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17 de Março de 2013

Quinta Catequese Quaresmal: "“A Fé é a luz que nos guia nos caminhos da vida e da história” (com vídeo)

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  Foto: Patriarcado de Lisboa  

“A Fé é a luz que nos guia nos caminhos da vida e da história”


Catequese do 5º Domingo da Quaresma

Sé Patriarcal, 17 de Março de 2013


A luz de Cristo

1. A fé cristã é uma fé pascal, porque é uma adesão sem limites à morte e ressurreição de Jesus. Verbo eterno de Deus feito Homem, Cristo encerra e comunica-nos o sentido divino de todas as realidades: do seu desígnio de salvação, do sentido profundo do mistério do homem e da vocação humana, do seu diálogo com o Universo criado, do sentido que imprimiu à História por ele construída, do exercício da sua liberdade criativa. Cristo é, assim, a luz que ilumina toda a realidade, porque Homem como nós, em íntima comunhão com Deus Pai, Ele conhece o sentido de todas as coisas em Deus. A maior dignidade do homem é a sua liberdade, capacidade criadora e desafio a exprimir a vida amando e contemplando o amor. Acreditar em Cristo é aceitar que Ele é, para nós, a luz que revela o sentido profundo da nossa existência e traça os caminhos para a construção de uma história humana que se aproxime progressivamente da verdade definitiva na humanidade que nos será dada e revelada nos novos céus e na nova terra.


Aproximamo-nos da Páscoa. Iniciaremos a celebração da Páscoa, no momento presente que estamos a viver, proclamando a “luz de Cristo”. E esta luz é, hoje, para nós ainda peregrinos do Reino dos Céus, a “luz da fé”. A nossa fé revela e conduz-nos nos caminhos da vida.


A luz da fé

2. A luz da fé é a dimensão da vida sobrenatural da Igreja e de cada cristão que atravessa o magistério conciliar. A Igreja situa-se perante si mesma e o seu mistério e perante a sua missão no mundo, ao qual é continuamente enviada, guiada por essa luz. É ela que a conduz no acolhimento contínuo da Palavra, na fidelidade à fé recebida dos Apóstolos. Essa luz guia todos os cristãos, na diversidade de carismas e ministérios, na fidelidade à missão para que o Senhor os escolheu; é essa luz que guia a Igreja na compreensão de todas as realidades criadas e da história contemporânea, captando a relação que existe entre o presente e o futuro escatológico que nos espera, objeto da Promessa. A luz da fé aponta ao cristão os caminhos da santidade, como se canta num hino do Ofício das Horas: “farei da fé vivida em cada dia a luz interior que me conduz, à luz de Deus, da paz e da alegria, à luz da glória eterna, à luz da luz”.


A luz da fé e o mistério da Igreja

3. É esta luz que conduz a Igreja no aprofundamento e fidelidade à fé recebida. Diz a Lumen Gentium: “Graças a este sentido da fé, provocado e sustentado pelo Espírito da verdade, e sob a orientação do sagrado Magistério, que garante aos que lhe obedecem fielmente não uma palavra humana, mas a Palavra de Deus (cf. 1Ts. 2,13), o povo de Deus adere indefetivelmente à fé que foi transmitida aos santos de uma vez para sempre (cf. Jd 3), penetre-a mais profunda e convenientemente, e transpõe-na mais intensamente para a sua vida”[1]. Penetrar mais profundamente na fé recebida e transpô-la para a vida é a vocação da Igreja à santidade e à missão e é a própria luz da fé que conduz a Igreja nesse aprofundamento existencial da fé.


É esta luz que deve guiar os sacerdotes na compreensão dos dons que o seu ministério lhes confere e a compreenderem o modo de os aplicar para bem dos fiéis. “É preciso, porém, que interpretem à luz da fé todos os bens que lhes advêm, para que sujeitem o uso desses bens à plena conformidade com a vontade de Deus, e rejeitem tudo aquilo que for prejudicial à sua missão”[2].


É também a luz da fé que ilumina os missionários, na compreensão da sua missão evangelizadora e no ardor com que a devem exercer[3].


Também quando se refere à missão dos leigos no mundo, o Concílio ensina que só a luz da fé leva ao conhecimento de Deus e de Jesus Cristo e a um discernimento correto sobre todas as realidades terrenas. “Somente com a luz da fé e a meditação da Palavra de Deus, poderá alguém:

            * reconhecer, a Deus no qual vivemos, nos movemos e existimos (Act. 17,28), sempre e em toda a parte;

            * descobrir a sua vontade em todos os acontecimentos;

            * ver Cristo em todos os homens, próximos ou estranhos;

            * julgar corretamente sobre o verdadeiro sentido e valor das coisas terrenas, em si mesmas e em relação com o fim do homem.


 Os que têm esta fé, vivem na esperança da revelação dos filhos de Deus, lembrados da cruz e da ressurreição do Senhor”[4].



A luz da fé e a compreensão do mundo e da história

4. Este é um aspeto importante da missão da Igreja no mundo: a luz da fé ilumina a realidade e guia o cristão no discernimento do sentido das realidades humanas. Perante a complexidade da realidade do mundo atual, a luz da fé leva a Igreja a empenhar-se no diálogo e na colaboração, introduzindo na busca do sentido da história, a sua visão do homem e do mundo. Lê-se na Gaudium et Spes: “O Concílio, testemunhando e expondo a fé do Povo de Deus, congregado por Cristo, não pode dar prova mais eloquente de solidariedade, de respeito e de amor para com toda a família humana, à qual este povo pertence, do que dialogando com ela sobre esses variados problemas, trazendo-lhes a luz que vem do Evangelho e pondo à disposição do género humano as forças de salvação que a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, recebe do seu Fundador. Com efeito, é a pessoa humana que importa e a sociedade humana que é necessário renovar. É, pois, o homem, pessoa a salvar na sua unidade e na sua totalidade, com corpo e alma, coração e consciência, pensamento e vontade, que constituirá o eixo de toda a nossa explanação”[5]. Entrando em diálogo e no debate sobre as realidades da história contemporânea, a Igreja, conduzida pela luz da fé, exerce a sua missão evangelizadora.


A luz da fé permite à Igreja discernir sinais do Reino de Deus

5. Ler a realidade à luz da fé permite à Igreja verificar que na própria realidade humana, nos seus valores, nos seus anseios, está a germinar o Reino de Deus e pode discernir, nessa leitura da realidade, com a luz da fé, sinais do Reino. Citamos, mais uma vez, a Gaudium et Spes: “Movido pela fé, pela qual crê que é conduzido pelo Espírito do Senhor, que enche o Universo, o Povo de Deus esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e nos desejos que compartilha com os seus contemporâneos, quais são os verdadeiros sinais da presença ou dos desígnios de Deus. Com efeito, a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova e faz-nos conhecer a vontade divina sobre a vocação integral do homem, e assim orienta a inteligência para soluções plenamente humanas”[6]. Noutro texto, a Constituição Pastoral afirma que a Igreja tem o dever de fazer esse discernimento observando a realidade com fé. No seu diálogo com o mundo a Igreja contribui, assim, para identificar as dimensões positivas da história contemporânea, que estão à altura da dignidade da pessoa humana.



Relação entre o tempo presente e a eternidade

6. A luz da fé leva-nos a viver as realidades presentes com o coração aberto à esperança no mundo definitivo, na eternidade. A Igreja e os cristãos nunca podem ficar prisioneiros do tempo presente, porque a fé abre-os para o tempo definitivo. É missão da Igreja introduzir na cultura e na consciência das pessoas esse horizonte de eternidade: “A prometida restauração que esperamos, começou já em Cristo, foi impulsionada com a vinda do Espírito Santo, e continua por meio d’Ele na Igreja, que nos faz descobrir na fé o sentido da própria vida temporal, à medida que vamos realizando, com esperança nos bens futuros, a obra que o Pai nos confiou no mundo, e vamos alcançando a nossa salvação”[7].


A luz da fé leva-nos a olhar a história humana com esperança: “Unidos, pois, a Cristo na Igreja e marcados pelo selo do Espírito Santo, o qual é garantia da nossa herança (Ef. 1,14), chamamo-nos e na realidade somos filhos de Deus (cf. 1Jo. 3,1), mas não aparecemos ainda com Cristo na glória (cf. Cl. 3,4), na qual seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é (cf. 1Jo. 3,2). Assim, enquanto permanecermos neste corpo, vivemos exilados longe do Senhor (2Cor. 5,6) e, apesar de possuirmos as primícias do Espírito, gememos dentro de nós (cf. Rom. 8,23) e ansiamos por estar com Cristo (cf. Fl. 1,23)[8].


Vamos celebrar a Páscoa. A ressurreição de Cristo é o ponto de convergência e de encontro entre o presente da nossa vida, e a plenitude escatológica de que já participamos em Cristo ressuscitado.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca




[1] Lumen Gentium (LG), nº 12

[2] Presbyterorum Ordinis, nº 17

[3] cf. Ad Gentes, nº 23

[4] Apostolicam Actuositatem, nº 4

[5] Gaudium et Spes, nº 5

[6] GS, nº 11

[7] LG, nº 48

[8] LG. idibem


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