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Intervenção do Cardeal-Patriarca de Lisboa na peregrinação a Santiago de Compostela
08 de Maio de 2004
Intervenção do Cardeal-Patriarca de Lisboa na peregrinação a Santiago de Compostela

INTERVENÇÃO Do Cardeal Patriarca

na PEREGRINAÇÃO A SANTIAGO DE COMPOSTELA


Glorioso Apóstolo São Tiago!

Seguindo o exemplo da nossa Rainha Santa Isabel, percorremos o “Caminho Português”, que conduz ao vosso Santuário. Partimos cheios de confiança, apesar de sabermos que, também nós, trazemos em “vasos de barro” os tesouros da nossa fé. Mas acreditamos que fizeste, connosco, este caminho de humildade e conversão.

Antes de nós outros vieram, depois de nós outros virão, pois durante este ano, muitos fiéis do Patriarcado de Lisboa fazem o Caminho de Santiago, para merecerem as graças jubilares. Penso particularmente nos muitos jovens que em Agosto se porão a caminho para participarem no Encontro Mundial da Juventude e que eu também acompanharei. Viemos, antes de mais, porque queremos percorrer os caminhos da conversão, que abrirá, cada vez mais, os nossos corações aos tesouros da graça, fazendo-nos olhar o homem e o mundo à luz pascal de Cristo ressuscitado.

Como Apóstolo escolhido por Jesus, para a Igreja, fostes por Ele enviado em missão dando a conhecer ao mundo a feliz notícia do homem novo. Quisemos vir refrescar, no vosso Santuário, o nosso ardor missionário. De facto, a Diocese de Lisboa, acolhendo o desafio do Santo Padre para uma nova evangelização da Europa, aceitou participar no Congresso Internacional da Nova Evangelização. Durante ele realizaremos uma “missão na cidade”, reencontrando a ousadia do anúncio, o ardor na proclamação do Evangelho e uma “nova fantasia da caridade”. Infundi nos nossos peregrinos, sobretudo nos jovens, o vosso ardor apostólico, pois só queremos evangelizar sob a orientação dos Apóstolos. Queremos partir daqui com a fé renovada, que nos disponha para seguir os passos de Jesus, bebendo o Seu cálice e identificando-nos com Ele na urgência do Reino.

O Santo Padre envia-nos, de modo particular, a reevangelizar a Europa, este nosso querido Continente, outrora tão profundamente trabalhado pelo Evangelho, tornando-se ponto de partida de missionários que levaram a todo o mundo a boa-nova da Salvação. A Europa, hoje em busca de uma nova unidade, tem na cultura de matriz judaico-cristã o seu maior tesouro. Foi aí que bebeu o profundo sentido da dignidade da pessoa humana, a grandeza da liberdade, o sentido de comunidade, baseada no amor e na justiça, que inspirou a estrutura das nossas sociedades. Deve muito ao cristianismo o ter aprendido, através das vicissitudes da História, a ser a pátria da liberdade. Esta levou-a, paradoxalmente, a contestar essa matriz cristã, processo que se iniciou no Renascimento, se acentuou na liberdade crítica do pensamento, no laicismo dos Estados e das sociedades, influenciando os valores e alterando o sentido da vida individual e colectiva. Foi de tal modo acentuado o afastamento da cultura europeia da sua matriz cristã, que levou o Santo Padre a falar de “apostasia colectiva”. Quando a Europa hesita em fazer referência a esta matriz cristã da sua cultura no preâmbulo do Tratado Constitucional da União Europeia, torna-se mais clara a urgência desta nova evangelização.

Esta Europa, a nossa Europa, vive neste momento, sentimentos contraditórios: por um lado, a euforia do progresso e do bem-estar; por outro a insegurança e o medo, provocados pela emergência do terrorismo e pela fragilidade dos sistemas económicos e políticos em que assenta a sua confiança. Evangelizar a Europa é redescobrir os verdadeiros fundamentos da esperança, que só Jesus Cristo oferece e garante, como afirmou João Paulo II na recente Exortação Apostólica, “A Igreja na Europa”.

Queremos partir do vosso Santuário, com um ardor renovado para, no testemunho da nossa fé, sermos construtores da esperança e da unidade. Sereis, junto de Deus e de Maria Santíssima, nosso intercessor. Sabemos que amais a Europa, porque este vosso Santuário é, desde há séculos, um lugar alto da identidade cristã do nosso Continente, que construiu a sua História percorrendo os caminhos de Santiago. Pedimo-vos que ajudeis a Europa a continuar a fazer dos vossos caminhos os caminhos de Deus e do Seu Reino. Pedimo-vos pelas nossas famílias, pelos nossos jovens, pelos sacerdotes e seminaristas e por todos aqueles e aquelas que entregaram toda a sua vida a Deus e à Igreja. Intercedei junto de Deus pela mediação de Maria, a Senhora da Conceição, o dom de vocações de jovens, homens e mulheres, que acreditem na fecundidade de um amor virginal. Abençoai esta Igreja de Compostela e o seu Arcebispo, para que seja, cada vez mais, o Santuário que acolhe a Europa peregrina e a reenvia como testemunha da esperança num futuro novo.


Santiago de Compostela, 8 de Maio de 2004

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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