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DOCUMENTAÇÃO
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| DOCUMENTAÇÃO - 2003 |
Homilia do cardeal patriarca na Inauguração do
Centro Diocesano de Espiritualidade
“A morada de Deus no meio dos Homens”
Irmãos e Irmãs,
1. Sinto, neste momento, aquela experiência da graça, em que vários acontecimentos e realidades da vida concreta convergem na realização, no meio de nós, do projecto divino da salvação. A primeira convergência pressinto-a entre a festa litúrgica que hoje celebramos, a Conceição Imaculada da Virgem Maria e a Inauguração deste Centro de Espiritualidade, consagrado a esse Coração Imaculado de Maria: é um mistério de fé e de graça a cruzar-se com a nossa iniciativa humana, na busca da graça e da salvação; é a sintonia entre a acção de Deus e a da Igreja, realizando o mesmo desejo, eterno como Deus, o desejo da salvação.
E este eterno desejo de Deus é o de habitar no meio dos homens, em comunhão alargada de amor. Esse é o anúncio do vidente do Apocalipse: a Cidade definitiva, a nova Jerusalém, é anunciada como sendo a morada de Deus com os homens. Nela, “Deus habitará com os homens: eles serão o Seu Povo e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus”. É belo pressentir que todo o eterno desígnio da salvação se resume, pela parte de Deus, a um desejo de intimidade e proximidade com os homens que criou.
Mas como poderia Deus co-habitar com os homens, nessa comunhão de vida e de amor? Ele não tem corpo para habitar uma casa no meio da cidade dos homens. E no entanto este desejo de co-habitação de Deus com o seu Povo inspira a simbólica religiosa durante milénios. Deus torna-se hóspede amigo, que entra na tenda de Abraão, trazendo boas notícias; faz-se peregrino e viandante, acompanhando os justos de Israel na sua busca de fidelidade à Aliança; é esposo terno, na intimidade do tálamo, torna-se guia audaz, conduzindo o seu Povo na travessia do deserto e nas batalhas de Israel, aceita ser conselheiro amigo, sempre disponível, na tenda da reunião, no meio do acampamento. E por tudo isso, os Reis de Israel decidem construir-Lhe uma Casa no meio da cidade. Se Ele desejava habitar no meio do Seu Povo, Ele precisava de uma Casa no meio da cidade, onde os homens o pudessem escutar, pedir auxílio, oferecer-Lhe presentes, manifestações normais de uma convivência.
Deus parece não se ter entusiasmado muito com essa ideias de os homens Lhe construírem uma Casa no meio da cidade. Condescendeu porque eles ainda não podiam perceber como e onde Deus queria habitar no meio dos homens. Demasiadamente marcados pela distância infinita que separava os homens de Deus, não podiam sequer imaginar que o coração do homem era a única morada de Deus entre os homens, possível e desejada por Deus, e que essa morada só Deus a podia construir, tal como criara o primeiro homem à Sua imagem e semelhança.
A primeira vez que Deus habitará realmente no meio dos homens é em Jesus Cristo, Verbo eterno de Deus encarnado. E a morada que O acolherá só pode ser construída por Deus: o seio imaculado de uma Virgem Imaculada. Rezávamos assim na oração colecta desta celebração: “Senhor Deus, pela Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, preparastes para o Vosso Filho uma digna morada”. O seio imaculado de Maria é a morada digna para acolher o Filho de Deus; mas Jesus Cristo será a presença perfeita e definitiva de Deus no meio dos homens. Para isso ser possível, Deus fez-Se homem. Ele manifestará, em realidade humana, a santidade e a glória do Deus três vezes santo. O filho que é anunciado a Maria, a Mãe de coração imaculado, “será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu Pai David, reinará eternamente sobre a Casa de Jacob e o Seu reinado não terá fim”.
2. Perfeita em Maria, plena em Jesus Cristo, a morada de Deus com os homens só estará completa na nova Jerusalém. Até lá é a longa caminhada da Igreja, destinada toda ela a ser o templo do Senhor, o santuário onde Deus convive com os homens. Jesus prometera aos discípulos: “aquele que Me ama, guardará a minha Palavra, meu Pai o amará e nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada” (Jo. 14,23).
Cada cristão é chamado a ser a morada de Deus no meio dos homens. Deus habitará, então, na cidade dos homens, não porque tenha uma casa no meio da cidade, mas porque encontrou morada no coração de cada cristão. E aí Maria, a primeira morada de Deus entre os homens, é o anúncio vivo da santidade exigida para que alguém possa ser morada de Deus. Para que ela pudesse ser essa morada santa, capaz de receber o Deus Santo, Ele preservou-a de toda a mancha desde o primeiro momento da sua existência. Vencer o pecado no nosso coração humano, tornando-o capaz de acolher o Deus Santo, eis a aventura da graça que está no centro de toda a pedagogia pastoral da Igreja. É o Espírito criador de Deus em acção através da força sacramental da Igreja.
Este Centro de Espiritualidade estará ao serviço dessa pedagogia da Igreja na sua acção santificadora, para que cada cristão e a Igreja toda sejam cada vez mais o templo santo onde Deus habita na cidade dos homens. Desejamos que todos os que vierem a servir-se dele, procurem, antes de mais e acima de tudo, a intimidade com Deus, para partirem daqui mais dignos de serem a morada de Deus no meio dos homens. Para isso:
* Ele oferecerá o silêncio e o recolhimento. Ajudado pela beleza natural que nos envolve, o silêncio será construção de cada pessoa e de cada grupo, na certeza de que só no silêncio abriremos o nosso coração ao mistério insondável de Deus.
* Ele será espaço de reconciliação e conversão. Se Deus, para que Maria fosse digna morada para o Seu Filho, interveio com a Sua força criadora, libertando-a de toda a mancha, como precisaremos de abrir o nosso coração pecador à força transformadora da graça, para que cresça essa intimidade amorosa entre nós e Deus. Uma pedagogia da conversão e da reconciliação estará sempre a marcar o ritmo do serviço oferecido por este Centro.
* Para isso ele será espaço de escuta da Palavra. Competirá à equipa pastoral que orientará o Centro escolher diversas formas de escuta da Palavra, desde a pregação, à “lectio divina” e à leitura orientada do texto sagrado. Desejo muito que a qualidade da proposta esteja sempre à altura do mistério da Palavra, sacramento vivo do Verbo de Deus.
* Todos estes elementos ajudarão este Centro a ser um espaço de oração, de aprendizagem da oração. Tenho a certeza de que a maior parte daqueles que o procurarem, virão para rezar. Não sei se todos estão conscientes de que precisam de aprender a rezar. Que quem recebeu do Senhor o dom da oração, ensine os outros, através do seu testemunho. Nesta pedagogia da oração não diria que a regra é “cada um ensina o que sabe”, mas antes que cada um dê testemunho do dom que recebeu. Aqui descobriremos que toda a verdadeira oração, mesmo quando individual, é sempre expressão de toda a Igreja. A Liturgia terá de ser a escola inspiradora de uma pedagogia da oração.
* Aqui receberemos um dinamismo novo para a missão. Perceberemos que aqueles onde Deus habita, Ele os envia a testemunhar o Seu amor. Encontremo-nos com Deus para Ele nos enviar sempre de novo.
3. Este Centro significou um grande esforço material da Igreja de Lisboa. Nele gastámos tudo o que tínhamos, mesmo mais do que tínhamos. É como na parábola evangélica, que compara o Reino a um tesouro escondido num campo e que quem o descobre, vende tudo o que tem para poder comprar aquele campo. Ele concretiza uma opção pastoral clara, radicada numa certeza: a renovação e o crescimento da Igreja de Lisboa têm de assentar num aprofundamento da oração e na construção de uma espiritualidade eclesial que seja o sal que a tudo dá sabor e a sabedoria que conduz os espíritos e os corações. Consagrado ao Coração Imaculado de Maria terá sempre nela, a Mãe da Igreja, o modelo inspirador e a pedagoga da graça que nos guiará, nas aventuras do espírito, com a ternura solícita de uma Mãe. A ela confiamos, desde o primeiro dia, toda a actividade deste Centro.
Turcifal, 8 de Dezembro de 2003
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA solenidade da imaculada conceição
“Maria a Nova Eva”
1. Nesta festa litúrgica da Conceição Imaculada da Virgem Maria, somos chamados a meditar no mistério da redenção como drama da humanidade. Criados à imagem de Deus, para partilharem, como filhos, a intimidade do próprio Deus, o homem e a mulher afastam-se desse ideal, atraídos pela miragem de modelos de felicidade mais fácil e mais imediata. E ao meditarmos sobre o drama da redenção, contemplamos o papel da mulher nesse drama, afirmando a primazia que nele ocupa, aquela qualidade de matriz da vida, com que a define o texto da criação. O pecado dos nossos primeiros pais, sendo a primeira expressão do drama humano, constitui a grande humilhação da mulher. Por isso ela ficará, para sempre, no centro do drama humano, para o sofrer e para o resolver.
Na narração do Génesis, o primeiro homem, para se desculpar junto de Deus, faz a acusação que milhões de homens, durante milhões de anos, farão para justificar o drama humano: foi a mulher. “E o Senhor Deus perguntou à mulher: que fizeste?”. Deus reconhece, assim, que esteve nela a principal responsabilidade da culpa, certamente porque usou mal a indiscutível capacidade que tem de ajudar o homem a discernir. Porque ela é a matriz da vida, a solução humana só pode brotar da mulher, da sua descendência, do fruto do seu ventre. E Deus disse à serpente: “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”. Desde aquele momento profila-se no horizonte outra mulher, a nova Eva, a quem gerações proclamarão bem-aventurada, bendita entre todas as mulheres, porque é bendito o fruto do seu ventre. A essa outra mulher Deus disse, através do seu mensageiro: “Avé, ó cheia de graça, o Senhor está contigo… Não temas Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho…”.
O facto de a mulher ser a matriz da vida, está no centro do drama humano e da sua solução, porque os protagonistas desse drama são todos os homens e mulheres descendentes de Adão e Eva e redimidos em Jesus Cristo; todos são a descendência destas duas mulheres, o fruto do seu ventre. O drama humano não foi anulado, mas pode ser vivido na esperança. É que devido a Maria e ao bendito fruto do seu ventre, volta a ser verdade para a amaldiçoada descendência de Eva, que Deus os escolheu, antes da criação do mundo, para serem santos e irrepreensíveis, em caridade, na intimidade de Deus, que os predestinou, desde sempre, para serem seus filhos adoptivos. Como descendência de Eva todos sofremos o drama do pecado; como descendência de Maria, recuperamos a predestinação divina que faz, de todos nós seus filhos, no Filho de Deus e de Maria, Ele o fruto bendito do seu ventre.
2. A redenção não anula o drama, antes é ela mesma um drama, uma luta entre o pecado e a graça, na esperança da vitória final da vida. E nessa luta dramática a vitória não acontece pela destruição da humanidade, mas pela redenção da humanidade. Sempre que Deus teve a tentação de destruir a humanidade e começar tudo de novo, desistiu dessa tentação, como na história de Noé, pois ela não cabia no seu desígnio eterno. Não se trata de destruir o homem pecador e criar um outro homem isento de pecado. O pecado tinha de ser vencido no coração do homem. Mas para que isso fosse possível para toda a humanidade, Deus teve de criar uma criatura isenta de pecado, verdadeiro início da humanidade renovada. E a fraqueza de Eva não fez Deus esquecer-se da força da mulher e nesse nova criação começa exactamente pela mulher, a Nova Eva, concebida sem pecado, cheia de graça, digna de Deus se enamorar dela. O anúncio da vitória da descendência da mulher, fez com que o drama da humanidade e o drama da redenção fossem o mesmo drama, numa mesma história centrada na descendência da mulher, Jesus Cristo.
3. Unificado o drama humano na unidade de uma única história de salvação, Eva e a sua descendência, Maria e a sua descendência, são protagonistas desse único drama. Ao demónio foi dito: “a descendência da mulher te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”. E ambas sofrerão esta agressão do inimigo, uma como consequência da própria culpa, outra como princípio de redenção. A Eva foi anunciado: “darás à luz os teus filhos na dor”. O sofrimento atingirá a mulher naquilo que é o seu dom, a maternidade. Está aqui dito que, ao longo dos séculos, o sofrimento de todas as mães constitui o cerne do drama humano. A Maria foi dito: “Uma espada de dor te trespassará o coração”. Aqui está anunciado o sofrimento assumido e amado, de todas as mães, de todas as mulheres, que continuam a merecer na sua dor oferecida a redenção da humanidade.
Mas é em Jesus, descendente de Eva e de Maria, que se fará sentir, mais dramaticamente essa mordedura no calcanhar. Condenado à morte, o seu sofrimento torna-se sacrifício oferecido, e o que parecia, aparentemente, uma vitória do maligno, transforma-se no triunfo da vida e da redenção. E aos pés da Cruz, com o coração trespassado de dor, a Nova Eva é protagonista principal da resolução do drama humano: ela é co-redentora. Só no calvário e na grandeza de amor do sacrifício do Filho de Maria, se percebe como é bendito o fruto do seu ventre.
4. A partir daquele momento o drama humano torna-se um caminho de graça e de triunfo da vida; o pecado foi vencido no coração do homem e Maria revela-se como o trono da graça. Recuperando a nossa vocação de filhos de Deus em Jesus Cristo, somos a nova descendência de Eva, recriados em Cristo, no coração virginal e maternal de Nossa Senhora. Também nós somos, em Cristo, o fruto bendito do seu ventre, o resultado maravilhoso da fecundidade do seu sofrimento e do seu amor. O último capítulo deste drama estamos a vivê-lo; é o longo percurso da Igreja, na abundância da sua fecundidade sacramental, para nos renovar o coração, vencer em nós o pecado e nos tornarmos dignos da intimidade com Deus. Para que Maria fosse uma digna morada para o Verbo encarnado, Deus criou-a imaculada, isentando-a de toda a mancha. É hoje a nossa vez de vivermos o drama da salvação, abrindo o nosso coração à acção do Espírito, que vencerá nele o pecado para, também nós, sermos morada de Deus.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA ORDENAÇÃO DE DIÁCONOS
“O Senhor é a nossa Justiça”
Ainda ecoam no nosso coração os hinos de louvor à glória de Jesus Cristo, Rei do Universo e Senhor da Igreja, que é, na Sua glória de ressuscitado, a garantia da nossa salvação e eis que a Liturgia nos convida a retomar o ritmo da História da Salvação, toda ela centrada no Senhor que nos dá a vida. Não é a lei do eterno retorno, com que os gregos explicavam a História, mas a consciência da perenidade do presente de Jesus Cristo, Ele que enche a História. Nesta circularidade do Ano Litúrgico, mais do que “representar” o tempo da expectativa da vinda do Messias, celebramos o ritmo da nossa caminhada de fé, ao encontro de Jesus Cristo. Não apenas a aventura individual de cada um de nós, mas o destino de toda a Igreja e de toda a humanidade. E como são diferentes as etapas e a situação de cada cristão e de cada homem, nossos contemporâneos, frente a Jesus Cristo, o Senhor que a todos quer encontrar e salvar. Muitos desconhecem-n’O, e torna-se urgente o anúncio; outros já acreditam n’Ele, mas conhecem-n’O mal, não aprenderam a contemplar o Seu rosto e a deixar-se tocar pelo Seu coração amoroso e estes exigem, da Igreja, uma acção pastoral centrada no aprofundamento da fé e na pedagogia da oração. Outros amam-n’O, seguem-n’O como discípulos, comprometeram com Ele as suas vidas e esperam poder, um dia, participar da Sua glória. Estes precisam de se sentir enviados e fazerem sua, abraçando-a com amor, a missão do próprio Jesus.
É esta longa e diferenciada caminhada da humanidade para Jesus Cristo que nós celebramos na Liturgia, toda ela centrada na plenitude de Cristo, que nos atrai. Cristo atingiu a Sua plenitude, mas a humanidade ainda não; Cristo é Senhor da Igreja e comunica-lhe a vida, querendo saciá-la com a Sua própria vida, mas a Igreja ainda não recebe toda essa plenitude de vida; Cristo ama a Igreja como uma esposa, mas esta esposa ainda é infiel, não respondendo sempre à intimidade desse amor; Cristo está na glória do Pai e a Igreja, na melhor das hipóteses, consegue desejar essa glória. O caminho que é preciso percorrer até à plenitude de Jesus Cristo é mais longo que o caminho percorrido, no tempo da expectativa do Messias. Como então, a esperança é a força que nos ajuda a não perder alento neste longo caminho a percorrer. Só ela nos faz olhar mais longe alargando o horizonte da nossa vida e da vida de todos os homens e mulheres, nossos irmãos.
O Profeta Jeremias, olhando para a sua Cidade de Jerusalém, que representava todo o Povo de Israel e toda a humanidade, vê brilhar sobre ela a luz dessa esperança, e traduz, num nome novo, essa nova esperança para Jerusalém. “Este é o nome que chamarão à Cidade: o Senhor é a nossa Justiça”. Este é o nome que desejamos seja, um dia, o nome de todas as cidades da humanidade.
Ao dirigir-se à Europa em recente Exortação Apostólica, João Paulo II traduz esse nome da cidade por um outro: “Cristo é a nossa esperança”. Essa tradução só é possível, porque Cristo é a nossa justiça, porque a nossa esperança é a força que nos faz acreditar que um dia a justiça triunfará, não uma justiça qualquer, mas aquela que se alicerça na verdade e restitui a todos os homens a sua dignidade de filhos de Deus.
É vocação da Igreja, ao iniciar cada Ano Litúrgico, percorrer, com um desejo renovado de fidelidade, este caminho ao encontro de Cristo, seu Senhor. E pela exigência da sua missão, ela só o pode fazer abraçando na sua esperança e no seu amor, a humanidade inteira. Alimentada pela esperança, ela é chamada a ser sacramento da esperança e sinal de um mundo novo. Na humildade da nossa fé, tomemos consciência dos sinais de esperança detectáveis na nossa Igreja de Lisboa, conscientes também, das nossas fragilidades e da distância que nos separa da plenitude de Jesus Cristo.
Vós, queridos Ordinandos, sois um dos sinais dessa esperança. Só na humildade podeis fazer esta escolha e abraçar esta missão, na certeza de que, se o Senhor vos chamou, Ele não vos faltará, porque Ele ama a Sua Igreja e chamou-vos, movido por esse amor à Igreja, que é o Seu corpo. Acreditai que o amor de Cristo pela Igreja se concretiza em vós, passa por vós. Vós sereis, na nossa cidade, sacramentos vivos do amor de Jesus Cristo por esta Igreja. Ao agradecerdes ao Senhor, agradecei-Lhe, sobretudo, o Ele amar tanto a Sua Igreja e o ter-vos escolhido como testemunhas do Seu amor. O diaconado é um sacramento para o serviço, encarnação da missão de Cristo Servo. Servir e dar a vida será sempre, no meio dos homens, o anúncio da esperança. Em vós e através de vós, também a nossa cidade se poderá chamar “O Senhor é a nossa Justiça”, “Cristo é a nossa esperança”.
Um outro sinal de esperança são aqueles e aquelas que desejam e se esforçam todos os dias, por crescer na caridade, querendo ir mais longe e mais fundo na comunhão com Jesus Cristo. Esse é o entusiasmo que Paulo comunica aos cristãos de Tessalónica: “O Senhor vos faça crescer e abundar na caridade uns para com os outros e para com todos”. Paulo reconhece que, seguindo os seus ensinamentos, eles se estão esforçando por agradar a Deus, mas acrescenta: “mas deveis progredir ainda mais”. É o desafio da santidade cristã, é a aventura da oração, é a fantasia da caridade.
Não sabemos quantos são, mas acreditamos que são muitos, aqueles e aquelas que na nossa Diocese se esforçam, todos os dias, por ir mais longe nessa ousadia da caridade, na oração, na pureza de vida, no amor fraterno. Discretos por natureza, eles são a força silenciosa que fecunda a nossa Igreja e sustenta a nossa cidade. Quero saudar, neste momento, com uma ternura particular, os “missionários da oração”, que aceitaram o nosso desafio de serem, no seu sofrimento e na sua solidão, os primeiros enviados para a “missão na cidade” em que estamos empenhados e que já estamos a preparar.
Esse é outro sinal de esperança. Sinto a nossa Igreja de Lisboa mais mobilizada para a missão, e com capacidade de testemunhar a esperança no meio da cidade. A celebração do “terço vivo”, a próxima inauguração do novo Centro Diocesano de Espiritualidade e a preparação das Comunidades para o Congresso da Nova Evangelização, são disso sinais. Com simplicidade e ousadia, temos de ser anunciadores da esperança na nossa cidade: proporcionando a cada cristão a alegria de ir mais longe, ao encontro do Senhor que está, do Senhor que virá, e comunicando a todos os homens a alegria e a força libertadora da fé: as desgraças anunciadas pelo Evangelho para os últimos dias ainda não pesam sobre a nossa cidade; mas bastam-lhe os problemas que tem. Vivamos o Advento para anunciarmos que “Cristo é a nossa esperança”. Maria, que viveu a esperança na alegria da maternidade, ensinar-nos-á, a nós seus filhos, a esperarmos sempre, porque ela nos deu Jesus Cristo.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
DISCURSO DO CARDEAL PATRIARCA NO ENCERRAMENTO DO CONGRESSO "A LINGUAGEM CORPORAL DO AMOR NUMA VISÃO INTEGRAL DO HOMEM"
“Corpo Humano e Corpo de Deus”
1. Agradeço-vos terem-me dado a honra de pronunciar a última palavra neste Congresso centrado na “linguagem corporal do amor”. Faço-o, não à guisa de conclusões de um trabalho em que não pude participar, mas antes lançando uma última interpelação, que só pode ir na direcção de alargar o horizonte do mistério do amor, não o reduzindo à sexualidade e, ainda menos, à genitalidade, antes integrando estas na visão alargada e universalizante da realidade do amor como vivência da liberdade e busca da plenitude a que chamamos felicidade. Falar de linguagem corporal do amor, significa falar de amor humano, do homem e do seu mistério, enquanto síntese entre o espírito e a matéria, entre Deus e o cosmos, criação de Deus, espírito encarnado, que exprime a vida espiritual na corporeidade. Todo o amor humano é corpóreo, e nenhuma expressão humana que se reduza ao corpo merece o nome de amor. Falar de expressão corporal do amor é falar do mistério do homem e da dignidade do seu corpo.
Na antropologia bíblica a primeira afirmação da dignidade do corpo é a vida. E ser vivo é a primeira expressão da semelhança do homem com Deus. No seu mistério cruzam-se a materialidade do cosmos e a espiritualidade divina: “Então Deus modelou o homem com o barro da terra, insuflou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem tornou-se um ser vivo” (Gen. 2,7). É no corpo que se exprimiu a vida e na sua corporeidade o homem tornou-se imagem de Deus. É isso que distingue o corpo do cadáver: o corpo é a matéria organizada para exprimir a vida, que é espiritual; o cadáver é a matéria incapaz de exprimir a vida. Esse é o drama espiritual do moribundo de Isaías 38, em que surge, com o seu carácter dramático, a busca de um sentido para a própria morte, em que o corpo deixa de exprimir a vida, para se tornar cadáver: “em meio da vida, vou descer às portas da morte… não mais verei o Senhor na terra dos vivos” (v. 10). “Nem a morada dos mortos vos louvará, nem a morte vos dará glória; para quem desce ao túmulo, acaba a esperança na vossa fidelidade; … só os vivos podem louvar-vos, como eu vos louvo hoje” (vv. 18-19).
Para o homem, a vida é o corpo vivo; participação espiritual na própria vida divina, a vida humana vai-se afirmando e definindo como relação e capacidade de amor. Porque só o corpo exprime a vida, só o corpo pode exprimir o amor. Procurar a dignidade do corpo, significa mergulhar na profundidade do amor como participação da vida divina, pois Deus é amor. E isto levanta algumas questões fundamentais, de cujas respostas depende o sentido último da existência humana: o homem que não ama estará vivo? O homem que morreu fisicamente deixará de poder amar, como o texto de Isaías sugere? Se ama, com que corpo, antes da ressurreição final? Como poderá o homem, cuja expressão de amor é corpórea, entrar numa comunhão de amor com Deus, que não tem corpo? Ou teremos de falar da corporeidade de Deus, a cuja imagem o homem foi criado?
O Corpo de Deus
2. Só em Jesus Cristo a corporeidade de Deus se torna clara e acessível. “E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua glória” (Jo. 1,14). A corporeidade de Deus, em Jesus Cristo, é decisiva para que o homem atinja a plenitude da comunhão de amor, porque a sua união ao Corpo de Deus, em Jesus Cristo, eleva e transforma a sua própria corporeidade. A encarnação de Deus, em Jesus Cristo, que ao acontecer no tempo, constitui a plenitude do tempo humano, está suposta e subjacente em toda a revelação do amor de Deus pelos homens. O próprio Antigo Testamento é incompreensível sem o mistério da corporeidade de Deus.
A História da Salvação é a revelação do desígnio insondável de amor de Deus pelos homens, que se manifestou e radicalizou em Jesus Cristo. Mas a realidade de Jesus Cristo ilumina todo esse desígnio eterno, em acção desde a criação do mundo. São Paulo chama-lhe um “mistério escondido, desde sempre, em Deus, o criador de todas as coisas” (Ef. 5,9) e não hesita em situar Jesus Cristo, Verbo divino feito Homem, como agindo no início da criação (cf. Col. 1,15). A possibilidade de Deus amar, corporalmente, em Jesus Cristo, está subjacente a toda a História da Salvação.
É o sentido profundo da simbologia do “Deus esposo”. Nos profetas, a imagem mais expressiva do amor de Deus pelo seu povo, é o amor esponsal. É por isso que a Páscoa de Jesus, já na plenitude da capacidade expressiva da corporeidade de Deus, no Corpo de Jesus cristo, é apresentada como a plena realização dessa aliança nupcial entre Deus e o Seu Povo, porque aí o dom do próprio Corpo, na Eucaristia e na Cruz, é a expressão definitiva do amor salvífico de Deus.
A encarnação de Deus em Jesus Cristo é a única forma de corporeidade de Deus admitida no Antigo Testamento. É totalmente proibido fazer figurações humanas de Deus, porque a única figura humana de Deus será o Seu Verbo encarnado. Os “ídolos” são rejeitados, não por serem representações de Deus, mas por não serem vivos. “Têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem” (Ps.113). Só Cristo será o Vivo. “Ele era a vida de todos os seres e a vida era a luz dos homens” (Jo. 1,4). A Sua ressurreição constituirá a manifestação plena da vida divina num corpo humano. Nela readquire sentido toda a corporeidade humana.
O Corpo como sacramento do amor
3. Em Cristo o corpo humano atinge a plenitude do seu significado: ele exprime o dom total da pessoa. E essa plenitude de sentido acontece na Páscoa de Jesus. Nela, o nosso corpo atinge, também, a sua plenitude de sentido. A Páscoa consiste nisso: a plenitude do dom de amor do próprio Cristo, a Deus Pai e aos homens seus irmãos. E isso exprime-se no dom total e radical do Seu próprio corpo, expressão da sua vida. Cristo tinha de morrer; tinham de Lhe tirar a vida para se tornar claro que Ele a oferecia. E no seu drama, Ele exorcizou o drama humano da morte. Esta pode ser o dom total do próprio corpo, como semente de uma vida definitiva. Em Cristo, a morte e a ressurreição constituem uma unidade inseparável. O Seu corpo de ressuscitado, primícias da nova humanidade, é o princípio da redenção do nosso próprio corpo, tornando-o definitivamente capaz do amor.
A Eucaristia, sacramento da morte e da ressurreição de Jesus, é a expressão perene deste dom contínuo que Cristo faz do Seu corpo, por amor e para o amor. E porque unidos a Ele, fazendo com Ele um só corpo, podemos oferecer, por amor, os nossos próprios corpos a Deus e aos irmãos. “Isto é o Meu Corpo, que vai ser entregue por vós” (Lc. 22,19). Ou no relato de Paulo: “Isto é o Meu Corpo, que é para vós” (1Cor. 11,24). A experiência eucarística permite aos homens consciencializar que os seus corpos se unem ao Corpo de Cristo ressuscitado fazendo um só corpo: “O Pão que comemos não é uma comunhão no Corpo de Cristo? Porque há um só pão, nós formamos um só corpo” (1Cor. 10,16). A Eucaristia reúne todos os cristãos num só corpo, que é o Corpo de Cristo, tal como o matrimónio une o homem e a mulher num só corpo: “é por isso que o homem deixa o seu pai e a sua mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois um só corpo”. No sacramento do matrimónio, esta união dos esposos num só corpo é feita no Corpo de Cristo ressuscitado.
À oferta do Senhor que nos diz: isto é o Meu Corpo que é para vós, toda a Igreja e cada cristão devem responder: eis o nosso corpo que é para Ti. Isto di-lo a Igreja em cada Eucaristia; dizem-no os esposos em cada expressão da sua união de amor; di-lo cada cristão em tantos momentos da sua vida. São Paulo lembra aos cristãos de Corinto, que mesmo na sua expressão sexual, “o corpo é para o Senhor e o Senhor é para o corpo” (1Cor. 6,13). O amor conjugal e a expressão sexual do amor são, apenas, mais uma expressão da caridade; e esta reúne todas as expressões de dom da nossa vida, ao Senhor e aos irmãos. Dom do Espírito, ela exprime-se no corpo, ele próprio transformado pela semente da ressurreição. Entre o amor conjugal e a Eucaristia há um traço comum misterioso: ambos se tornam possíveis pelo dom que Cristo nos faz do seu próprio corpo, convidando-nos a fazermos dom do nosso: eis Senhor, o meu corpo, que é para vós.
As múltiplas expressões corporais da caridade
4. Não reduzamos à expressão sexual a capacidade do nosso corpo exprimir a caridade. São incontáveis os momentos e as circunstâncias em que o nosso corpo se torna sacramento do amor e expressão da caridade. Lembremos apenas algumas delas, pela universalidade de que se revestem na experiência humana:
* A ternura: é a expressão do amor que mais valoriza a contemplação e a solicitude pelo outro. Trata-se de olhar o outro, de o tocar para o sentir, perceber e acolher. Só num amor terno se penetra o insondável mistério do outro. Sem ternura, o outro continuará a ser, para mim, um desconhecido. Toda a revelação, enquanto abertura ao outro do mais profundo do ser, é expressão de ternura e só é possível na ternura. Só esta constrói intimidade. É mais universal do que a conjugalidade, pois eu posso amar com ternura todas as pessoas com quem me cruzo. É na ternura que o amor toca a beleza.
É por isso que ela exprime a solicitude atenciosa pelo outro. Na Sagrada Escritura esta é uma das descrições possíveis do amor de Deus, sobretudo quando Ele se compara ao pastor, na sua solicitude pelas ovelhas. A ternura é simples nas suas expressões, intensa na intimidade que gera, gratuita e generosa nas intenções, é experiência de encantamento pela beleza do outro.
* A oração e o louvor: manifestações dos sentimentos mais íntimos da minha relação com Deus, elas têm uma expressão corpórea, em que cada gesto ou atitude exprimem um sentimento. Se me calo, procuro o recolhimento; se canto ou danço, manifesto a minha alegria; se toco ou me deixo embalar pela música, desejo a harmonia; se me prostro, manifesto a total submissão ao meu Deus; se elevo os braços, é porque brota do meu coração uma súplica; se ponho as mãos, exprimo a humildade de quem pede com confiança; se choro, declaro a minha dor; se sorrio com todo o ser, é sinal de que a alegria me inundou o coração. Como poderíamos exprimir tudo isto sem corpo? Mas poderia o nosso corpo ter expressões tão belas, sem a intensidade do espírito?
* O sofrimento e a dor. Se há algo que se sente no corpo é a dor. Mas só a densidade espiritual transforma a dor humana em sofrimento. Oh! como é possível amar, sofrendo, se a dor é oferecida por amor. A dor sente-se no corpo e proporciona-nos a circunstância de o oferecer a Deus, dizendo ao Senhor: este é o meu corpo, que é para Vós. É insondável a força transformadora do sofrimento oferecido e amado. Talvez ele seja a alavanca silenciosa que sustenta o mundo.
* A morte oferecida e vivida. A morte é, também, uma expressão corporal de amor, de confiança, de abandono. É por isso que, na tradição cristã, ela é a porta que nos introduz na vida e na harmonia definitivas. Também aí eu digo ao Senhor, em união com Cristo: eis o meu corpo, toma-o para Ti. Esta dimensão ganha um relevo sublime, no martírio como vida oferecida. Cito-vos, a este propósito, o testemunho de um Mártir Judeu, Aquiba, no ano 135 depois de Cristo. Antes de ser morto exclama: “Amei-O com todo o meu coração, com toda a minha fortuna; mas não tinha tido ainda a ocasião de O amar com toda a minha alma. Chegou esse momento”. Toda a morte cristã se pode revestir da grandeza do martírio, se morrermos em Cristo.
Poderíamos referir, ainda, todas as lutas movidas pelo amor: pela paz e pela justiça, pela honestidade e pela verdade, pela defesa dos oprimidos e alívio dos que sofrem. Só com o dom do próprio corpo se edificará um mundo novo. Quem quiser salvar a sua vida, acabará por perdê-la, quem aceitar perdê-la, salvá-la-á. O dom do corpo significa o dom da vida e a radicalidade do dom será sempre a expressão da plenitude do amor.
5. A união conjugal é, apenas, uma expressão desta aprendizagem da caridade, tornada possível pela ressurreição de Cristo. É uma expressão de amor que assume e resume todas as possíveis expressões corpóreas do amor. Tornada possível pela graça pascal (sacramento do matrimónio), os esposos aprendem com o Senhor a dizer um ao outro: eis o meu corpo, é para ti, para podermos ser um só corpo, que é para o Senhor. Conduzida pela ternura, força criadora de toda a intimidade, ela pode incluir o sofrimento e a dor, a oração e a contemplação, e desabrochar em dinamismo de amor fraterno e de construção de um mundo novo. A própria experiência de êxtase que ela proporciona é o anúncio de uma plenitude de amor, que agora é apenas prometida e desejada.
Neste mistério do amor não podemos ficar prisioneiros das análises culturais: saber quantos noivos guardam a virgindade para o seu esposo, quantos esposos são infiéis, em que idade os jovens iniciam a sua vida sexual, num objectivo escondido de mostrar que o ideal cristão falhou. Todas essas realidades são sintomas de uma sociedade que procura a vida, mas ainda não descobriu o caminho que leva a ela. É que o nosso corpo, se exprime o amor, pode também exprimir, dolorosamente, o fracasso e a desilusão. Oxalá ele possa ser, ao menos, a linguagem de um desejo e de um ideal.
Lisboa, 29 de Novembro de 2003
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Carta às Comunidades Cristãs do Patriarcado de Lisboa
Centro de Espiritualidade do Turcifal
Dirijo-me a vós, mais uma vez, nesta Solenidade de Cristo-Rei do Universo e nas vésperas de iniciarmos o tempo litúrgico do Advento, por um motivo muito especial que nos enche a todos de alegria: a inauguração, no próximo dia 8 de Dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição, do “Centro Diocesano de Espiritualidade Imaculado Coração de Maria”. Pelo que significará para a Diocese é um sinal vivo e visível da esperança a que o Advento nos convida e será manifestação do nosso reconhecimento da Senhoria de Jesus Cristo, Rei do Universo.
1. Porquê um novo Centro de Espiritualidade: anunciámo-lo como sinal visível da celebração do Grande Jubileu do Ano 2000. É por isso que a Carta Apostólica “Novo Millennio Ineunte”, com que o Papa João Paulo II lançou a Igreja para caminhos de uma renovada fidelidade a Jesus Cristo, constituirá a sua carta de princípios orientadores, pois este Centro, assim o espero, exercerá um papel decisivo na renovação espiritual das nossas Comunidades e Movimentos. Precisamos de rezar e de aprender a rezar; procuraremos identificar e assumir caminhos específicos de espiritualidade; ousaremos percorrer os caminhos do discernimento para percebermos os caminhos da missão e as exigências da santidade. Maria, na plenitude amorosa do seu Coração Imaculado, será a estrela que nos guia e a sombra que nos protege.
2. Como vamos celebrar: gostaria que a Diocese estivesse verdadeiramente representada, assumindo em conjunto este desafio e esta esperança. Peço às Comunidade Paroquiais que enviem uma representação, entre três e cinco pessoas. Todos os outros virão depois, ao ritmo das circunstâncias e dos apelos do Espírito. A celebração terá início às 15H30, com a bênção da Casa e celebração eucarística, que integrará a dedicação do Altar do Oratório principal. Uma pequena sessão e um convívio encerrarão as cerimónias de inauguração, por volta das 17H30.
3. Onde fica o Centro de Espiritualidade: esta nova estrutura de pastoral diocesana situa-se na Quinta da Capa-Rosa, freguesia do Turcifal. Servido pela A8, fica quase equidistante dos vários pontos da Diocese. A saída da A8 que lhe dá acesso é “Torres Vedras – Sul”. Aí tomar a direcção de Lisboa na Estrada N 8. A cerca de um quilómetro, depois da povoação do Carvalhal, encontramos, à direita, a Quinta da Capa-Rosa. Neste dia de festa haverá, certamente, indicações especiais, para que ninguém se perca, nem sequer a primeira vez.
4. Como foi possível construir este Centro de Espiritualidade: várias pessoas mo têm perguntado. É que, estranhamente, além da renúncia quaresmal do ano passado, ainda não houve “peditórios” para esta obra. Vou dizer-vos claramente como foi, pois não quero segredos a este respeito.
O custo da obra aproxima-se dos oito milhões de euros (um milhão e seiscentos mil contos). Só o saberemos exactamente quando tudo estiver pronto e fecharmos as contas. A ideia inicial era que duas propriedades da Diocese, ligadas à mesma finalidade, pudessem ser orientadas para esta obra: um terreno na Praia das Maçãs, oferecido pela família Moniz da Maia, onde o Senhor Cardeal Ribeiro planeava construir este Centro; e a valorização de alguns terrenos da Quinta da Buraca. Ambas as hipóteses se mantêm de pé, mas não realizadas. A da Buraca é mais problemática, pois está pendente do traçado definitivo do IC17 (CRIL).
Enquanto estes financiamentos não se viabilizam, dando um contributo significativo para os custos da obra, utilizamos verbas “consignadas” a outros fins, em poder do Patriarcado: dinheiros do Seminários dos Olivais, fruto da urbanização de terrenos em curso e dinheiros destinados à construção da futura Catedral. Não excluímos ter de recorrer à generosidade dos fiéis, mas a pouco e pouco. A solução encontrada permite-nos essa maleabilidade. Em lugar visível na entrada do Centro ficará permanentemente um cofre, bem identificado, onde as pessoas que visitam ou utilizam a casa, poderão deixar as suas ofertas para a construção. No dia da inauguração teria todo o sentido que Comunidades, Movimentos, Instituições e pessoas individuais, trouxessem a sua oferta, a recolher no ofertório da celebração. Tenho a certeza que, pouco a pouco, iremos repondo o dinheiro, orientando-o para as finalidades a que se destinam.
Os dinheiros da Igreja devem servir para a realização da missão da Igreja e crescimento do Reino de Deus. É uma alegria darmos a algo do que possuímos pessoalmente essa mesma orientação e destino. Se formos profundos na fé, seremos generosos na partilha.
Entrego a Nossa Senhora este grande projecto, dos primeiros que formulei concretamente ao assumir a responsabilidade da Diocese. Para ele invocaremos a bênção de Deus, sob o olhar maternal de Maria.
Lisboa, 23 de Novembro de 2003, Solenidade de Cristo-Rei do Universo
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Homilia do Cardeal Patriarca na Celebração do
25º Aniversário da Eleição de João Paulo II
“Os Mensageiros de Deus”
1. Ao celebrarmos solenemente o Jubileu da Eleição e envio de João Paulo II como Sucessor de Pedro e Pastor Universal, não só exprimimos o nosso desejo de comunhão, na fé e na caridade, com o Santo Padre, mas contemplamos a solicitude de Deus pelo Seu Povo, Ele que nos envia sempre Pastores, que são mensageiros do Seu amor. Todo o enviado é portador de uma mensagem de amor: Deus ama-nos e quer que alcancemos a Vida.
O envio de mensageiros do amor é uma constante na História da Salvação. Ouvimos na 1ª Leitura, o testemunho do Profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a Boa-Nova” (Is. 61,1). E o próprio Senhor Jesus se considera ungido e enviado pelo Pai (Jo. 10,36), como testemunha do Seu amor pelos homens. E o Evangelho de São Lucas fala-nos de um mensageiro especial: o Anjo Gabriel foi enviado por Deus, a uma Virgem da Casa de David, chamada Maria (Lc. 1,26).
Reside, talvez, aqui o segredo, do lugar privilegiado que João Paulo II deu a Maria, no cumprimento da sua missão de Pastor. Aquela mensagem divina de salvação de que o Anjo é portador, também ele a recebeu como missão e tornou-se o seu incansável mensageiro no mundo contemporâneo. Proclamou-a à Igreja e ao Mundo, objectivou-a na fidelidade à verdade, arriscou a vida por ela, atraiu multidões, tornando-se o símbolo vivo da esperança. No dinamismo vivo da salvação acontece que aqueles que acolhem a mensagem, se tornam mensageiros, anunciadores da Boa-Nova da Salvação que acolheram. Aconteceu assim com os Profetas e com os Apóstolos, aconteceu assim com Maria que, destinatária de uma mensagem divina, se tornou missionária do seu anúncio, na sua fidelidade, que a tornou peregrina da salvação. Encontramos uma semelhança misteriosa entre esta ininterrupta peregrinação de Maria, para anunciar a salvação realizada pelo seu Filho, e a longa peregrinação de João Paulo II pelo mundo, sempre acompanhado pela presença maternal de Maria.
2. Os mensageiros divinos são portadores do anúncio do amor de Deus. A mensagem é sempre a mesma: Deus ama-vos e amar-vos-á sempre. Isaías reconhece que é enviado a proclamar o ano da graça do Senhor, a consolar os aflitos e a infundir o óleo da alegria. A mensagem do Anjo Gabriel a Maria é a mesma: “Avé, ó cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc. 1,28). O Anjo chama-lhe predilecta de Deus Pai, a amada do Deus esposo, que está com ela numa inquebrável união de amor. Toda a mensagem divina é uma declaração de amor. A Maria é também dito que nela, Deus ama toda a humanidade. O amor esponsal de Deus por Maria, exprime, misteriosamente, a fecundidade do amor divino, que abraçará toda a humanidade no mistério da salvação. Isso faz parte explícita da mensagem do Anjo: porque és a amada de Deus, darás à luz um Filho, que é o Salvador prometido (Lc. 1,30-35).
Esta é uma dimensão misteriosa e silenciada da vida de João Paulo II: o homem que se sente amado por Deus, que procurou ser fiel a esse amor e se tornou seu mensageiro. Numa das biografias de João Paulo II, o autor afirma que o Papa lhe confessou um dia, que não tem consciência de alguma vez ter pecado gravemente, ferindo o mistério da graça divina. Compreende-se que sejam carregadas de sentido, para ele, esta saudação do Anjo a Maria: “Avé, ó cheia de graça”. Certamente que ele se sente a participar, misericordiosamente, dessa plenitude de graça de Maria, por mediação de Maria. A sua consagração a Maria, na divisa “Totus Tuus”, é o mergulhar, sem limites, através dela, nesse mistério de graça e de misericórdia. Mensageiro do amor, ele deu à Igreja o testemunho e o entusiasmo pela santidade.
Que João Paulo II foi o amado de Deus, temos disso alguns sinais, que ele recebeu através da presença maternal de Maria, que o livrou da morte, desviando o percurso da bala, o acompanhou na sua longa peregrinação de mensageiro do amor e lhe revela, como só uma Mãe pode fazer, o verdadeiro rosto do seu Filho, Jesus Cristo. Papa de intervenção e de tomadas de posição decididas, sempre conduzido pelo serviço da verdade, pode não ter agradado a todos. Mas é inegável que, ao percorrer o mundo, ele o envolveu no abraço terno do amor de Deus. De João Paulo II os homens podem não ter ouvido aquilo que gostavam de ouvir; mas se estiverem abertos ao amor, sentiram-se, certamente, amados por Deus. E esse é o anúncio da salvação. Quanta esperança semeada, quando defendeu a justiça, proclamou o carácter sagrado da vida humana, convidou os homens a não fazerem das suas diferenças um impedimento para o diálogo e levou os corações atribulados do nosso tempo a recuperarem o sentido da vida. Pastor Supremo da Igreja, no ministério de João Paulo II brilhou a missão da Igreja no mundo contemporâneo: ser testemunha e sacramento do amor de Deus em Jesus Cristo.
3. Imaginemos como João Paulo II deve ter meditado na primeira viagem de Maria enquanto mensageira da graça e do amor: a visita a sua prima Isabel. E esta captou perfeitamente a mensagem: Tu és bendita entre as mulheres, porque é bendito o fruto do teu ventre (Lc. 1, 42). Desde que se abandonou totalmente à mensagem divina, Maria reconhece essa maravilha do dom da graça e louva, por isso, o Senhor: “Porque Ele poisou o seu olhar sobre a sua humilde serva, a partir de agora todas as gerações me proclamarão bem-aventurada” (Lc. 1, 48).
Bendita entre as mulheres porque é bendito o fruto do seu ventre. Não é difícil intuir aqui a fonte inspiradora de toda a espiritualidade de João Paulo II. Quis celebrar o vigésimo quinto aniversário do seu Pontificado, proclamando um Ano do Rosário. Milhões de pessoas disseram, milhões de vezes, a Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe: tu és, ainda hoje, a predilecta de Deus, o sinal vivo de que Deus nos ama. Tu continuas a ser a Mulher, bendita entre todas as mulheres, porque é bendito o fruto do teu ventre, Jesus.
Maria é bem-aventurada por causa de Jesus. É em Cristo que encontramos a plenitude da graça, é n’Ele que nos sentimos amados por Deus. João Paulo II, mensageiro do Amor, foi um profeta incansável da actualidade de Jesus Cristo. “Abri as portas a Cristo”, foi o primeiro grito que fez ecoar, através de todos os meios de comunicar, no mundo contemporâneo. “Só em Cristo se esclarece, verdadeiramente, o mistério do Homem”; celebrámos os dois mil anos do Seu nascimento e fomos convidados a contemplar de novo o Seu rosto, onde se transformam todos os rostos humanos. Mas proclamar o amor de Deus em Jesus Cristo, só pode ser feito com Maria. Porque é bendito o fruto do seu ventre, multidões de homens e mulheres, recriados pelo amor de Deus, poderão ser proclamados “bem-aventurados”.
4. Mas João Paulo II não se cansou de nos lembrar que este mistério da graça é um mistério de misericórdia. Deus amou-nos quando estávamos, ainda, nos nossos pecados. Trono da graça ela é a Mãe da misericórdia. Por isso, ao mesmo tempo que a proclamamos bem-aventurada, lhe pedimos confiadamente: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores”!
Estádio Nacional, 18 de Outubro de 2003
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Homilia do Cardeal Patriarca NA Peregrinação Internacional de Fátima
“A Fecundidade de Deus”
Queridos Peregrinos,
1. Aos pés de Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, contemplando e louvando o Senhor pelo dom da sua maternidade, em que todos renascemos para a vida nova, segundo o Espírito, proponho-me meditar, convosco, sobre a fecundidade de Deus. Toda a acção transformadora do Espírito Santo, nos corações e na história, toda a graça da salvação, concretizada em dinamismos de vida e de comunhão, a edificação da Igreja como Povo novo do Senhor e a sua fecundidade sacramental, a própria ressurreição de Jesus, são manifestações da fecundidade do amor divino. Deus é fecundo porque é Amor. Ama sempre e o Seu amor nunca é estéril. A vida acontece, participação na própria vida divina, porque Deus ama e as pessoas se deixam amar por Ele.
Na História da Salvação, a primeira concretização deste amor fecundo de Deus é a Sua Palavra. Deus fala-nos porque nos ama, porque tem para nós um desígnio de amor. E a Sua Palavra é fecunda e criadora, gera vida naqueles que a acolhem. Já no Antigo Testamento a certeza desta fecundidade da Palavra de Deus faz parte das certezas da fé de Israel. Ouçamos o testemunho do Profeta Isaías: “Assim como a chuva e a neve descem dos Céus e não voltam lá sem ter regado a terra, a ter fecundado e feito germinar (…) assim a Palavra que sai da minha boca não volta a Mim sem resultado, sem ter realizado o que Eu queria e cumprido a sua missão” (Is. 55, 10-11).
Na plenitude dos tempos é esta Palavra de Deus que fecunda Maria e o fruto do seu seio maternal é a própria Palavra eterna de Deus tornada Homem. A aceitação de Maria é um abandono à fecundidade da Palavra de Deus: “faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc. 1, 38).
E que Palavra foi essa que Deus dirigiu a Maria e a fecundou? Foi uma Palavra de amor porque a Palavra de Deus é sempre uma declaração de amor. “Tu és a cheia de graça e o Senhor está contigo” (Lc. 1, 28). Ou seja: tu és a amada de Deus, Ele vive contigo uma comunhão de amor. Depois desta declaração de que Maria é a amada de Deus, o Anjo Gabriel pode anunciar-lhe que, também nela, o amor de Deus é fecundo: “encontraste graça diante de Deus, conceberás e darás à luz um Filho” (Lc. 1, 30-31). Ou seja: Deus está a viver uma profunda comunhão de amor contigo e esse amor vai ser fecundo em ti.
É bom tomarmos consciência de que a fecundidade da Palavra de Deus em Maria, não é um caso inaudito e único. Nela acontece o que Deus deseja desde a criação do mundo: que a Sua Palavra seja acolhida e seja fecunda no coração dos crentes e no seio do Seu Povo. Revelou-o continuamente o Senhor, pregaram-no os Profetas, desejaram-no os justos, e rejeitou-o, tantas vezes, um povo infiel, de coração duro, ferindo, com essa recusa, o coração de Deus. O que é único no acolhimento que Maria faz da Palavra é o fruto do seu ventre, a encarnação da Palavra eterna de Deus. No seu Verbo, Deus diz a Palavra decisiva aos homens, e porque decisiva, definitiva. Mas fá-lo respeitando o ritmo da fecundidade da Sua Palavra naqueles que a acolhem. A fecundidade de Deus, no seio de Maria é o clímax, o ponto de chegada do desejo de Deus gerar a vida naqueles que O acolhem.
Na maternidade de Maria inicia-se a fase decisiva da salvação, o ritmo definitivo da fecundidade de Deus. A Sua Palavra de amor dirigida aos homens, para que eles renasçam para a Vida, nunca mais será só palavras, mas a Palavra, sempre a mesma, expressando sempre a plenitude do amor de Deus, a pedir ser escutada e acolhida, para ser fecunda. Essa Palavra tornada carne humana, é gerada em Maria, é dita a partir de Maria, é o fruto bendito do seu ventre. Os Apóstolos proclamaram-na, a Igreja é sua serva, sem nunca poder esquecer que essa Palavra que gera em nós a vida, continua a ser fruto da fecundidade maternal de Maria. Ela é, Mãe fecunda, a fonte da graça, Mãe e modelo inspirador da Igreja. Todo o segredo da salvação está no acolhimento, pelos crentes, de Jesus Cristo, Palavra amorosa de Deus. E a fecundidade dessa Palavra far-nos-á nascer de novo, fazendo de nós filhos de Deus, como nos diz São João no início do seu Evangelho: “A todos aqueles que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aqueles que acreditam no Seu Nome, que nem o sangue, nem o poder da carne, nem a vontade dos homens, mas só Deus gerou” (Jo. 1, 12-13). Naqueles que acolhem Jesus Cristo, na fé, o amor de Deus continua a ser fecundo.
2. Porque só o amor de Deus é fecundo, o Espírito Santo, o amor de Deus personificado, é o agente de toda a fecundidade de Deus na realização da salvação. Também foi assim na fecundidade maternal de Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra” (Lc. 1, 35). Começa aqui o ritmo definitivo da salvação: o dom do Espírito Santo será, até ao fim, a manifestação definitiva do amor de Deus e a garantia da fecundidade salvífica da Igreja. Sempre que alguém acolhe a Palavra e acredita, sempre que um homem se converte e se abre ao amor, quando a vida é vivida com a novidade da Páscoa, tudo isso é manifestação da fecundidade do amor de Deus em nós, através da acção Espírito. Se a encarnação do Verbo, fruto maravilhoso do seio fecundo de Maria, é a expressão máxima do amor de Deus por nós, a santidade cristã é a maior expressão do amor de Deus em nós. Se Jesus é o fruto bendito do ventre de Maria, a santidade da Igreja, que a une e identifica com Cristo, é o fruto maravilhoso da fecundidade da Igreja, cujo seio também é maternal, em Maria e como o de Maria.
Não é por acaso que a oração é o fruto espontâneo da Igreja nascida da Páscoa que, com Maria, se prepara para acolher o Espírito. “Todos perseveravam unidos em oração” (Act. 1, 14). A oração será sempre, na Igreja, o fruto mais precioso, da fecundidade do Espírito, como ensinava São Paulo: “Vós recebestes um espírito de filhos adoptivos que nos faz exclamar: Abba, Pai. O Espírito de Deus une-se ao nosso espírito para atestar que nós somos filhos de Deus” (Rom. 8, 15-16).
A própria Igreja, em cujo seio maternal se processa a fecundidade do Espírito, é, ela própria, o fruto desse amor fecundo. Como ouvimos na 1.ª Leitura, já no Antigo Testamento se tinha essa consciência de que a fecundidade do amor de Deus fazia crescer o Seu Povo: “A linhagem do povo de Deus será conhecida entre os povos e a sua descendência no meio das nações. Quantos os virem terão de os reconhecer como linhagem que o Senhor abençoou” (Is. 61, 9). E no Novo Testamento toda a riqueza da Igreja, na sua variedade de dons e carismas, é o fruto bem-aventurado da fecundidade do Espírito: “Tudo isto (a variedade dos dons) é um só e mesmo Espírito que o realiza, distribuindo a cada um os Seus dons” (1Cor. 12, 11).
3. Neste Ano do Rosário saudemos Maria, repetindo-lhe: tu és bendita entre as mulheres porque é bendito o fruto do teu ventre, Jesus. A fecundidade do amor de Deus, em Maria, é actual e inspirador da fecundidade do Espírito na Igreja. Com ela precisamos de aprender que só o amor é fecundo, que todo o verdadeiro amor é fecundo. Com ela, teremos uma visão de esperança sobre a Igreja e sobre o mundo, porque Deus continua a amar aqueles que redimiu e o seu amor é fecundo. Com ela perceberemos que o destino da Igreja e do mundo está ligado ao acolhimento da Palavra. Se nela, Jesus foi o fruto bendito do seu ventre, em nós a identificação com Cristo será o fruto venturoso do nosso acolhimento da Palavra, na fé e nos sacramentos. E como o Profeta Isaías, como Ela na visita a Isabel, experimentaremos esse fruto maravilhoso do Espírito que é a alegria. “Exulto de alegria no Senhor”. O Domingo, dia do acolhimento da Palavra eterna, feita pão da vida, pode ser o dia da nossa alegria e da nossa festa.
Santuário de Fátima, 13 de Outubro de 2003
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Congresso “O Presente do Homem – O Futuro de Deus, O lugar dos Santuários na relação com o Sagrado”
ConferÊncia do Cardeal Patriarca, 11 de Outubro de 2003
«O “futuro” de Deus»
1. O tema que me foi proposto é, pelo menos, provocante. À partida poderíamos reduzir o seu tratamento à simples afirmação de que Deus não tem futuro. Devido à Sua plenitude, Deus é o único ser que não tem a Sua felicidade pendente de um futuro, que encerra sempre um desejo, que é projecto, um “ainda não” que se espera seja um dia realidade plena e plenificante. Trata-se de saber se o conceito de futuro é conciliável com o de eternidade enquanto perfeição absoluta.
Afirmar que “Deus não tem futuro”, não significa adoptar correntes filosóficas ou teológicas chamadas da “morte de Deus”. Em Teologia esta corrente significou, apenas, uma visão radical da “quenose” de Deus em Jesus Cristo: “Deus morreu em Jesus Cristo”. Esta corrente não percebeu a morte de Cristo como plenitude do amor vivida por um homem e a ressurreição como plenitude da vida, onde a plenitude da vida divina se torna experiência humana, porque a vida do homem encontrou-se com a plenitude de Deus.
Já as teorias da “morte de Deus” nas filosofias positivistas são a negação da transcendência de Deus e a redução da existência de Deus a uma criação da subjectividade humana. Deus só existe porque o homem, na sua busca de absoluto, precisou de o “criar”. Um dia, alguém que discutia comigo sobre a existência de Deus, lançou-me este desafio: o que é que resta de Deus no dia em que, por hipótese, nenhum homem acredite n’Ele? E eu respondi: esse dia seria o mais triste da história da humanidade, talvez o seu fim, porque teria perdido a notícia do seu sentido radical e da sua ligação à fonte da vida. Percebi, nesse dia, que nenhuma imanência, sem abertura à transcendência, pode ser caminho para encontrarmos resposta às nossas interrogações sobre Deus. Que o futuro de Deus se joga no futuro do homem e que para este não há futuro sem Deus.
2. A ideia de “futuro” conduz-nos à noção teológica de tempo. O tempo humano é incompreensível sem a história, concebida como aventura da humanidade em busca da sua realização. E o tempo é, apenas, a consciência que mede este drama, nos seus avanços e retrocessos, nas suas conquistas e nos seus recuos, no desvendar de caminhos para a realização da felicidade humana. A consciência do sentido deste drama é perfeita em Deus – por isso Ele se revela, indicando os caminhos da salvação – é imperfeita e progressiva no homem. O “tempo humano” recebe luz do “tempo divino”: é por isso que é possível e importante uma leitura profética da história.
O “tempo humano” é marcado por uma dupla experiência: a duração e a densidade. A duração refere-se à relação que há entre um princípio e um fim, que se aplica, quer à criação – dimensão cósmica da duração – quer à história humana e à vida de cada pessoa. Define-a a orientação da vida para um fim ainda não atingido, supõe projecto e desejo, é o lugar da esperança. A ela está inevitavelmente ligado o devir do homem e da história.
A densidade tem a ver com a intensidade do presente vivido; é como se a duração se relativizasse e só contasse o presente, que se anuncia como definitivo; é como se a vida valesse por esse momento que passa. Podemos sentir esta densidade do tempo em experiências como o amor, o sofrimento, a oração. Estas experiências de densidade dão sentido à duração humana, anunciando a relação do tempo com a eternidade.
Ao longo dos séculos a cultura levou o homem a medir o tempo sobretudo pela duração, com o risco de o identificar com ela. A densidade é dificilmente mensurável mesmo por aquele que a vive, sobretudo não se lhe aplica a medida da duração. Sem excluir o devir, ela é mais da ordem do perene e do definitivo. É nesse sentido que Cristo diz que n’Ele o tempo atingiu o fim, isto é, tocou a plenitude (Mc. 1,15).
O tempo, concebido como medida da duração, proporciona-nos uma visão simples de futuro: é o que ainda não aconteceu, o que está para vir. Esta ideia de futuro não se pode aplicar a Deus, pois ela é própria dos seres em devir. O tempo visto como densidade da experiência humana, sugere-nos uma outra perspectiva de futuro: é o anseio da plenitude de algo que já se está a viver intensamente no presente. É o sentido da oração do salmista: como o veado anseia pelas águas, assim minha alma anseia por vós Senhor (Sl. 42-43). Este futuro existe, porque no homem toda a densidade do presente é apenas o anúncio de uma plenitude que se espera. O futuro assim concebido é indesligável da esperança. Mesmo na redenção, em Cristo, o Espírito Santo que nos é dado, proporciona-nos apenas viver as primícias do Reino (Rom. 8,23). Esta visão do futuro repugna menos à plenitude de Deus, não porque Ele dependa de um futuro para experimentar a plenitude, mas porque no Seu desígnio insondável de criação ligou a sua glória à participação, pelo homem, da Sua plenitude de vida. É o desígnio de Deus acerca do homem que abre para Deus um futuro que é, afinal, o futuro do homem.
O Homem é o “futuro” de Deus
3. A criação encerra um grande mistério. Porque é que Deus criou? Não precisava de o fazer; não procurou um acréscimo de plenitude e de glória. Deus, comunidade de Pessoas, que encontram na perfeição da relação de amor a plenitude do Ser, decidiu alargar essa comunhão de amor a outras pessoas que criou à Sua imagem, isto é, seres que só encontrarão a sua plenitude na perfeição da relação de amor e que exprimirão, nessa plenitude de amor, a própria glória de Deus. A criação do homem é, na sua génese, o desejo de Deus participar a outros a Sua vida divina. A ela preside um desígnio eterno: elevar o homem à plenitude da comunhão divina.
Não há amor sem liberdade; aliás esta encontra a sua verdade profunda na abertura ao amor. Criando o homem para o amor, Deus criou-o livre, para que o amor a que aspira fosse uma experiência activa e não apenas passiva. Mas ao criar o homem livre, Deus sujeitou o caminhar da criação para a sua plenitude ao devir da história, fruto da dimensão imponderável da liberdade. No momento em que criou o homem Deus aceitou ter um “futuro”, o futuro do homem, essa longa caminhada da história humana para a plenitude de todas as coisas em Cristo. O Apóstolo São Paulo define bem esta plenitude da criação e da história em Jesus Cristo. “E quando todas as coisas Lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo, em todos” (1Cor. 15,28). Nesse momento o futuro desaparecerá na plenitude de um presente perene e eterno.
Mas se o homem encarna o futuro de Deus, torna-se claro que o futuro do próprio homem, da sua vida em plenitude, está em Deus. Só Deus é o futuro do homem, pois só n’Ele reside a fonte da vida. Este facto é a justificação da encarnação do Verbo eterno de Deus num homem, Jesus de Nazaré.
Que só em Deus o homem tem futuro, isto é, encontra a sua verdade e poderá atingir a plenitude da vida é uma dimensão continuamente presente na espiritualidade bíblica e cristã. Lembremos, a título de exemplo, um Hino do Ofício de Leituras:
“Atei os meus braços com a tua Lei, Senhor,
E nunca os meus braços chegaram tão alto!
Ceguei os meus olhos com a Tua Luz, Senhor.
E nunca os meus olhos viram tão longe!
Só desde que Te dei a minha alma, Senhor,
Ela é verdadeiramente minha”.
A busca da realização positiva deste futuro do homem, em Deus, o único verdadeiro futuro do homem, acompanha toda a longa história da humanidade e torna-se explícita na história bíblica da salvação. O poder criador de Deus torna-se poder de salvação, o desígnio de Deus na criação, torna-se desígnio de salvação. E como São Paulo mostra claramente na Carta aos Colossenses, de ambos estes desígnios, Cristo é a plenitude (Col. 1,15-20). Durante essa longa história, em que se manifesta o desejo de aliança de Deus com a humanidade, Cristo torna-se o futuro de Deus e por isso se vem a manifestar como plena realização do futuro do homem. “O tempo chegou ao fim!...”.
Cristo é o futuro de Deus
4. Desde que o homem pecou, isto é, que usou a sua liberdade afastando-se da sua vocação primeira de ser chamado a participar na comunhão de amor de Deus, o amor criador de Deus tornou-se amor redentor. Deus não desistiu do objectivo que o levou a criar o homem; o pecado não pôs em questão o Seu desígnio de amor. A partir desse momento Deus tem um futuro na Sua acção redentora e esse futuro chama-se Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, o homem verdadeiro que realizará plenamente o desígnio amoroso de Deus para a humanidade.
Toda a Sagrada Escritura nos narra a gesta de Deus, agindo na História, Ele que não desiste de chamar os homem à intimidade com Ele, estabelecendo com eles uma aliança de amor. Quando escolhe um Povo que há-de depois atrair todos os outros povos, quando, dentro do Povo, selecciona um “resto fiel”, a figura do “justo”, o homem completamente fiel ao chamamento do Senhor aparece no horizonte. Logo na narração das origens, aparece claro que esse “justo” é o futuro de Deus e do homem; só Ele vencerá a raiz do pecado: “Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça” (Gen. 3,15). Ou nos momentos dramáticos da história de Israel, quando a infidelidade dos que conduzem o Povo já não lhes permite reconhecer que só Deus o conduz, é o seu salvador. “Pois sabei que o próprio Senhor vos dará um sinal: a Virgem concebeu e dará à luz um Filho e chamá-lo-á Emanuel” (Is. 7,14). A realização desta Palavra, é a mensagem que o Anjo Gabriel leva, em nome de Deus, a uma virgem de Nazaré, noiva de um homem justo, chamado José: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que vais ficar grávida, terás um filho e dar-lhe-ás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado filho do Altíssimo” (Lc. 1, 26-27, 31-32).
Cristo é o futuro de Deus pois só Ele recuperará os direitos de Deus no seio da humanidade que criou; só Ele reconduzirá a humanidade à sua vocação primeira e à sua dignidade de íntimos de Deus. Da sua plenitude todos nós recebemos. O futuro da realização do desígnio de Deus não é um futuro completamente pendente; é um futuro já realizado em Cristo e a realizar na humanidade, a partir de Cristo, até ao fim. O projecto de Deus acerca da criação já triunfou em Jesus Cristo e há-de triunfar, completamente em Jesus Cristo. Ele é a garantia de que o futuro da humanidade será positivo, apesar do sofrimento e do pecado. A criação inteira acabará por ser a manifestação da glória de Deus (Rom. 8, 18-21). O triunfo de Jesus Cristo será a manifestação do triunfo de Deus, no Seu desígnio de criação e de redenção. É o que proclama o Apocalipse, num Hino que rezamos na “Liturgia das Horas”:
“Sois digno, Senhor nosso Deus, de receber a honra, a glória e o poder, porque fizestes todas as coisas e pela Vossa vontade existiram e foram criadas.
Sois digno de receber o livro e abrir as suas páginas seladas, porque fostes imolado e resgatastes para Deus, com o Vosso Sangue, Homens de toda a tribo, língua, povo e nação, e fizeste de nós, para Deus, um reino de sacerdotes, que reinarão sobre a terra.
É digno o Cordeiro que foi imolado de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor” (Apc. 4,11; 5,9, 10,12).
A Igreja e o futuro de Deus
5. Quando contemplamos a humanidade contemporânea, na multiplicidade das suas religiões, no fenómeno do relativismo e da descrença, no materialismo dos valores e dos critérios, na fragilidade de tantos cristãos, que não são sinal do triunfo de Deus, em Jesus Cristo, apetece-nos perguntar se o projecto de Deus tem futuro. Esquecemo-nos que ele tem futuro, porque depende de Deus, da acção do Espírito Santo no homem e na história.
Perante estes tempos, “que são os últimos”, temos mais notícia da densidade, vivida na Páscoa de Jesus, do que da duração deste projecto de salvação. O facto de o “tempo humano” ter atingido a plenitude em Jesus Cristo, nada nos diz da duração do tempo da salvação. O Concílio Vaticano II recorda-no-lo: “Ignoramos o tempo da nova terra e da nova humanidade, e também não sabemos o modo como se transformará o Universo” (G.S. n. 39). O triunfo definitivo da plenitude de Cristo, conduzindo definitivamente a humanidade à verdade da criação, não sabemos quando acontecerá e quanto tempo durará. Sabemos apenas que o grande obreiro desse futuro novo, o Espírito Santo, está em acção no seio da humanidade, através da Igreja sacramento de Jesus ressuscitado. O futuro do plano de Deus passa pela Igreja. Daí a sua beleza e a sua responsabilidade.
Um dos aspectos impressionantes da pedagogia da salvação, no Antigo Testamento, é a importância que Deus dá a um pequeno povo, a quem se revela, cuja história tem sentido para todo o mundo, embora a maior parte do mundo o desconheça. O cristianismo, marcado pelo carácter decisivo da Páscoa de Cristo, dinamizado pelo dom do Espírito e pela missão de evangelizar, tem pressa de ver a humanidade a coincidir fisicamente com a Igreja e períodos houve da história em que se teve a ilusão dessa coincidência. Hoje conhecemos melhor o mundo na sua globalidade e sofremos por ver a Igreja, apesar da sua dimensão numérica, a ser “um pequeno rebanho”, como se ela tivesse falhado na sua missão de universalidade. Não conhecemos, nem o ritmo, nem o tempo de Deus. Afinal o que é decisivo é que a Igreja seja o novo povo da aliança, nascido de Cristo ressuscitado, tornado, pela força do Espírito, sacramento de salvação para todos os homens. Na Igreja, sacramento de Cristo, a autenticidade cristocêntrica é mais importante do que a quantidade, pois o tempo da universalidade do Reino só Deus o conhece. O tempo da Igreja é profundamente marcado pela densidade da salvação. Continua a ser válida para ela, como critério de discernimento da sua missão, a parábola evangélica do fermento na massa. E a Igreja será fermento na medida em que se identificar com Jesus Cristo, viver da plenitude de Jesus Cristo. A autenticidade e a santidade são a grande interpelação que o Espírito faz à Igreja.
6. Isto não significa que a Igreja desmoreça no ardor da sua missão evangelizadora. O levar o anúncio da boa-nova da salvação a todos os homens é vontade e mandato do próprio Senhor. E é maravilhosa a epopeia da evangelização nestes dois mil anos de história do cristianismo. Mas a evangelização não é, apenas, uma tarefa e muito menos uma estratégia. Ela é um testemunho e o seu vigor brota da densidade com que a Igreja vive de Jesus Cristo.
No tempo actual, em que o conhecimento global da humanidade é mais completo, na variedade das suas culturas e das suas religiões e na dramaticidade dos seus problemas, não nos parece provável que esteja para breve a coincidência da Igreja com a humanidade. Esse “tempo” só Deus o conhece. Isto repõe-nos um problema tantas vezes suscitado na história da Igreja: qual o futuro dos homens não cristãos perante Deus, qual o futuro de Deus na humanidade como um todo? As outras religiões farão parte do futuro de Deus? Qual o seu lugar na realização deste longo projecto de Deus de reunir, um dia, todos os homens, na sua comunhão de amor?
Não hesitarei em responder positivamente a esta questão, afirmando que toda a religião sincera, que ponha o homem em contacto com Deus, faz parte do futuro de Deus, porque isso se torna possível na centralidade salvífica de Jesus Cristo. Também na fé das outras religiões existem as “sementes do Verbo”, como lhe chamava Santo Ireneu. Desde que não as consideremos como caminho definitivo. Definitivo, em termos do futuro de Deus, só Jesus Cristo o é.
Perante as outras religiões há duas perspectivas imperfeitas em que podemos cair: ou de as considerar sem valor no conjunto da realização do desígnio da salvação, ou de as considerarmos definitivas, ao lado do cristianismo, como se todas as religiões fossem iguais. Nós acreditamos que o futuro de toda a religião sincera é a convergência com Cristo ressuscitado, embora ignoremos o tempo e o modo da manifestação dessa convergência. E, nesse aspecto, continua a ser missão da Igreja manifestar explicitamente essa plenitude de Jesus Cristo. Todos os que adoram a Deus estão abertos ao Seu desígnio; todos os que acreditam que a salvação é acção de Deus em nós, estão abertos ao dom do Espírito; todos os que buscam a perfeição e a santidade estão a deixar-se guiar por esse Espírito.
No diálogo inter-religioso não se ganha em dar prioridade aos proselitismos e aos sincretismos. É um diálogo a estabelecer na humildade e na verdade, de quem respeita o caminho religioso dos seus irmãos, incitando-os, com o nosso exemplo, a procurarem cada vez mais o rosto de Deus, que é amor, dando-lhes o testemunho, vivido e sincero, de que nós, os cristãos, encontramos esse rosto de Deus no rosto de Jesus Cristo. No diálogo inter-religioso o testemunho da santidade é mais fecundo do que a simples convicção doutrinal. Nós esperamos esse momento, que só Deus conhece, em que se manifestará a unicidade e a centralidade de Jesus Cristo, a única realização plena do futuro de Deus.
O futuro de Deus passa pelo triunfo do amor
7. Porque foi plenamente realizado em Jesus Cristo, o futuro de Deus, que é o futuro do homem, não é um futuro completamente pendente. Já está conseguido em Jesus Cristo e na transformação que o Espírito Santo vai realizando no coração dos homens. O homem está salvo, isto é, a sua vocação à comunhão de amor com Deus está garantida. Depois da Páscoa de Jesus desapareceu a ameaça de a humanidade ser um fracasso na perspectiva do plano de Deus. O futuro de Deus é o futuro da graça e do amor. É um futuro que se constrói todos os dias pelos caminhos da fidelidade e da abertura às interpelações do Espírito. A caminhada da humanidade para a sua plenitude definitiva é uma aprendizagem do amor. É esse o único objectivo da acção do Espírito, ensinar os caminhos do amor, em todas as suas concretizações na existência humana. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, continuam a ser os mandamentos que resumem toda a Lei. Quem ama cumpre a totalidade da Lei.
É contrário à realização deste futuro tudo o que é egoísmo, violência, injustiça, ódio, desprezo do próximo; mas também o que é desprezo de Deus e da glória que lhe é devida. O pecado é sempre uma traição de amor, uma recusa de amar e ser amado. Ao olharmos o mundo contemporâneo ele aparece-nos manchado por esta falta de amor. Mas há, no horizonte da nossa história de pecado, realidades que constituem a construção sólida desse futuro de Deus, menos visíveis e aparatosas que as manifestações do mal, mas mais fecundas em termos do futuro da humanidade: a oração sincera, a obediência à Palavra de Deus, o amor gratuito e generoso dos irmãos, sobretudo dos que mais precisam, essa onda imensa de generosidade e solidariedade que atravessa o nosso tempo e a nossa história. A luta entre o amor e o ódio, entre a paz e a violência, entre o diálogo e o orgulho, é um combate sem tréguas, mas a vitória do amor está garantida pelo Espírito Santo.
Este combate não é uma luta entre a Igreja e o resto do mundo. Também a Igreja é campo dessa batalha. Chamada a ser comunhão de amor, sabemos como a nossa infidelidade tolda a pureza do seu rosto de esposa. E o amor generoso de um não cristão, é mais realização do futuro de Deus do que o egoísmo ou a indiferença dos cristãos. Povo que tem como Lei o mandamento novo do amor, a realidade da Igreja deveria ser uma aurora de luz a anunciar a esperança de que é possível construir uma civilização do amor.
A plena liberdade é o futuro de Deus
8. “Foi para a liberdade que Cristo vos libertou” (Gal. 5,1). Só os seres livres podem amar. Por isso Deus criou o homem livre. Foi no respeito por essa liberdade que Deus aceitou que a realização do Seu desígnio de criação fosse lenta e dramática. A liberdade, o grande anseio e a maior reivindicação do homem de todos os tempos! Deus correu o risco de respeitar a liberdade do homem; a Igreja só pode correr o risco de respeitar a liberdade dos homens.
Mas a liberdade aprende-se, não basta defendê-la. A longa caminhada da humanidade na luta pela liberdade, não é só a da sua defesa, mas da percepção do que é, verdadeiramente, a liberdade. Na óptica da redenção, só é livre quem foi libertado. A verdadeira liberdade toca-se na experiência do amor, e a luz que a guia chama-se verdade. Todos os que buscam a liberdade têm de se fazer peregrinos da verdade. Só ela guia o coração humano para se fixar naquelas realidades que são a fonte das verdadeiras alegrias. Devendo estar sempre, na primeira linha da defesa da liberdade, a Igreja tem de ser pedagoga da liberdade, iluminando as consciências com a verdade que, por Jesus Cristo, ela aprende de Deus. “Serão todos ensinados por Deus” (Jo. 6,45).
Não ter medo da liberdade significa aceitar as diferenças e ser paciente com as experiências imperfeitas de liberdade. Mas só cultivando a liberdade se constrói a civilização do amor.
O futuro de Deus plenamente conseguido em Maria
9. Estamos num grande Santuário Mariano, onde habitualmente as pessoas se aproximam de Deus e do Seu Filho através de Maria. É justo, e teologicamente necessário, encerrar esta Conferência contemplando Maria como a realização plena, numa criatura, do futuro de Deus e do seu desígnio de amor. Por isso Deus se revê nela como a criatura que correspondeu totalmente ao Seu plano de criação. O Anjo Gabriel, mensageiro divino, exprime à Virgem de Nazaré esses sentimentos de completa satisfação do Criador: “Achaste graça, diante do Senhor”; Deus está encantado por ti (Lc. 1,30).
Esta plenitude de graça, que encanta Deus, ou seja, que O faz sentir-se plenamente glorificado na sua criatura, significa uma total intimidade de amor entre Maria e a Santíssima Trindade. Segundo São Bernardo, o Anjo vem anunciar e acaba por verificar essa perfeita intimidade de amor. Segundo ele, “o Anjo veio surpreender Maria numa grande intimidade de oração, com Deus, na contemplação e isso como que surpreende o Anjo, inspirando-lhe a saudação: Ave, cheia de graça. ‘Não há que admirar que seja cheia de graça aquela com quem Deus estava. O que é mais admirável é que Aquele que enviou o Anjo à Virgem, fosse encontrado, pelo Anjo, com a Virgem’. A mensagem que o Anjo traz, da parte de Deus, é uma mensagem de amor”[1].
O facto de a Virgem se tornar Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e a aceitação dessa maternidade são expressão de total abandono de amor e de confiança, introduzem Maria na intimidade amorosa das Pessoas divinas, proporcionando-lhe uma relação de amor, como pessoa, com cada uma das Três Pessoas. Volto a citar o que escrevi noutra ocasião, a propósito da Mariologia de São Bernardo: “A encarnação da Segunda Pessoa é acção de toda a Trindade, o que faz com que a maternidade introduza Maria na intimidade da comunhão trinitária, criando relações específicas com cada uma das Pessoas divinas. São Bernardo aproxima-se, assim, da Mariologia de tradição oriental, que gosta de situar Maria na ordem hipostática, isto é, contemplando o mistério da sua maternidade, não apenas na ordem da sua imanência histórica, mas também na intimidade particular e absolutamente única com a Santíssima Trindade, a partir da intervenção de cada uma das Pessoas divinas, na sua maternidade”[2].
Esta total capacidade de se deixar amar por Deus e de responder a esse amor, amando sem restrições nem limites, significa, para Deus e para a humanidade, a vitória definitiva sobre o pecado, a superação da “maldição de Eva” e, por isso mesmo, é um clímax na verdade da criação. Essa perfeita intimidade de amor atinge-a Maria, ao tornar-se Mãe do Filho de Deus. Essa fecundidade de Maria é a fecundidade do amor esponsal entre ela e Deus Pai, pela força criadora do Espírito. Mãe do Deus Filho, ela manifesta-se-nos como esposa de Deus Pai, realizando, pela primeira vez, de forma perfeita, a união esponsal de Deus com o Seu Povo.
Maria e o seu Filho são, realmente, a realização do futuro de Deus. Aí começa um tempo novo para toda a humanidade, que passa a poder, em Jesus Cristo, vencer o pecado e abrir-se ao amor. Esse é o futuro do homem ou, se quiserdes, o futuro de Deus na sua relação amorosa com o homem. Toda a santidade cristã é o anúncio de esperança de que esse futuro é possível e Maria está, necessariamente ligada à realização desse futuro. A sua plenitude de graça será sempre o anúncio e o sinal de que os homens poderão viver do amor; a sua qualidade de “esposa de Deus” será sempre o espelho em que a Igreja se revê, ao procurar ser a esposa imaculada de Deus Filho. Realização plena do “futuro de Deus”, Maria fará sempre parte do futuro da Igreja.
Santuário de Fátima, 11 de Outubro de 2003
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Missão na Cidade
Introdução
1. Como é do conhecimento público, a Diocese de Lisboa é co-organizadora de um “Congresso Internacional da Nova Evangelização”, em conjunto com as Dioceses de Viena de Áustria, de Paris e de Bruxelas. A estas quatro dioceses vai juntar-se, desde já, a Diocese de Eztergom-Budapeste, na Hungria. O anúncio do Evangelho no contexto urbano das grandes metrópoles do nosso tempo é o desafio que aceitámos. Está quase tudo dito sobre a “nova evangelização”. Agora é preciso sair à rua, ir para o centro das cidades, onde as pessoas se cruzam na azáfama do dia a dia, onde lutam, sofrem, esperam, alimentam utopias e anunciar a esperança que tem a sua fonte em Jesus Cristo. “Jesus Cristo é a nossa esperança, porque Ele, o Verbo eterno de Deus (…) nos amou”. “Fundamentada nesta confissão de fé, brota do nosso coração e dos nossos lábios uma jubilosa confissão de esperança”[1].
O Congresso terá a sua realização, em Lisboa, no Outono de 2005. Isto significa que durante o Ano Pastoral que agora se inicia temos de intensificar a sua preparação, que não consta, apenas, de acções e estruturas, também necessárias; temos, sobretudo, de nos prepararmos, pessoas, Movimentos e Comunidades, para esta acção evangelizadora. É meu desejo que toda a nossa Diocese, mas sobretudo a Cidade de Lisboa, se ponha em ambiente de Congresso, o que quer dizer em estado de missão.
A missão de evangelizar.
2. O Congresso é a concretização da primordial missão da Igreja: evangelizar. E esta é o anúncio jubiloso da esperança que brota dos corações daqueles que acreditam em Jesus Cristo e encontram n’Ele a fonte da esperança e o sentido da vida. A mensagem deste anúncio é a mesma desde há dois mil anos; mas a forma de anunciar pode ser renovada em cada tempo e em cada contexto cultural, pela razão simples de que se trata de um anúncio a pessoas concretas e situadas, feito por outras pessoas que partilham com elas o mesmo quadro de vida.
A natureza da evangelização põe-nos a todos, neste contexto do Congresso, perante um duplo desafio: aprofundar e interiorizar em nós este anúncio da esperança e encontrar os meios e os modos adaptados para anunciarmos essa esperança a todos os homens e mulheres com quem partilhamos a vida da nossa Cidade. A Igreja vive de Jesus Cristo e só essa procura contínua da radicalidade do Evangelho, a tornará capaz de anunciar, encontrando a maneira simples e sincera de o fazer. Esta é a perspectiva fundamental de uma Igreja que se quer pôr em “estado de missão”: só quem vive do Evangelho aceita ser enviado a anunciá-lo.
Evangelizar a nossa Cidade.
3. A urgência da evangelização brota de um duplo dinamismo: a vontade do Senhor, que envia a Igreja de todos os tempos a anunciar a boa nova da salvação, e o apelo da Cidade, dos homens e mulheres nossos irmãos que partilham connosco o drama da vida, nesta Cidade que nós amamos.
Quando falamos de Lisboa como urgência de evangelização, não nos referimos, apenas, à velha Cidade de Lisboa, circunscrita pelas fronteiras do seu Município; o nosso olhar alarga-se, necessariamente para a chamada “grande Lisboa”, que de Almada a Cascais, de Sintra a Loures, de Sacavém a Vila Franca de Xira, é o cenário desse vai e vem contínuo que constitui a principal característica da população das cidades modernas: a mobilidade. Falamos de cerca de cento e cinquenta mil jovens universitários que para Lisboa convergem, para frequentar as Universidades da capital; não esquecemos a Lisboa administrativa, centro do poder, porque capital da Nação, o que a torna cruzamento necessário de pessoas vindas de todo o país; olhamos com uma solicitude particular para cerca de duzentos mil emigrantes, vindos de várias partes do mundo à procura de uma vida melhor e que se situam entre o grupo dos mais pobres e desfavorecidos. E ao olharmos esta Cidade, buliçosa e agitada, não podemos esquecer aqueles que habitualmente não se vêem: os doentes, os idosos, os presos. Muitos deles poderão participar activamente na “missão na Cidade”, oferecendo a sua oração e o seu sofrimento.
Ao olharmos a nossa Cidade como espaço de evangelização, uma questão inevitável se nos apresenta: o que é hoje Lisboa do ponto de vista cristão? Ela que foi alfobre de missionários, de santos e mesmo mártires? Ela que esteve na origem da expansão do cristianismo nas cinco partes do mundo? Disso continuam testemunhos eloquentes os belos templos erigidos ao longo dos tempos, padrões vivos da fé de uma Cidade: a Sé Catedral, Santa Maria de Belém, Nossa Senhora dos Mártires, São Domingos, São Vicente de Fora, a Madre de Deus, a Basílica da Estrela, Nossa Senhora de Fátima, o Sagrado Coração de Jesus. Eles aí continuam, eloquentes na sua beleza, proclamando cada um na linguagem artística da sua época, a mesma mensagem de uma cidade cristã.
Como todas as grandes cidades do nosso tempo, Lisboa alterou a sua fisionomia cultural e religiosa, tornando-se uma cidade plural. Não foi alheia aos ventos do laicismo e à erosão cultural de uma época marcada pela grande comunicação. A sua população declara-se cristã na sua maioria, 86% no último senso. Segundo o último estudo sobre a prática dominical, cerca de 10% da sua população ainda pratica dominicalmente a sua fé. Dos outros, a maior parte guarda referências à Igreja nos grandes momentos da vida: nascimento, casamento e morte. Os grandes valores que inspiram a vida comunitária têm origem cristã: o respeito pela pessoa humana, a solidariedade e o gosto de partilhar, o culto da liberdade. Há já um grupo que se declara sem religião, agnóstico ou mesmo ateu, embora os grandes valores de referência sejam os mesmos de toda a comunidade.
Entre essa maioria que se declara católica, podemos considerar vários grupos cuja diferença é significativa em termos de evangelização: os praticantes, que constituem o rosto visível das comunidades cristãs e que têm de ser o ponto de partida da acção evangelizadora; o grupo dos não praticantes, mas que guardam referências visíveis à Igreja, a quem é preciso ajudar a descobrir a beleza do seu baptismo e da sua qualidade de Católicos; o grupo dos “descrentes”, a quem é preciso testemunhar a beleza da fé. Às outras Igrejas e Confissões Cristãs, manifestamos o nosso respeito fraterno e convidamo-las a participar na missão com um anúncio vivo de Jesus Cristo.
A verdade da evangelização.
4. O Congresso não é uma estratégia para reforçar o poder da Igreja na sociedade. Fazemo-lo por fidelidade a uma convicção muito profunda de que a fé é uma manifestação do amor com que Deus ama todos os homens. Jesus Cristo continua a ser a expressão absoluta do amor de Deus por nós. É desejo de Deus que os homens se encontrem com o seu Filho Jesus Cristo. Esta é a verdade profunda da evangelização, que a inspira, motiva e sugere os modos.
Podemos concretizar uma tríplice dimensão desta verdade da evangelização: a verdade dos homens a quem anunciamos o Evangelho; a verdade da fé de quem anuncia; a verdade da Palavra de Deus que anunciamos. Ao prepararmo-nos para a “missão na Cidade” temos de aprofundar e meditar nesta tríplice dimensão da verdade da evangelização.
A dignidade dos homens e mulheres, nossos irmãos.
5. O nosso anúncio do Evangelho tem de ser humilde e dialogante, atitude de quem vai ao encontro dos outros em espírito de serviço. Tem de brotar do nosso amor e do nosso desejo de comunhão.
Uma das características da fé na nossa Cidade é que ela é, cada vez mais, uma opção pessoal de liberdade, uma vez que se foram mitigando os condicionalismos sociológicos da religião. Ela tem, por isso, toda a beleza, mas também a exigência da liberdade. O facto de anunciarmos a nossa fé, não pode diminuir o profundo respeito que temos pelos outros e pelas suas opções. A fé não se impõe a ninguém.
Esse respeito sugere-nos uma atenção às buscas, problemas e sofrimentos dos nossos irmãos, pois eles poderão, como nós, encontrar na fé a resposta que procuram. O sentido da vida e da morte, o mistério do sofrimento, a solidão invencível, a ânsia de felicidade, sempre procurada e nunca alcançada, a desilusão do amor, a dificuldade de captar a dimensão de eternidade semeada no coração de cada um. Porque é uma manifestação do amor de Deus, o Evangelho tem de lhes aparecer como uma resposta e uma proposta de vida. Só quem cultivou esta atenção solícita e amorosa para com os outros, no profundo respeito pela sua dignidade, poderá ser um evangelizador. É que o concreto da vida dos nossos irmãos, perscrutada com amor, pode revelar-nos a abertura do seu coração ao Evangelho de Jesus e à sua própria Pessoa. É preciso captar e compreender as manifestações actuais da busca da salvação. Mesmo naqueles para quem esta palavra já pouco significa, há buscas existenciais que podem significar a procura de Deus.
Isto é particularmente importante no nosso diálogo com os jovens, para quem a busca da vida pode ser algo de decisivo. É preciso ouvi-los com compreensão e ternura e fazer deles um destinatário privilegiado da “missão na Cidade”.
A verdade da fé de quem anuncia.
6. A evangelização é um testemunho, o que significa que a fé anunciada é uma experiência vivida. Cristo que anunciamos é o Cristo que amamos e procuramos. A principal exigência da preparação do Congresso e da “missão na Cidade” situa-se, precisamente, aí. As pessoas, as Comunidade e os Movimentos devem procurar, durante este ano de preparação, uma autenticidade de fé. A Igreja que evangeliza precisa de ser, continuamente, evangelizada, de viver do Evangelho. A fecundidade do Congresso começa aí: as pessoas, as Paróquias e os Movimentos que vão empenhar-se na missão, devem prepará-la na oração, sobretudo através da meditação da Palavra e da vivência da Eucaristia, celebrada e adorada. É preciso, é certo, imaginar e preparar as acções evangelizadoras. Mas tudo isso deve assentar na renovação espiritual das Comunidades.
Desta verdade de quem anuncia faz parte a humildade do evangelizador. O seu testemunho é, tantas vezes, apenas a manifestação da sua esperança e do seu desejo, de quem sabe que Deus pode agir através da nossa pobreza e que o Reino de Deus brota da Páscoa de Jesus e é obra do Espírito Santo.
O ano de preparação do Congresso tem de ser um ano de profunda renovação espiritual de todos, pessoas e grupos, os que querem participar nesta acção evangelizadora.
A verdade da Palavra de Deus que anunciamos.
7. O anúncio do Evangelho, embora seja um testemunho pessoal da nossa fé, é sempre a proclamação da “fé da Igreja”, a única que tem a garantia da objectividade da verdade de Deus, ou seja, da mensagem da Revelação. É por isso que a Evangelização é sempre um serviço da Palavra e missão da Igreja.
Dois fenómenos da cultura contemporânea podem comprometer a autenticidade deste anúncio da “fé da Igreja”: a importância dada à subjectividade, à própria visão pessoal da verdade e o facto de a sociedade, na complexidade dos seus problemas e na rápida mutação dos valores culturais, fazer uma pressão contínua sobre a Igreja para que adapte a sua doutrina a essa mutação da sociedade, entrando no ritmo da mudança e ensine aquilo que alguns gostariam de ouvir.
O evangelizador, porque anuncia a “fé da Igreja”, que é o único espaço legítimo da mutação, guiada pelo Espírito e, ao longo dos séculos, se mantém fiel ao Evangelho dos Apóstolos, tem de estar vigilante para evitar esses dois perigos: o de não confundir testemunho com visão subjectiva da verdade e de não cair na tentação, para ser bem acolhido, de anunciar aquilo que os homens gostam de ouvir. A nossa percepção da verdade tem de ser continuamente confrontada com a verdade de Deus, mantida fielmente na “fé da Igreja”. Só a verdade de Deus salva, e não a minha própria verdade.
Esta fidelidade à verdade da “fé da Igreja” tem a ver com a mensagem, com os conteúdos da evangelização. Eles diferenciam-se conforme as etapas da evangelização: o primeiro anúncio, a catequese, a formação permanente. Mas a mensagem é sempre a mesma; as diversas etapas são apenas momentos do seu aprofundamento. O Santo Padre João Paulo II, na Novo Millenio Ineunte, afirmou que o programa pastoral da Igreja é Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. NMI, n. 28). É Ele que encerra todo o mistério de Deus e do homem e que, depois de O conhecermos, gastaremos toda a nossa vida, em Igreja, para O conhecermos e amarmos.
A “missão na Cidade”, embora suponha nas Comunidades um processo sério de catequese, de aprofundamento do mistério de Jesus Cristo para assim se prepararem para serem testemunhas, é, em si mesma, uma acção evangelizadora marcada pelo dinamismo do primeiro anúncio de Jesus Cristo. Por isso refiro aqui apenas os tópicos principais dos conteúdos desse primeiro anúncio, ou seja, os conteúdos do “kerigma” cristão.
Um “Kerigma” para a nossa Cidade.
8. Trata-se de anunciar, com a força de um testemunho, que Jesus Cristo é o Vivo, é o Deus vivo, perto de nós, a desafiar-nos para uma relação de amor. Deus não é uma ideia, um ser longínquo e inalcançável, uma criação cultural das religiões. Em Jesus Cristo Ele torna-se acontecimento na nossa vida, transformando-a e dando-lhe um sentido radicalmente novo.
* Ao proclamar que Jesus é o Vivo, afirmo a sua divindade. Ele é importante para nós, porque é a presença do Deus vivo na nossa vida. N’Ele, Deus torna-se próximo, acessível, Deus de aliança, a desafiar-nos para a aventura do amor. Todos os anseios de amor, que palpitam no coração humano, são portas abertas ao anúncio de Jesus Cristo enquanto caminho para a plenitude do amor.
* Anunciar Jesus Cristo o Vivo, é proclamar a Sua ressurreição, pois a sua morte na Cruz é um facto confirmado pela História. Ele é um vivo que venceu a morte e por isso a Sua vida é definitiva e plena. A proclamação da ressurreição de Jesus é incompreensível sem o anúncio do sentido da Sua morte, oferecida por amor, manifestação radical e dramática do amor de Deus por nós.
Só se pode comunicar o sentido pleno da Vida do ressuscitado, se a Sua morte e ressurreição nos aparecem como redenção. E esta é acto criador do amor de Deus, que salva a grandeza da vocação humana, apesar do pecado. À luz de Jesus Cristo, o pecado é um drama de amor: drama na infidelidade do homem, drama na recuperação que Deus faz do homem, em Jesus Cristo.
Não devemos fugir ao peso que tem sobre as pessoas o drama da morte. É certo que hoje os homens e mulheres tendem a ignorá-lo tanto quanto puderem. Mas ninguém lhe escapa. O sentido da vida do homem está irremediavelmente ligado ao sentido da vida e da morte. Participar na vitória de Cristo sobre a morte, é começar a resolver o problema da morte na nossa vida.
* Encontrarmo-nos com Cristo, o Vivo, é ouvir o Seu convite a que O sigamos como discípulos. Ele quer ser nosso companheiro de viagem; segui-Lo é querer percorrer o caminho da nossa vida sempre com Ele, ouvindo-O, aprendendo a amá-Lo e aprendendo a amar, reconduzindo tudo na nossa vida a esse amor novo.
É impossível entrar no dinamismo desta caminhada como discípulos, sem o anúncio do Espírito Santo, a força criadora do amor de Deus, Ele que ressuscitou Jesus dos mortos, e nos transforma nesse “homem novo”, tornando-nos semelhantes a Cristo. É preciso anunciar o Espírito Santo como a força transformadora do amor de Deus que nos é dado a partir da nossa relação de amor com Jesus Cristo.
Este anúncio denuncia a auto-suficiência da cultura contemporânea, segundo a qual o homem só será aquilo que ele próprio for capaz de construir. Não! Seguir Jesus Cristo é aceitar que o homem, com a força do Espírito de Jesus, é capaz de atingir níveis de vida, de beleza e de profundidade, que lhe seriam inacessíveis, se ficasse limitado às suas próprias forças. Acho que o drama da humanidade contemporânea mostra à saciedade esta evidência.
* Este “Kerigma” tem de incluir o primeiro anúncio do mistério da Igreja. Não devemos ter a preocupação de explicar tudo, de fazer uma eclesiologia completa. Basta apresentar a Igreja como “comunhão de crentes em Cristo”, como Povo de discípulos que caminham em conjunto, seguindo o seu Senhor. E abrir desde o início para a riqueza sacramental da Igreja, onde ela realiza a própria obra de Deus em Jesus Cristo, com uma eficácia garantida pelo próprio Deus e não apenas pelos homens. Os três sacramentos da iniciação cristã devem constituir o núcleo central deste anúncio. A sua vivência contínua garantem a caminhada, seguindo Jesus Cristo, o Vivo, identificando-nos com Ele, e seguindo-O até à Casa do Pai.
* Este primeiro anúncio completar-se-á com o convite à oração. A possibilidade de rezar, é a primeira manifestação da novidade cristã. Rezar com Jesus, rezar como Cristo rezou, oferecer como Cristo se oferece. A primeira aceitação de Jesus Cristo deve desabrochar, espontaneamente, na primeira expressão de oração cristã, manifestação de confiança e de união de amor a Cristo e, por Cristo, ao Deus vivo, que no Seu Filho se torna nosso íntimo e nosso próximo.
Uma pedagogia da evangelização.
9. Tendo em conta quanto acaba de afirmar-se sobre a natureza dinâmica da evangelização, a “missão na Cidade” supõe o delinear de uma pedagogia: a selecção dos sectores da população a quem se destina a acção evangelizadora, a preparação das acções a desencadear, a formação dos evangelizadores, a garantia da qualidade em todas as acções desencadeadas.
É preciso desencadear um dinamismo que ponha a Cidade em estado de missão de tal modo que ninguém estranhe, nesses dias, se alguém lhe falar de Deus e de Jesus Cristo. Para atingir esse objectivo muito contribuirá a dinamização das Comunidades Paroquiais e dos Movimentos e Associações de fiéis. Mas não deixaremos de recorrer ao contributo dos modernos meios de comunicação com as multidões.
Estaremos particularmente atentos ao mundo juvenil, particularmente à juventude universitária, aos espaços da Cidade onde se cruzam multidões; uma atenção especial nos merecerão os idosos e os doentes. Os espaços culturais, de modo particular o nosso riquíssimo património artístico, deverão ser valorizados na missão. Esta será, aliás, um espaço para a criatividade de pessoas e Comunidades, que poderão propor as suas acções evangelizadoras, garantida que esteja a unidade da missão.
10. Procuraremos que todas as acções desencadeadas tenham em comum algumas características ou qualidades:
* A qualidade. Devemos fazer bem feito o que nos propusermos fazer. Esta qualidade aliará a dimensão cultural com a sinceridade da convicção e a ousadia do testemunho. Simplicidade e qualidade não se opõem.
* A beleza. Deus é belo e a beleza é hoje uma abordagem de Deus mais simples e atraente do que o discurso do convencimento racional. Que tudo seja belo, e que se organizem acções específicas que partam da beleza para o anúncio do Evangelho.
* A eclesialidade. A Igreja de Lisboa tem de se rever em cada uma das acções desencadeadas, que têm de se inserir no dinamismo da missão evangelizadora da Igreja. O Congresso e a “missão na Cidade” não podem ser acções efémeras que se esgotam quando acabam. Devem deixar dinamismos que perdurem na linha da realização da missão da Igreja prolongada no tempo.
A Cidade um único espaço de missão.
11. Este é, certamente, um dos aspectos mais exigentes da “missão na Cidade”: a unidade da missão. Não podemos aparecer perante a Cidade, uns a anunciar a fé de Paulo, outros de Pedro, outros de Apolo (cf. 1Cor. 1,12). Toda a dinamização e realização desta acção evangelizadora tem de ser marcada pela unidade, considerando a Cidade como um único espaço pastoral.
O papel das Paróquias é decisivo no bom andamento da missão, enquanto espaço de realização e entidade promotora de acções. As diversas Igrejas que se erguem na nossa Cidade devem ser sinais de uma mesma fé e de um mesmo anúncio de Jesus Cristo. É importante que, salvaguardando embora a justa especificidade, a Cidade toda seja como um painel em que as diversas Paróquias são afirmações, mais da unidade do que da diferença. A “missão na Cidade” levar-nos-á, porventura, a uma reflexão aprofundada sobre a Paróquia urbana, cada vez menos definida pela territorialidade. Não devemos permitir que os particularismos comprometam a unidade da missão, condição necessária da sua eclesialidade.
Para esta unidade da missão muito poderão contribuir os Movimentos, convidados a pôr a especificidade dos seus próprios carismas ao serviço de uma única missão, desencadeada pela mesma Igreja Diocesana.
Sintamo-nos enviados.
12. É o Senhor que nos envia. Partamos, dinamizados pelo Espírito, e levemos connosco Nossa Senhora. Ela repetir-nos-á incansavelmente: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo. 2,5). Aprendamos com ela a dar Jesus Cristo aos homens do nosso tempo. E invoquemos a protecção de Paulo, o grande Apóstolo do anúncio. Termino esta Carta Pastoral, com um texto da 1.ª Carta de Paulo aos Tessalonicenses:
“Como vós próprios sabeis, irmãos, a visita que vos fizemos não foi inútil. Apesar dos sofrimentos e insultos que suportámos em Filipos, como sabeis, no nosso Deus encontrámos coragem para vos anunciar o seu Evangelho no meio de grandes lutas. A nossa pregação não nasce do erro, nem da impureza ou da fraude. Mas, como Deus nos encontrou dignos de nos confiar o Evangelho, assim o pregamos, não para agradar aos homens, mas a Deus que põe à prova os nossos corações. Bem sabeis que nunca usámos palavras de lisonja nem recursos de ganância; Deus é testemunha. Também não procurámos as honras humanas, quer da vossa parte, quer da parte dos outros, embora pudéssemos fazer valer a nossa autoridade como Apóstolos de Cristo. Ao contrário, apresentámo-nos no meio de vós com bondade, como a mãe que acalenta os filhos que anda a criar. Pela viva afeição que vos dedicámos, desejávamos partilhar convosco não só o Evangelho de Deus, mas ainda a própria vida, tão caros vos tínheis tornado para nós.”
Lisboa, 26 de Setembro de 2003
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
[1] João Paulo II, Ecclesia in Europa, nn. 19 e 18
Carta do cardeal patriarca
ANO PASTORAL 2003-2004
Cristo Ressuscitado é o Senhor da Igreja
1. Como já vem sendo habitual, no dia da Igreja Diocesana, este ano celebrado aos pés de Maria, na Peregrinação Diocesana a Fátima, apresentamos o Programa Diocesano de Pastoral, para o Ano Pastoral 2003-2004, o último de uma programação trienal.
Toda a acção pastoral tem um objectivo central: anunciar Jesus Cristo, aprender a conhecer e a amar Jesus Cristo, segui-Lo como discípulos e aceitarmos participar na Sua missão que é, hoje, a missão da Igreja. Jesus Cristo é o Senhor da Igreja.
Duas dimensões inspiram a nossa acção pastoral no próximo ano: valorizar o Domingo, como Dia do Senhor Ressuscitado e continuar a dinamização da Diocese para o Congresso Internacional da Nova Evangelização, a realizar em Lisboa em Outubro de 2005 e que terá como tema "Abri as portas a Jesus Cristo ". Destas duas linhas de força decorrerão os outros objectivos a prosseguir: incentivar o espírito missionário e o sentido de missão; formar os cristãos para poderem participar na missão da Igreja, valorizando o papel específico dos cristãos leigos a quem pertence o testemunho de fé no seio das realidades profanas; continuar a apresentar a santidade como meta da vida cristã, simplificando o conceito de santidade, apresentando-o como coerência de vida, generosidade no amor, prioridade dada à glória de Deus.
Alguns têm perguntado como conciliar o objectivo concreto da preparação do Congresso com a normal programação diocesana: são perfeitamente convergentes. A evangelização da cidade passa pelo anúncio de Jesus Cristo, Ele o Senhor da Igreja e da História.
2. Sublinhar a vivência do Domingo é acentuar esta centralidade de Jesus Cristo, de forma vivida e celebrada e não apenas afirmada. A nova evangelização há-de proporcionar a mais homens e mulheres, nossos irmãos, a alegria de poderem celebrar o Domingo, não apenas celebrando a Páscoa de Cristo na Eucaristia, mas a referirem a Jesus Cristo, como louvor e inspiração de vida, toda a vivência deste dia especial que é o Domingo: dia da acção de graças e do testemunho; dia da alegria e da festa; dia da alegria e da comunidade; dia do descanso e da contemplação; um dia diferente, porque Jesus Cristo, ao recriar-nos, tomou tudo diferente, fazendo de novo todas as coisas.
3. No nosso contexto cultural, profundamente marcado pelo cristianismo, o Domingo adquiriu um significado social, tornando-se, para todos, o feriado semanal. Quantas pessoas saberão ainda que o Domingo é um dia especial, porque o Senhor ressuscitou ao Domingo? Compete-nos a nós, cristãos, anunciá-Lo com a nossa vida e com a nossa alegria.
A acção pastoral não pode deixar de ter em conta a complexidade da sociedade actual, mesmo no que ao Domingo diz respeito: se para a maior parte dos portugueses o Domingo se transformou em fim-de-semana, permitindo outro tipo de actividades e de utilização do tempo e provocando uma grande mobilidade das populações, outros há que não podem descansar ao Domingo. A cessação dos "trabalhos servis", isto é, do trabalho normal das pessoas, foi sempre uma expressão paradigmática do carácter especial deste dia. Há serviços essenciais à comunidade que não podem cessar, nem ao Domingo. Mas deveriam ser os estritamente necessários e não deveriam ser exigidos sempre às mesmas pessoas. Mas hoje assiste-se a uma vulgarização do "trabalho servil" ao Domingo, por motivos de concorrência económica. É preciso que todos tenham consciência de que esse fenómeno significa uma regressão cultural, de que os portugueses são as primeiras vítimas, no sentido e na qualidade das suas vidas. Uma pastoral do Domingo não pode deixar de alertar para esse aspecto, contribuindo para uma nova cultura colectiva do Domingo.
4. A mobilização para o Congresso Internacional da Nova Evangelização trará, nesse aspecto, um contributo significativo. Anunciando Jesus Cristo, levará mais pessoas a descobrir que só Ele encerra o sentido da nossa vida, da nossa utilização do tempo; só Ele é a verdadeira fonte da nossa alegria e da nossa festa.
Lisboa, 15 de Junho de 2003, Solenidade da Santíssima Trindade† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Carta às Comunidades Cristãs do Patriarcado de Lisboa
Meus Irmãos e Irmãs,
No início de mais um ano pastoral, é-me grato dirigir-vos uma palavra de saudação, esperando que isso contribua para fortalecer a comunhão entre todos nós, que é comunhão de fé e de missão. São quatro os assuntos de que vos quero falar nesta Mensagem: acção de graças pelo meu Jubileu Episcopal; o Jubileu Episcopal de Sua Santidade o Papa João Paulo II; preparação do Congresso Internacional da Nova Evangelização; solidariedade para com a Diocese de Setúbal na restauração do Monumento a Cristo-Rei.
1. O meu Jubileu Episcopal: estou profundamente grato à Diocese, sacerdotes, religiosos e leigos, pela elevação e qualidade que imprimiram a estas celebrações. Senti-me Bispo para a Igreja, percebi de novo que a minha vida vos pertence, porque a dei a Deus, que me enviou a vós. O ministério episcopal não tem sentido sem a Igreja, ele encontra a sua verdade profunda na vida da Igreja, no seu crescimento como Povo de Deus e esposa do Senhor. Houve momentos muito fortes de vivência da fé e de unidade da nossa Igreja Diocesana. Entre todos sobressaiu a nossa peregrinação a Fátima no Dia da Igreja Diocesana. Calculo que cerca de um terço dos católicos praticantes da Diocese de Lisboa ali se reuniram, com os seus Bispos, em acção de graças e prece filial aos pés de Maria, Mãe da Igreja. Os espaços do Santuário não proporcionaram um encontro mais informal; todos sentimos disso a falta. Mas Nossa Senhora sabe como vos tinha, a todos e a cada um, no coração.
A todos quantos imaginaram, organizaram e participaram nesta festa da Igreja, digo uma única palavra: Deus seja louvado, muito obrigado a vós.
2. Jubileu do Santo Padre João Paulo II: é o grande Jubileu que toda a Igreja celebra este ano e todas as festas jubilares devem para ela convergir. E segundo palavras do próprio Papa, todas estas datas festivas encontram sentido no Grande Jubileu de dois mil anos do nascimento de Jesus Cristo.
A Igreja de Lisboa irá celebrar solenemente o 25º aniversário da eleição do Papa João Paulo II, no dia 18 de Outubro, no Estádio Nacional. Porque ele próprio quis associar o seu Jubileu ao Ano do Rosário, encerraremos, com essa celebração, o Ano do Rosário, com o “terço vivo”, mostrando que são as pessoas as verdadeiras “contas” do louvor a Maria. Espero que a Diocese acorra, nesse dia, ao Estádio Nacional. Que todas as comunidades se façam representar; e que sobretudo os jovens, que têm um lugar tão especial no coração do Papa, respondam, com a sua presença, a essa predilecção. Essa celebração aprofundará em nós a comunhão com o Santo Padre e o amor a Maria, Mãe da Igreja.
3. Congresso Internacional da Nova Evangelização: como é já do conhecimento de todos, realizar-se-á em Lisboa no Outono de 2005. Entramos, assim, num período de preparação próxima. Será publicada nestes dias uma Carta Pastoral que escrevi à Diocese sobre o Congresso e a Missão na Cidade. É meu desejo que ela seja acolhida nas comunidades e inspire os caminhos e as atitudes preparatórias do Congresso. Quem evangeliza é a Igreja, comunidade dos crentes. Tomar mais a sério a vida da fé é a única preparação sólida para as acções evangelizadoras. A oração fervorosa e confiante é preparação que pode começar desde já e que está ao alcance de todos, mesmo dos doentes e das pessoas idosas.
Embora o Congresso e a Missão na Cidade se desenrole na “grande Lisboa”, o ardor da evangelização deve fazer-se sentir em toda a Diocese. Espero que do Congresso brotem dinamismos que depois se prolonguem numa nova vitalidade de toda a Igreja Diocesana.
4. O Monumento a Cristo-Rei. Foi construído, nos anos cinquenta do século passado, cumprimento de um voto dos Bispos de Portugal, feito para merecer de Deus a graça de poupar Portugal à Segunda Guerra Mundial. Do ponto de vista canónico, ficou integrado na Diocese de Lisboa, onde se situava. A dinâmica da Imagem de Cristo-Rei foi concebida pondo-o a abençoar e abraçar a Cidade de Lisboa. Lisboa tem um grande amor a este Monumento, mas também uma particular responsabilidade.
Com a criação da Diocese de Setúbal, o Monumento, continuando a abraçar Lisboa, ficou situado na nova Diocese. Num período transitório, a Bula de criação da nova Diocese deixou provisoriamente o Monumento sob a jurisdição do Patriarcado de Lisboa. Essa situação provisória foi ultrapassada, há cerca de cinco anos, integrando o Monumento na Diocese de Setúbal, sob a jurisdição do seu Bispo.
Há tempos que se vinha verificando a necessidade de obras de restauro, para contrariar a normal erosão do betão armado, que começava a criar riscos físicos para os visitantes. As obras acabaram por ser realizadas já sob a responsabilidade da Diocese de Setúbal, foram bem visíveis de Lisboa durante a sua execução, e custaram cerca de um milhão de euros. Este encargo é incomportável para a administração corrente do Monumento, que teve de se endividar para as pagar.
Dado o empenhamento de todas as Igrejas de Portugal na construção do Monumento, o Senhor Bispo de Setúbal pediu ajuda à Conferência Episcopal. Esta decidiu que, em todo o país, os ofertórios das missas no dia da Festa de Cristo-Rei, se destinarão a ajudar a Diocese de Setúbal a satisfazer esse encargo. Por isso assim acontecerá na Diocese de Lisboa, que, pelo que ficou dito, tem uma particular responsabilidade no Monumento a Cristo-Rei. Peço a generosidade de todos, pessoas e comunidades, e o Senhor vos recompensará. Espero que toda a Diocese ponha neste ofertório o mesmo empenhamento que seria necessário se o Monumento ainda estivesse sob a nossa responsabilidade.
Desejo a todos um início de ano pastoral cheio de generosidade e de esperança, para continuarmos a edificar a “Casa do Senhor”
Fraternalmente saúda-vos e abençoa-vos.
Lisboa, 22 de Setembro de 2003
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa
Responsabilidade solidária pelo bem comum
I
INTRODUÇÃO
1. Criado por Deus para a felicidade, o ser humano encontra na sua dedicação ao bem da comunidade em que se insere os meios para realizar essa felicidade pessoal e social. É missão da Igreja contribuir para a edificação de uma sociedade mais justa e fraterna, mais responsável e solidária. Ninguém pode ficar excluído dessa tarefa permanente.
A crise que atinge o nosso mundo e, em particular, o nosso país e o espaço europeu em que se situa, não é apenas uma crise económica mas também, e sobretudo, uma crise espiritual e moral. Entre outros aspectos, ela traduz-se na relativização de valores e princípios, na perda de confiança num futuro melhor, na demissão em lutar por uma sociedade mais justa e pacífica, no refugiar-se em seguranças meramente individuais e privadas.
Como Bispos, temos especial obrigação de anunciar o Evangelho de Cristo, apresentando as implicações que ele tem na sociedade humana. O ser humano entendido como pessoa em comunidade e os critérios evangélicos da construção da comunidade fundada no amor implicam a urgência em despertar os dinamismos inerentes à pessoa, tais como a confiança e a esperança num futuro com sentido de vida, a participação solidária e o empenhamento responsável pelo bem comum.
Portugal pode ser diferente, com o contributo positivo de todos. Os cidadãos devem ter consciência da sua responsabilidade no crescimento da sociedade como comunidade.
2. Na Carta Pastoral A Igreja na sociedade democrática, procurámos relembrar alguns pontos fundamentais da doutrina da Igreja sobre a sociedade, a partir da leitura de algumas situações da realidade portuguesa. Dizíamos, a terminar, que “na medida em que as circunstâncias o sugiram ou exijam, é previsível que nos venhamos a pronunciar sobre outras áreas da realidade portuguesa, tais como: sistema educativo, economia, modelos de desenvolvimento, luta contra a pobreza e justiça social, problemática do trabalho e do emprego, promoção e defesa do ambiente, globalização e corresponsabilidade internacional”[1].
No seguimento desta proposição, variadas vezes nos pronunciámos sobre algumas questões que exigem a nossa resposta activa e comprometida, como a educação, a comunicação social, o trabalho, a promoção da vida, a luta pela paz [2]. Tal magistério decorre do nosso ministério profético.
Contexto social em que nos situamos
3. Na Instrução Pastoral Crise de sociedade, crise de civilização, quisemos “alertar para um quadro civilizacional de valores culturais que possa constituir o pano de fundo a proporcionar aos católicos e a toda a sociedade um juízo dos factos e das situações, na perspectiva da doutrina da Igreja sobre a pessoa humana e sobre a sociedade” [3]. Apontámos, então, as grandes linhas de força culturais, sempre pertinentes e actuais, como contributo da missão específica da Igreja, enquanto comunidade organizada e fazendo parte da sociedade civil: uma cultura marcada pelo cristianismo, uma cultura da dignidade da pessoa humana, uma cultura da liberdade na responsabilidade, uma cultura da vida, uma cultura da verdade e da coerência, uma cultura da solidariedade e da esperança.
Foi nesta perspectiva de esperança, procurando dar o nosso contributo com um olhar novo e diferente, que ousámos fazer uma leitura da nossa realidade. A nossa voz crítica de tantas situações concretas só tem sentido na medida em que assumirmos uma atitude comprometida e dedicada ao bem comum, uma vez que o futuro da comunidade portuguesa depende de todos nós. Isso exige uma nova responsabilidade moral na sociedade, uma confiança solidária e uma esperança renovada no nosso país.
Este mundo em turbulência e em crise de identidade oferece-nos um tempo de gestação para um mundo justo e fraterno. Pela fé, acreditamos que Jesus Cristo é o sentido desta mudança e o Evangelho aponta caminhos de verdade, de justiça, de liberdade e de paz. Procuramos o diálogo com todos os que queiram contribuir responsavelmente para a afirmação dos valores éticos na nossa sociedade, em atitude de serviço à comunidade humana em que nos inserimos.
Os pecados sociais da nossa sociedade
4. Ao olharmos o nosso país, com os problemas que o atravessam, na perspectiva da edificação de uma sociedade solidária, identificamos algumas atitudes e linhas de comportamento, a que podemos chamar “pecados sociais” e que exigem uma conversão à solidariedade responsável na construção do bem comum:
a) os egoísmos individualistas, pessoais e grupais, sem perspectiva do bem comum mais global;
b) o consumismo, fruto de um modelo de desenvolvimento, fomentado pelos próprios mecanismos da economia, que gera clivagens entre ricos e pobres e gera insensibilidade a valores espirituais;
c) a corrupção, verdadeira estrutura de pecado social, que se exprime em formas perversas, violadoras da dignidade humana e da consciência moral pelo bem comum;
d) a desarmonia do sistema fiscal, que sobrecarrega um grupo, e pode facilitar a irresponsabilidade no cumprimento das justas obrigações;
e) a irresponsabilidade na estrada, com as consequências dramáticas de mortes e feridos, que são atentado ao direito à vida, à integridade física e psicológica, ao bem-estar dos cidadãos e à solidariedade;
f) a exagerada comercialização do fenómeno desportivo, que tem conduzido à perda progressiva do sentido do “jogo” como autêntica actividade lúdica, e a falta de transparência nos negócios que envolvem muitos sectores e profissionais dalgumas áreas do desporto;
g) a exclusão social, gerada pela pobreza, pelo desemprego, pela falta de habitação, pela desigualdade no acesso à saúde e à educação, pelas doenças crónicas, e que atinge particularmente as famílias mais carenciadas, as crianças e as pessoas idosas, e determinados grupos sociais.
5. Os “pecados sociais” têm a sua origem primeira no coração da pessoa, quando exclusivamente fechada no seu egoísmo, sem qualquer abertura aos outros seres humanos. Podem concretizar-se em sectores vitais da sociedade, como a família, a escola e os meios de comunicação social, quando se demitem do seu papel de participar na construção do bem comum, respeitando a dignidade do ser humano. Para contrariar ou combater estes “pecados sociais” exige-se a educação nos valores, o gosto do bem comum, a generosidade como atitude social, a paixão por um Portugal melhor.
Com esta Carta Pastoral queremos ser apelo à responsabilização de todos na construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária. Interessa ver a crise ou as crises com olhar confiante, discernir os problemas com análises responsáveis, e assumir atitudes participativas e construtivas do bem comum.
Importa reafirmar, neste campo, os grandes princípios da doutrina social da Igreja, em particular a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade.
II
OS GRANDES PRINCÍPIOS DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA
Primado da pessoa humana sobre as instituições sociais
6. A dignidade da pessoa humana é um valor universal, base de todos os outros princípios orientadores da compreensão do ser humano em relação com os outros seres humanos da comunidade. “Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes (...) O homem, por sua própria natureza, é um ser social, que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com os outros” [4].
Esta dignidade é inalienável e inviolável, porque o ser humano, criado à imagem de Deus, redimido em Jesus Cristo e chamado à felicidade eterna, tem o seu fundamento último em Deus, que habita no mais íntimo do seu ser. Cada ser humano é único e irrepetível, mas, ao mesmo tempo, compreende-se em relação e em dependência da comunidade humana e da sociedade. Nesse sentido, para a doutrina social da Igreja, a noção de pessoa é um instrumento central para descrever a imagem cristã do ser humano.
7. Este princípio leva-nos a afirmar a igualdade essencial de todos os membros da família humana, na diversidade do respeito pelas pessoas, sem qualquer discriminação ou privilégio, o respeito sagrado pela pessoa do próximo como um “outro eu”, a promoção dos direitos humanos, a defesa da vida em todas as suas etapas e formas, a luta pela paz, justiça, liberdade e verdade.
Na afirmação essencial do princípio da dignidade da pessoa humana, o Concílio Vaticano II denuncia como infamante tudo o que é contrário à vida (homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio), tudo o que viola a integridade da pessoa humana (mutilações, tormentos corporais e mentais, tentativas para violentar as consciências das pessoas), tudo o que ofende a dignidade da pessoa humana (condições de vida infra-humanas, prisões arbitrárias, deportações, escravidão, prostituição, comércio de mulheres e jovens) e tudo o que degrada o trabalho (operários tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis) [5].
Estamos convictos de que a edificação de uma sociedade humanizada, solidária e fraterna só se consegue em plenitude, na medida em que se recuperar e aprofundar o sentido de Deus na história humana, raiz e fonte inesgotável da dignidade da pessoa humana.
Pelo princípio da dignidade da pessoa humana, todos os seres humanos são iguais e solidários, todos têm o direito e o dever de participar na construção do bem comum da sociedade. Não se pode reduzir a existência humana a um mero individualismo, nem limitá-la a um simples colectivismo. Este princípio é fundamento dos princípios da solidariedade e da subsidiariedade, e seu relacionamento recíproco. Além disso, é critério essencial para fundamentar todas as críticas às possíveis interpretações unilaterais desses princípios.
Busca do bem comum como horizonte da vida social
8. O bem comum de toda a família humana é aspiração fundamental do ser humano. O Concílio Vaticano II definiu o bem comum como “o conjunto de condições da vida social que permitem, quer aos grupos, quer a cada um dos seus membros, atingir a sua própria perfeição de um modo mais total e mais fácil” [6].
O Papa João XXIII havia definido o bem comum como “o conjunto das condições sociais que permitem e favorecem nos homens o desenvolvimento integral da personalidade” [7]. Na mesma linha, João Paulo II, relendo a “Populorum Progressio” de Paulo VI, aponta a solicitude do bem comum de toda a humanidade como sendo “a preocupação com o desenvolvimento espiritual e humano de todos e não com a busca do proveito particular” [8].
O bem comum implica toda uma rede de condições sociais, que deve proporcionar às pessoas e aos grupos um desenvolvimento humano integral.
9. Este princípio universal implica direitos e deveres que dizem respeito a todo o género humano. O dever de participação no bem comum exige a defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana e a criação de condições para o desenvolvimento mais pleno e acessível a todos. O empenhamento de todos, sem egoísmos, é condição essencial para se obter o bem, a que todos são chamados, e a felicidade, a que aspiramos.
Nesta responsabilidade universal de todos os cidadãos pelo bem comum, fundamenta-se a existência da comunidade política, em particular, cuja vocação é estar ao serviço do bem comum de todos os homens e do homem todo, da família e da sociedade. Todos são responsáveis por todos, colectivamente, e não apenas no plano individual.
O bem comum torna-se real quando a todos e para todos os homens forem garantidos o respeito real dos seus direitos e o cumprimento dos seus deveres, que são invioláveis e universais.
Solidariedade no bem comum
10. A responsabilidade por uma sociedade justa e solidária fundamenta-se na sociabilidade natural da espécie humana e na interdependência das relações sociais como um facto indiscutível e incontornável, assumido como desafio: a forma construtiva de o fazer é precisamente aquela responsabilidade que se chama solidariedade.
Na encíclica Sollicitudo Rei Socialis, o Papa fala da interdependência como sistema determinante de relações no mundo contemporâneo, nas suas componentes económica, cultural, política e religiosa, e assumida como categoria moral. A resposta a esta interdependência chama-se solidariedade, entendida como atitude moral e social e como «virtude». A interdependência transforma-se em solidariedade. “Esta não é um sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos” [9].
Falando mais directamente a cristãos, o Papa João Paulo II apresenta a solidariedade como sendo indubitavelmente uma virtude cristã, intimamente ligada à caridade, e estabelece os seus fundamentos de fé: “Por cima dos vínculos humanos e naturais, já tão fortes e estreitos, delineia-se, à luz da fé, um novo modelo de unidade do género humano, no qual deve inspirar-se em última instância a solidariedade. Este supremo modelo de unidade, reflexo da vida íntima de Deus, uno em três Pessoas, é o que nós cristãos designamos com a palavra «comunhão»” [10]. Na óptica cristã, a solidariedade assume dimensões de gratuidade, de perdão e de reconciliação. O outro torna-se próximo, não só pelo princípio da igualdade fundamental dos seres humanos, mas também sobretudo pela filiação em Deus, da qual decorre a fraternidade com os outros seres humanos.
Por outras palavras, o imperativo da solidariedade, que se impõe, como um dever, a todos, é ainda mais premente para os cristãos. Trata-se, nada menos, de contribuir para a realização deste desígnio divino. Mas exactamente por ser desígnio de Deus, o anseio da paz e da fraternidade é também uma aspiração profundamente sentida por todos. Sem a solidariedade, aliás, não é possível enfrentar, muito menos vencer, as «estruturas de pecado».
11. As “estruturas de pecado” situam-se no contexto de maneiras de organizar a sociedade contrárias ao progresso humano, ao desenvolvimento pessoal e ao bem comum. João Paulo II define do seguinte modo o conceito de “estruturas de pecado”: “Se a situação actual se deve atribuir a dificuldades de índole diversa, não será fora de propósito falar de «estruturas de pecado», as quais, como procurei mostrar na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, se radicam no pecado pessoal e, por consequência, estão sempre ligadas a actos concretos das pessoas, que as fazem aparecer, as consolidam e tornam difícil removê-las. E assim, elas reforçam-se, expandem-se e tornam-se fontes de outros pecados, condicionando o comportamento dos homens” [11].
Quando se tenta dar um nome à raiz dos males que nos afligem e que são profundamente lesivos do bem comum, poder-se-ia falar de “egoísmo”, de “vistas curtas”, de “cálculos políticos errados”, de “decisões económicas imprudentes”, de “mecanismos perversos”. Está sempre presente um “eco de natureza ético-moral. A condição do homem é tal que torna difícil uma análise mais profunda das acções e das omissões das pessoas, sem implicar, duma maneira ou doutra, juízos ou referências de ordem ética” [12].
Subsidiariedade como defesa e promoção da pessoa e da sociedade civil
12. O princípio da subsidiariedade está intrinsecamente ligado ao da solidariedade e é também fundamento da responsabilidade justa e solidária de todos na sociedade, como comunidade de comunidades, que existe a todos os níveis: internacional, nacional, regional e local. A mais pequena dessas comunidades é a família, a célula básica da sociedade humana. Uma sociedade bem construída é aquela que prioriza a integridade, a estabilidade e a saúde da vida familiar. Como princípio de boa governação, nenhuma lei deveria ser aprovada sem se considerarem os efeitos que ela possa ter sobre a vida familiar, de modo especial nas crianças.
Todos são responsáveis por todos, colectivamente, na procura do bem comum, ao nível da sociedade ou da nação, e não apenas em plano individual. Este princípio da doutrina social da Igreja permite a máxima participação e a melhor ordenação da actividade de todos na construção da sociedade.
13. A definição de subsidiariedade, proposta pelo Papa Pio XI, permanece hoje como ponto de referência fundamental para a sua compreensão: “Verdade é, e a história demonstra-o abundantemente, que, devido à mudança de condições, só as grandes associações podem hoje levar a efeito o que antes podiam até mesmo as pequenas. Permanece, contudo, imutável aquele solene princípio da filosofia social: assim como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem efectuar com a própria iniciativa e trabalho para o confiar à comunidade, do mesmo modo, passar para uma sociedade maior e mais elevada o que as comunidades mais pequenas e inferiores podem realizar é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim natural da sociedade e da sua acção é coadjuvar os seus membros e não destruí-los nem absorvê-los. Deixe, pois, a autoridade pública ao cuidado de associações inferiores aqueles assuntos de menor importância, que a absorveriam demasiado. Poderá, então, desempenhar mais livre, enérgica e eficazmente o que só a ela compete, porque só ela o pode fazer: dirigir, vigiar, urgir e reprimir, conforme os casos e a necessidade requeiram. Persuadam-se todos os que governam de que quanto mais perfeita ordem hierárquica reinar entre as várias associações, segundo este princípio da função «subsidiária», tanto maior serão a autoridade e a eficácia sociais, e tanto mais feliz e fecundo será o estado da nação” [13].
14. Na doutrina social da Igreja há uma relação íntima entre subsidiariedade e bem comum. A sociedade deve ser construída por várias camadas, relacionadas entre si e ordenadas para o bem comum. De acordo com o princípio da solidariedade, a que está intimamente ligado, o princípio da subsidiariedade não admite o egoísmo. Antes, exige a participação dos cidadãos, enquanto indivíduos e, sobretudo, de forma organizada, para o bem comum, na defesa dos mais pobres e vulneráveis da comunidade.
Relembramos os três critérios fundamentais que é necessário atender quando se considera a pessoa humana na sua relação com a sociedade: a prioridade da pessoa humana; a exigência ética dessa relação como base de realização pessoal; o papel dos corpos intermédios. O princípio da subsidiariedade é a aplicação político-social efectiva desses critérios. “Ao Estado compete essencialmente, por obrigação positiva e inerente, envidar todos os esforços para possibilitar a participação e a co-responsabilidade das pessoas e corpos intermédios, zelando pela igualdade de oportunidades e pela satisfação das necessidades básicas, sempre no respeito pela identidade e autonomia daquelas, não se substituindo aos mesmos” [14].
III
APLICAÇÃO DESTES PRINCÍPIOS A ALGUMAS ÁREAS DO BEM COMUM
15. Em vários sectores da vida da comunidade, a responsabilidade colectiva está longe de atingir níveis satisfatórios na realização do bem comum.
A preocupação pelo bem comum, assente na igualdade, na justiça e na solidariedade, é dever de todos os cidadãos. É a primeira responsabilidade das autoridades públicas. Ninguém pode ficar excluído do bem-estar comum e da participação na vida da comunidade. Todos têm o dever de colaborar e promover o bem-estar da comunidade. Todos têm o direito a dele beneficiar.
O enriquecimento dalguns que provoque exclusão de uma parte da sociedade, é moralmente inaceitável e injusto. A “opção pelos pobres”, enquanto promoção do bem de todos, sem exclusões nem desigualdades, é a opção pela justiça do bem comum, é o primeiro dever dos cidadãos para que ninguém fique à margem do bem comum, lutando para que todos tenham os meios suficientes para participar na vida da comunidade.
Neste espírito de responsabilidade participativa, de abertura à esperança e de promoção da cultura da solidariedade, referimos algumas dessas áreas fundamentais, com particular incidência na sociedade portuguesa.
A participação na vida pública.
16. A democracia favorece a participação dos cidadãos no bem comum da sociedade. Um documento recente da Santa Sé relê a doutrina do Concílio Vaticano II na óptica da participação responsável de todos na acção política e na vida pública da sociedade: “As sociedades democráticas actuais, em que louvavelmente todos se tornam participantes da gestão da coisa pública num clima de verdadeira liberdade, exigem novas e mais amplas formas de participação na vida pública da parte dos cidadãos, cristãos e não cristãos. (...) Num sistema político democrático, a vida não poderia desenvolver-se proficuamente sem o envolvimento activo, responsável e generoso da parte de todos, embora em conformidade de formas, níveis, funções e responsabilidades” [15].
A vida política é uma vocação e missão ao serviço do bem comum. A saúde da democracia passa também pela estima, respeito e gratidão aos que assumiram responsabilidades na vida política. Por seu lado, os políticos devem ter um comportamento honesto, humilde e competente. A confiança na democracia e no debate político precisa de uma moral renovada. Quer os que exercem no poder o serviço ao bem comum quer os que servem nas oposições construtivas, todos contribuem para o projecto comum de sociedade. O exercício responsável das respectivas funções concorre, certamente, para a confiança renovada no futuro do país e para a participação de todos no projecto de comunidade.
A educação para a democracia, enquanto participação responsável e crítica de todos os cidadãos nos assuntos públicos, é uma tarefa permanente. Tal exige informação sobre os direitos e deveres de cada cidadão, formação de uma opinião pública crítica e participante no bem comum, exercício da democracia nas famílias, nos grupos, nas escolas e nas instituições.
Trabalho digno, justo e reconhecido.
17. O trabalho é uma vocação inerente ao ser humano, é participação na obra criadora de Deus, é realização da pessoa humana na sua dignidade em solidariedade efectiva com os outros seres humanos. O trabalho é uma dimensão fundamental da existência humana sobre a terra [16].
Reconhecemos que o desemprego e as formas precárias de emprego atingem inúmeros cidadãos e que, segundo os princípios da justiça e da equidade, tem de haver participação de todos, tanto nos benefícios como nas dificuldades. Reafirmamos princípios fundamentais da doutrina social da Igreja: a economia e o capital devem estar ao serviço da pessoa humana; a competitividade tem de respeitar a dignidade humana; o mercado livre deve ter limites no sentido de respeitar as aspirações e as necessidades humanas essenciais; a dignidade do trabalho permite ao ser humano tornar-se mais humano; as condições de trabalho devem ter em conta os direitos e o bem-estar da família; todos os parceiros do mundo laboral, trabalhadores e empresários, são responsáveis pela produtividade; a empresa é uma comunidade de pessoas.
Reiteramos uma das interpelações finais, que aponta para a participação solidária e activa de todos no mundo do trabalho: “a necessidade de considerar a empresa como comunidade de pessoas, em que colaboram e participam todos os seus elementos, de forma individual e associada. Aos sindicatos, às comissões de trabalhadores, às associações empresariais e a outras formas associativas deve ser reconhecido um papel de intervenção. A legislação laboral deve garantir o associativismo como fonte de realização da pessoa e a empresa como autêntica comunidade de pessoas com funções distintas mas complementares, todos capazes de participar activamente da vida da empresa”[17].
Neste campo essencial da actividade humana, segundo o princípio da solidariedade, há direitos e deveres a respeitar e a promover, de acordo com o bem comum. Queremos afirmar muito claramente que não é aceitável que haja salários injustos e inadequados, que não sejam respeitadas as condições desejáveis de higiene e segurança nos locais de trabalho, que se imponham horários de trabalho que não respeitam as necessidades de descanso, designadamente ao domingo, formação e cultura e satisfação de compromissos familiares dos trabalhadores, que se abuse da precariedade do vínculo laboral e se explore o trabalho indocumentado e irregular, que se fuja aos impostos e às contribuições para a segurança social. Segundo o princípio da subsidiariedade, estas são responsabilidades dos empregadores, dos gestores e dos próprios trabalhadores. Contudo, o Estado deve intervir para estabelecer e fazer cumprir normas mínimas satisfatórias. Em particular, cabe-lhe assegurar que os salários sejam justos no sentido de serem capazes de manter um nível de vida digno para todos, trabalhadores e famílias.
A ética do mercado e o bem comum.
18. Não se pode conceber um mercado livre sem limites. Tal é incompatível com os princípios orientadores da lei natural, da justiça social, dos direitos humanos e do bem comum, sempre afirmados pela doutrina social da Igreja.
Um mercado assumido, na prática, sem qualquer limitação tem conduzido frequentemente à acumulação da riqueza por um pequeno grupo e, consequentemente, dando origem a fenómenos de opulência e de riqueza não solidariamente distribuída. Verificamos ainda um preocupante crescimento desmesurado e irresponsável do consumo e do endividamento, sem possibilidades de regularização, a par de um aumento de novas formas de pobreza, de miséria e de exclusão social.
A economia de mercado tem potencialidades para encorajar a criação de riqueza e para fazer crescer a prosperidade da comunidade, permitindo o combate à pobreza e à miséria. Esse objectivo só se consegue, e esperamos que a sociedade portuguesa evolua nesse sentido, quando se respeita a liberdade humana e o princípio da subsidiariedade, em união com o princípio da solidariedade. Na observância destes princípios é de louvar a iniciativa dos empresários que procuram a solidez das empresas do ponto de vista financeiro e estrutural.
O bom funcionamento do mercado requer um comportamento ético e a concretização de certos princípios éticos no quadro regulador e legislativo. Na afirmação do conceito de bem comum na nossa comunidade, cabe ao Estado distinguir e arbitrar entre exigências do mercado livre e do bem comum.
Os media ao serviço do bem comum.
19. Os meios de comunicação social desempenham um papel fundamental enquanto educadores informais da comunidade humana. Daí decorre a responsabilidade moral em relação ao bem da sociedade.
Esta enorme capacidade, que os agentes dos meios de comunicação social possuem de interferir no bem comum, pode concretizar-se em sentido negativo, pela acentuação da violência, exploração dos instintos e tantas outras formas que denigrem a pessoa humana na sua dignidade, como em sentido positivo, pela apresentação e promoção dos valores da comunidade.
Mesmo considerando que a responsabilidade moral nem sempre gera audiências nem vende jornais, não se podem considerar como critérios primeiros e exclusivos a soberania das forças do mercado livre, a preocupação exclusiva pelas audiências e pelas vendas, a preocupação em dar aos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas apenas aquilo de que gostam e que alimentam os seus instintos mais primários.
Renovamos o nosso aplauso e a nossa gratidão “a quantos contribuem para que os meios de comunicação social estejam sempre ao serviço da verdade e do bem, da liberdade e do direito, da cultura e da solidariedade, portanto da realização pessoal e do progresso da sociedade” [18].
Uma comunicação social autêntica só tem sentido quando está ao serviço do homem e da sociedade, ao serviço da verdade e do bem. Nesse sentido, os media devem ser ponto de referência na formação dos cidadãos para a participação responsável e solidária no bem comum.
O Estado tem um papel moderador importante, através de leis e políticas que sejam congregadoras e enriquecedoras dos pluralismos existentes numa sociedade aberta. “Uma das formas de o fazer é velar por que a comunicação social não agrida nem silencie os valores que alicerçam o edifício nacional, nomeadamente os de natureza cultural e religiosa. Outra forma é suprir, no respeito do princípio da subsidiariedade, as eventuais deficiências da comunicação social privada na promoção desses valores” [19].
Uma sociedade civil desperta e actuante na afirmação e defesa da vontade colectiva e uma autoridade pública atenta e capaz ao serviço da comunidade, são essenciais para a construção do bem comum. Aqui encontra justificação o serviço público de comunicação (imprensa, rádio, televisão, internet) como um direito de todos os membros da comunidade. A ele corresponde o dever de todos, e em particular do Estado, para com a sociedade aberta, plural e heterogénea, de fomentar os valores que mais dizem à alma nacional: a arte, a cultura, a língua, as crenças, os costumes, a saúde, a segurança e a esperança num futuro melhor. Nesse conjunto, estão também incluídos os valores da espiritualidade e da religião cristã-católica, numa abertura a outras expressões religiosas.
O bem comum e a defesa do ambiente.
20. O meio ambiente é um dos bens comuns essenciais à vida da humanidade, é uma condição absolutamente necessária para a vida social.
A consciência ecológica é uma conquista progressivamente adquirida pela sociedade humana. Ao receber de Deus o domínio sobre o mundo, o ser humano ocupa o seu lugar no planeta como dom e privilégio. Por isso tem o dever de cultivar o “respeito religioso pela integridade da criação” [20].
O ambiente situa-se na lógica da recepção: é um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte. Daí a enorme responsabilidade quanto ao uso e usufruto dos bens comuns ambientais em cada presente histórico. As gerações futuras têm o direito de receber o ambiente em melhores condições do que as situações em que as gerações anteriores o viveram.
Pelos princípios da solidariedade e da subsidiariedade, todos os cidadãos e, em particular, as autoridades públicas locais, nacionais e internacionais, são responsáveis pela conservação cuidadosa da dimensão ambiental do bem comum.
Esta responsabilidade passa pela denúncia de factos dramáticos para a humanidade, como acidentes nucleares, graves desastres com indústrias químicas, inquinamento de cursos de água e da flora, poluição dos rios e dos mares, transporte inseguro e localização inadequada dos lixos, em particular os tóxicos, incêndios nas florestas, desordenamento do território no que respeita à habitação e ao urbanismo.
Mas tal responsabilidade passa igualmente, e sobretudo, pela consciência ecológica de conservação e preservação da natureza e do ambiente, em que o ser humano é a referência fundamental como colaborador de Deus na criação e co-responsável pelo seu domínio com os outros seres humanos. “Sempre que age sobre a natureza, para a valorizar e aperfeiçoar ou para a destruir, está em questão a qualidade da vida humana, a grandeza da sua vocação à criatividade, à partilha e à comunhão, à corresponsabilidade e à fraternidade entre as pessoas e entre os povos. Do mesmo modo, os crimes contra o meio ambiente repercutem-se sobre o homem, põem em risco a sua existência e são, por vezes, a manifestação do seu egoísmo e da sua irresponsabilidade para com os outros homens, presentes e futuros” [21].
Os acidentes na estrada e o bem comum.
21. Face ao número gritante de mortos e feridos provocados pelos acidentes na estrada, 90% dos quais são devidos ao factor humano, queremos falar claramente sobre o drama dos sofrimentos por eles causados, apelando à responsabilidade de todos na melhoria desta área do bem comum. Em todo o mundo, no século XX morreram 35 milhões de pessoas e um bilião e meio de pessoas foram feridas em acidentes rodoviários.
Tudo isto é um desafio à nossa preocupação pastoral. Ainda recentemente, os participantes no primeiro encontro europeu da Pastoral da Estrada, organizado pela Santa Sé, lançaram a interpelação seguinte: “Diante desta tragédia deve tornar-se premente – diríamos urgente – o compromisso conjunto, por parte da sociedade civil, das Igrejas, das comunidades eclesiais e também dos ‘líderes’ dos crentes das diversas religiões, em ordem a uma educação sobre a estrada, e não só, desde a primeira fase da infância, com vista a prestar atenção às famílias das pessoas mortas nas estradas e aos feridos, com disponibilidade à mútua compreensão e ao perdão” [22].
No nosso país, o elevado e cada vez maior índice de sinistralidade rodoviária coloca questões éticas na perspectiva do direito à vida, à integridade física e psicológica, à harmonia e bem-estar dos cidadãos, à solidariedade.
O bem-estar das pessoas e o direito à vida implicam o dever das autoridades competentes de melhorar a rede de comunicações rodoviárias, conservar constantemente os próprios pavimentos, manter uma sinalização adequada nas rodovias e um parque automóvel seguro.
Mesmo considerando o deficiente traçado e o mau estado de muitas vias rodoviárias e veículos ou a falta de sinalização correcta, sabemos que o grande responsável por este drama é o próprio condutor. Sem formação técnica e humana, sem consciência cívica, sem responsabilidade solidária e respeito pelos outros, em suma, sem uma mudança de mentalidades, não há leis nem mecanismos possíveis que possam alterar o actual estado da situação.
As causas maiores de acidentes de viação situam-se quase sempre na irresponsabilidade do condutor: velocidade excessiva, ultrapassagens e outras manobras perigosas, condução sob o efeito do álcool e outras substâncias psicotrópricas, uso de telemóveis e audição de música em volume elevado, desrespeito pelas regras da cedência de passagem, desrespeito pelos direitos dos peões. Só numa muito reduzida percentagem os acidentes se devem a imponderáveis, não controláveis pelo condutor.
Perante esta situação dramática, as soluções devem procurar-se ao nível da prevenção, da intervenção e da coordenação das várias entidades envolvidas. Porém, a medida principal está na educação para a consciência cívica colectiva, na formação para a responsabilidade de todos (autoridades públicas, comunicação social, estabelecimentos de ensino), procurando-se criar uma atitude colectiva de cidadania contra o estado eticamente inaceitável do comportamento de grande parte dos condutores em Portugal e contribuindo, assim, para a sua responsabilização.
O condutor é um ser livre, que deve conduzir como pessoa consciente e responsável, observando o código da estrada. Nas suas regras, restrições e constrangimentos, o código da estrada favorece o respeito pelo outro e a própria liberdade do condutor. Este deve saber que, ao seguir as leis do código, procura evitar ao máximo o risco de acidentes e de colisões, além de diminuir, desse modo, o seu estado de preocupação e ansiedade.
Uma má condução, além de manifestar um profundo desprezo pela vida, é expressão de mero individualismo, trazendo ao de cima velhos instintos do ser humano, instinto do poder e da agressividade, da combatividade e seu espírito concorrencial. Em termos evangélicos, podemos dizer que uma boa condução, além de realização de um projecto pessoal, é uma ocasião para despertar e amar os outros utentes da estrada, considerados irmãos e irmãs.
A responsabilidade comum pelos impostos.
22. O Estado tem direito aos impostos e o dever de os gastar bem, com parcimónia e prudência, assumindo assim uma atitude responsável perante os dinheiros públicos. São dinheiros dos cidadãos, ganhos com esforço e pagos com dor. A espiral de despesa a que se tem assistido nas últimas décadas manifesta uma cultura de despesismo e facilidade, altamente lesiva do bem comum dos cidadãos.
A confiança na economia passa pelo equilíbrio das contas públicas. Tal tarefa, específica do Estado, exige a participação de todos os cidadãos, como no-lo recorda a doutrina do Concílio Vaticano II: “Há pessoas que, embora proclamando ideais largos e generosos, continuam a viver, na prática, sem se preocupar com os deveres sociais. Mais, em alguns países, muitos não fazem caso das leis e prescrições sociais. Um grande número não hesita em subtrair-se, através de subterfúgios e fraudes várias, aos impostos justos e a outras concretizações do que é socialmente devido” [23].
No momento actual repleto de grandes dificuldades, em matéria de equilíbrio das contas públicas e disciplina orçamental, reconhece-se que o esforço da redução das despesas é benéfico quando se trata de despesas supérfluas, mas é perturbador quando põe em causa o funcionamento harmónico e equilibrado das instituições e a prestação de serviços essenciais com qualidade a toda a população e em especial aos mais carenciados.
Quanto ao aumento da receita, a tarefa tem sido dificultada, sobretudo pelas dissimulações e fraudes fiscais por parte dos cidadãos e grupos económicos, fruto dos seus egoísmos individualistas e contrárias à solidariedade social indispensável ao bem comum.
“Devemos todos esforçar-nos para que as leis sejam justas e equilibradas. Mas não pagar as contribuições sociais, previstas na Lei, é grave desordem moral e causa de perturbação da paz social. (...) As exigências éticas, em matéria social, não se aplicam só ao Estado; são exigência para os cidadãos. Entre nós isso é claro: a paz social depende, em grande parte, do desenvolvimento daquilo a que o Santo Padre chama a promoção de uma cultura da solidariedade. Não pagar impostos e outros contributos sociais é defraudar a sociedade, e manifesta ausência dessa cultura solidária e do sentido do bem comum. Como é triste e preocupante a imagem que se dá de uma comunidade nacional em que, embora todos aceitem que é preciso fazer sacrifícios, vemos pessoas e grupos a exigir que sejam só os outros a fazê-los”[24].
Saúde e bem-estar da comunidade.
23. A saúde é um dos bens comuns essenciais à vida da pessoa e da comunidade e que exige igualmente o contributo responsável e solidário de todos.
Reconhecemos que muito se tem feito para melhorar este bem comum que é a saúde: reformas do sistema de segurança social; construção de novos hospitais; formação permanente dos profissionais da saúde; luta contra as falhas deontológicas no campo da saúde; maior acesso de todos a medicamentos genéricos e consequente abaixamento assinalável dos custos, etc.
Alguns sintomas, porém, são sinal da crise no campo da saúde: a falta de respeito e de cuidado adequado pela pessoa do doente, expresso no longo tempo de espera para se obter uma consulta ou diagnóstico e para determinadas intervenções cirúrgicas; uma certa mentalidade mercantilista na forma como alguns profissionais olham a saúde; o preço exorbitante dos medicamentos e dos actos médicos e de diagnóstico em geral; a menor atenção prestada ao acompanhamento de doentes crónicos e, sobretudo, terminais; o exacerbado controlo das políticas de saúde por parte dos profissionais da saúde e pelo poder dos grandes interesses económicos neste domínio.
A crise do Estado-Previdência, reflectida no sistema da segurança social, sem capacidade de resposta aos reais problemas da saúde na sua globalidade, interpela-nos eticamente quanto à partilha efectiva e à entre-ajuda de todos na contribuição para a segurança social, para que o sistema seja cada vez mais solidário e participativo, equitativo e justo. A morosidade na prestação de cuidados médicos questiona-nos quanto ao empenhamento de todos os profissionais envolvidos com vista à maior prontidão e eficácia do sistema de saúde, público e privado. As dificuldades persistentes no acesso aos cuidados de saúde e aos medicamentos, que atingem geralmente os mais débeis e os mais afastados dos centros urbanos, interpelam-nos ao respeito e promoção do direito de todos os cidadãos têm a serem tratados por igual e sem exclusões. A procura do lucro fácil e a falta de cuidados, introduzindo elementos químicos na produção de alimentos que são nocivos à saúde, são um atentado à vida e à integridade da pessoa, exigindo responsabilização fundamentada em princípios éticos.
Muito há a fazer com o empenhamento de todos, entidades públicas, profissionais da saúde e cidadãos em geral. O apelo do Santo Padre em relação aos hospitais católicos, na recente Mensagem para o Dia Mundial do Doente, pode ser considerado por todos quantos trabalham no campo médico-sanitário, como um desafio e uma responsabilização de todos os cristãos implicados no sector da saúde: “Os hospitais católicos hão-de ser centros de vida e esperança, onde se fomentem, a par das capelanias, as comissões éticas, a formação do pessoal sanitário laical, a humanização dos cuidados prestados aos doentes, a atenção às suas famílias e uma particular sensibilidade pelos pobres e marginalizados. O trabalho profissional há-de tornar-se um autêntico testemunho de caridade, recordando que a vida é dom de Deus, sendo o homem apenas seu administrador e garante” [25].
Torna-se necessário fomentar cada vez mais uma atitude solidária permanente no domínio da saúde em geral, combatendo as doenças como ameaça à integridade e à beleza da vida e procurando novas formas de entre-ajuda e de motivação para um rejuvenescimento espiritual.
A educação ao serviço de todos.
24. A educação é um dos campos em que se desenvolvem os valores da vida em sociedade. É um problema fundamental da comunidade social que a todos diz respeito e a todos pede colaboração. É um direito e um dever, uma missão nobre ao serviço de todos.
Da nossa recente Carta Pastoral sobre a Educação, retemos algumas afirmações de princípio, no sentido de apelar à responsabilidade de todos no campo da educação.
Reconhecemos que o objectivo principal da educação é suscitar e favorecer a harmonia pessoal dos educandos. A participação social e feliz, cooperante e solidária, resulta na harmonia social, “suporte de uma sociedade democrática. Um dos níveis de construção dessa harmonia é a educação para a cidadania: propõe noções e comportamentos, que induzem os indivíduos a adquirir o estatuto e a prática de cidadãos, e explicita-se na organização e participação nas instituições cívicas” [26].
A participação na vida da comunidade e a cooperação nas iniciativas comunitárias decorrem da própria compreensão do carácter relacional do ser humano, em que a educação tem um papel activo: “No projecto de Deus, os homens são seres em relação, como a experiência existencial testemunha. Daqui resulta uma saudável tensão entre o desenvolvimento pessoal harmonioso e a crescente abertura à comunidade, que se vai operando pela inserção progressiva nos diversos níveis da comunidade humana, pela abertura ao diálogo com os outros e pelos graduais esforços de cooperação” [27].
O princípio da solidariedade apela à participação responsável de todos, educandos, pais, família, Estado, meios de comunicação social, Igreja, na missão educativa. Mesmo pertencendo primariamente à família, o dever de educar precisa da ajuda de toda a sociedade”. Pelo princípio da subsidiariedade, é dever do Estado “suprir as falhas dos pais, sem, todavia, contrariar os seus legítimos e justificados desejos, assim como criar as estruturas indispensáveis, escolas ou outras instituições, na medida em que o bem comum o exigir” [28].
Como arte difícil que pede criatividade e dedicação, a educação deve ser assumida como uma missão ao serviço de todos, em que todos se sentem solidariamente envolvidos, contribuindo para a formação de pessoas felizes e realizadas e para a construção de uma sociedade baseada na paz e na solidariedade.
Neste domínio da moral social, com destaque para a responsabilidade solidária pelo bem comum, cabe, sem dúvida, uma particular responsabilidade a todas as escolas, as quais devem incluir nos seus programas e projectos educativos acções específicas de formação dos seus educandos para a solidariedade e o bem comum.
IV
SINAIS DE PARTICIPAÇÃO SOLIDÁRIA
25. A partir da leitura da realidade e à luz dos princípios orientadores da doutrina social da Igreja, elencámos algumas áreas da sociedade que exigem responsabilidade social dos cidadãos, no conjunto de deveres e direitos. Quisemos discernir e interpretar os sinais dos tempos, examinando criticamente alguns aspectos da sociedade actual à luz dos critérios do Evangelho, dos quais brotam esses princípios de orientação para a responsabilidade justa e solidária.
Notamos que, na sociedade portuguesa, há muitos sinais positivos, imbuídos de esperança e de responsabilidade dos cidadãos, que necessitam de ser continuamente revitalizados:
a) uma nova atitude perante os problemas, marcada pelo dinamismo da esperança, que se exprime no discernimento crítico dos problemas sociais, na denúncia de todas as formas de exclusão e de egoísmo e na participação solidária e responsável nas soluções;
b) a tomada de consciência da sociedade como comunidade cultural, quadro de sentido da existência e da vida dos povos;
c) a promoção de todas as formas de educação para a vida, para o ambiente, para os valores, para a cidadania, para a democracia, para a solidariedade e para o bem comum;
d) o incremento de tantas formas de voluntariado, num autêntico espírito de solidariedade e com poder efectivo de intervenção social;
e) a responsabilidade participativa de todos no mundo da saúde, da habitação, da escola, da comunicação social, do emprego, da economia, da política e da justiça;
f) a busca da nova identidade portuguesa, dinâmica e em construção, aberta a outros valores e culturas, capaz de construir pontes culturais com outros povos;
g) a construção de uma Europa baseada nos valores culturais e espirituais, sendo a integração na União Europeia e o fenómeno da globalização desafios constantes à comunidade portuguesa.