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Segunda Catequese Quaresmal: “A Fé é um dom de Deus”
23 de Fevereiro de 2013
Segunda Catequese Quaresmal: “A Fé é um dom de Deus”

Catequese do 2º Domingo da Quaresma

Sé Patriarcal, 24 de Fevereiro de 2013

Introdução


1. Tudo o que é decisivo para a nossa salvação, é obra de Deus em nós através do seu Filho Jesus Cristo que nos comunica o Espírito Santo. Cristo é o nosso Redentor, o único que nos pode salvar. Ora sendo a fé uma atitude decisiva para a nossa salvação, ela é obra de Deus em nós, é um dom do seu amor misericordioso. Mas o homem crente também é protagonista da sua fé, esta é uma atitude humana, uma opção da sua inteligência, uma escolha da sua liberdade. Poderá o homem, com as suas atitudes naturais, chegar ao conhecimento de Deus? O Concílio Vaticano II, retomando, aliás, doutrina do Vaticano I, afirma: “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas (cf. Rom. 1,20)”[1]. Será este conhecimento a fé sobrenatural? O Concílio acrescenta dois elementos: em primeiro lugar afirma que este conhecimento natural de Deus, “embora não sendo inacessível à razão humana, pode também, na condição presente do género humano, ser conhecido de todos, facilmente, com certeza firme e sem qualquer mistura de erro”[2]. Ou seja, a revelação divina trás a esse conhecimento natural de Deus a certeza e a firmeza próprias da fé.


Mas a intimidade de Deus, do seu desígnio e vontade salvífica, o fazer os homens participantes da sua realidade divina, os homens só têm acesso a esse mistério através da fé sobrenatural na revelação divina[3]. As capacidades humanas de chegar a Deus são, assim, potenciadas pela revelação do amor de Deus. A inteligência e a vontade humana são tornadas capazes, pela revelação, de acolher o mistério do amor de Deus. Na visão teológica da fé sobrenatural exprime-se a harmonia entre a natureza e a graça.



A Palavra de Deus é portadora da graça da Fé


2. A ajuda de Deus ao homem para que escute a Palavra de Deus e a ela adira na fé, é dada através da própria Palavra. Está anunciada a estrutura sacramental da palavra humana tornada Palavra de Deus, nos Profetas, em Jesus Cristo Palavra eterna encarnada, na palavra dos Apóstolos de Jesus. Dá-se dimensão perene à antropologia do amor: quando uma pessoa se sente amada, ganha força para responder com amor à pessoa que o ama.


É o que acontece na Palavra revelada: Deus abre o coração, manifesta o Seu amor pelos homens, revela-Se como amor. A Palavra de Deus que manifesta ao homem o amor com que é amado, dá ao homem a força para responder com amor. Essa resposta é a fé. O escutar a Palavra predispõe o homem para a resposta. Na linguagem do Concílio, esta é uma graça que prepara o homem para a resposta, ajudando-o a vencer hesitações e obstáculos. E quando se dispõe a acolher a Palavra, respondendo-lhe com fé, é ajudado nessa experiência, nova e renovadora, pela própria graça da Palavra.


No seu dinamismo interno, a Palavra revelada convida à fé. O Concílio afirma: “A Deus que revela é devida a obediência da fé (Rom. 16,26) pela qual o homem se entrega completa e livremente a Deus, numa completa homenagem da inteligência e da vontade a Deus que revela e no assentimento voluntário à revelação que nos faz”[4]. A visão da fé como abandono obediente à vontade de Deus é tema querido a São Paulo. Trata-se de uma obediência amorosa, onde a fé encontra, desde o seu início, a caridade.


A escuta da Palavra é o início da fé; escutá-la sempre de novo, aprofunda a fé como adesão ao desígnio de Deus. Mas a fé é o início de uma caminhada, de uma peregrinação, que só acabará na vida eterna. Nessa caminhada sentimos a beleza e a novidade do homem novo, aprofundaremos progressivamente a nossa intimidade com Deus, aprendemos a amá-l’O e a amar os irmãos como Ele os ama. Nesta caminhada a graça inicial da fé é continuamente renovada pela força do Espírito Santo. A fé sobrenatural é fruto da ação do Espírito Santo na nossa vida. Voltamos a citar o Concílio: “Para existir esta fé requer a graça de Deus que previne e ajuda, bem como a ajuda interior do Espírito Santo que toca o coração e o volta para Deus, abre os olhos do espírito e dá a todos a doçura de aderir e acreditar na verdade. Para tornar sempre mais profunda a inteligência da revelação, o Espírito Santo não cessa, através dos seus dons, de tornar a fé mais perfeita”[5].



A ação do Espírito Santo no crescimento da fé


3. Nos textos conciliares está expressa a consciência clara de que o processo da fé, desde o seu início até à sua plenitude escatológica é movido pela ação contínua do Espírito Santo porque desde a primeira adesão de fé a Deus que nos fala, o crente entrou na relação das Pessoas divinas por Jesus Cristo, Filho de Deus e nosso irmão. Logo no início da fé, para aqueles não cristãos que escutaram a Palavra e a ela se convertem, o Concílio afirma: “Esta conversão deve ser entendida como uma conversão inicial. É, no entanto, suficiente para que o homem tome consciência que, desviado do pecado, é introduzido no mistério do amor de Deus, que o chama a estreitar relações pessoais com Ele, em Cristo. Com efeito, sob a ação da graça de Deus o novo convertido começa um itinerário espiritual pelo qual, comungando já pela fé no mistério da morte e ressurreição, passa do homem velho ao homem novo que encontra em Cristo a sua perfeição”[6].


O novo convertido, sobretudo depois do batismo, entra na Igreja, fica a fazer parte do novo Povo de Deus que se identifica com Cristo e participa da sua missão profética e é o Espírito Santo que dá a este povo a garantia da verdadeira fé. O “sentido da fé” identifica-se com a pertença à Igreja, Povo que o Espírito conduz na autenticidade da fé[7]. Eles receberam da Igreja o dom da fé, o Espírito Santo tornou-os capazes de anunciar a fé e de a celebrar nos sacramentos da Igreja[8].


A fé gera uma nova compreensão da vida que deve ser inculcada pela educação cristã, que deve levar “a que os batizados, introduzidos passo a passo no conhecimento do mistério da salvação, se tornem cada dia mais conscientes deste dom da fé que receberam e aprendam a adorar a Deus Pai em espírito e verdade, sobretudo na ação litúrgica”[9].




4. A fé da Igreja exprime-se na fidelidade “com efeito graças a este “sentido da fé” que é despertado e mantido pelo Espírito de verdade e sob a orientação do sagrado magistério, que permite, se lhe obedecermos fielmente, receber, não apenas uma palavra humana, mas verdadeiramente a Palavra de Deus, o Povo de Deus liga-se indefetivelmente à fé transmitida aos santos uma vez por todas”[10].


Esta fidelidade à fé da Igreja é uma característica fundamental da fé católica e é fruto da compreensão da fé, fruto da ação do Espírito Santo. Esta fidelidade à fé de todo o povo crente faz-nos sentir a alegria de pertencermos à Igreja, o Povo do Senhor. Conduzindo-nos na fé, o Espírito Santo faz-nos mergulhar mais profundamente no nosso sentido de pertença à Igreja. Este sentido de pertença está ligado à fé comum que todos acreditamos.


O Espírito Santo leva a Igreja a compreender e respeitar fielmente a Revelação que é a única fonte da fé da Igreja. É por isso que ela é infalível quando proclama a fé revelada, seja através do ministério apostólico do Papa e dos Bispos, Sucessores dos Apóstolos, quer na adesão de todo o Povo crente a essa fé revelada. Diz a Lumen Gentium: “À luz do Espírito de verdade esta Revelação é escrupulosamente conservada na Igreja e proposta fielmente”[11].



5. A Revelação propõe ao homem uma dimensão transcendente da verdade. A verdade revelada, experimentada na vida de fé, atrai a inteligência humana, a qual, só com as suas forças naturais, não poderá compreender completamente a verdade revelada por Deus e que é uma dimensão mais profunda da verdade manifestada na criação. Só o Espírito Santo conduz o homem nessa penetração da verdade que Deus nos revela. “Pelo dom do Espírito, o homem chega, na fé, a contemplar e a saborear o mistério da vontade divina”. A compreensão da inteligência desabrocha na sabedoria. “A natureza inteligente da pessoa encontra e deve encontrar a sua perfeição na sabedoria. Esta atrai com força e doçura, o espírito do homem para a busca e o amor da verdade e do bem; o homem que se alimenta da sabedoria, é conduzido do mundo visível ao mundo invisível”[12].


É na sabedoria que brilha, com todo o esplendor, a luz da fé que aponta ao homem crente os caminhos da verdade, do amor, do verdadeiro discernimento dos acontecimentos e dos caminhos da vida.


Com fé devemos agradecer continuamente ao Espírito de Deus este dom da fé na qual iluminou a nossa vida, de pessoas e de Povo do Senhor.



† JOSÉ, Cardeal-Patriarca



[1] Dei Verbum (DV), nº 6

[2] Ibidem

[3] cf. Ibidem

[4] DV, nº 5

[5] Ibidem

[6] Ad Gentes (AG), nº 13

[7] cf. LG, nº 12

[8] cf. LG, nº 11

[9] Gravissimum Educationis (GE), nº 2

[10] LG, nº 12

[11] LG, nº 25

[12] Gaudium et Spes, nº 15


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