressuscitado. É servidor da Igreja comunhão porque - unido ao Bispo e em estreita relação com o presbitério - constrói a unidade da comunidade eclesial na harmonia das diferentes vocações, carismas e serviços. É finalmente servidor da Igreja missão porque faz com que a comunidade se torne anunciadora e testemunha do Evangelho"[9].
 
            4. Servidores da Igreja mistério. Esse é o segredo do nosso ministério: realizar os sinais, sacramentos da presença e acção de Cristo ressuscitado. Isso exige de nós que acreditemos e saibamos que a Igreja é obra de Cristo ressuscitado e do Seu Espírito. É a prioridade absoluta aos meios sobrenaturais da graça. “Pela sua própria natureza e missão sacramental, o sacerdote surge, na estrutura da Igreja como sinal da prioridade absoluta e gratuidade da graça, que à Igreja é oferecida por Cristo ressuscitado. Através do sacerdócio ministerial, a Igreja toma consciência, na fé, de não vir de si mesma, mas da graça de Cristo no Espírito Santo”[10].
            O primeiro desses meios é a Palavra. Como ministros da Palavra, somos a voz de Jesus Cristo, a Palavra. Aquilo que se nos pede, diz o Concílio, não é que anunciemos a nossa própria sabedoria, mas a Palavra de Deus[11]. Isto supõe que sejamos nós próprios, ouvintes da Palavra, que a escutemos, meditemos e rezemos, para termos o mínimo de garantia de que não nos anunciamos a nós próprios, mas a Palavra viva de Cristo, dirigida a homens concretos, às circunstâncias concretas das suas vidas[12]. 
            Temos dificuldade em ter uma visão de conjunto sobre a qualidade do nosso ministério da Palavra. E só em conjunto, nos podemos aperfeiçoar. Um desafio particular, recentemente lançado de novo pelo Sínodo dos Bispos, é a qualidade da homilia. Como poderemos avançar em conjunto para as melhorar? Normalmente só me chegam os ecos negativos e críticos, talvez nem sempre justos, de homilias longas demais, pouco centradas na Palavra de Deus, demasiadamente marcadas pelas ideias pessoais do sacerdote, nem sempre consentâneas com o sentir da Igreja. Como vamos responder, em presbitério, a esta hora de graça que foi o recente Sínodo dos Bispos?
            Mas é, sobretudo, na administração dos sacramentos que o sacerdote se afirma como ministro da Igreja mistério; actuando em nome de Cristo, afirma continuamente que a origem da Igreja é Cristo ressuscitado. No centro deste ministério da graça está a Eucaristia, que define a natureza do sacerdócio, unificando num mesmo acto a relação com Cristo e com a Igreja. A Eucaristia é a plenitude do ministério sacerdotal pois tudo para ela converge, tudo tem nela a sua fonte: a comunhão com o Bispo e com os sacerdotes, os outros sacramentos, a construção da Igreja comunhão[13].
            Celebrar bem a Eucaristia é algo em que temos de nos ajudar mutuamente. Não permitir que a Eucaristia esteja presente na nossa vida só pela quantidade de celebrações e pelo esforço que isso representa. A oração eucarística é caminho importante para viver esta centralidade da Eucaristia. Um dia destes, uma cristã da nossa Diocese dizia-me: rezo muito pelos nossos sacerdotes. E sabe o que peço para eles? Que amem muito a Eucaristia. E eu respondi-lhe: peça isso com muita fé, para eles e para mim.
            Temos consciência de que depende muito da maneira como presidimos à Eucaristia o arrastar das nossas assembleias para o centro desse mistério? Como nos poderemos ajudar uns aos outros neste ponto? Inculcar a qualidade litúrgica é certamente um caminho. Como presidentes das assembleias cristãs, temos de conduzi-las para descobrirem que a Eucaristia se celebra e se adora, que o louvor de Deus é o fim último da liturgia.
 
            5. Servidores da Igreja comunhão. O nosso ministério é a afirmação contínua da força da caridade. Como diz João Paulo II, “o ministério ordenado tem uma radical forma comunitária”[14], gera comunhão e é experiência de comunhão. E não tenhamos ilusões, a primeira experiência desta comunhão é aquela que existe entre os membros do presbitério, entre os sacerdotes e o Bispo, dos sacerdotes entre si[15].
            A experiência de comunhão é a força da presença da Igreja no mundo, uma comunidade que ama e se sente amada. Conduzir os cristãos a esta experiência de comunhão é ministério dos sacerdotes, que assim se afirmam, em tudo o que fazem, como pastores, sacramento de Cristo Bom Pastor: na maneira como acolhem, orientam, aconselham; como fazem caminho com as pessoas, ajudando-as a descobrir a vida com Cristo; na solicitude pelos pobres e pelos doentes; acompanhando a dor e o luto dos que viram partir familiares e amigos. O pastor faz de todas estas circunstâncias um anúncio do Deus Amor.
 
            6. Servidores da Igreja missão. O sacerdote deve conduzir a comunidade de modo que ela se torne anunciadora e testemunha do Evangelho[16]. Foi o que procurámos com o Congresso Internacional para a Nova Evangelização. Estamos num momento da nossa Igreja diocesana em que somos chamados a refrescar e, porventura, a rever os caminhos da evangelização: a catequese, concebida como autêntica iniciação cristã; a preparação para os sacramentos; as estruturas sociais de expressão da caridade; a maneira de estar no mundo como “fermento na massa”, promovendo o sentido cristão das realidades terrestres, à luz do Evangelho e da doutrina da Igreja. Dou, mais uma vez, a palavra ao Papa João Paulo II: “Hoje, de uma forma particular, a prioritária tarefa pastoral da nova evangelização, que diz respeito a todo o Povo de Deus e postula um novo ardor, novos métodos e uma nova expressão para o anúncio e o testemunho do Evangelho, exige sacerdotes, radical e integralmente imersos no mistério de Cristo, e capazes de realizar um novo estilo de vida pastoral, marcado por uma profunda comunhão com o Papa, os Bispos e entre si próprios, e por uma fecunda colaboração com os leigos, no respeito e na promoção dos diversos papéis, carismas e ministérios no interior da comunidade eclesial”[17].
            Mas como havemos de enfrentar esta tarefa ingente, se não estivermos profundamente unidos, de modo a sermos um “corpo” como um “Eu” colectivo, que assume objectivos, escolhe caminhos e assume critérios, mesmo que tenhamos, por vezes, de renunciar a visões pessoais? E tudo isto supõe trabalho comum, de estudo, de diálogo e partilha. Tudo isto supõe virtudes comuns, radicadas no Evangelho, anunciadas no Magistério, interiorizadas na humildade e na caridade.
            Termino esta minha intervenção arriscando anunciar algumas virtudes que desejo para nós todos, membros do nosso presbitério, para podermos conduzir a Igreja que Jesus quer:
 
            7. A caridade pastoral. Unidos a Cristo Esposo e Pastor pela consagração sacerdotal, o sacerdote pode fazer o que Cristo faz e com o amor com que Ele o faz. Todo o exercício do ministério é acto de amor e expressão da caridade. É como se o diálogo que Cristo ressuscitado trava com Pedro à beira do lago fosse com cada um de nós: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? (…) Sim, Senhor, Tu sabes que te amo! Apascenta os meus cordeiros” (Jo. 21,15). Este amor do Bom Pastor decide do sentido e da qualidade de tudo o que fazemos pastoralmente: quando amamos, quando ensinamos, quando corrigimos, quando negamos o que nos pedem para abrir os corações ao que podemos dar. As normas e preceitos da Igreja são expressões e caminhos de amor.
            A caridade pastoral supõe que o sacerdote não é apenas veículo da graça, mas é, ele próprio, trabalhado pela graça. Ouçamos João Paulo II a dizer-nos o que entende por caridade pastoral. Numa homilia em Seul diz: “A caridade pastoral é aquela virtude pela qual nós imitamos Cristo na entrega de Si Mesmo e no Seu serviço. Não é apenas aquilo que fazemos, mas o dom de nós mesmos que manifesta o amor der Cristo pelo Seu rebanho. A caridade pastoral determina o nosso modo de pensar e de agir, o modo de nos relacionarmos com as pessoas”[18]. E na Pastores Dabo Vobis: “Pela caridade pastoral, que assinala o exercício do ministério sacerdotal como «amoris officium», «o sacerdote que acolhe a vocação ao ministério, está em condições de fazer disto uma escolha de amor, pela qual a Igreja e as almas se tornam o seu principal interesse e, com tal espiritualidade concreta, se torna capaz de amar a Igreja universal e a porção dela que lhe é confiada, com todo o entusiasmo de um esposo na sua relação com a esposa». O dom de si mesmo não tem fronteiras, porque é marcado pelo mesmo dinamismo apostólico e missionário de Cristo Bom Pastor, que disse: «Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil; também as devo conduzir; escutarão a minha voz e então haverá um só rebanho e um só pastor» (Jo. 10,16)”[19].
 
            8. A obediência pastoral. É virtude exigida pela origem e autenticidade da missão. Procurar realizar essa missão é servir um desígnio superior. O próprio Jesus obedece ao Pai, fonte do desígnio de salvação. Os Apóstolos obedecem a Jesus, as primeiras comunidades cristãs obedecem aos Apóstolos. Esta obediência não se situa só na relação superior-subordinado. É afirmação de que quem trabalha na missão, sabe que não é o seu autor e a sua origem, mas está ao serviço de um desígnio superior.
            A obediência pastoral tem na base a unidade fundamental da missão. A variedade das pessoas e dos seus dons, o campo legítimo do discernimento pessoal, têm de convergir para a unidade do projecto de Deus, em Igreja. Sem esta atitude, o nosso esforço e capacidade humanos levará à dispersão e à falta de unidade. A vivência da comunhão exige a obediência, a docilidade do espírito e da liberdade de quem se põe todo e põe tudo ao serviço da missão de Cristo e da Igreja. A exigência da comunhão leva à exigência da obediência. Os Bispos, na comunhão do Colégio Apostólico e os presbíteros na comunhão com o Bispo. Todos os cristãos, na comunhão a que preside o Papa, o seu Bispo, o seu Pároco.
            Da obediência do Bispo diz a Pastores Gregis: “Revestido destes traços tão humanos de Jesus, o Bispo torna-se modelo e promotor também duma espiritualidade de comunhão, orientada com vigilante cuidado para construir a Igreja, de tal modo que tudo, palavras e obras, seja realizado sob o signo da submissão filial, em Cristo e no Espírito, ao desígnio amoroso do Pai. Enquanto mestre de santidade e ministro da santificação do seu povo, o Bispo é efectivamente chamado a cumprir fielmente a vontade do Pai. A sua obediência deve ser vivida, tendo por modelo – e não poderia ser doutro modo – a própria obediência de Cristo, que várias vezes afirmou ter descido do Céu, não para fazer a sua vontade, mas a d'Aquele que O enviou (cf. Jo 6, 38; 8, 29; Fil 2, 7-8)”[20].
            Durante toda a minha vida procurei esta obediência pastoral; por vezes isso significou a “morte” de mim mesmo. No exercício da comunhão, a Igreja vai traçando, em cada tempo e em cada circunstância, os caminhos da missão. É ousadia que não consigo entender contrapor-lhe os meus próprios caminhos. De uma coisa estou espiritualmente seguro: quem obedece acerta sempre.
 
            9. O discernimento pastoral. A obediência pastoral não anula o espaço para o discernimento que pode incluir criatividade pastoral. Ele não procura alternativas pessoais ou grupais aos caminhos da missão indicados pela Igreja, mas tenta perceber a maneira de a pôr em prática em cada circunstância. O próprio Concílio nos aconselhou a ler os sinais dos tempos, para intuir, em cada tempo, os caminhos da missão[21]. Já referi atrás a importância deste discernimento criativo no encontrar os caminhos para a nova evangelização.
            Faz parte deste discernimento a compreensão dos dinamismos e potencialidades de todos os membros da Igreja, das suas legítimas expressões e carismas, para a realização da missão que o Senhor nos entregou. Na nossa Diocese é particularmente urgente discernir o lugar dos leigos na missão. Seremos, como alguns ainda lastimam, uma Igreja clerical? Os leigos supõem sempre o seu pastor, que os conduzirá, mesmo na sua autonomia de missão. Ser pastor não significa ser senhor. A crise dos órgãos de corresponsabilidade pastoral, mesmo dos que são obrigatórios, abrem um espaço largo para a urgência deste discernimento.
            E que dizer do discernimento necessário para valorizar e integrar na unidade da Igreja a imensa variedade de carismas e associações laicais? Não lhes dar o lugar a que têm direito, ou identificar-se exclusivamente com um deles, pode significar, por parte do sacerdote, mau discernimento. A nossa pastoral para os jovens e para as famílias não pecará por imperfeição de discernimento?
 
            10. A generosidade pastoral. Dou graças a Deus por termos um presbitério generoso, esforçado e dedicado. O desafio está em centrar a generosidade. Valerá a pena matar-se em activismos que não realizam o essencial da nossa missão? Somos chamados a pôr ao serviço da Igreja tudo o que somos, o que temos, o que sabemos. Mas a Igreja ganhará se enriquecermos continuamente o que somos. Uma visão estática do que tenho para dar não cumpre a generosidade. Devo ser generoso em enriquecer-me para poder dar mais. Convém meditar sempre a parábola dos talentos.
            No que diz respeito aos bens materiais, tenho a impressão, por vários sinais indicados, que temos um presbitério pobre e desprendido, embora não tenha nenhuma visão de conjunto sobre a relação dos nossos sacerdotes com o dinheiro. A história legou-nos um dom precioso: a Igreja vive da partilha dos fiéis, que nunca nos desiludiram na manifestação da sua generosidade. Este contexto faz que qualquer manifestação de ganância ou exigência desmedida seja causa de escândalo. Essa origem dos dinheiros da Igreja sublinha o princípio que nos deve orientar: esses dinheiros destinam-se à realização dos fins da Igreja, de que a nossa condigna sustentação faz parte. Na nossa administração sejamos rigorosos nessa orientação daquilo que recebemos. Façamo-lo de modo a que possamos prestar contas a quem tiver o direito de no-las pedir.
 
            11. Conclusão. Caros Padres. Somos assim, somos o Presbitério de que Deus dotou a sua Igreja. Mandarei distribuir alguns elementos que vos dão a panorâmica do nosso presbitério. Em conjunto procuremos ser fiéis, ousadamente vos digo, procuremos ser santos. Não desistamos, pela vossa atenção ao discernimento vocacional, de garantir o futuro do presbitério. Mas aí está um aspecto em que o testemunho de fidelidade e de paixão pela Igreja, dá mais frutos do que as mais ousadas estratégias de pastoral vocacional. Na nossa paixão pela Igreja demos todos um lugar privilegiado à paixão pelas vocações sacerdotais, na certeza de que nós somos o presente do nosso presbitério e o futuro será dom amoroso de Deus, que nós podemos merecer.
 
 
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

 -------------------------------------------------------------------------------- [1] Christus Dominus (CD), nº 11
[2] Pastores Gregis, nº 11
[3] Presbyterorum Ordinis (PO), nº 13
[4] PO, nº 7
[5] Ibidem
[6] PO nº 2
[7] Cf. PO, nº 7; Pastores Dabo Vobis, nn. 14-15
[8] Idem, nn. 15-16
[9] Idem, nº 16
[10] PO, nº 16
[11] PO, nº 4; cf. nº 13
[12] Cf. PO, nº 4
[13] Cf. PO, nº 2,5,7
[14] PDV. nº 16
[15] Ibidem, cf. PO, nn. 7-9
[16] Ibidem, nº 16
[17] Ibidem, nº 18
[18] João Paulo II, in Insegamenti XII/2 (1989) pg. 785
[19] PDV, nº 23
[20] Pastores Gregis, nº 19
[21] Cf. Gaudium et Spes, nº 4 e 11
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
 

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