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Discurso no Encerramento do Simpósio “Reinventar a Solidariedade em tempo de Crise”
15 de Maio de 2009
Discurso no Encerramento do Simpósio “Reinventar a Solidariedade em tempo de Crise”
“Escutar a Crise”
        1. É para mim uma honra encerrar este Simpósio, sob o tema “Reinventar a Solidariedade em tempo de crise”. Faço-o na minha qualidade de Patriarca de Lisboa, a Cidade que acolheu este evento. A crise económico-financeira que o mundo atravessa ofereceu-lhe o pretexto e o contexto. Mas o seu horizonte mais vasto é mais amplo e profundo: situa-se na perspectiva dos grandes momentos de mudança da história da humanidade e do contributo da Igreja para essa mudança.
            Um olhar sobre a história da humanidade pode focar perspectivas diversas da sua evolução, detectando as forças e dinamismos que originaram as grandes mudanças. Quero referir aqui e agora um enfoque a que sou particularmente sensível: o papel que tiveram em grandes mudanças as tomadas de consciência colectivas dos povos. Do que se trata? Subitamente, inesperadamente, uma perspectiva inovadora, até revolucionária, começa a fazer caminho na consciência dos povos, porque lhes suscita algo de adormecido ou esquecido da sua dignidade. Foi assim com a consciência da dignidade dos trabalhadores na primeira revolução industrial; com o movimento de autonomia e independência dos países colonizados pela Europa, a partir da Conferência de Bandung; com o movimento de defesa dos direitos humanos; com a nova consciência de paz que recusa a guerra e a violência como caminho para resolver diferendos entre povos e civilizações; com a defesa do ambiente como elemento decisivo para construir um futuro positivo para a humanidade; com o sentido de globalização, que dá a todos os problemas a dimensão universal de uma única família humana. Estas “tomadas de consciência colectiva”, desencadeadas por acontecimentos que nem sempre são fáceis de identificar, são dinâmicas, progressivas, atingem massas humanas cada vez mais numerosas e são irreversíveis nos seus efeitos de mudança da história. 
            A partir de certo momento, as “ideologias”, os mecanismos políticos e os sistemas económicos implantados tentam dominá-los, chegando mesmo a neutralizar-lhes a sua força inovadora e transformadora. Manter-lhes a chama renovadora no contexto de uma nova busca da harmonia da sociedade é desafio apresentado a todas as estruturas, religiosas, políticas, sociais, chamadas a transformar-se pondo-se ao serviço de uma nova humanidade. As Igrejas, de modo particular a Igreja Católica, pela mensagem de que são portadoras e pela presença organizada em todo o mundo, são chamadas a estar na primeira linha de discernir a mensagem dessa consciência colectiva e de a consolidar como mensagem de esperança para um futuro novo. O Concílio Vaticano II designou esse papel da Igreja como o dever de ler continuamente os “sinais dos tempos”, isto é, de discernir nos acontecimentos e dinamismos da humanidade, sinais de um mundo novo (cf. GS. Nn. 4 e 11).
                                                               
            2. Eis o motivo pelo qual a Conferência Episcopal Portuguesa, em vez de publicar uma Nota Pastoral sobre a crise, optou por realizar este Simpósio. A situação a que toda a gente chama a “crise”, é um acidente de percurso a resolver tecnicamente no quadro dos sistemas implantados, ou está a gerar uma nova consciência colectiva, a exigir uma etapa nova na busca da harmonia para a sociedade? É cedo para responder a esta questão, mas pressinto que é isso que já está a acontecer. E nessa linha pretendeu-se com este Simpósio aprofundar essa tomada de consciência, discernindo-lhe a força mobilizadora, em ordem a encetar caminhos novos para a humanidade, nos quais a Igreja não pode deixar de empenhar-se.
            As estruturas do mundo moderno são cada vez mais rígidas e dominadoras, o “bem comum” nem sempre é a força que as dinamiza, e hão-de procurar “domesticar” os aspectos inovadores desta nova tomada de consciência.
 
            3. Ouso discernir o sentido profundo desta tomada de consciência: a prioridade absoluta a dar à pessoa humana, à comunidade humana, única família dispersa neste planeta terra que é a sua casa comum. Aquilo a que chamamos desenvolvimento, só pode ser a valorização progressiva do homem e dos seus enquadramentos fundamentais: a família, o trabalho, a corresponsabilidade comunitária. A humanidade de hoje exige e reclama que tudo esteja ao serviço do homem: a política, os sistemas económicos, a organização social, na igualdade absoluta de todos em dignidade e no direito de participar e partilhar a construção desse mundo novo. Que ninguém queira aprisionar a história, em nome de ideologias, de interesses vários, de sistemas implantados. A humanidade grita por novas harmonias, que exigirão caminhos novos de governo da humanidade, caminhos de autêntico progresso humano. É preciso pôr a pessoa humana, na sua dignidade, como prioridade absoluta da organização da sociedade, na ciência ao serviço de todos, na partilha dos bens comuns a toda a família humana, na valorização da dimensão espiritual do homem, única fonte donde brota a consciência ética, fundamental para que no meio das crises, se encontre um caminho de esperança.
            No dia em que olharmos para a humanidade sentindo que todo o homem é nosso irmão, ganha uma exigência renovadora o primeiro mandamento de Cristo: amai-vos uns aos outros, ama cada homem como um irmão, mesmo que seja teu inimigo.
 
            4. Inseriu-se este Simpósio nas celebrações do Cinquentenário da Inauguração do Monumento a Cristo-Rei”. “Deus ama a cidade”, diz o salmista; Cristo ama a cidade, disseram os católicos de Portugal há 50 anos. Eles acreditaram, nós acreditamos, que esta humanidade é amada por Deus e que esse amor é força silenciosa em toda a construção de um futuro novo.
            Este Simpósio lança um alerta e uma interrogação: queremos resolver a “crise” ou queremos também “escutar” a crise? É que do fundo do seu drama pode estar a surgir a voz que desafia todos, pessoas e estruturas, a porem-se a caminho, mudando em favor do homem, renovando-se em nome da família humana.
 
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

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