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Apresentação da "Bíblia dos Jerónimos" do Cardeal-Patriarca de Lisboa
09 de Dezembro de 2004
Apresentação da "Bíblia dos Jerónimos" do Cardeal-Patriarca de Lisboa

APRESENTAÇÃO DA “BÍBLIA DOS JERÓNIMOS”

Torre do Tombo, 9 de Dezembro de 2004

 

        1. Quando tive conhecimento da intenção da Bertrand Editora, de publicar um álbum ilustrado sobre a “Bíblia dos Jerónimos”, ocorreram-me à mente duas passagens do Evangelho, situando-me, assim, no contexto da velha regra da recepção da Palavra revelada, segundo a qual a Escritura se acolhe e percebe à luz da própria Escritura. No primeiro texto Jesus compara o Reino dos Céus a um tesouro escondido num campo; alguém descobriu esse segredo e fez tudo para poder comprar aquele campo e assim fruir do tesouro (cf. Mt. 13,44). No outro texto, Jesus referindo-se à Palavra de Deus e a Ele próprio, diz que não se acende uma luz para depois a esconder ou abafar. A Luz serve para iluminar todos os que estiverem na sala (cf. Mt. 5,14-16).

            Porquê a evocação destes dois textos? Porque a “Bíblia dos Jerónimos” é um dos mais preciosos tesouros do nosso património cultural e tem estado escondido, não num campo, mas numa “torre”, esta “Torre do Tombo”. Na consideração actual da responsabilidade perante o Património Cultural, as comunidades foram enunciando deveres e direitos. O dever de defender, conservar e preservar, de inventariar; mas também o direito, já considerado um direito democrático, de fruição, por parte da comunidade, desse mesmo Património. E só quem nunca teve obrigação de gerir esses legados preciosos da nossa tradição cultural, desconhece como é, por vezes, difícil conciliar aqueles deveres com o direito de fruição. A Edição de qualidade é, certamente, um meio de garantir uma certa fruição desses “Tesouros escondidos”.

            Não tenho competência para me pronunciar sobre os dois estudos científicos que enriquecem e integram esta edição. Direi apenas que os apreciei e aprendi muito com eles. Serão a luz que guiará quem quiser aprender a extasiar-se com este “tesouro” do nosso Património Cultural.

             2. A “Bíblia dos Jerónimos” é das mais célebres Bíblias ilustradas com iluminuras, realizada pelos mais reconhecidos iluministas da escola de Florença. Uma Bíblia ilustrada situa-se numa longa tradição de complementaridade entre a Palavra e a arte, constituindo ambas um todo expressivo da mensagem revelada. Para populações em que só as elites eram letradas, a arte foi autêntica linguagem de comunicação do Verbo revelado. Basta visitar os grandes museus de Florença para descobrir como toda uma catequese, respeitando a harmonia sistematizada da História da Salvação, era feita através da pintura. As pessoas sabiam ler essa linguagem. A complementaridade e a harmonia existentes entre a pintura e o texto permitia a todos, mesmo aos que sabiam ler, uma percepção mais profunda da mensagem, captando-lhe não apenas o pensamento, mas a beleza. Os pedagogos desse tempo perceberam que a Palavra de Deus não se acolhe sem se deixar inundar pela sua beleza. Deus é belo e a Sua Palavra revela-n’O como verdade e como beleza.

            Esta harmonia entre a verdade e a beleza, entre a lógica do discurso e a dimensão envolvente do belo, é algo que é urgente redescobrir na cultura contemporânea, mesmo na cultura religiosa. Há uma super-abundância do discurso e uma carência da dimensão estética da beleza. E no entanto só por aí se construirá uma “nova racionalidade”, à altura da eterna busca da verdade.

             3. Há ainda um outro aspecto que gostaria de referir: a “Bíblia dos Jerónimos” fez parte dos tesouros da coroa portuguesa, independentemente de afirmar quem encomendou o quê e a quem. Se a encomenda aos iluministas de Florença sugerem o período áureo de Portugal, a escolha da Bíblia, tão preciosamente ilustrada, revelam uma atitude cultural de quem considera a Bíblia o livro por excelência e a Palavra revelada a luz que ilumina e conduz as acções de quem governa. São outros os tempos actuais, marcados por uma laicidade, a qual, no seu aspecto positivo, se afirma como neutralidade do Estado em matéria religiosa e respeito por todas as religiões, por outro pode raiar pelos exageros do laicismo quando as referências aos símbolos religiosos e à Sagrada Escritura são banidos em nome dessa laicidade. A Bíblia, como aliás a Cruz do Senhor, nos países que têm o cristianismo como matriz da sua cultura, não são apenas símbolos religiosos, são realidades culturais. No caso da Sagrada Escritura são bem-vindas todas as iniciativas que promovam a sua dimensão cultural, como a que recentemente desencadeou a Sociedade Bíblica, fazendo escrever à mão, por milhares de portugueses, todo o Texto Sagrado. Não temem essa dimensão cultural aqueles países, grandes democracias do mundo ocidental, em que os juramentos mais solenes continuam a ser feitos sobre a Bíblia. Não é isso que os transforma em Estados Confessionais.

             4. Pediu-me a Bertrand Editora para fazer a apresentação da Obra. Mas na verdade a única coisa que posso fazer é agradecer-lhes a ousadia editorial de arriscar em publicações como estas. Elas ajudam a construir a imagem da qualidade e da responsabilidade social, porque cultural, de uma grande Editora.

 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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