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Conferência no II Curso de Verão da Asociación Católica de Propagandistas y la Universidad San Pablo
11 de Julho de 2009
Conferência no II Curso de Verão da Asociación Católica de Propagandistas y la Universidad San Pablo



“Missão da Europa, Leitura dos sinais dos tempos e Nova Evangelização”  
I – Introdução
            1. Poder-se-á falar de uma missão da Europa em relação ao resto do mundo? É um facto que a história do continente europeu, de vários modos e em diversos momentos, manifestou interesse pelo resto do mundo. Em tempos de globalização, esse sentido de responsabilidade pelos destinos de toda a família humana deve ser partilhada por todos. Caberá à Europa, na actual fase da história, uma particular responsabilidade pelo futuro colectivo da humanidade a ser assumida com sentido de missão? 
Isso exigirá uma leitura atenta dos sinais dos tempos, para se poder discernir nos acontecimentos, nos dinamismos, nos problemas e anseios da humanidade contemporânea, a começar pela própria Europa, o sentido dessa missão. Por outro lado, para que a missão da Europa no mundo não seja estritamente profana, laica como muitos gostam de afirmar, mas possa pelo menos convergir com a missão evangelizadora da Igreja, impõe-se um esforço de reevangelização da Europa, com o ritmo de uma “nova evangelização”, tão querido a João Paulo II. Dado o papel do cristianismo no caldear, ao longo dos séculos, a fisionomia cultural da Europa, atrever-me-ia a afirmar que essa nova evangelização é elemento decisivo para que se possa falar, presentemente, de uma autêntica missão, que corrija formas de estar e de agir na relação da Europa com o mundo e seja um contributo significativo para a humanização do homem e da sociedade contemporânea.
 
II – A missão da Europa no mundo à luz da História
2. Basta olhar para o mundo contemporâneo, onde os países de quatro continentes têm como língua nacional uma língua europeia, onde o cristianismo lançou raízes, transformou culturas e é a religião mais implantada, onde os grandes valores que inspiram a vida pessoal e a organização da sociedade são de matriz cristã, para verificarmos o impacto que a Europa teve, ao longo de séculos, no evoluir da humanidade.
Mas este desígnio universal da Europa é pré-cristão. A cultura helénica levou à expansão de Alexandre o Grande; o sentido da justiça e da ordem, na busca da “pax romana”, deu origem ao Império Romano e deixou as suas raízes na compreensão do Direito, fundamento para a construção da Justiça. A própria cultura judaica, com o modo como conciliava a fé em Deus e a dimensão temporal da construção da história, expandiu-se numa diáspora omnipresente que se tornou característica definitória do próprio povo judeu. A Europa sempre se procurou a si mesma expandindo-se pelo mundo, entrando em contacto com culturas diferentes, mas também dominando e construindo impérios. Na história, as luzes e as sombras cruzam-se inevitavelmente, porque nenhum estádio do progresso da humanidade corresponde à “Jerusalém Celeste”, a humanidade definitiva, objecto da esperança escatológica. Esta exerce uma tensão mobilizadora na transformação da história, mas a sua realização definitiva não é histórica, mas meta-histórica. 
Em todos estes momentos de epopeia, a Europa, no seu contacto com o resto do mundo, deu lugar a uma complexidade de elementos motivadores, em que havia sempre um motor cultural, uma espécie de mística, um ideal que galvanizou gerações: a sabedoria, o direito e a ordem, a fé religiosa, o entusiasmo pela ciência e pelas potencialidades da razão. Esta mística encontramo-la ainda presente nos fundadores da União Europeia que acreditaram ser possível fazer reviver a Europa, na grandeza dos seus ideais, depois do desastre da Segunda Guerra Mundial.
Depois do colapso do Império Romano às mãos de povos jovens vindos do Norte, esta mística de reconstrução da dignidade da Europa é a fé cristã e o ideal cristão de sociedade. De São Bento e do papel decisivo dos monges beneditinos que formaram o novo rosto da Europa, ao espírito de cruzada, ao ideal de cavalaria e ao entusiasmo missionário de levar o cristianismo a todos os povos com quem os europeus entraram em contacto, na aventura dos Descobrimentos, a Europa, nos seus contactos com o mundo é mobilizada por um ideal. Não são poucos os que hoje fazem a pergunta que agora formulo: terá a Europa de hoje esta alma, esta força de um ideal que marque o ritmo da sua missão no mundo? “É preciso dar uma nova alma à Europa”, foi o tema de um colóquio organizado recentemente pelo Pontifício Conselho para a Cultura e pelo Patriarcado de Moscovo, em que tive a honra de participar. É também nesse contexto que tem de se equacionar o desafio da nova evangelização.
 
3. Nesta longa história de intervenção da Europa no mundo, ela confrontou-se com outras culturas e religiões, o que torna o diálogo inter-cultural e inter-religioso um desafio inevitável para a Europa contemporânea. Mas poderá ela estabelecer esse diálogo de forma construtiva e mobilizadora, se já não se reconhece numa matriz cultural própria, e dá a todas as religiões o mesmo valor, tentando substituí-las pelo agnosticismo e mesmo pelo ateísmo? Os grandes feitos europeus têm uma relação inevitável com a religião. Mesmo quando se confrontou com outras religiões, também elas com vocação de expansão, como o caso do islamismo. O modo ambíguo e pouco definido como a Europa contemporânea integra a dimensão religiosa na sua missão no mundo, é uma das causas da sua fragilidade. Retomo aqui o que afirmei noutro colóquio organizado pela COMECE: “O contributo das instituições religiosas na construção europeia situa-se, de modo preponderante, na dimensão cultural da Europa (…) Não se trata de reduzir a religião e a fé à cultura, mas de aceitar que a influência do cristianismo na sociedade é mais vasta que o fenómeno da prática religiosa, sem esquecer que esta dimensão cultural tem a sua raiz e a sua fonte na fé confessada e celebrada”[1]. Trata-se de um alerta para as Igrejas da Europa, que precisam de tomar consciência de que só a fé vivida tem influência no processo inevitável da mutação cultural. E esta é, frequentemente, mais influenciada por elementos pragmáticos da técnica, da economia, da política e dos mecanismos do desenvolvimento, do que pela afirmação de uma antropologia, uma visão da dignidade do homem, da sua grandeza e do seu destino. Como alguém escreveu: “somos todos povos colonizados pela técnica”[2], que leva a uma visão pragmática, sem transcendência, da realidade do homem.
Mas olhemos de frente a realidade da Europa e do mundo contemporâneo, arrisquemos ler os sinais dos tempos, para podermos intuir o que significa, hoje, uma missão da Europa no mundo, de que as Igrejas têm de ser elementos dinâmicos e indispensáveis.
 
III – Ler os Sinais dos Tempos
4. Para perceber os caminhos da missão, na Europa e no mundo contemporâneos, é preciso escutar a história e isso só é possível se não se fugir da realidade, se se estiver apaixonadamente comprometido com a história dos homens. No encerramento da primeira Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos da Europa, o Papa João Paulo II afirmou: “A verdade do Advento, a realidade do Advento dura sempre e acompanha continuamente a história do homem. Pertence ao mistério da Igreja. Durante o Sínodo, ocupámo-nos a reler, uma vez mais, esta realidade. Procurámos actualizar-nos nas dimensões concretas do nosso tempo e nas dimensões do continente europeu, onde se verificaram e estão a verificar-se importantes transformações. Com esta grande abertura e humildade, tentámos compreender o que, através de tais mudanças, o Espírito diz às Igrejas no Oriente e no Ocidente”[3].
Esta possibilidade, que é uma responsabilidade, é uma exigência do mistério da Encarnação. O cristianismo é uma religião de encarnação, chamada a exprimir-se na história e a tornar-se, continuamente, factor de transformação e de intervenção na história dos homens. A fuga, por parte da Igreja, ao realismo da vida dos homens, é uma infidelidade à dimensão de Encarnação. Quantas vezes os cristãos e as comunidades eclesiais, chamados a confessar a sua fé no meio de um mundo indiferente ou mesmo hostil, se fecham em si mesmos, perdem o élan missionário e esquecem que lhes é sempre pedido que sejam o sal da terra, o fermento na massa. As relações dos cristãos com a sociedade decidem-se, em última análise, ao nível da missão. Os cristãos sabem que, apesar das suas ambiguidades, a sociedade e a história são trabalhados pelo Espírito de Deus e que podem discernir nas aspirações e nas linhas de força positivas do mundo contemporâneo sinais de abertura ao Reino de Deus. Este foi o desafio do Concílio Vaticano II, belo, mas difícil de pôr em prática: “Movido pela fé, sabendo-se conduzido pelo Espírito do Senhor que enche o Universo, o Povo de Deus esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e anseios do nosso tempo, de que participa com os outros homens, quais são os verdadeiros sinais do desígnio de Deus. Com efeito a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova e faz-nos conhecer a vontade divina sobre a vocação integral do homem, orientando assim o espírito para soluções plenamente humanas” (G.S. nº11)[4].
O Segundo Sínodo Especial para a Europa reuniu-se, “para analisar a situação da Igreja na Europa e oferecer indicações para promover um novo anúncio do Evangelho”[5]. E João Paulo II explicita: “Era patente a vontade de acolher o apelo dirigido pelo Espírito às Igrejas da Europa para se empenharem perante os novos desafios. Com um olhar cheio de amor, os participantes no encontro sinodal detiveram-se sem medo a observar a realidade actual do continente, realçando as suas luzes e sombras. Daí resultou claramente a noção de que a situação está marcada por graves incertezas a nível cultural, antropológico, ético e espiritual. Com igual nitidez, foi-se afirmando uma vontade crescente de entrar dentro desta situação para interpretá-la e ver as tarefas que esperam a Igreja: daí surgiram «orientações úteis para tornar cada vez mais visível o rosto de Cristo mediante um anúncio mais incisivo, corroborado por um coerente testemunho»”[6].
 
5. Que sinais pode a Igreja discernir nesta atenção à realidade da Europa? Refiro apenas alguns que me parecem mais significativos. Antes de mais, a profunda alteração da relação da Igreja com a sociedade. É, em si mesmo, um sinal de esperança. A Igreja foi-se libertando de compromissos políticos e temporais, renunciou ao poder temporal e foi-se concentrando no essencial da sua missão sobrenatural. A Ecclesia in Europa exprime-o assim: “Entre estes sinais, conta-se a recuperação da liberdade da Igreja no Leste europeu, com as novas possibilidades de acção pastoral que lhe foram abertas; a concentração da Igreja na sua missão espiritual e o seu compromisso de viver o primado da evangelização mesmo nas relações com a realidade sócio-política; a ampla tomada de consciência da missão própria de todos os baptizados, na variedade e complementaridade dos respectivos dons e tarefas; a maior presença da mulher nas várias estruturas e sectores da comunidade cristã”[7]. O centrar-se na especificidade espiritual e sobrenatural da sua missão, passou a inspirar as grandes opções pastorais da Igreja.
Mas a total coerência com esta opção não é fácil traduzir-se na prática. A Igreja arrasta consigo ambiguidades de tempos anteriores, tradições, mais culturais do que crentes, de grupos que guardam a memória do cristianismo, sem terem interiorizado a sua novidade transformadora. Mas ao recentrar-se na dimensão sobrenatural, corre-se o risco de se afastar da sociedade, de sublinhar uma fronteira entre “salvos” e “não salvos”, no fundo, os bons e os maus, esquecendo que os cristãos são concidadãos dos homens e partilham com eles a aventura de construir a história. Perde-se o sentido da autêntica solidariedade humana nas grandes causas e problemas da humanidade; não se é coerente com a exigência da missão, de ser “fermento na massa”, anúncio com o testemunho da própria vida. Usando uma linguagem militar, é recorrer aos abrigos quando a batalha recrudesce. O enfraquecimento de movimentos que sublinhavam esta dimensão de encarnação, esta presença dos cristãos no seio das realidades do mundo e o entusiasmo por movimentos espirituais, de forte pendor carismático, é uma reflexão que não devemos evitar.
Este redimensionar da compreensão da presença da Igreja na sociedade tem igualmente consequências na maneira da sociedade ver a Igreja. Também ela tentou libertar-se da influência da Igreja na ordem temporal. Fizeram-se, é certo, progressos nos enunciados jurídicos da liberdade de consciência, de que faz parte a liberdade religiosa e a liberdade de culto, mas acentuou-se a tendência de considerar a opção religiosa como pertencendo à esfera do estritamente pessoal e privado, sem influência na estruturação da sociedade, esquecendo que, como dizia São Roberto Belarmino, a Igreja é tão visível como a República de Veneza, que faz parte da sociedade, que está organizada para o anúncio e celebração da fé, mas também para a intervenção social, defesa da dignidade da pessoa humana, luta pela justiça, construção da paz.
Esta tendência acentuou-se com as profundas alterações culturais na Europa e que esta exportou para o resto do mundo, a partir do iluminismo, que levou a um racionalismo sem horizontes de transcendência. Mas demos a palavra a João Paulo II, na já referida Exortação Apostólica sobre a Europa: “A cultura europeia dá a impressão de uma «apostasia silenciosa» por parte do homem saciado, que vive como se Deus não existisse. Neste horizonte, ganham corpo as tentativas, verificadas ainda recentemente, de apresentar a cultura europeia prescindindo do contributo do cristianismo que marcou o seu desenvolvimento histórico e a sua difusão universal. Estamos perante o aparecimento duma nova cultura, influenciada em larga escala pelos mass-media, com características e conteúdos frequentemente contrários ao Evangelho e à dignidade da pessoa humana. Também faz parte dessa cultura um agnosticismo religioso cada vez mais generalizado, conexo com um relativismo moral e jurídico mais profundo que tem as suas raízes na crise da verdade do homem, como fundamento dos direitos inalienáveis de cada um”[8].
Na sua missão, a Igreja tem de construir uma nova maneira de se articular com a sociedade, com a qual partilha o mesmo destino humano, sem regredir em atitudes de conquista do poder. O único caminho é formar os cristãos na especificidade da sua fé, para que eles sejam pedras vivas na cidade dos homens, na política, na economia, na luta social. É preciso conseguir que a sociedade, orientada por uma perspectiva cultural de cariz laicista, minoritária mas influente, não identifique a Igreja com a hierarquia, mas com o Povo de Deus. Em termos de diálogo com a sociedade é a Igreja toda que conta, a Igreja como povo crente.
 
6. Esta mutação cultural das sociedades europeias está a ter consequências profundas na compreensão ética da dignidade do homem em sociedade. Não tenhamos ilusões: as questões éticas são hoje a verdadeira fronteira de confronto entre a Igreja e a sociedade. João Paulo II chamou-lhe uma antropologia sem Deus e sem Cristo: “Esta forma de pensar levou a considerar o homem como «o centro absoluto da realidade, fazendo-o ocupar astuciosamente o lugar de Deus e esquecendo que não é o homem quem cria Deus, mas é Deus quem cria o homem. O ter esquecido Deus levou a abandonar o homem», pelo que «não admira que, neste contexto, se tenha aberto amplo espaço ao livre desenvolvimento do niilismo no campo filosófico, do relativismo no campo gnoseológico e moral, do pragmatismo e também do hedonismo cínico na configuração da vida quotidiana»[9].
Esta é a batalha que exige da Igreja firmeza e arte na linguagem, para poder comunicar os valores que inspiram a existência cristã. Esta tensão é subtil e paradoxal, pois não se exprime apenas no abandono dos valores da moral cristã, mas também na exigência e pressão contínua sobre a Igreja para que mude a sua doutrina, ao sabor das mudanças individuais ou grupais. Incomoda a sociedade o facto de a Igreja não aprovar a deriva ética da sociedade contemporânea, a que não escapa nenhum aspecto fundamental da vida humana: o amor e a sexualidade, o casamento e a família, o sentido transcendente da verdade, a grandeza da liberdade, capaz de tomar opções perenes e definitivas.
Na formação dos cristãos tem de tornar-se cada vez mais claro que as exigências éticas brotam da profundidade da fé em Jesus Cristo, princípio do homem novo, portanto, de uma nova qualidade na vivência de tudo o que é humano. Só na firmeza da fé da Igreja se pode fundamentar a firmeza dos valores morais. E essa firmeza da fé não deve impedir a criatividade na busca de linguagens adaptadas à comunicação no actual contexto cultural, segundo a experiência perene da Igreja. Não confundir casuística, campo do discernimento pastoral, com a afirmação clara dos grandes princípios inspiradores do existir cristão e que são, acima de tudo, desafios à liberdade.
 
7. Uma outra ordem de fenómenos da Europa e do mundo contemporâneo, portadores de sinais, sobretudo se falamos de missão de Europa no mundo, mas a que a Igreja não é indiferente na realização da sua missão, é aquilo a que chamamos globalização, a acentuar uma unidade de dignidade e de destino em toda a família humana e que num colóquio Europa-Mundo, realizado em Lisboa há anos, levou a falar-se claramente da necessidade de um “governo do mundo”. Aí se afirmou: “O mundo contemporâneo é atravessado por profundas forças de mudança, por vezes tumultuosas. Em cada dia, os homens do nosso tempo tomam consciência da interdependência fundamental que os une. Os problemas aparecem, cada vez mais, como problemas planetários. Os governos medem cada dia mais a erosão da sua soberania e sentem a pressão de forças mundiais que constituem poderosos constrangimentos à sua acção particular. Não será preciso, no tempo em que vivemos, preparar um governo do mundo?”[10]. Refere, de seguida, as principais interdependências globais, a nível da comunicação, da economia e das finanças, da ecologia. Todas estas interdependências geram uma interdependência ética: “Há, finalmente, uma interdependência que começa a emergir e que acabará por ter, na minha perspectiva, uma importância considerável: diz respeito aos problemas de ética no seio da nossa sociedade, os problemas que interessam directamente ao homem e ao seu futuro”[11].
Isto já está a acontecer. Sobretudo a poderosa rede de informação global, dá dimensão universal a todos os valores e a todos os desvios no campo da ética, ou seja, do sentido profundo da vida dos homens. Isto torna urgente um diálogo ousado entre religiões, culturas e civilizações, para se chegar a um universal humano, base da dignidade e da harmonia de toda a família humana. Qual é a missão da Europa neste contexto? Que influência terá o cristianismo neste mundo onde tudo tende a ser global?
 
IV – Uma nova Evangelização
8. É neste quadro, sucintamente traçado, das novas relações da Igreja com as sociedades europeias, e das relações da Europa com o mundo, que se podem situar as seguintes questões: é realista falar de uma missão da Europa no mundo? Qual o papel das Igrejas europeias nessa Missão? Pode a Europa, no contexto da realização dessa missão no mundo, não contar com a força do cristianismo? 
É na busca de resposta a estas questões que se pode situar a urgência da nova evangelização, que sendo dinamismo interno da Igreja, tem de ser, no modo como se processa, a expressão da vontade da Igreja de participar nessa missão da Europa no mundo. Mesmo que a Europa abandone a Igreja, o que seria uma negação da sua identidade cultural, a Igreja não pode abandonar a Europa. Ela tem consciência do seu papel específico na formação de “um novo rosto da Europa”. João Paulo II afirma, na sequência do Segundo Sínodo Europeu: “No processo de transformação em curso, a Europa é chamada, antes de mais nada, a reencontrar a sua verdadeira identidade. De facto, não obstante a realidade intensamente variegada de que se foi compondo, ela deve construir um modelo novo de unidade na diversidade, uma comunidade de nações reconciliadas aberta aos outros continentes e envolvida no processo actual de globalização. Para dar novo impulso à sua história, a Europa deve «reconhecer e recuperar, com fidelidade criativa, aqueles valores fundamentais, adquiridos com o contributo determinante do cristianismo e que se podem compendiar na afirmação da dignidade transcendente da pessoa humana, do valor da razão, da liberdade, da democracia, do Estado de direito e da distinção entre política e religião»”[12].
A própria Europa, na fase actual da sua história, ao cultivar os valores que a inspiram e que serão o seu contributo principal ao resto da humanidade, reencontra-se com a sua história, reaviva a memória e aí descobrirá a força inspiradora do Evangelho. “A história do continente europeu está marcada pelo influxo vivificante do Evangelho. «Se olharmos para os séculos passados, não podemos deixar de dar graças ao Senhor porque o cristianismo foi no nosso continente um factor primário de unidade entre os povos e as culturas e de promoção integral do homem e dos seus direitos»”[13]. A missão da Europa onde a Igreja tem um papel a desempenhar supõe que, na sua maneira de relacionar-se com o mundo, não abandona o que de mais positivo tem a sua história, originado ou aprofundado pelo cristianismo. “Para que a Europa possa ser edificada sobre bases sólidas, é necessário apoiar-se sobre os valores autênticos, que têm o seu fundamento na lei moral universal, inscrita no coração de cada homem. «Os cristãos não só podem unir-se a todos os homens de boa vontade para trabalhar na construção deste grande projecto, mas são, além disso, convidados a ser de algum modo a sua alma, mostrando o verdadeiro sentido da organização da cidade terrena»”[14]. É também para construir esta verdadeira identidade da Europa que a Igreja não pode deixar de a evangelizar, com o ardor de uma nova evangelização, esta convida a Igreja a aprofundar continuamente a sua identidade. Os destinos da Igreja e da Europa estão dinamicamente ligados.
 
9. Ao usar a expressão “nova evangelização”, contrapondo-a a uma evangelização de rotina, o Papa João Paulo II pôs em relevo um novo vigor, novos métodos e uma nova perspectiva.
Este novo vigor sublinha a necessária relação entre evangelização e fé vivida. Em muitos dos nossos países, a maior parte das pessoas são baptizadas; mas os que dão testemunho público da fé vivida são, cada vez mais, um “pequeno rebanho”. Mas, como a Igreja primitiva, eles são chamados à ousadia de acreditar que podem mudar o mundo. Os nossos ritmos pastorais estão ainda muito marcados por uma época de cristandade. Temos de retomar o caminho exigente da “iniciação cristã”, em que o primeiro anúncio, feito mais com a vida do que com palavras, toca os corações, em que a catequese é o mergulhar progressivo numa experiência que gera uma compreensão, em que os sacramentos são concretização da acção contínua de Deus na Igreja e na história, em que as exigências morais não aparecem como simples imposição de preceitos, mas como a descoberta jubilosa, ainda que exigente, de uma vida nova, com Jesus Cristo, em Igreja.
Este novo ardor exprime-se no dinamismo missionário. A Europa não pode esquecer que muitas das páginas gloriosas da sua missão no mundo, se ficaram a dever a esse ardor missionário. Se o perdermos ficaremos prisioneiros dos nossos limites.
 
10. Este novo ardor dará mais fruto, se se exprimir de modo adaptado às realidades da sociedade. Por toda a parte, surgem tentativas de encontrar esses novos caminhos. Esse esforço é um dos rostos da vitalidade actual da Igreja. Não podemos desanimar nesse esforço de encontrar novas formas de evangelizar; também assim seremos fiéis aos dinamismos do Espírito e à mensagem dos sinais dos tempos.
Esta criatividade no modo de evangelizar pode significar a invenção de caminhos novos, mas também o refrescar de métodos antigos, pondo-os ao serviço das exigências da missão no mundo contemporâneo. A estrutura pastoral da Igreja não atrai os que andam por fora, mas à procura de uma resposta que só a pessoa de Jesus lhes pode dar. Não podemos dar razão a Gandhi, na frase que lhe é atribuída e dirigida aos cristãos: eu gosto de Jesus Cristo, não gosto é de vocês, que sois muito pouco parecidos com Cristo. Não esquecerei jamais a impressão que me fez, no já referido Colóquio de Viena, ouvir o agora Patriarca de Moscovo, que chefiava a delegação do Patriarcado de Moscovo, dizer no discurso inaugural que não vinham para discutir as coisas que nos separam, mas pedir ajuda e partilhar a experiência das Igreja católicas da Europa, no modo de enfrentar, em chave cultural, a evolução da sociedade, em transformação rápida e imprevisível. Tomei a palavra a seguir para dizer que o dar-se as mãos na missão de encontrar caminhos novos para a resposta do Evangelho às nossas sociedades contemporâneas é um caminho ecuménico tão importante como a discussão das questões teológicas e canónicas. Jesus disse que o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas. O nosso tesouro é Jesus Cristo, o Evangelho e a longa tradição de fé e fidelidade; as coisas velhas são as realidades perenes, que valem sempre, mas que precisam de coisas novas, isto é, de maneiras novas de as apresentar.
 
11. O conceito de nova evangelização supõe novas perspectivas. Estas supõem o conhecimento lúcido e amoroso da realidade da vida dos homens, nossos contemporâneos, a quem damos, no caminho que percorremos com eles, o testemunho da novidade e da alegria cristã. Essa nova perspectiva só nascerá se estivermos convencidos de que o testemunho de vida é tão importante como a Palavra. É preciso ser irmão de caminhada com todos os que querem partilhar connosco a vida e ensinar-lhes a discernir o sentido profundo das realidades à luz de Cristo e do Evangelho. Foi a perspectiva de Cardijn, ao fundar a JOC: ver, julgar, agir. Ver com lucidez, realismo e amor; julgar à luz da fé e agir para amar e transformar o mundo. Isto é, ler os sinais dos tempos como sinais do Reino, identificar portas abertas à salvação.
 
12. Termino com as palavras de João Paulo II no início da Exortação Apostólica “Ecclesia in Europa”, citando o Apocalipse: “Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas (Apoc. 2,7). Se escutarmos as surpresas do Espírito, ajudaremos a Europa a realizar a sua missão no mundo, ao nível da grandeza da sua cultura e da sua história.
 
 
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

 -------------------------------------------------------------------------------- [1] J. POLICARPO, “L’avenir de l’Europe et ces institutions religieuses”, in La Construction Européenne et les Institutions religieuses¸p. 73
[2] In Europe-Monde, éd. du Centre Européen de la Culture, p. 11
[3] João Paulo II, “Descobrir os Sinais dos Tempos que se manifestam na história humana”, in A Igreja e a Europa do Futuro, Publicações Communio, p. 176
[4] cf. J. Policarpo, op. cit. pp. 74-74
[5] João Paulo II, Ecclesia in Europa, nº 2
[6] Ibidem, nº 3
[7] Ibidem, nº 8
[8] Ibidem, nº9
[9] Ibidem, nº 9
[10] Reymond Barre, Le gouvernement du monde, in Europe-Monde, p. 28
[11] Ibidem, p. 29
[12] Ecclesia in Europa, nº 109
[13] Ibidem, nº 108
[14] Ibidem, nº 116

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