ANO SACERDOTAL *

 

D. JOSÉ DA CRUZ POLICARPO

 
               
(…) O “Ano Sacerdotal” é, assim, um convite para aprofundar o mistério da Igreja que somos, a Igreja de Lisboa, na comunhão universal das Igrejas. No âmago do acontecer da Igreja está o sacerdócio apostólico, do Bispo que é o seu pastor, unido aos presbíteros que com ele participam do sacerdócio apostólico. O objectivo de Jesus Cristo é a Igreja, que Ele uniu a Si, tornando-a Seu corpo e faz participar do Seu sacerdócio, para poder oferecer o Seu sacrifício pascal. Ele quere-a “povo sacerdotal”, capaz de oferecer e de se oferecer. É da Eucaristia que brota a exigência de a Igreja ser una, santa, católica e apostólica. O sacerdócio apostólico existe para que toda a Igreja possa ser povo sacerdotal. O Senhor escolheu, consagrou e enviou os seus apóstolos, dando-lhes poder de O tornarem presente no seio da Igreja que se reúne para oferecer o sacrifício redentor.

            Desejo muito que na concepção e concretização deste “Ano Sacerdotal” se evitem dois extremos: o de fixarmos de tal maneira a nossa atenção nos sacerdotes, considerando-os um grupo à parte, isolados do povo sacerdotal. Tudo o que fizermos para descobrir o mistério do sacerdócio apostólico e merecer a santidade dos nossos sacerdotes, devemos fazê-lo em Igreja e com a Igreja. O outro extremo a evitar é o de diluir a especificidade do sacerdócio apostólico na pretensa valorização do sacerdócio comum de todos os fiéis. O próprio Papa nos adverte para este risco: “A centralidade de Cristo traz consigo a justa valorização do sacerdócio ministerial, sem o qual não haveria Eucaristia, e muito menos a missão e a própria Igreja. Neste sentido, é necessário velar para que as «novas estruturas» ou organizações pastorais não sejam pensadas para uma época em que se deveria «renunciar» ao ministério ordenado, partindo de uma interpretação errónea da justa promoção dos leigos, porque, em tal caso colocar-se-iam os pressupostos para a ulterior diluição do sacerdócio ministerial, e as eventuais presumíveis “soluções” viriam a coincidir dramaticamente com as verdadeiras causas das problemáticas contemporâneas ligadas ao ministério”.

 

            3. As concretizações programáticas para a vivência do “Ano Sacerdotal” na nossa Diocese estão a ser preparadas por um grupo por mim designado para o efeito, e serão, em devido tempo, tornadas públicas. Manifesto-vos, desde já, algumas intuições pessoais como vosso Bispo:

 

* Não se trata de substituir o Programa Diocesano de Pastoral: será, antes, uma perspectiva enriquecedora de quanto aí está previsto, porque a graça própria de um “Ano Sacerdotal”, pode enriquecer e exprimir-se em todas as linhas programáticas para a nossa diocese.

 

* A verdade, qualidade e densidade da celebração eucarística está no centro. É aí que encontramos, na harmonia do mesmo mistério, o povo sacerdotal e os seus sacerdotes. É na Eucaristia que se descobre e aprofunda o dom do sacerdócio. Isto sugere e exige que a celebração eucarística se prolongue na adoração eucarística. Aí se escuta o Senhor e se percebe o chamamento à santidade, dos sacerdotes e do povo sacerdotal. Espero que se reestruture a prática do Sagrado Lausperene, adoração continuada e ininterrupta na nossa diocese e que todas as comunidades encontrem, ao ritmo possível, a prática da adoração eucarística.

 

* Quando se adora com fé o Senhor na Eucaristia, escutamos melhor a sua Palavra. Só esta nos abrirá o coração para a compreensão deste maravilhoso dom de participação no sacerdócio de Cristo.

 

* Os sacerdotes são interpelados, durante este ano, a aprofundarem a experiência de oração. Mesmo quando o fazem sozinhos, façam-no sempre em Igreja e com a Igreja. Procuraremos valorizar os retiros anuais e as recolecções organizadas. É minha intenção orientar pessoalmente, pelo menos, um retiro para os nossos sacerdotes.

 

* Peço aos Movimentos e Associações de Fiéis que organizam habitualmente os seus retiros, que lhe imprimam esta densidade de descobrir, em oração, o dom do sacerdócio. Procurar-se-á organizar dias de oração e retiro para os fiéis que tenham dificuldade em inserir-se nesses retiros organizados.

 

* O aprofundamento teológico e espiritual do dom do sacerdócio é também necessário. Tanto para os sacerdotes, integrado na sua formação permanente, como para o Povo de Deus, organizar-se-ão momentos de aprofundamento doutrinal.

 

* Gostaria que se realizassem actividades específicas para as crianças e para os jovens. Peço aos respectivos Departamentos que as imaginem e preparem.

 

* A Pastoral Vocacional pode ser dinamizada, na sua verdade profunda, na vivência do “Ano Sacerdotal”. Quando se escuta o Senhor percebe-se que Ele continua a chamar e que, aqueles que chama, antes de lhes pedir um serviço, lhes comunica um dom, de participação na Sua própria intimidade e missão. O sacerdote é chamado a ser íntimo de Deus. Ouçamos mais uma vez o Santo Padre: “Deus é a única riqueza que, de modo definitivo, os homens desejam encontrar num sacerdote”.

 

4. Aos sacerdotes do nosso presbitério quero garantir que procurarei estar ainda mais unido a eles; é uma continuidade da Assembleia do Presbitério em Fátima. Que São João Maria Vianney nos entusiasme a percorrer os caminhos da santidade que só podem ser os caminhos da doação total ao Povo de Deus, a que fomos enviados como pastores. E escutemos de Maria, a Rainha dos Apóstolos, os segredos do nosso sacerdócio.

 

 

* Da Carta do Cardeal Patriarca aos sacerdotes e comunidades eclesiais acerca do “Ano Sacerdotal”, com data de 14 de Junho de 2009.