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Conferência no VI Simpósio do Clero de Portugal
02 de Setembro de 2009
Conferência no VI Simpósio do Clero de Portugal
“Crescer como Pessoas para servir como Pastores”
 I – Introdução
            1. “Crescer como pessoas, para servir como pastores” é uma formulação perigosa e ambígua. Pode sugerir dois planos separados, ainda que convergentes: a formação do homem para poder ser pastor. É outra a perspectiva em que me vou colocar: servir como pastores ajuda a crescer como pessoas. Santo Afonso Maria de Ligório, figura modelo de sacerdote, escreveu: “É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito”[1]. De facto são duas questões diferentes que nos podemos colocar: que virtudes humanas deve ter o homem sacerdote, para poder exercer bem o seu ministério? Ou: em que medida o exercício generoso do ministério nos ajuda a crescer como homens? Eu adopto a segunda, sem deixar de ter a primeira como pano de fundo, sobretudo numa etapa de que não falarei, a dos critérios de discernimento vocacional e a preparação prévia à ordenação sacerdotal.
            Procurarei não ser apenas teórico, expondo doutrina; fixo o meu olhar nos padres concretos que nós somos, com que a Igreja conta hoje para poder exercer este ministério de graça, num momento determinado da história, da Igreja e da humanidade. Estou consciente de que o essencial deste ministério não muda, é perene, porque é sacramento da missão do próprio Cristo; mas não posso esquecer que as transformações verificadas na Igreja e no mundo, nestes últimos cinquenta anos, enquadram inevitavelmente o exercício desse ministério, como condicionaram, à partida, a escolha desta vocação.
 
II – Um quadro cultural
            2. O Concílio Vaticano II, no início dos anos 60, marca uma profunda viragem cultural na compreensão da Igreja e do mundo e das suas relações específicas. Esta mutação cultural, que enquadrou a própria teologia, continuou a evoluir a um ritmo acelerado. Falar de “espírito conciliar” nos anos sessenta e no início do século XXI não é exactamente a mesma coisa e não perceber esta diferença pode levar a confusões sérias. É no contexto desta “mutação cultural” acelerada que temos de situar a problemática concreta dos sacerdotes e das vocações sacerdotais, coerentes com a doutrina da Exortação Apostólica “Pastores Dabo Vobis”: Deus chama sempre os seus sacerdotes a partir de determinados contextos humanos e eclesiais, com os quais estão inevitavelmente conotados e aos quais são mandados para o serviço do Evangelho de Cristo”[2].
            Dividirei os sacerdotes actuais em três grupos, com o risco de simplismo de análise que estas divisões cronológicas podem significar: os sacerdotes que se ordenaram desde a convocação do Concílio até ao final da década de sessenta; os que se ordenaram nos anos setenta e oitenta; e os que se ordenaram depois dos anos noventa.
 
            3. Os sacerdotes do primeiro grupo, a que eu pertenço, e que já é o menos numeroso, viveram a sua infância e juventude e decidiram da sua vocação num quadro cultural profundamente marcado pela pertença à Igreja. A família, e os grandes movimentos católicos eram a base de uma compreensão do homem e da realidade, porque imprimiam desde a infância uma base moral radicada na fé cristã. O Concílio, na sua inspiração mobilizadora, parte de uma palavra de ordem do Papa João XXIII: o mundo mudou, está-se a criar uma barreira entre a Igreja e o mundo, a Igreja tem de se renovar para poder ser enviada de novo a este mundo que mudou, com a sua mensagem de esperança e salvação. Nesta profunda mudança, a Igreja não deve limitar-se a condenar os erros deste mundo, deve amá-lo, compreendê-lo, sabendo ler nele os sinais do Reino; deve, não fugindo do mundo, assumir, sempre de novo, a sua missão.
            Os jovens sacerdotes, formados antes do Concílio numa Igreja que formatara a sua identidade, ao ritmo do Concílio, partem da Igreja à descoberta do mundo e com que entusiasmo o fizeram, muitos talvez mais fascinados por essa descoberta do mundo do que pela profunda renovação da Igreja.
            O mundo dos anos 60-70 era complexo e vertiginoso. Em plano europeu digeriam-se ainda as consequências da 2ª Guerra Mundial. A Europa ficou dividida: a Ocidente, os países tentam vencer essa etapa da história, consolidando a democracia política, desenvolvendo uma economia liberal de mercado, salvaguardando a liberdade, política, económica, de expressão e de consciência. A Leste domina o marxismo-leninismo, sob a batuta de Moscovo, impondo o domínio absoluto do Estado sobre as liberdades individuais, de expressão política, cultural e religiosa. O comunismo torna-se, para o Ocidente, a ameaça e o “papão”.
            No resto do mundo assiste-se à última etapa da descolonização, com os novos países emergentes, a serem disputados pelos dois blocos europeus, o capitalismo e democrático e o bloco comunista, o que vai estendendo a todo o hemisfério a fronteira europeia dos blocos. As guerras da Indochina, e do Vietname em particular, são expressões dramáticas desses ventos da história. Com os movimentos “pan-árabes” liderados pelo Egipto, assiste-se ao início do despertar do Islão reivindicando um lugar de influência histórica a nível global.
            Em Portugal, o último país a manter um império colonial, rebentam as guerras dos movimentos de libertação, anunciando o fim do império português. Nesses anos, a guerra colonial e a contestação ao regime político do Estado Novo entrecruzam-se baralhando as ideias e suscitando novas correntes de opinião.
            No plano cultural, relativiza-se a dimensão religiosa. O ateísmo ganha uma expressão colectiva nunca antes conhecida na história, imposto teoricamente e pela autoridade política no bloco comunista, implantando-se de forma larvar como atitude prática, fruto do materialismo e da afirmação do homem, no bloco ocidental. Aí, ao mesmo tempo que se afirmava a liberdade religiosa, a fé em Deus era relegada para o âmbito da consciência privada. A construção da história é concebida sem Deus e deixada apenas às capacidades da liberdade e das potencialidades humanas. Neste contexto, sobretudo a Ocidente, vêem ao de cima os velhos princípios do iluminismo e do racionalismo: a razão humana é a única luz que orienta o homem, que toma totalmente nas mãos o seu destino. Para afirmar e salvaguardar a liberdade, põem-se em questão os ordenamentos éticos, trave mestra do equilíbrio das sociedades. Uma das suas expressões foi a chamada revolução sexual, que leva ao desgaste da dignidade do amor, põe em questão a solidez da família, altera o ritmo do amadurecimento dos jovens. Com este pôr em questão de uma sabedoria milenar, sublinha-se o papel das ideologias, o que começa a mitigar o medo do marxismo, assumido como motor ideológico de todas as revoluções e de todas as transformações políticas e sociais. Os acontecimentos de Maio de 68 em Paris são o sinal desta nova atitude perante a história que estava a germinar.
 
            4. Este é o mundo ao qual a Igreja deve ser enviada, percebendo-o para se renovar para a missão. 
Disse atrás que os padres dessa geração partiram da Igreja à descoberta do mundo. O Concílio Vaticano II gerou um duplo movimento: a solidez teológico-espiritual em que deveria assentar a renovação da Igreja, para poder ser missionária neste mundo, consignada nos documentos conciliares e continuamente afirmada no Magistério, sobretudo dos diversos Papas que se sucederam depois do Concílio; e a “euforia conciliar” de mudança, nem sempre baseada na solidez daqueles documentos, muito sensível às mudanças em chave cultural profana. Os padres desta geração viveram na carne esta ambivalência. Alguns, reagindo à “euforia conciliar” rejeitaram o próprio Concílio; outros procuraram generosamente inspirar-se no verdadeiro espírito do Concílio, não para manterem a Igreja como era, mas para encontrar solidamente os novos caminhos, sobretudo em termos de missão; outros deixaram-se arrastar pelos novos ventos da história. Movimentos como o da Teologia da Libertação, a Igreja-base que valoriza mais a compreensão do povo que o Magistério, entusiasmaram muitos sacerdotes desse tempo. Em todas as frentes revolucionárias, da América Latina a Paris, ou em Lisboa nos dinamismos pré-revolucionários, encontramos sacerdotes. Procuraram identificar-se com o mundo – o abandono do traje eclesiástico foi disso um sinal, puseram em questão o celibato, deixaram desgastar a base sobrenatural do seu ministério. Estas atitudes, porque não tinham o apoio do Magistério, a começar pelo próprio Concílio, e nem sequer o apoio dos presbitérios e da comunidade eclesial, afirmaram-se, quase sempre, como atitudes individuais, originando uma autonomia no julgar dos caminhos pastorais da Igreja, ao ritmo do que a cada um parecia melhor, e não ao ritmo da unidade exigida pela comunhão eclesial, que encontra a sua primeira expressão na unidade dos caminhos da missão.
 
            5. Nas últimas décadas do século XX verificou-se uma profunda transformação da sociedade, cujo vector principal foi a autonomia de critérios e referências em relação à matriz cristã da cultura, concretizada no horizontalismo ético, no sentido da vida do homem e da história, na absolutização do poder da razão e da liberdade. A Igreja, e a sua visão da vida, deixou de ser o enquadramento espontâneo da personalidade. Para os jovens dessas décadas, esse quadro de referência é a sociedade e a nova cultura emergente, veiculada na escola, infiltrada na família, agressivamente proposta pelos meios de comunicação, expressa na liberdade de costumes. Ao contrário do que se passava nos anos do pré-concílio, os jovens que optam por uma vocação sacerdotal, vêm do mundo à procura da Igreja; a surpresa da sua descoberta é a Igreja.
            Mas aquela Igreja post-conciliar, transformada ao ritmo da euforia post-conciliar, que assimilou demasiadamente os critérios do mundo não os atrai e muitos mostram-se igualmente incapazes de mergulhar na profundidade dos documentos conciliares para descobrirem o verdadeiro rosto da Igreja renovada. Não admira que busquem a autenticidade da Igreja em sinais e expressões da Igreja pré-conciliar, que eles não conheceram, e que não podem, por isso, viver na verdade que tiveram no tempo justo. Não tenhamos ilusões: nos nossos presbitérios estes dois grupos existem e coexistem, mas não convergem numa visão da Igreja e na compreensão dos caminhos da missão. Os franceses classificaram estes dois grupos: a uns chamaram padres “conciliares” e aos outros “identitaires”, cuja tradução em português não nos diz muito. Ouçamos um bispo francês que tem estudado este fenómeno: “Esta reviravolta nas anterioridades explica bem o diálogo de surdos entre padres que se pretendem “conciliares” e os jovens sacerdotes que se afirmam “identitaires”. Como se os dois registos de afirmação se opusessem (…). Mais do que opor a vontade de se abrir ao mundo e o regresso “identitário”, é preciso recuperar a génese da crise nestes dois movimentos convergentes que nos arrastaram. É preciso, sobretudo, procurar, no mais profundo da nossa experiência cristã, o que nos levará a reconhecermo-nos como irmãos e como discípulos de Cristo, para além de todas as nossas diferenças de sensibilidades culturais e mesmo políticas”[3].
 
III – Redescobrir o Concílio
            6. Como vimos, tanto um grupo como outro têm como referência a Igreja post-conciliar, a tal Igreja preparada para a missão num mundo que mudou profundamente; mas também percebemos que entre ambos os grupos há muitos sacerdotes que não mergulharam profundamente na doutrina do Concílio, base necessária para esse novo rosto de Igreja. É preciso redescobrir o Concílio e o seu desafio de estar atento aos sinais que, apesar de tudo, nos vêm do seio desse mundo que mudou, a sugerirem o verdadeiro rosto da Igreja nesta nova etapa da missão. Não se evangeliza esse mundo identificando-nos com ele e cedendo aos seus critérios, nem propondo-lhe formas de ser que já não o interpelam. É algo novo, já anunciado por Paulo VI na “Evangelli Nuntiandi” e retomado por João Paulo II, desafiando-nos para uma nova evangelização. Esse caminho novo estamos apenas a começar a descobri-lo e exige a conversão de todos nós, a atenção aos sinais, às novas expressões do mistério de sempre. Cito-vos agora um texto recente do Cardeal Walter Kasper, referindo-se à nova evangelização da Europa: “Nesta nova situação, o Cristianismo assume hoje, num sentido muito claro, uma nova fisionomia histórica. Estamos apenas no início desta nova abertura. A Igreja é, sim, sempre a mesma em todos os séculos, mas está, também, sempre a caminho de descobrir, de maneira nova a novidade, nunca esgotada, do Evangelho. O Concílio Vaticano II indicou, a tempo, os caminhos para o fazer e pode ser uma bússola segura para o seu caminho no século XXI. Infelizmente, estamos, ainda, bem longe de termos consciencializado plenamente as proporções da mudança, do desafio a enfrentar e da necessidade de uma nova orientação missionária da pastoral nos nossos países. A força da inércia, uma mentalidade de beato que possui e o medo da novidade são grandes. Muitos querem continuar a fazer o melhor que podem aquilo que sempre se fez, mas a longo prazo isso não será possível. Devemos mudar a maneira de pensar e orientarmo-nos de maneira nova, para atravessar a “fronteira da esperança”. Para isso, serão necessárias também mudanças estruturais, mas só as mudanças estruturais fazem um buraco na água, se em primeiro lugar e antes de mais não se verificar uma abertura espiritual. Esta diz respeito a todos os membros da Igreja, de modo particular a auto-compreensão e o serviço do sacerdote. É o Espírito que dá a vida (cf. Jo. 6,63)”[4].
            Citei esta página de Walter Kasper, tirada do livro que escreveu a propósito do seu jubileu sacerdotal, porque, na sua clareza e simplicidade, traça-nos as coordenadas fundamentais da renovação da Igreja e da sua forma de ser neste mundo ocidental, que tanto mudou nos últimos cinquenta anos. Diz-nos, antes de mais, que estamos apenas no início de descobrir essa nova forma de ser Igreja, o que nos convida a todos a uma grande humildade, para pôr o acento nos dados perenes do mistério da Igreja e de não considerarmos definitivas as formas de ser Igreja que inventámos ou pensamos ter descoberto. Nunca foi tão importante aprender a ler os sinais dos tempos, o que só é possível com a luz do Espírito Santo.
            Diz-nos, depois, que a descoberta deste novo rosto da Igreja é um desafio a todo o Povo de Deus, na infinita variedade dos seus carismas e que, no contexto do seu dinamismo, os sacerdotes devem caminhar para uma nova auto-compreensão, descobrindo os traços novos do seu ministério, em que o fundamental deve ser o dinamismo missionário. Afirma, de forma ousada, referindo-se aos mais generosos, que não basta continuar a fazer o melhor possível o que sempre se fez. Esta afirmação é um juízo sobre a maior parte dos nossos sacerdotes. Fica também claro que este novo rosto do sacerdote tem de ser descoberto em Igreja. Uma Igreja a renovar-se gera os sacerdotes de que precisa. Qualquer dinamismo que isole os sacerdotes como um grupo à parte dentro da Igreja, pode trazer-nos consolações a curto prazo, mas não está ao ritmo do desafio que os tempos apresentam a toda a Igreja. Diz-nos, depois, que em todo este processo o Concílio é um “guia fiável”, referindo-se, claro está, ao monumento doutrinal que o Concílio é, e ao Magistério posterior que o explicita, aprofunda e aplica à prática da Igreja. Ao apresentar o Concílio como guia, convida-nos a uma releitura do Concílio, como se ele fosse escrito hoje.
 
            7. O primeiro esforço desta releitura do Concílio é que urgentemente se situe ao nível teológico, tanto na formação inicial do clero como num esforço muito mais sistemático de formação permanente. Nestes cinquenta anos depois do Concílio, a teologia respirou a problemática cultural do post-concílio. Nos estudos filosóficos, abandonada a metafísica, ganharam relevo as chamadas “ciências humanas”, recém chegadas ao estatuto de ciências, favorecendo as diversas análises, desde a da linguagem à dos comportamentos humanos, pessoais e sociais. A teologia não foi indiferente a este processo, e o positivismo científico na análise dos textos fundantes da nossa tradição crente, e a influência imanentista das ciências humanas na interpretação do homem cristão marcaram a sua influência. Volto a citar Walter Kasper: “O sacerdote deve ser um teólogo no sentido original do termo, isto é, alguém que deve falar de Deus e da vida que recebemos de Deus; sempre compreendi a minha existência teológica como parte da minha existência sacerdotal”[5]. É preciso redescobrir a Teologia como aprofundamento da fé, como caminho para escutar hoje a Palavra viva que a fundamenta; é preciso captar a complementaridade e a convergência entre a Teologia e a dimensão mística da fé.
 
 
            IV – A via mística do novo rosto da Igreja
            8. No seu já citado livro, Mons. Simon afirma: “Ao convidar-nos a ler os sinais dos tempos, a Igreja convida a redescobrir e a fazer redescobrir a dimensão propriamente mística da existência cristã: aqui e agora, o Ressuscitado chama-nos a viver a liberdade dos filhos de Deus e a encontrar a nossa alegria na sua presença. A Igreja propõe-nos, através dos sacramentos, entrar num mistério de ressurreição, de entrar já no mistério de Cristo morto e ressuscitado por nós. Não devemos ter medo de chamar as coisas pelo seu nome. É preciso simplesmente ousar reabilitar a mística: o dever da esperança convida-nos a uma experiência sacramental, uma experiência mística cuja realidade não se deixa reduzir a alguns fenómenos maravilhosos. Podemos mesmo dizer que quanto mais o Estado e a sociedade civil assumirem as suas responsabilidades respectivas, mais os cristãos serão convidados a darem testemunho da sua esperança. E esta esperança só tem um nome: Jesus Cristo. É, pois, vão continuar a opor presença no mundo e experiência mística”[6].
            Mons. Simon faz estas afirmações para indicar a via de convergência e reencontro daqueles dois grupos de sacerdotes a que chamou “conciliares” e “identitários”, ou seja, purificar as próprias visões da Igreja e reencontrarem-se na profundidade cristológica do mistério da Igreja, a descobrir e a viver na riqueza da economia sacramental. É um desejo que não se limita aos sacerdotes e à redescoberta da sua identidade, mas que é dirigido a toda a Igreja, na redescoberta da dimensão sobrenatural da existência cristã. A identidade do sacerdote vai-se construindo e descobrindo na medida em que põe toda a riqueza criativa do seu ministério ao serviço desta redescoberta da Igreja, da grandeza do mistério a que é chamada. O “novo rosto da Igreja” e a compreensão do ministério sacerdotal vão emergindo lentamente desta dimensão mística da Igreja a construir, no seu ser e na sua missão. Tomemos consciência de que a evolução das nossas sociedades e os próprios “ventos” conciliares nos afastaram muito, na definição das nossas opções pastorais, desta prioridade do mistério, mais difícil de exprimir por caminhos adaptados num mundo que se afastou de Deus e pôs o homem no centro da História.
Olhemos o percurso da nossa catequese nas últimas décadas e a dificuldade de a centrar no ritmo catecumenal da iniciação cristã; a prioridade ao social sobre o sacramental; a compreensão da moral, tantas vezes dividida entre rigorismo e laxismo; façamos, se formos capazes, um exame de consciência sobre a nossa pregação, e sentiremos a urgência deste chamamento a recentrar os caminhos de pastoral para a construção da Igreja e, consequentemente, do nosso ministério, no mistério de Cristo e na novidade da existência cristã.
 
            9. A Exortação Apostólica “Pastores dabo Vobis” situava já a dimensão do mistério da Igreja e do ministério sacerdotal neste reencontrar do verdadeiro rosto da Igreja para um tempo novo. “A identidade sacerdotal, como toda e qualquer identidade cristã, encontra na Santíssima Trindade a sua própria fonte, que se revela e auto-comunica aos homens em Cristo, constituindo n’Ele e por meio do Espírito, a Igreja como gérmen e início do Reino”. E recorda a seguir o Concílio que apresenta, em termos de ser e de missão, a Igreja como mistério, como comunhão e como missão e conclui: “É no interior do mistério da Igreja, como comunhão trinitária em tensão missionária, que se revela a identidade cristã de cada um e, portanto, a específica identidade do sacerdote e do seu ministério”[7].
            Não estamos a reinventar o mistério da Igreja, mas estamos a tentar encontrar os caminhos para o viver, na sua radicalidade, nas circunstâncias novas do mundo de hoje. 
Não há, no âmbito desta conferência, espaço para aprofundar as exigências desta descoberta em todas as dimensões da Igreja mistério, comunhão e missão. Aliás o mistério descobre-se na medida em que fizermos uma opção clara e generosa por vivermos em comunhão e em missão. A exigência da comunhão, que é com o Pai e o Filho, no Espírito, que se concretiza numa comunhão viva com Cristo, Ele que é o caminho, convida-nos a descobrir a união necessária entre a nossa vida de oração e o nosso ministério.
            Mas quero sublinhar aqui a importância da comunhão eclesial, da comunhão dos nossos presbitérios, da comunhão com os Pastores e o seu Magistério, a comunhão com o Santo Padre, sucessor de Pedro, para contribuirmos solidamente para esse novo rosto de Igreja. Enquanto houver alguns, bispos e padres, que se consideram com o direito de decidir pela sua cabeça, os caminhos de pastoral, o sentido da existência moral, a maneira de celebrar, estamos a fragilizar a proposta cristã, num mundo que saberá aproveitar, com os seus critérios, as nossas divisões. A Igreja é hoje um todo global, perante um mundo globalizado. A sua proposta é um desafio gigantesco, exigente, incompreendido, contestado, rejeitado. A Igreja tem na sua unidade a sua força, a sua voz é uníssona porque é expressão de uma comunhão, porventura sofrida, mas grandiosa. O futuro da Igreja, neste mundo em que vivemos, ultrapassa as capacidades de visão e de decisão de cada um de nós. Na comunhão, sentimos a força do Espírito. É muito mais que uma questão de disciplina. As próprias normas canónicas são apenas o caminho para viver esse mistério maravilhoso da comunhão. Aliás a palavra “disciplina” tem a ver com “discípulo”, é a atitude dos discípulos, que desejam e querem o que vive o seu Mestre. Esta comunhão hierárquica exige a humildade da obediência, atitude básica de uma total disponibilidade para o serviço.
 
            V – Servir, a totalidade do dom[8]
            10. Esta total disponibilidade para o serviço define o ministério sacerdotal. O sacerdote é chamado a pôr-se totalmente ao serviço da edificação da Igreja, com tudo o que é e tudo o que tem. Esta radicalidade do serviço é a mais bela realização da liberdade; é a dimensão em que o sacerdote se humaniza, exercendo o seu ministério, porque viver a vida como um dom, a Deus e aos irmãos, é a mais perfeita realização do ideal humano, num mundo retalhado de egoísmos e busca dos próprios interesses.
            Olhando para os padres de hoje, este desafio do serviço é a chave da nossa fidelidade e autenticidade. Temos de procurar a sua radicalidade e o seu sentido profundo, a sua autenticidade. Antes de mais a sua radicalidade: pôr ao serviço tudo o que somos, sabemos e temos. Muitos sacerdotes dão, neste aspecto, sinais de contradição interior. São generosos no trabalho, desmultiplicam-se em actividades, como diz o povo, “trabalham que nem mouros”, mas permanecem egocêntricos quando reivindicam autonomia de critérios, na gestão dos afectos, no estabelecer de prioridades, na atitude perante os bens materiais. Para se pôr tudo ao serviço, não basta trabalhar muito.
            É por isso que é preciso aprofundar continuamente o sentido deste serviço. Não é por acaso que, na linguagem da Igreja, este serviço é chamado ministério pastoral. E o sentido desta palavra “pastoral” reenvia-nos para a figura do “Bom Pastor”. Este termo resume toda a solicitude salvífica de Deus pelo seu Povo. Na Sagrada Escritura, Deus é dito o “Pastor de Israel”, o que gera nos crentes uma confiança e segurança sem limites, como canta o Salmista: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará; em verdes pastagens me faz repousar, para fontes tranquilas me conduz, e restaura as minhas forças. Ele me guia por bons caminhos, por causa do seu Nome” (Sl. 23,1-3). No Novo Testamento, Jesus encarna esta solicitude amorosa de Deus. Considera-se enviado como pastor às ovelhas perdidas de Israel (cf. Lc. 15,24) e chama-se a si próprio, o “Bom Pastor” (cf. Jo. 10).
            Tanto no Antigo como no Novo Testamento, Deus chama alguns escolhidos a encarnarem esta sua solicitude pastoral. Eles são chamados a encarnar a ternura salvífica de Deus. Profetas ou sacerdotes, somos “sacramentos” de Deus, Bom Pastor. Quando somos pastores à nossa maneira, atraiçoamos a solicitude salvífica de Deus.
            Quais são as atitudes em que a Sagrada Escritura tipifica a fidelidade destes pastores? Dão a vida pelas ovelhas; conhecem-nas pelo nome e elas conhecem-nos; guiam-nas e conduzem-nas às verdadeiras pastagens, isto é, no caminho da verdadeira vida, ao alimento indicado; preocupam-se com as ovelhas fracas e tresmalhadas; não descuram as ovelhas que ainda não pertencem ao rebanho; procuram construir a unidade de um só rebanho, sob um só pastor, isto é, trabalham com os olhos postos na eternidade.
 
            11. Este adjectivo “pastoral” transformou-se numa categoria omnipresente no discurso eclesial.
            Com a elevação à categoria de disciplina teológica, com classificação académica, a Teologia pastoral nem sempre evitou, talvez por influência das ciências humanas e mimetismo em relação à “teoria das organizações”, uma certa burocracia pastoral. Muitas vezes o “pastor” assemelha-se mais a um “gestor de empresas”, do que ao pastor que conhece as pessoas, com os seus problemas próprios e o seu ritmo de caminhada. Um pároco escondido atrás de uma grande máquina pastoral, a fazê-la funcionar eficazmente, pode não traduzir o calor amoroso do Bom Pastor. Walter Kaspter chama-lhe as novas tentações da pastoral actual: a burocratização; a prioridade dada a estruturas, com muitas reuniões, situação a que nos leva a complexidade das estruturas pastorais que criámos, mas que podem esconder o rosto dos verdadeiros pastores. Ele arrisca a indicar, para o nosso tempo, as características do Bom Pastor:
            * É alguém que conduz, que tem a coragem de indicar o caminho da vida, à luz da fé. Num tempo em que há, por vezes, a tentação de adaptar o discurso àquilo que as pessoas querem ouvir, o pastor descobre-se como um servidor da verdade, alguém que sabe dizer a verdade com amor. E avisa: “o discurso vazio e a adaptação àquilo que muitos gostariam de ouvir, não é uma atitude pastoral, mas um falhanço pastoral”.
 
            * O pastor é um amigo e servidor da vida, que identifica na sua fonte, para a qual indica o caminho.
 
            * O pastor do nosso tempo não pode limitar-se a conviver só com os que frequentam a Igreja; vai à procura dos que abandonaram e mesmo dos que nunca foram cristãos.
 
            * Tem uma solicitude particular pelos pobres.
 
            * É alguém que vigia e está atento, que sabe interpretar as influências contínuas do espírito do mundo sobre a Igreja.
 
            * Não se apascenta a si mesmo, não procura na acção pastoral vantagens próprias, sobretudo de ordem material. O desprendimento faz parte da atitude do pastor.
 
            Recordemos a 1ª Carta do Apóstolo Pedro, onde estão apontados os deveres dos pastores da Igreja, em todos os tempos: “Faço uma admoestação aos presbíteros que estão entre vós, eu que sou presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que vai ser revelada: cuidai do rebanho de Deus que vos foi confiado, não por imposição, mas de livre e espontânea vontade, como Deus quer; não por causa do lucro, mas com generosidade; não como donos daqueles que vos foram confiados, mas como modelos para o rebanho” (1Pet. 5,1-3).
 
            VI – Celibato e a novidade do amor[9]
            12. É impossível falar do ministério sacerdotal no contexto do mundo actual, neste início de século e de milénio, sem consideramos o desafio do celibato. Antes de mais, porque ele é contestado por uma cultura que não o compreende nem aceita, contestação que encontra expressões dentro da própria Igreja. Embora não haja aqui espaço para o tratamento sistemático do tema, não podemos deixar de apontar aqueles elementos essenciais para o enquadrar no ministério sacerdotal e situar este no quadro cultural que nos envolve.
            Não é a primeira vez, ao longo da história, que o celibato, quer masculino, quer feminino, é contestado pela sociedade e pela cultura ambiente. O que muda são as formas e as motivações desta contestação. O celibato por amor do Reino dos Céus, como nós o compreendemos e procurarmos viver, não é compreensível sem a fé cristã em Cristo ressuscitado, que inaugura a via cristã de viver e dar sentido a tudo o que é humano.
            No contexto do Antigo Testamento era inconcebível e a esterilidade era uma maldição. Tem a ver com o sentido da vida e da morte; esta sendo inevitável, vence-se na descendência. Os filhos são uma bênção de Deus, pois a vida dos pais prolonga-se neles; não os ter significa a ameaça do aniquilamento. A mulher, matriz da vida, é a mais sacrificada com esta perspectiva, pois o sentido da sua vida e a sua dignidade concentram-se aí, em procriarem, em garantir ao homem a descendência. A Lei de Moisés previa mesmo que, quando o marido morria sem ter dado descendência à sua esposa, o irmão a seguir tinha obrigação de desposar a viúva para lhe garantir a descendência (cf. Lc. 20,27ss). Era um direito da mulher que a poupassem à maldição da infecundidade. Esta mentalidade existe também no Império Romano, e noutras civilizações. Casar e ter filhos era um imperativo da natureza e da sociedade, diminuía o horizonte da liberdade.
            No nosso tempo surgiram novas motivações para não aceitar, não diria o celibato, mas a continência. A chamada revolução sexual, foi desligando sexo e amor, controlou por métodos artificiais a fecundidade, desenvolveu uma cultura do prazer, fez da liberdade sexual o protótipo da liberdade individual, transpondo o seu sentido para a fruição pessoal, e não já como expressão da generosidade oblativa do amor pelo outro, pelos outros. Neste contexto, o celibato não basta ser afirmado, é preciso vivê-lo na linha da novidade cristã, da vida nova em Cristo ressuscitado, que é o âmbito de toda a vida da graça, incluindo o próprio ministério sacerdotal. Sublinharei alguns pontos a ter particularmente em conta na vivência deste carisma, no quadro actual da vivência do ministério sacerdotal.
 
            13. O ponto de referência é a vivência cristã da afectividade e da sexualidade, caminho de santidade também para os que se casam, e não a liberdade sexual, quase sempre egocêntrica, do ambiente que vivemos. A referência do celibato só pode ser o matrimónio cristão como caminho de amor e de santidade. Quem vive a afectividade e a sexualidade em amor oblativo, para o que precisam da força do Espírito ressuscitado, pode compreender o celibato como caminho de vivência da afectividade e da sexualidade. Os outros só o podem rejeitar, porque nem desconfiam da sua beleza e sentido. Como estes são muitos, porventura a maior parte, o celibatário por amor do Reino dos Céus tem de aceitar não ser compreendido, ser fiel ao dom que lhe motivou uma escolha livre, sabendo que a sua vida tem o sentido profético de anúncio da novidade cristã. 
            Na “Familiaris Consortio”, João Paulo II afirmou: “A revelação cristã conhece dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na sua totalidade do amor: o matrimónio e a virgindade. Quer um, quer outro, na sua respectiva forma própria, são uma concretização da verdade mais profunda do homem, do seu ser à imagem de Deus”[10].
 
            14. O celibato é uma escolha livre, uma via cristã, não pode ser imposto nem considerado como condição exigente que se aceita para se poder ser padre. A posição da Igreja é outra: não proíbe o casamento, mas escolhe os seus sacerdotes entre aqueles que optaram pela virgindade no seu caminho de amor. Que a afectividade e a sexualidade não são uma fatalidade, imposta pelas leis da natureza e da sociedade, mas são o campo de uma escolha livre, é o próprio Jesus quem o proclama, antes de mais sendo Ele próprio celibatário e proclamando que há aqueles que escolhem a via da continência por amor do Reino dos Céus (cf. Mt. 19,12). Ao proclamar a possibilidade desta escolha livre, o Senhor restitui ao casamento a sua dignidade de escolha livre. Sobretudo a mulher, que tinha a sua dignidade restringida à procriação, sente-se liberta e reconhecida na sua dignidade como pessoa. Não é por acaso que, na Igreja nascente, são as mulheres que escolhem a virgindade como caminho para seguir a Cristo, que suscitam o ideal da virgindade como caminho cristão de amor.
 
            15. Na mentalidade contemporânea, não é tanto o celibato que choca, mas a continência no celibato. É esta que se torna caminho de convivência cristã, de amor generoso e total, tão próprio de um coração de pastor. Hoje há muita gente que não se casa por outros motivos, entre os quais uma maior liberdade social. No celibato por amor do Reino dos Céus, o testemunho é o da continência, pois só essa é expressão de um amor novo. O celibato sem continência é uma mentira. O mesmo se pode dizer do matrimónio cristão no que à “castidade conjugal” diz respeito. Para quem segue Cristo ressuscitado, descobre-se uma convergência e sintonia entre a vivência da afectividade e da sexualidade no matrimónio e na virgindade, escolhida e praticada.
 
            16. Há uma fecundidade na virgindade por amor do Reino dos Céus. O celibato não é uma renúncia ao amor; é a escolha de um amor novo e este converge com o amor do Bom Pastor. A própria complementaridade homem-mulher encontra expressão de profundidade e de intimidade mística, onde o melhor de cada um exprime a comunhão dos santos. São Bento e Santa Escolástica, São Francisco e Santa Clara não são os únicos exemplos.
 
            17. O celibato vivido é uma expressão profunda e libertadora do amor total ao rebanho que nos foi confiado, e é um dos aspectos em que o ministério sacerdotal é caminho de plenitude humana. A vivência deste dom pode ser o fruto de convergência e reencontro de todos os que, sinceramente, buscam um novo rosto de Igreja, quer os que, movidos pelo entusiasmo conciliar, tenham partido ao encontro do mundo, quer desiludidos com o mundo, tenham partido à procura da Igreja. 
Procuremos todos descobrir a profundidade da Igreja, em Jesus Cristo, e procuremos compreender o nosso mundo, assinalando nele aberturas à mensagem de Jesus. Não queiramos ser como o mundo gostaria que fossemos; procuremos a nossa identidade no seguimento de Jesus e na liberdade dos filhos de Deus.
 
 
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
 

 -------------------------------------------------------------------------------- [1] S. Afonso Maria de Ligório
[2] João Paulo II, “Pastores Dabo Vobis”, nº 5
[3] Mgr. Hippolyte SIMON, Libres d’être prêtres, ed. L’Atelier/Ed. Ouvrières, Paris 2001, pg. 15
[4] Walter KASPER – Servitori della Gioia – Esistenza sacerdotale – servizio sacerdotale – Queriniana, Brescia (2007), pg. 11-12
[5] Ibidem, pg. 16
[6] Mgr. H. SIMON, op. cit. Pg. 15
[7] João Paulo II, “Pastores dabo Vobis”, nº 12
[8] Para todo este capítulo ter em conta Walter Kasper, op. cit. pp. 87-99
[9] Sobre este tema aconselhamos: Walter Kasper, op. cit. pp. 71-86; H. SIMON, op. cit. pp. 65-83
[10] João Paulo II, “Familiaris Consortio”, nº 11
 

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