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DOCUMENTAÇÃO
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| DOCUMENTAÇÃO - 2002 |
Homilia Do Cardeal Patriarca no Pontifical do Dia de Natal
1. Nesta festa de Natal somos chamados a contemplar Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus feito Homem. É o maior desafio que se apresenta a um cristão: contemplar o rosto de Cristo, penetrar no Seu mistério, reconhecer n’Ele o rosto de Deus e o autêntico rosto do homem. Uma pergunta compreensível pode brotar do mais íntimo de nós mesmos: quem é, afinal, aquele Menino que nasceu em Belém? Esta mesma pergunta se pôs aos discípulos várias vezes, durante a vida pública de Jesus: quem é, afinal, este Homem, a quem até os ventos obedecem? (cf. Lc. 8, 25); Outra vez é o próprio Senhor que lhes pergunta: para vós quem sou Eu? (cf. Mt. 16, 15).
Procuremos as respostas a estas perguntas nos textos da Sagrada Escritura que acabam de ser proclamados. A Liturgia revela-se, assim, como fonte de resposta para as nossas interrogações de fé; e quem não as tem?
* Jesus é um Profeta. Ele é a plenitude de uma longa história de salvação de Deus aos homens, através da palavra dos Profetas. “Deus, que muitas vezes e de muitos modos, falara antigamente a nossos pais pelos Profetas, nestes tempos, que são os últimos, falou-nos por Seu Filho” (He. 1, 1-2). Ele é o Profeta definitivo, pois não se limita a anunciar a Palavra de Deus; Ele é o Verbo, a Palavra eterna de Deus. “No princípio era o Verbo, o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus” (Jo. 1,1).
A quantos são peregrinos da verdade, a quantos anseiam conhecer Deus e deixam acender no seu coração o desejo do absoluto, basta-lhes escutar Jesus Cristo e Deus revela-se-lhes na plenitude do seu amor. Este é o desígnio eterno e definitivo de Deus Pai acerca daqueles e daquelas que desejam conhecê-Lo: “Este é o Meu Filho muito amado, o Filho do meu enlevo, escutai-O” (Mt. 17,5).
* Jesus é o Filho de Deus. É com surpresa que descobrimos que há identificação, em Deus, entre a Palavra e o Filho, ou seja, a verdade de Deus é pessoal, é amorosa, convida à relação, destina-se a transformar em filhos aqueles que a escutam. “Tu és Meu Filho, Eu gerei-te hoje” (He. 1,5); a geração deste Filho, Verbo de Deus, é tão eterna como actual. “Ele estava, ao princípio, junto de Deus” (Jo. 1,2). Esta Palavra, que é o Filho, dá àqueles que a escutam, o poderem tornar-se filhos de Deus. “A quantos O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a eles que acreditaram no Seu Nome” (Jo. 1,12). E a partir desse momento Deus Pai trata-os como filhos, aplicando-lhes a predilecção que tem pelo Seu Filho. “Eu serei para Ele um Pai e Ele será, para Mim, um Filho” (He. 1,5).
Esta identificação entre o Filho e a Palavra, permitindo que o poder dessa Palavra torne filhos aqueles que a escutam, é a dimensão mais bela e jubilosa da experiência cristã, princípio de toda a intimidade amorosa e de toda a contemplação da beleza de Deus, é o segredo de toda a união mística e a fonte inesgotável onde podemos saciar toda a nossa sede de verdade.
* Este Filho tem a omnipotência divina; Ele “é o esplendor da glória de Deus e a imagem do Ser divino. Ele tudo sustenta com a sua Palavra poderosa”. Tendo realizado a nossa redenção “sentou-Se nas alturas, à direita da divina Majestade; e ficou tanto acima dos anjos, quanto o nome que herdou é mais ilustre que o deles” (He. 1,3-4). Já S. Paulo proclamara, no hino cristológico da Carta aos Filipenses, que Jesus era de condição divina e que devido à fidelidade com que obedeceu ao desígnio salvífico do Pai, “Deus O exaltou e Lhe deu o Nome que está acima de todos os nomes, para que tudo se prostre ao Nome de Jesus e toda a língua proclame que Ele é o Senhor, para glória de Deus Pai” (cf. Fil. 2,9-11). E S. João, no texto que agora ouvimos, confirma: “E nós vimos a Sua Glória que lhe vem do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo. 1,14).
Este é o rosto glorioso de Jesus Cristo, já presente na beleza do Menino de Belém. O Seu crescimento, missão e plenitude pascal, não serão senão o desvendar desta glória, já cantada pelos anjos no presépio e proclamada pela Igreja, participação do Seu triunfo pascal, pela força do Espírito. Esta glória divina de Jesus sugere-nos que a adoração é a melhor atitude que podemos ter, perante Ele, a que resume todos os nossos desejos, responde a todas as perguntas, cumula todos os anseios. Foi já a atitude dos Magos, que se fizeram peregrinos de Belém. “Entrando na casa, viram o Menino, com Maria sua Mãe e caindo de joelhos, prostraram-se diante d’Ele” (Mt. 2,11). Vinde, adoremos, é desde sempre, o pregão do Natal. “Adorem-No todos os Anjos de Deus” (He. 1,6).
* Filho de Deus, Jesus é o criador. Decorre da Sua qualidade divina e da convicção bíblica do poder criador da Palavra. Deus disse e fez-se. Se Jesus é a Palavra definitiva de Deus, a Palavra-Filho, Ele é a Palavra criadora. “Ele estava, ao princípio, junto de Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e, sem Ele, nada se fez” (Jo. 1,2). E a Carta aos Hebreus confirma esta fé. Ele é o Filho a quem Deus “fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou os mundos” (He. 1,2).
Este poder criador do Filho situa todo o universo e toda a história dos homens sobre o Seu domínio e na dependência do Seu poder. O Seu triunfo final, no fim dos tempos, aquando da Sua última vinda, será a manifestação definitiva deste poder criador.
Mas é na ordem da graça, no dinamismo da redenção, que este poder criador se actualiza, recriando, transformando os corações pecadores, criando o novo Povo dos redimidos, de quem Ele é, verdadeiramente, criador e Senhor. Como diz S. João, “na verdade foi da Sua plenitude que todos nós recebemos, graça após graça” (Jo. 1,16). Este Reino é obra do Espírito, e o seu crescimento traduz-se na santidade.
* Este Menino é Deus que nos visita. É a grande esperança de Israel, Deus regressará a Sião e com o Seu braço forte, consolará o Seu Povo e resgatará Jerusalém (cf. Is. 52, 7-10). É a grande ânsia dos justos de Israel; que Deus venha e Se torne próximo. Este Menino é Deus connosco para sempre. “E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós. E nós vimos a Sua glória, glória que lhe vem do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo. 1,14).
Ao celebrar o nascimento de Jesus somos convidados a descobrir, naquela criança e no olhar encantado de Sua Mãe, o rosto de Cristo. Desejo-vos a todos que este Natal seja um itinerário que nos leve ao encontro de Deus.
Sé Patriarcal, 25 de Dezembro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Homilia dO Cardeal Patriarca na noite de Natal
1. A celebração cristã do Natal supõe um encontro pessoal com Jesus Cristo. Não estamos a recordar um passado, mas a celebrar o eterno encontro de Deus com o homem. A actualidade de Jesus Cristo é dramática e libertadora: dramática, porque o homem contemporâneo precisa de ser salvo, para se encontrar com Deus e consigo mesmo, reconhecendo a sua dignidade; libertadora, porque Jesus Cristo continua a ser o nosso Salvador. Quem se cruza com Ele, reacende a esperança e encontra o sentido e a exigência da verdadeira vida. De facto, só em Cristo, Verbo de Deus feito Homem, se desvenda o mistério do homem. Ele é o nosso salvador, e é por isso que Ele será, para o homem de todos os tempos, uma boa notícia. Já foi assim que o Anjo O anunciou aos pastores de Belém: “venho trazer-vos uma boa nova, que será grande alegria para todo o Povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é o Messias Senhor” (Lc. 2, 10-11).Aquele Menino é o Messias esperado. Por Ele ansiaram todos os justos de Israel, que esperavam poder vencer o pecado e realizarem o ideal da aliança, de intimidade com Deus e de fraternidade com os homens, na harmonia e na paz. Dessa esperança é testemunha o Profeta Isaías quando exclama: “Um Menino nasceu para nós... Tem o poder sobre os ombros” e vem como Salvador, libertará o Povo das opressões que pesam sobre ele (cf. Is. 9, 2-5).
Mas é o Apóstolo Paulo, na sua Carta a Tito, que melhor situa a actualidade de Jesus Cristo como nosso Salvador. N’Ele, “manifestou-se a graça de Deus, que traz a salvação para todos os homens”; em Jesus Cristo a salvação é força e bênção de Deus. Mas celebrar o Natal, como aliás celebrar a Páscoa, é aceitar o desafio de uma mudança de vida e de uma renovação interior. Não há salvação sem conversão. Continua o Apóstolo: “a graça da salvação ensina-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos e a viver com ponderação, justiça e piedade, no mundo presente... Cristo entregou-Se por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e purificar para Si Mesmo um Povo especialmente seu” (Tit. 2, 11-14).
Não há celebração sincera do Natal sem renovação interior e esta sugere a mudança de vida; ela é uma exigência do encontro com Cristo. João Baptista ao apresentar Jesus, no início da Sua vida pública, insiste na mudança de vida e na exigência moral do Reino de Deus. Pregava às multidões: produzi frutos que sejam dignos do arrependimento. Que quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem; que quem tem alimentos, os divida com quem tem fome; que não se pratique a usura, nem a ganância, procurando acumular riquezas por qualquer meio e a qualquer preço; que quem está investido em autoridade, não abuse do poder, que não se prejudique ninguém, que não se façam denúncias falsas ou precipitadas (cf. Lc. 3, 7-14). É que a nova ordem que Jesus vai pregar, o Reino dos Céus, assenta na justiça e na generosidade do amor.
2. Realmente não pode haver Natal verdadeiro sem desejo de conversão. Esta é obra de Deus em nós, é o fruto, em nós, dessa semente divina, lançada por Deus no seio de Maria. A salvação não é, apenas, desculpa de Deus; ela é recriação, acção transformadora do coração humano, que merece o título de nova criação. E a necessidade de redenção, em cada tempo e em todos os tempos, sublinha a actualidade perene do nascimento de Jesus.
De facto, quando olhamos para o mundo contemporâneo, esta necessidade de transformação, de mudança radical, torna-se gritante. A enumeração de Paulo e do Baptista dos males morais, a exigirem redenção, são todos presentes e actuais: a impiedade, manifestada no desconhecimento de Deus; os desejos mundanos, de prazer, de riqueza, de domínio e poder, de violência; a ostentação dos ricos a contrastar com a pobreza, que assumiu na actualidade dimensões dramáticas nunca conhecidas na história; a habitual ganância tornou-se injustiça, no desfrutar do trabalho dos pobres e desprotegidos, na corrupção, na fuga às obrigações sociais; as denúncias fáceis e as ofensas ao bom nome a que cada pessoa tem direito, ganharam a dimensão correspondente ao poder e à força dos meios de comunicação, que na ânsia de estar ao ritmo dos acontecimentos e de chegar primeiro à notícia, se precipitam na denúncia.
Cristo é a única esperança de salvação para este mundo, pois só Ele pode transformar o coração do homem, mudando, assim, a história. E esta é a grande diferença que o cristianismo introduz na cultura, e que marca a especificidade da Igreja na cidade. Enquanto a sociedade tem como principal meio para estes males a repressão, o cristianismo oferece a conversão. Aumenta a criminalidade? São novas as manifestações da violência? Agravaram-se as desonestidades pessoais e sociais? Reforçam-se as polícias, aperfeiçoam-se os meios de investigação, ensaia-se a prevenção. Todos esses meios são necessários, apresentam soluções, mas não são a solução. Só a conversão dos homens mudará a sociedade. E esta supõe uma perspectiva, uma mística, uma cultura, uma esperança. Nós cristãos sabemos que ela supõe a graça de Deus, a força desse Menino que nasceu para nós, em cujo mistério reside o segredo do mistério do homem. Não há Natal sem conversão e esta é o caminho da verdadeira alegria. É esta participação na alegria messiânica que exprimimos quando desejamos uns aos outros: Feliz Natal.
Sé Patriarcal, 24 de Dezembro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Homilia do Cardeal Patriarca na Solenidade da Imaculada Conceição
1. Nesta festa litúrgica de Nossa Senhora, celebramos o seu mistério pessoal de escolhida por Deus para a realização plena da santidade, mas também a vocação da Igreja e de cada um dos seus membros, que encontram em Maria o espelho onde se reflecte o amor de Deus e o Seu desejo intenso de conduzir todos os homens à perfeita comunhão de amor conSigo. Como a de Maria, a vocação da Igreja é um mistério de graça e esta manifesta-se na fidelidade ao amor de Deus. Proponho-me meditar, hoje, convosco, a missão de Maria na aventura da graça, que é a vida cristã, na sua resposta de fidelidade ao chamamento de Deus à santidade.
Mas que riqueza encerra esta palavra “graça”? Ela significa, antes de mais, o desígnio amoroso de Deus acerca dos homens. Há um desígnio de Deus na criação de cada homem, de o fazer participar na plenitude da vida divina, na “glória” de Deus. Só participando na glória de Deus o homem glorifica a Deus. E dar glória a Deus é a razão de ser última da nossa existência. A criação encerra uma vocação, um chamamento à plenitude da vida e do amor, à santidade.
A capacidade de responder a esta vocação é obra de Deus em nós. O Senhor cria-nos e recria-nos, para podermos caminhar para a plenitude da vida. A graça significa, então, a objectividade da obra de Deus em nós, sinal da força transformadora do Seu amor. Mistério de amor é, necessariamente, mistério de liberdade. O amor é sempre uma escolha livre das pessoas que se amam. E Deus, para poder ser escolhido pelos homens, correu o risco de não ser escolhido. A fragilidade do pecado foi o risco a correr para garantir a grandeza do amor. E a História da Salvação revela-nos que, na humanidade, desde o início, a fidelidade ao amor e a fragilidade do pecado entrecruzam-se continuamente, dando à história da graça a densidade de um drama.
Sempre que o homem peca, destrói-se. Sempre que um homem se destrói, pelo pecado, Deus tudo faz para o recriar de novo, não desistindo do Seu desígnio de amor e de vida. A graça adquire, então, o sabor bondoso e consolador da misericórdia, do amor misericordioso de Deus; ela é bênção e redenção. Cristo é a plena manifestação da misericórdia e, por isso, Ele é, definitivamente, a fonte da graça.
2. A história da graça é a história de uma luta sem tréguas contra o pecado, em ordem à vitória definitiva da vida e do amor. Todo o drama da salvação se encaminha para um ponto definitivo de não retorno, em que no coração da criatura humana a graça vença o pecado, a vida vença a morte, a comunhão de amor vença a solidão. Essa vitória definitiva da vida sobre a morte, da graça sobre o pecado, atinge-se em Jesus Cristo. N’Ele a plenitude definitiva e imaculada do amor divino exprime-se num coração humano; n’Ele a criação é definitivamente renovada e inicia-se o tempo novo, o tempo definitivo, a nova criação. Ele é a plenitude da graça, na totalidade da sua eficácia.
Numa união misteriosa entre Cristo e Sua Mãe, consequência do mistério da encarnação, esse triunfo da graça em Jesus Cristo tem a sua primeira expressão na plenitude da graça, em Maria, desde o primeiro momento da sua existência. Com Maria, criada e escolhida para ser a Mãe do Verbo encarnado, começa o tempo definitivo. Esta vitória sobre o pecado, que envolve Maria e o Seu Filho Jesus, estava anunciada desde o início, qual horizonte de esperança a iluminar o drama da humanidade. Deus disse à serpente, símbolo do pecado: estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela”. Entre o demónio, Cristo e Maria, a inconciliação é total e a luta inevitável, mas a vitória só podia ser a do amor de Deus.
3. Essa plenitude da graça, atingida em Cristo e Maria, torna-se na fonte de toda a graça para aqueles que, identificados com Cristo, querem partilhar da sua vitória. Ouçamos o Apóstolo Paulo: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, lá dos Céus, nos encheu com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”. Esta união de Cristo e de Maria, no triunfo definitivo do amor, torna-se a fonte inesgotável de graça para quantos travam ainda a luta com o pecado, mas agora com uma esperança fundada na vitória. Cristo é o trono da graça, o Espírito santo a plenitude da bênção divina e Maria é a mediadora de toda a graça. O seu lugar nesta luta da Igreja pela fidelidade ao amor, em ordem à santidade é bem sintetizada na anunciação do Anjo Gabriel e que nós repetimos, sem cessar, na proclamação repetida da “Ave Maria” no Santo Rosário, autêntico caminho de contemplação e de aprendizagem do louvor exigido pela glória de Deus.
Chamamos-lhe a “cheia de graça”, contemplando nela a plenitude de Jesus Cristo.
Cheia de graça, ela agradou completamente ao Senhor, que se sente glorificado nela. O Anjo anuncia-lhe esse enlevo de Deus: “Achaste graça diante do Senhor, Deus está encantado por ti”. Mas esse encanto completo de Deus, Ele só o pode ter pelo Seu Filho Jesus Cristo. Em Maria chegou a Deus a glória que lhe dará o Seu Filho Unigénito, na sua fidelidade filial. No dinamismo desta nova criação, Deus continua a encantar-se por todos aqueles e aquelas que, renovados em Cristo e pela mediação de Maria, se abrem ao mistério do amor de Deus e buscam a santidade. São esses que verdadeiramente a podem aclamar como “bendita entre as mulheres”. Em Maria está a afirmação clara do lugar da mulher no desígnio de Deus. Se uma mulher levou o homem à desobediência, por Maria a todos é oferecida a graça da redenção. Nova Eva, realiza na sua fecundidade e na sua maternidade o momento decisivo da graça. Mãe de Cristo e Mãe da Igreja, ela é, no plano da salvação, a Mãe dos novos filhos de Deus.
Ao contemplá-la, ganha sentido a nossa proclamação: “bendito é o fruto do teu ventre”. Como a santidade e a plenitude desta graça nos ensina a contemplar a Cristo, a verdadeira plenitude da Graça! Com ela aprendemos a acolhê-Lo, a escutá-Lo, a conhecê-Lo, a seguí-Lo, a adorá-Lo. Cheia de graça, ela é a verdadeira pedagoga do amor.
Sé Patriarcal, 8 de Dezembro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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HOMILIA DO CARDEAL-PATRIARCA NAS ORDENAÇÕES DO DIA 1 DE DEZEMBRO DE 2002
Queridos Ordinandos,
Recebeis, através do sacramento da ordem, o dom do ministério ordenado, no início do Advento, tempo de esperança renovada e refundada na intimidade com Cristo, nosso Senhor e Redentor. Toda a Igreja é chamada a ser, no mundo de hoje, sinal vivo dessa esperança. Vós sois, na vossa entrega e na consagração que o Espírito de Deus realizará em vós, um sinal de esperança, não pelos vossos méritos, mas "pela graça divina que vos foi concedida em Cristo Jesus". No vosso ministério brilhará no mundo a luz de Cristo, único fundamento da esperança. Podeis aplicar a vós mesmos, neste dia de graça, a confissão de fé de Isaías, acerca do seu ministério profético: "Vós, Senhor, sois o nosso Pai, e nós o barro de que Sois o oleiro; somos obra das Vossas mãos".
No início deste tempo litúrgico, a Palavra de Deus situa-nos no realismo da salvação a acontecer, ou seja, no mistério do Reino a edificar. Nele se cruzam, em duelo radicalmente decidido na Cruz de Cristo, o pecado e a graça, a infidelidade e fragilidade humanas e a misericórdia de Deus, nosso Pai. Perante o olhar do Profeta está a infidelidade de Israel: "Porque nos deixais, Senhor, desviar dos vossos caminhos e endurecer os nossos corações ante o Vosso Temor?". "Éramos todos como seres impuros e as nossas acções justa eram todas como veste imunda". E é neste contexto realista, que não se ilude nem se disfarça, que enraíza a verdadeira esperança, que é sempre manifestação de confiança no amor misericordioso de Deus. É a dupla objectividade do Reino de Deus, a dupla certeza que fundamenta a nossa confiança: a do nosso pecado e a da misericórdia. "Ficaste indignado por sermos pecadores; há muito que o somos, mas seremos salvos". E porquê esta confiança? Porque "Vós, Senhor, sois o nosso Pai. "Nosso Redentor" é, desde sempre, o Vosso nome".
A força do Povo crente baseia-se na esperança do triunfo da misericórdia sobre o pecado; atreve-se a pedir a Deus que apresse e intensifique as manifestações do Seu amor misericordioso e redentor. "Oh se rasgásseis os Céus e descêsseis, ante a Vossa face ruiriam os montes". Mas o Profeta reconhece: "Mas de facto Vós descestes". Mas com mais sólida razão o podemos verificar nós, ao contemplar o rosto do Filho de Deus em Jesus Cristo, como o faz o Apóstolo Paulo: N'Ele fomos enriquecidos em tudo, já não nos falta qualquer dom de graça. Ele nos tornará firmes, até ao fim e irrepreensíveis no dia de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Co. 1,3-9).
Meus Irmãos e Irmãs,
No Advento não precisamos de nos imaginar no Antigo Testamento, à espera da vinda do Messias prometido. Toda a Liturgia é a celebração deste dom definitivo de Deus, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. A nossa situação de peregrinos faz-nos passar por todas as etapas do Reino: a sua plenitude não nos dispensa de viver a tensão da esperança de O encontrar, de O conhecer melhor, de contemplar o Seu rosto, de experimentar a intimidade do Seu amor, de desejar o encontro definitivo. Mas todas estas etapas têm a solidez de uma certeza: na encarnação do Verbo de Deus o tempo atingiu o seu termo porque Cristo é o definitivo de Deus; Ele está connosco em todas as vicissitudes da nossa fé e da nossa conversão.
A graça própria deste tempo de Advento pode ser o desejo de O encontrar, a atenção aos sinais sacramentais da Sua presença. É a vigilância de quem deseja muito não perder nenhuma hipótese de O encontrar: na Palavra que nos surpreende, no amor fraterno que nos interpela, na oração que desafia a nossa aridez, na Eucaristia sinal da Sua presença que é, para nós, o sacramento por excelência da fé e da expectativa. Que em nenhum destes sinais Ele nos encontre a dormir, pois na certeza de que Ele veio e está connosco, Ele é, para nós, o que virá sempre de novo, até que o nosso encontro com Ele seja presença definitiva.
Neste itinerário espiritual do Advento, em que procuraremos, dinamizados pela esperança, contemplar o rosto de Cristo, conduzir-nos-à Maria, a primeira criatura a construir com o Verbo de Deus encarnado, uma intimidade que inaugura o tempo definitivo da humanidade. É o desafio de João Paulo II na sua recente Carta Apostólica "O Rosário da Virgem Maria". Exorta-nos à contemplação do rosto de Cristo na companhia e na escola de Sua Mãe Santíssima. Com efeito, recitar o Rosário nada mais é senão contemplar, com Maria, o rosto de Cristo (n.3). O seu olhar sobre o mistério de seu Filho exprime bem todas as etapas do nosso peregrinar ao encontro de Jesus Cristo. De facto, desde o momento em que o Verbo de Deus encarna no seu seio, o olhar de Maria, "sempre cheio de um reverente espanto, não se separará mais d'Ele. É, por vezes, um olhar interrogativo, como no episódio da perda de Jesus no Templo (…). Mas é sempre um olhar penetrante, capaz de penetrar no íntimo de Jesus, a ponto de perceber os seus sentimentos escondidos e adivinhar as suas decisões, como nas Bodas de Caná. Outras vezes é um olhar doloroso, sobretudo aos pés da Cruz, onde há ainda, de certo modo, o olhar da Mãe que dá à luz, pois Maria não se limita a partilhar a paixão e a morte do Unigénito, mas acolherá o novo filho a ela entregue, na pessoa do discípulo predilecto. Na manhã de Páscoa será um olhar radioso, na alegria da ressurreição; no Pentecostes o seu olhar será ardoroso, pela efusão do Espírito Santo" (n.10).
Há algo de comum e permanente em todos estes olhares: a atitude contemplativa da Mãe que não se cansa de mergulhar no mistério inaudito daquele Filho. Seja este o nosso itinerário de Advento: perscrutar, com Maria, o mistério de Jesus Cristo. A certeza da Sua Páscoa, fundamenta a esperança de uma maior comunhão com Ele.
Mosteiro dos Jerónimos, 1 de Dezembro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
ASSEMBLEIA PLENÁRIA DA CEP
Fátima, 11 a 14 de Novembro de 2002Nota Pastoral da CEP
O trabalho na sociedade em transformaçãoIntrodução
1. Na Carta Pastoral A Igreja na sociedade democrática, dizíamos a terminar: "Na medida em que as circunstâncias o sugiram ou exijam, é previsível que nos venhamos a pronunciar sobre outras áreas da realidade portuguesa, tais como: sistema educativo, economia, problemática do trabalho e do emprego, promoção e defesa do ambiente, globalização e corresponsabilidade internacional" [1].
No actual período da sociedade portuguesa, em que está em curso o processo de aprovação do Código do Trabalho, adaptado às novas circunstâncias do contexto social, a Igreja não poderia deixar de trazer o seu contributo para a reflexão sobre o trabalho, uma dimensão fundamental da existência humana sobre a terra.
Já noutras ocasiões nos debruçámos sobre esta problemática, como em 1982, a propósito da encíclica social Laborem Exercens [2]. Voltamos hoje a esse tema para ajudar a todos e aos cristãos, em particular, a fazer uma leitura das questões em debate à luz dos princípios da Doutrina Social da Igreja.
Reconhecemos a autonomia própria e correctamente entendida das "realidades terrenas". Não iremos debruçar-nos sobre os aspectos técnicos ou de pormenor do documento governamental. Mas a nossa solicitude pastoral leva-nos a intervir neste processo, propondo princípios de reflexão, critérios de discernimento e interpelações à acção, contidos no ensinamento da Igreja em matéria social, por forma a iluminar algumas questões emergentes do debate.
Contexto sócio-económico
2. Não pretendemos com esta Nota Pastoral abordar todos os problemas da sociedade e do trabalho.
Ao reflectir sobre o lugar do trabalho humano na sociedade, em geral, e na economia, em particular, não se deve pedir ao texto legislativo em apreço mais do que o mesmo pode dar. Até mesmo alguns aspectos fundamentais da chamada "questão social", se bem que interessem directamente ao trabalho, pertencem ao contexto económico, político e cultural, que condiciona, à partida, qualquer código. Importa, por isso, alargar o âmbito desta reflexão também àqueles outros aspectos contextuais.
3. A evolução económico-social exige um Código do Trabalho adaptado às novas circunstâncias, com uma concepção que tenha verdadeiramente presentes as dimensões éticas e sociais inerentes ao mundo do trabalho. A legislação faz parte de um corpo vivo da sociedade no sentido de regular as normais relações de trabalho, num conjunto de direitos e deveres, que impliquem todos os intervenientes.
Como se sabe, um dos problemas mais largamente debatidos e comentados nos últimos tempos, sobretudo a partir dos meados da década de setenta, respeita aos reflexos das rápidas e profundas mudanças ocorridas, quer no interior dos países quer na relação entre estes, sobre o lugar do trabalho humano na economia e na sociedade.
A agudização da competitividade, a inovação tecnológica, a expansão espectacular das telecomunicações, enfim, o conhecido fenómeno da globalização, são alguns dos factores que deram origem a questões e interrogações que parecem pôr em causa o que a Europa tinha como aquisições assentes em bases firmes e duráveis: emprego generalizado, estável e bem remunerado, e um sistema de protecção social apto a defender os cidadãos, sobretudo os trabalhadores, dos principais riscos sociais.
Do mesmo modo, veio ganhando apoio crescente, sobretudo nas áreas da teoria política e da política económica, o pensamento neo-liberal, de cariz individualista, fortemente crítico da intervenção reguladora do Estado e confiante na intrínseca bondade dos mecanismos do mercado. Sabemos como, de um momento para outro, o desemprego atingiu na Europa níveis médios verdadeiramente preocupantes, o emprego existente tornou-se mais precário e mais instável. Paralelamente, a protecção social vê-se sujeita a reformas tendentes, sobretudo, a enfraquecer a defesa contra os riscos. A agravar este quadro, as finanças públicas debatem-se com dificuldades geralmente reconhecidas e que têm justificado medidas restritivas com inegáveis consequências sociais.
São diversos os cenários que têm sido apresentados para que se possa nalguma medida antever a evolução do emprego no futuro mais ou menos longínquo, e que vão desde os que consideram estarmos numa etapa transitória que levará a um novo estádio de pleno emprego, até os que prevêem um défice estrutural e duradouro de empregos e modificações profundas na relação do trabalho com o emprego remunerado.
Seja qual for a evolução efectiva, o que importa é reconhecermos que o período que o país atravessa coloca exigências que a todos dizem respeito e terão de ser satisfeitas na perspectiva da paz social, alicerçada na justiça e construída através do diálogo.
4. Hoje, o país é parte integrante da União Europeia e do espaço da moeda "única" europeia, o euro. Tal circunstância traz vantagens e constrangimentos. Em particular impede que determinadas soluções sejam definidas tendo por fundo apenas o espaço nacional. A inexistência de fronteiras nacionais nalguns aspectos relevantes da política económica tornaram ineficazes medidas anteriormente utilizadas com sucesso, do mesmo modo que regras comunitárias definidas por instâncias supra-nacionais proibem a adopção de outras tantas medidas de que anteriormente era possível lançar mão. Podem estas realidades ter de reflectir-se nas leis laborais. Quando assim aconteça, deverá sempre ser respeitado o princípio de que o homem é o sujeito de toda a vida económico-social e tem de ser defendido pelos actores políticos económicos e sociais, tanto no interior de cada país quanto nas instâncias em que se formulam e aprovam as regras e políticas comunitárias.
A economia ao serviço do homem
5. Uma vez que, mediante o trabalho, o homem deve ganhar o pão de cada dia, a ordem social do trabalho é indissociável da ordem económica. Desde sempre, uma e outra se influenciaram reciprocamente. Nos tempos mais recentes, porém, tem sido a última a condicionar, cada vez mais fortemente, a primeira. Esta a razão por que a apreciação do Código do Trabalho deverá começar por uma reflexão sobre a ordem económica vigente.
A Igreja tem a firme convicção de que "o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida económico-social" [3]. Esta afirmação, aparentemente consensual, só ganha o seu verdadeiro significado quando o termo "homem" é entendido em sentido universal: todos os seres humanos. Quer isto dizer que a vida económico-social deverá ser concebida de modo a que todos os homens e mulheres participem dos benefícios e dificuldades resultantes da actividade económica, segundo os princípios da justiça e da equidade. Nunca será admissível que aqueles que menos têm em tempos de prosperidade sejam os que, proporcionalmente, mais sofram em tempos de crise.
Ter o homem como fim da actividade económica e social significa, ainda, ter presente que, nesse campo, como aliás noutros, a liberdade não pode separar-se da verdade do homem. O protagonismo na actividade económico-social, a que alude o Concílio Vaticano II, implica que todos tenham as condições para ser autênticos protagonistas da actividade económica, e não meros sujeitos passivos de uma actividade em que não possam participar responsavelmente e cujos centros de decisão lhes escapam. Não se trata apenas de protagonismo como consumidor e produtor de bens e serviços, mas sobretudo como sujeito que produz, consome e participa na gestão. Doutro modo, a liberdade económica, que é apenas um elemento da liberdade humana, "perde a sua necessária relação com a pessoa humana e acaba por a alienar e oprimir" [4].
A competitividade respeitadora da dignidade humana
6. Uma das dimensões da vida económica que tem vindo a ser cada vez mais posta em evidência e promovida na Europa é a da competitividade. Ela apresenta-se como condição essencial à sobrevivência e ao progresso das pessoas, das empresas e dos grupos. A sua urgência acontece nos tempos mais recentes, em que o mecanismo da livre concorrência tem sido apresentado como o mais adequado à consecução da equidade.
Justificadamente, a competitividade da economia nacional tem sido apontada como objectivo necessário da política económica. Algumas modificações introduzidas na legislação laboral poderão, eventualmente, decorrer dessa preocupação. Não se ignora que o trabalho constitui um dos factores que se reflectem no custo final dos produtos. Porém, não é apenas do trabalho que depende a produtividade da economia, nem é só da produtividade ou do nível dos custos que depende a competitividade das nossas empresas. Importa lembrar, a este respeito, alguns outros aspectos que têm sido apontados como claramente mais decisivos para melhorar a competitividade das economias nacionais: o exercício da função empresarial de forma colectiva (pessoas com boa relação interpessoal); empresas inovadoras, orientadas para a qualidade e a diferenciação dos produtos e não centradas apenas em processos tecnológicos que contribuem para a redução dos custos; estratégias de comercialização activas e uma capacidade concorrencial assente na qualidade e na diferenciação e não centrada em preços baixos; valorização da cultura de empresa e da mobilização através da participação dos trabalhadores; contratos de trabalho não precários, preocupação com investimento em formação profissional e salários atraentes; financiamento da expansão da empresa principalmente através do reinvestimento de lucros e com reduzido recurso ao crédito bancário.
A regra da livre troca, ou do mercado livre, tem vantagens evidentes, se for regulada pelo princípio da equidade: recompensa o esforço e estimula o progresso. Porém, quando as condições em que as partes envolvidas se encontram são demasiado diferentes, os preços resultantes do mercado podem ter consequências iníquas. A Igreja reconhece o valor positivo do mercado e da empresa, orientados para o bem comum, e considera "possível e obrigatório construir uma economia social que oriente o funcionamento do mercado para o bem comum" [5].
Quer isto dizer, além do mais, que a liberdade dos contratos e das transacções não contém em si qualquer mecanismo que assegure a justiça dos resultados. Os critérios da justiça são independentes do mercado e é à luz deles que se há-de avaliar o grau de equidade dos acordos e dos contratos.
Compete ao Estado a tarefa de "determinar o enquadramento jurídico dentro do qual se desenrolem os relacionamentos económicos, e de salvaguardar deste modo as condições primárias de uma livre economia, que pressupõe uma certa igualdade entre as partes, de modo que uma delas não seja de tal maneira mais poderosa que a outra que praticamente a possa reduzir à escravidão" [6].
Necessidades humanas e limites do mercado
7. Existem necessidades humanas que não encontram lugar no mercado. É dever de justiça e verdade assegurar que as necessidades humanas fundamentais sejam satisfeitas e as pessoas carenciadas ajudadas a adquirir os conhecimentos, a entrar no círculo de relações, a desenvolver as suas aptidões, para melhor valorizar as suas capacidades e recursos [7]. O mesmo se diga de necessidades colectivas e qualitativas que não podem ser satisfeitas através do mercado, de exigências humanas que escapam à sua lógica, e de bens que, devido à sua natureza, não se podem nem se devem vender e comprar [8].
Deve-se favorecer que as pessoas tenham tempo e condições para encontrarem resposta às necessidades de ordem espiritual e cultural, que os mecanismos económicos não favorecem. A satisfação desses direitos depende sobretudo das opções de produção e de consumo, que, a um tempo, promovem e decorrem de uma determinada cultura e de uma concepção global de vida. Daí a importância da responsabilidade que recai sobre os diversos actores intervenientes: os consumidores, nas suas escolhas de consumo; os produtores, nas decisões respeitantes ao que devem produzir; os meios de comunicação social, na sua acção educativa e cultural; e as autoridades públicas. "É necessário esforçarmo-nos por construir estilos de vida, nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento" [9].
A dignidade do trabalho
8. O homem é imagem de Deus e, pelo trabalho, cumpre o mandato, recebido do Criador, de submeter e dominar a terra (Gen 1,28). Esta circunstância tem duas implicações de extrema importância: trata-se de um atributo universal, aplicável a todos os homens e mulheres, sem excepção; traz a exigência de que essa qualidade seja respeitada em todas as fases do progresso económico e cultural [10].
É aqui que ganham particular relevância as características essenciais de que o trabalho se deve revestir para que possa considerar-se próprio de quem, sendo imagem de Deus, recebeu o mandato de reflectir e participar na própria acção criadora de Deus. Daí que "o trabalho, entendido como processo, mediante o qual o homem e o género humano submetem a terra, não corresponderá a este conceito fundamental da Bíblia senão enquanto, em todo esse processo, o homem se manifestar e se comprovar como aquele que "domina"" [11].
À luz deste princípio fundamental do trabalho como factor indispensável da realização do homem como pessoa, há aspectos que merecem uma atenção particular e que pertencem ao âmbito da ordem social do trabalho: a duração do desemprego, os grupos etários mais atingidos, a situação relativa entre homens e mulheres, as possibilidades efectivas de requalificação e reconversão, a frequência de empregos precários, a termo, mal remunerados ou oferecendo condições humanamente degradantes. Apesar de na Europa não ocuparmos os últimos lugares na taxa de desemprego, não podemos ficar descansados.
O trabalho é uma vocação universal que permite ao homem "tornar-se mais homem" e as condições do trabalho não podem degradar a dignidade da pessoa [12].
Há que dar atenção particular à família, às novas formas de trabalho e às iniciativas que possibilitem aos jovens encarar o futuro com mais esperança.
Trabalho e direitos da família
9. No que respeita à relação entre trabalho e direitos da família, é patente que a organização geral do trabalho não conseguiu ainda ajustar-se às exigências da vida familiar dos nossos dias. Os horários de trabalho estão definidos para pessoas que não têm de aplicar uma parte do seu tempo diário em tarefas familiares, seja no cuidar dos filhos, no estabelecer a cooperação entre a família e a escola, ou no prestar a necessária assistência a familiares idosos ou dependentes. Não se trata apenas de prever licenças ou dispensas com aquelas finalidades, mas de permitir que homens e mulheres com responsabilidades que requerem um tempo especificamente consagrado à família possam também ter um emprego regular. Por outro lado, continua sem atribuição de valor económico, e por isso sem remuneração, todo um conjunto de tarefas domésticas, muitas vezes exigentes em tempo, energia e disponibilidade, cujo contributo para o bem-estar e progresso da sociedade não tem sido devidamente reconhecido.
O bem estar mínimo da família articula-se com condições de estabilidade do trabalho. A introdução de novas tecnologias permite diminuir o horário de trabalho para dar mais tempo à vida familiar, cultural, social e religiosa, possibilitando ainda que o trabalho seja mais partilhado com outros trabalhadores.
Trabalho sem remuneração
10. Cabe aqui uma referência a um novo conceito de trabalho. O trabalho assalariado, tal como existe hoje, não poderá ser, no futuro, o único meio de subsistência do trabalhador. Há que considerar outras áreas que actualmente não são remuneradas, nem abrangidas pela Segurança Social, como o trabalho em casa (lides domésticas, educação dos filhos, cuidado de idosos e doentes) e parte do trabalho que hoje é realizado por voluntários (na cultura, na saúde, no desporto).
Responsabilidade de trabalhadores e empresários na produtividade
11. É geralmente reconhecido que uma apreciável melhoria da produtividade é condição indispensável à participação satisfatória, e até à simples sobrevivência, das empresas portuguesas nos mercados, hoje altamente competitivos, da Europa e do mundo. A baixa produtividade constitui uma das preocupações acerca do desempenho laboral na economia portuguesa. Todavia, não seria correcto nem justo atribuir a baixa produtividade da nossa economia apenas ao comportamento dos trabalhadores. Diversos outros aspectos, tais como a organização do trabalho, a modernização das empresas, os métodos de gestão, baixos níveis de qualificação, quer dos trabalhadores quer dos empresários, pesam bem mais no conjunto dos factores explicativos da baixa produtividade.
O trabalhador não pode ser considerado como mero instrumento e factor de produção. É preciso criar condições de adequação do trabalho aos atributos específicos do ser humano, para que o trabalhador e a trabalhadora possam exercitar as suas qualidades de seres inteligentes e livres, dotados de criatividade, responsabilidade, iniciativa, capacidade de decisão e solidariedade. Numa palavra, para que possam sentir-se conscientes de trabalhar "por sua conta" [13].
Todo o agente económico é sujeito de direitos e deveres. No caso do trabalho, deve ser tida em conta a responsabilidade de todos na produção e no esforço em criar trabalho, na justa avaliação e penalização.
Há que contrariar o absentismo, muitas vezes encoberto por processos fraudulentos.
O capital ao serviço do homem
12. A actividade económica depende da conjunção de dois elementos fundamentais: o trabalho e o capital. Este, por sua vez, está intimamente relacionado com o princípio universal do direito à propriedade privada, segundo o qual todos têm "o direito de possuir as coisas necessárias para o desenvolvimento pessoal e da própria família" [14].
Por detrás destes elementos essenciais permanece um princípio fundamental, à luz do qual devem ser avaliados não só o modo como o capital se relaciona com o trabalho, mas também o desempenho global das economias: o destino universal dos bens da terra. "Deus deu a Terra a todo o género humano, para que ela sustente todos os seus membros sem excluir nem privilegiar ninguém" [15]. A este princípio estão subordinados quer o direito à propriedade privada, quer o de comércio livre [16].
Devemos partir de uma verificação. As riquezas e os recursos do mundo visível, o homem encontra-os, não os cria. Encontra-os como doação da "natureza", ou seja, do Criador. Tais riquezas e recursos existem para servir todos os homens, e "não podem servir ao homem senão por meio do trabalho" [17]. O homem apropria-se de pequenas porções das riquezas da natureza mediante o trabalho e para poder ulteriormente ter trabalho. "A propriedade adquire-se primeiro que tudo pelo trabalho e para servir ao trabalho"; por isso, os meios de produção "não podem ser possuídos contra o trabalho, como não podem ser possuídos para possuir, porque o único título legítimo para a sua posse é que eles sirvam ao trabalho; e que, consequentemente, servindo ao trabalho, tornem possível a realização do primeiro princípio desta ordem, que é o destino universal dos bens e o direito ao seu uso comum" [18].
Hoje, existe "uma outra forma de propriedade, que reveste uma importância nada inferior à da terra: é a propriedade do conhecimento, da técnica e do saber" [19]. Não podem ignorar-se as profundas mudanças ocorridas no conjunto dos factores de produção, desde o tempo em que a terra ocupava o lugar dominante, passando pelos instrumentos de produção criados pelo trabalho humano, mais correntemente designados por capital, até aos tempos actuais, em que "o factor decisivo é cada vez mais o próprio homem, isto é, a sua capacidade de organização solidária, a sua capacidade de intuir e satisfazer a necessidade do outro" [20].
Em países como o nosso, são ainda demasiado acentuadas as desigualdades que se verificam, quer no acesso ao capital, quer no acesso ao conhecimento e ao saber. Acresce o desequilíbrio na distribuição do poder de decisão que, sendo claramente favorável ao capital, agrava a situação de desfavor do trabalhador em relação ao empregador. O fraco poder de decisão que o trabalhador, em geral, tem no interior da empresa coloca-o numa situação particularmente vulnerável, pelo que adquirem especial relevância a defesa dos seus direitos e o papel responsável dos sindicatos, "elemento indispensável da vida social" [21].
A empresa como comunidade de pessoas
13. A empresa é constituída por "pessoas que se associam, isto é, homens livres e autónomos, criados à imagem de Deus. Por isso, tendo em conta as funções de cada um - proprietários, empresários, dirigentes ou operários - e salva a necessária unidade de direcção, promova-se, segundo modalidades a determinar convenientemente, a participação activa de todos na gestão das empresas" [22]. Está aqui o fundamento da nobreza da missão do empresário, do detentor do capital e do gestor, que a Igreja muito aprecia, quando exercida com competência e responsabilidade: missão que se não exerce sem risco e merece adequada retribuição. De igual modo, todos devem participar na gestão da empresa, directamente ou por representantes dos trabalhadores livremente eleitos [23].
A Igreja vê a empresa na sua finalidade prioritária de gerar comunidades de pessoas e reconhece a justa função do lucro, como indicador do bom funcionamento da empresa. O objectivo da empresa, porém, "não é simplesmente o lucro, mas sim a própria existência da empresa como comunidade de homens que, de diverso modo, procuram a satisfação das suas necessidades fundamentais e constituem um grupo especial ao serviço de toda a sociedade" [24].
Algumas interpelações
14. Um Código do Trabalho, cuja oportunidade se não põe em causa, deverá traduzir, no contexto sócio-económico do trabalho, a realização da pessoa humana na sua dignidade em solidariedade efectiva com todos os outros seres humanos. Nesse sentido, reiteramos determinados princípios que devem constituir referência fundamental e fonte de inspiração indispensável à definição do quadro legal do trabalho:
· A incomensurável dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus e chamada a colaborar na acção criadora através do trabalho. A necessidade de melhorar a economia deve envolver solidariamente a pessoa do empresário e do trabalhador, com responsabilidades justa e equitativamente repartidas. Os direitos e os deveres do trabalhador devem ser claramente definidos de modo a que a prática os não anule. Conclusão
· Tendo em conta o novo contexto económico-social e as novas formas de conceber o vínculo do trabalho, há que garantir a segurança de todos os agentes no campo laboral. A definição das condições do trabalho não deve colocar ninguém na situação de mero instrumento.
· A necessidade da produtividade, que deve ser vista no conjunto de todos os elementos que a condicionam, envolve a todos. Por isso, não é objectivo endossá-la apenas a uma das partes, os trabalhadores ou os dadores do trabalho.
· A necessidade de considerar a empresa como comunidade de pessoas, em que colaboram e participam todos os seus elementos, de forma individual e associada. Aos sindicatos, às comissões de trabalhadores, às associações empresariais e a outras formas associativas deve ser reconhecido um papel de intervenção. A legislação laboral deve garantir o associativismo como fonte de realização da pessoa e a empresa como autêntica comunidade de pessoas com funções distintas mas complementares, todos capazes de participar activamente da vida da empresa.
· A necessidade de defender os direitos da família, na organização geral do trabalho, promovendo meios ajustados às exigências da vida familiar dos nossos dias, no que respeita ao emprego e justa remuneração, aos horários de trabalho, às condições de estabilidade no trabalho e à disponibilidade para dar mais tempo à vida familiar, cultural, social e religiosa.
15. Num momento em que se vive um clima de confronto social, nem sempre construtivo nem dialogante, a procura persistente de respeito mútuo, de diálogo social, de negociação e de concertação social deve ser o caminho privilegiado para todos os parceiros sociais - trabalhadores, empresários e governo -, de modo a encontrarem as justas soluções para os problemas sociais.
Apelamos aos cristãos para que saibam reflectir, analisar e fazer um discernimento das situações e condições do trabalho à luz da Doutrina Social da Igreja. "Às comunidades cristãs incumbe o discernir, com a ajuda do Espírito Santo, em comunhão com os bispos responsáveis e em diálogo com os outros irmãos cristãos e com todos os homens de boa vontade, as opções e os compromissos que convém tomar, para se operarem as transformações sociais, políticas e económicas que se apresentam como necessárias, com urgência, em não poucos casos. Nesta procura diligente das mudanças a promover, os cristãos deverão, antes de mais nada, renovar a sua confiança na força e na originalidade das exigências evangélicas" [25].
Dirigimos idêntico convite a todas as pessoas de boa vontade que vejam na Igreja não apenas uma referência estritamente religiosa, mas também uma comunidade portadora de uma mensagem que ilumina o caminho dos homens.
Fátima, 14 de Novembro de 2002
[1] CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Carta Pastoral A Igreja na sociedade democrática (2000).
[2] Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Carta Pastoral sobre alguns problemas do trabalho à luz da Encíclica Laborem Exercens (1982).
[3] CONCÍLIO VATICANO II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes (1965), nº 63.
[4] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 39.
[5] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 52.
[6] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 15.
[7] Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 34.
[8] Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 40.
[9] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 36.
[10] Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Laborem Exercens (1981), nº 4.
[11] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Laborem Exercens (1981), nº 6.
[12] Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Laborem Exercens (1981), nº 9.
[13] Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Laborem Exercens (1981), nº 15.
[14] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 6.
[15] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 31.
[16] Cf. PAULO VI, Carta Encíclica Populorum Progressio (1967), nº 22.
[17] Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Laborem Exercens (1981), nº 12.
[18] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Laborem Exercens (1981), nº 14.
[19] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 32.
[20] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 32.
[21] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Laborem Exercens (1981), nº 20.
[22] CONCÍLIO VATICANO II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes (1965), nº 68.
[23] Cf. CONCÍLIO VATICANO II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâ-neo Gaudium et Spes (1965), nº 68.
[24] JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus Annus (1991), nº 35.
[25] PAULO VI, Carta Apostólica Octogesima Adveniens (1971), nº
151.ª ASSEMBLEIA PLENÁRIA DA CEP
DISCURSO DE ABERTURA DO PRESIDENTE
Senhores Arcebispos e Bispos
Senhor Encarregado de Negócios da Santa Sé
Senhores representantes da CNIR, FNIRF e FNIS
Senhores Jornalistas
1. Saúdo-vos a todos, no início dos trabalhos de mais uma Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa. Expressão mais visível da nossa comunhão episcopal, reafirmamos, com fé e amor, a nossa comunhão com Sua Santidade o Papa João Paulo II, cujo testemunho de dom total da sua vida a Cristo e à Igreja continua a interpelar-nos. A nossa oração em conjunto será, durante estes dias, a principal expressão dessa comunhão.
Sabemos como todo o Povo de Deus das nossas Dioceses e a própria sociedade, tem, nestes dias, os olhos postos sobre nós, esperando uma palavra de orientação e de esperança. Sem menosprezar o balanço interno do funcionamento das diversas Comissões Episcopais, temos consciência de quanto alguns grupos específicos esperam, agora, uma palavra dos Bispos como Pastores: os trabalhadores e responsáveis pelo progresso e desenvolvimento da nossa sociedade; os pais que continuam a optar pela aula de Educação Moral e Religiosa Católica para os seus filhos, harmonicamente inserida no currículo escolar e que ficaram confusos com as últimas decisões do Governo e o debate político que elas provocaram; e os jovens, há tanto tempo à espera de linhas orientadoras para a pastoral juvenil. Direi uma palavra introdutória sobre estes três temas.
2. O Conselho Permanente tinha já tornado pública a nossa intenção de participarmos, no âmbito que nos é próprio, no debate desencadeado a propósito do ante-projecto de Lei, designado como Código do Trabalho. Não vos escondo que, no conjunto dos diversos temas de sociedade sobre os quais temos tomado posição, este é o que me gera maior perplexidade quanto à natureza da nossa intervenção. Mexer na legislação do trabalho é, em si mesma, uma opção política de grande relevância e a discussão que isso gerou é de natureza política. De facto suscitou tomadas de posição das forças políticas, das organizações dos trabalhadores e de outros intervenientes na gestão política do País. E nós, como pastores, não queremos entrar no debate político em sentido estrito. Não nos compete a nós tomar posição sobre as diversas opções possíveis no tratamento desta matéria.
Mas também não podemos esquecer que compete aos cristãos, trabalhadores, gestores empresariais ou decisores políticos, lutarem por soluções justas, inspiradas no Evangelho e na doutrina social da Igreja, em ordem à afirmação da dignidade do trabalho e dos trabalhadores e ao desenvolvimento harmónico da sociedade e que eles têm o direito de esperar de nós uma palavra iluminadora. E queremos fazê-lo, relembrando as grandes linhas do magistério social da Igreja, ousando aplicá-las, o mais possível, à realidade concreta em consideração. A tomada de posição que vier a ser aprovada, terá relevância política, no sentido mais amplo desta palavra, mas não pretende ser tomada de posição sobre pontos concretos da legislação, embora, também o prevemos, vá haver quem a queira interpretar assim. É o risco que corremos sempre que decidimos falar, na fidelidade ao nosso ministério, sobre problemas tão concretos e tão decisivos para a vida dos portugueses e da comunidade nacional.
Consideramos normal que, numa sociedade em contínua mutação, a actividade legislativa, sem exagerar na efemeridade das leis, procure adaptar a legislação às exigências da sociedade. Qualquer visão fixista e estática das leis acabará por se revelar desaptada numa sociedade em mutação. Cremos que o que está em questão é a busca de uma visão harmónica da sociedade como um todo, com o seu modelo de desenvolvimento, que não pode ser só económico, e os valores inalienáveis que defende. Deste processo global a legislação sobre o trabalho é apenas um elemento, que pode ficar fragilizado se desinserido do processo global. E se, em última análise, é de um modelo de sociedade que se trata, não é de admirar que as forças políticas que defendem modelos próprios de sociedade, tenham sobre esta matéria posições dificilmente conciliáveis. Pedimos a todos que tenham a coragem de escolher o diálogo como caminho, que sejam fiéis aos mecanismos democráticos para a solução dos diferendos e que não se confundam os processos democráticos e constitucionais com dinamismos revolucionários. A sociedade só tem a perder com isso.
3. O início do presente ano escolar foi agitado pela questão do lugar da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica no 1º ciclo do ensino básico, com a aprovação de uma emenda no diploma legal que rege esta matéria, em que o Governo recuou sobre uma primeira decisão. Aproveito este momento de apresentação pública da nossa agenda, sem me querer antecipar às decisões da Assembleia Plenária, para esclarecer algumas confusões patentes na discussão pública que o assunto provocou.
* Antes de mais, a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica não é um favor que o Estado faz à Igreja, disponibilizando-lhe a sua estrutura escolar para fazer catequese, como me foi claramente afirmado por uma das Instituições que entraram no debate. Ao contrário, consideramos esta disciplina um serviço que a Igreja presta, aos pais e aos alunos, contribuindo com um elemento que, na nossa visão, deve fazer parte integrante de qualquer sistema educativo. Teimar em não integrar a dimensão religiosa numa visão global da educação, é erro de perspectiva de que não podemos partilhar. Mesmo para os alunos que não professam nenhuma religião, é importante uma informação sobre a dimensão religiosa.
Consciente desta importância, o Estado tem reafirmado, ao longo da evolução legislativa, a natureza curricular desta disciplina, como fazendo parte integrante do currículo escolar, embora de frequência facultativa. O que fazer com os alunos que optam por não frequentar esta disciplina (no 1º ciclo do ensino básico uma minoria), é uma questão pedagógica a que a escola é chamada a responder e que muitas escolas resolvem bem, na harmonia da gestão escolar. Continua de pé o contra-senso pedagógico de os alunos serem convidados a escolher entre a frequência desta disciplina e o nada.
* A existência curricular da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica não fere a laicidade do Estado. Isso aconteceria se, porventura, o Estado a tornasse de frequência obrigatória. O Estado laico não significa uma sociedade laica e deve estar ao serviço de todos os cidadãos e das suas legítimas opções para a educação dos seus filhos. Outra atitude não é consequência da laicidade do Estado, sendo denunciadora do laicismo como filosofia da sociedade.
* Rejeitamos qualquer solução que coloque esta disciplina fora do tempo curricular. A 26.ª hora só pode ser interpretada como alargamento do tempo curricular e não como uma hora a mais para a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, o que acarreta como consequência que esta disciplina possa ser leccionada em qualquer das 26 horas. O contrário seria discriminação dos alunos que nela se inscreveram, a acrescentar às previsíveis dificuldades nos transportes e à própria presença dos docentes responsáveis pela turma, que têm como tempo lectivo 26 horas e não 25. Esperamos vivamente que a regulamentação do diploma salvaguarde, de forma inequívoca, estes aspectos.
O Secretariado Nacional da Educação Cristã tem dado sinais de alguma inquietação sobre este problema. É preciso que tomadas de posição e estratégias de acção sejam coordenadas com a Conferência Episcopal, através da Comissão Episcopal da Educação Cristã. Sou de opinião de que se deve privilegiar o diálogo institucional.
4. E finalmente uma palavra sobre a pastoral juvenil. Sei que algumas Dioceses entraram, ou estão a entrar, em processo de reflexão sobre a pastoral juvenil no quadro da pastoral geral. Propomos à Assembleia umas bases inspiradoras do que poderá ser uma pastoral juvenil, abertas a concretizações diferenciadas. Elas são a síntese de várias abordagens, quer nacionais, quer internacionais, e são o testemunho do interesse e solicitude que nos merece a juventude.
Entregamos os nossos trabalhos à protecção maternal de Maria. Ao acolher-nos no seu Santuário faz das nossas reuniões de trabalho uma peregrinação pelos caminhos do Reino.
Fátima, 11 de Novembro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa
COMUNICAÇÃO DO CARDEAL PATRIARCA A PERSONALIDADES DA CULTURA
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Saúdo-vos cordialmente e agradeço terem aceite o nosso convite para este encontro de diálogo e debate de perspectivas e preocupações. Justifica a ousadia deste convite o nosso desejo de diálogo com todos os estratos da sociedade. A Igreja é uma Instituição significativa demais para não procurar uma convivência harmónica e construtiva com a sociedade como um todo, em ordem à busca contínua da sua harmonia e aprofundamento qualitativo, como convivência corresponsável. Isso interessa à missão da Igreja, mas acreditamos que também é bom para o todo da sociedade.
Neste desígnio de encontro da Igreja de Lisboa com os diversos sectores da sociedade, avulta a importância do diálogo cultural, pela sua influência determinante no progresso e na harmonia da sociedade. De facto, acreditamos que o progresso das pessoas e das instituições só é possível através do aprofundamento cultural, em que todos os promotores culturais, todas as diversas expressões culturais se empenhem, através do diálogo, em objectivos comuns.
Parece-me indiscutível a conaturalidade entre a fé religiosa e a cultura; antes de mais porque, ao longo dos séculos, a fé religiosa foi factor decisivo de inspiração cultural; mas também porque o aprofundamento humano da dimensão religiosa não se fará, de maneira harmónica, sem profundidade cultural. No início deste terceiro milénio, o mundo, em processo de globalização, está a assistir a um recrudescer da importância do factor religioso como elemento decisivo na harmonia mundial. Nada é mais perigoso para a humanidade do que a afirmação do factor religioso sem profundidade e debate culturais. A religião sem dinamismo cultural cai facilmente em atitudes fundamentalistas.
Permito-me enumerar alguns aspectos que tornam urgente este diálogo cultural:
* A cultura exerce, na sociedade, a função de busca e de expressão do sentido da existência, individual e colectiva: o sentido da vida e da morte, da convivência, do progresso, da beleza, do amor. Não há comunidade humana sem perspectiva ética, e esta está necessariamente ligada à cultura. À busca do sentido está necessariamente ligada a expressão da fé cristã e a missão da Igreja. É que as próprias intuições evangélicas só adquirem densidade ética, ao nível social, quando encarnam em categorias culturais.
* As sociedades contemporâneas são cada vez mais plurais no que à cultura diz respeito: porque nelas convivem diversas culturas e diversificadas são também as expressões culturais e as abordagens do sentido da existência humana. Neste quadro, não haverá unidade da sociedade sem debate cultural. Numa sociedade em processo de redefinição da sua identidade, como considero ser a nossa, este diálogo cultural é necessário e urgente.
* Nos últimos séculos, no quadro do Ocidente cristão, o diálogo do religioso com a cultura debateu-se com a questão da racionalidade. O primado da razão lógica na Filosofia, e a metodologia positiva da ciência como caminho de busca do conhecimento e da verdade, levaram a dogmatismos da racionalidade pura, minando os fundamentos racionais da religião, enquanto abordagem meta-racional da realidade. Já Kant não conseguiu enquadrar a religião no âmbito da "razão pura", relegando-a para o campo da "razão prática" e Marx, não só retira à religião o lugar na definição da racionalidade social, mas considera-a mesmo anti-social e elemento negativo na construção dinâmica da História.
Estes dogmatismos da racionalidade pura minaram a importância cultural das expressões simbólicas e mesmo estéticas, enquanto abordagem da realidade. Na perspectiva cristã da cultura, a razão humana não conduz à fé revelada, mas enquadra-a, dando-lhe expressão adequada, no quadro de uma racionalidade abrangente. É o velho aforismo medieval: a fé não é "rationalis", mas é "rationabilis". A abordagem racional não esgota, nem pode anular, a abordagem simbólica e estética da realidade. Trata-se de procurar a harmonia entre a verdade e a beleza, entre a afirmação e a intuição, entre a posse e o desejo, entre a história e a meta-história.
No quadro actual do eclodir da importância do fenómeno religioso, que já referi, é tarefa de todos a busca de uma nova racionalidade, no contexto da mutação cultural.
Mas não quero antecipar, nem condicionar, a nossa troca de ideias. A Igreja está interessada em ouvir-vos, mesmo nas vossas interpelações. Por nosso lado, quero afirmar-vos o nosso interesse e respeito por todas as expressões culturais e por todos os agentes da cultura, mesmo quando a nossa apreciação for critica e dialéctica. Queremos, sobretudo, restabelecer pontes de diálogo entre a Igreja e as principais expressões da cultura contemporânea.
Mosteiro de São Vicente de Fora, 6 de Novembro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
SOLENIDADE DA DEDICAÇÃO DA SÉ CATEDRAL DE LISBOA
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
A Igreja é o templo do Deus vivo
no meio da Cidade"
1. Celebramos hoje a dedicação desta Sé como Igreja Mãe de Lisboa. A dedicação significa a consagração de um templo ao serviço do Senhor. Normalmente ela dá sentido sagrado a um edifício construído pela arte e engenho humanos. Mas neste caso tratou-se de consagrar ao culto cristão um templo muçulmano. Diz Veríssimo Serrão na sua História de Portugal: "No dia 1 de Novembro realizou-se a sagração da antiga mesquita, transformada em Sé Catedral, assistindo vários prelados e o Bispo de Coimbra, D. João Anaia".
Certamente por coincidir com a festa de Todos os Santos, a festa da Dedicação da Catedral não foi fixada no dia 1 de Novembro, mas em 25 de Outubro, dia da reconquista cristã da cidade de Lisboa. Este pormenor pode alargar, simbolicamente, o sentido desta festa. Não foi apenas a Catedral, mas toda a Cidade de Lisboa, que foi dedicada ao Senhor. Aliás a Catedral é o símbolo visível da unidade de toda a comunidade cristã, ela sim, o verdadeiro templo do Senhor. Esta Igreja chama-se Catedral porque nela está a Cátedra do Bispo, sucessor dos Apóstolos, garantia visível da vitalidade e da unidade da Igreja. Da sua Cátedra ele ensina, como mestre da fé; aqui ele congrega continuamente a Igreja, pela Palavra, para celebrar a fé e partir para a cidade, com o ardor das testemunhas e a generosidade da caridade. Ele fundamenta e sustenta a Igreja Diocesana. É assim que o Concílio Vaticano II define uma Diocese: "é uma porção do Povo de Deus, confiada a um Bispo para que ele, com a ajuda do seu presbitério, seja o seu pastor. Assim, a Diocese, unida ao seu pastor e por ele reunida no Espírito Santo, graças ao Evangelho e à Eucaristia, constitui uma Igreja particular, na qual está verdadeiramente presente e actuante, a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica" (C.D. n. 11).
2. Esta festa da Dedicação da nossa Catedral constitui uma interpelação, a mim que sou agora o seu Bispo, e a toda a comunidade para que seja essa Igreja viva, unida na caridade, fortalecida pelo Evangelho e pela Eucaristia, santa no esforço de fidelidade a Jesus Cristo e católica na sua abertura à cidade como um todo e no seu zelo apostólico.
As leituras da sagrada Escritura, agora proclamadas, abrem-nos para duas dimensões, tremendamente actuais, do meu ministério de Bispo e do crescimento da nossa comunidade diocesana: do mesmo modo que Jesus declarou ser Ele o verdadeiro templo, presença definitiva de Deus no meio do seu Povo, também a Igreja alicerçada em Jesus Cristo e a Ele unida, de modo a ser o Seu corpo, é, no meio da cidade, o templo vivo de Deus. Escutámos o Apóstolo Paulo: "Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" Em nós, Deus habita nesta cidade, encarnado em Jesus Cristo ressuscitado, continuamente presente na Igreja. Os homens e mulheres, nossos concidadãos, têm o direito de descobrir na Igreja sinais da presença do Deus vivo. Na vida das pessoas Deus não é uma conclusão, é uma experiência e ela começa, quase sempre, no convívio de pessoas que procuram Deus com pessoas que O encontraram e O glorificam, no concreto das suas vidas. A missão da Igreja na cidade não é só acção programada, é sobretudo, testemunho de vida. Porque somos o Seu templo, Deus protege a sua Igreja: "Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo e vós sois esse templo".
Sendo a Igreja esse templo onde Deus habita no meio da cidade, ela tem de ser uma casa aberta e acolhedora a todos os que procuram a verdade. É a mensagem do Profeta Isaías: todos, mesmo os estrangeiros, desejosos de viver em aliança com Deus, "hei-de conduzi-los à minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos".
Esta abertura da Igreja à cidade não pode ser, apenas, uma estratégia. Brota dessa intensidade de quem é o templo onde Deus habita. E Deus, no Seu amor, é abertura contínua a todos os que O procuram. A qualidade do nosso acolhimento deve corresponder à nossa capacidade de sermos testemunhas do Deus vivo. Quando nos dispomos ao diálogo sincero com os homens e mulheres de cultura, com os fazedores de opinião, com os políticos, com os organismos da sociedade civil, não temos uma estratégia de conquista ou de poder. Queremos ser apenas esse templo do Deus vivo, colocado no cimo da montanha, onde todos, os que sofrem, os que procuram, os que se interrogam, possam encontrar uma luz. É que o templo do Deus vivo tem de estar aberto a todos, pois todos podem, um dia, encontrar nele uma casa de oração.
Por isso encontro um simbolismo especial no facto de a festa da Dedicação da Catedral se celebrar no dia da reconquista da Cidade. A Igreja de Lisboa, se hoje não coincide com a Cidade, sabe que é, no meio dela, o templo do Deus Vivo, quer ser uma casa acolhedora, aberta a todos e a todos falará de Jesus Cristo. Não cubramos com o véu da nossa tibieza a glória de Jesus Cristo que habita na Sua Igreja e quer, a partir dela, atrair a Si todos os homens. "Eu quando for elevado da terra, atrairei todos a Mim".
Sé Catedral de Lisboa, 25 de Outubro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
DISCURSO DO CARDEAL-PATRIARCA À COMUNICAÇÃO SOCIAL SOBRE O ANO PASTORAL 2002-2003
Senhores Jornalistas,
Agradeço a vossa presença aqui, aceitando o nosso convite para um encontro, que se quer habitual, no início de mais um ano pastoral. Nenhum acontecimento particular o sugeriu, mas tão só o desejo de um diálogo habitual convosco sobre a vida da Igreja de Lisboa e a sua relação com a sociedade.
Interessar-se pela vida da Igreja não pode ser só o interessar-se pelo episódico ou extraordinário, mas sim pela normalidade da vida da Igreja. E é dessa "rotina" da vida da Igreja de Lisboa que vos proponho que falemos hoje. E dessa vida habitual da Igreja podemos considerar duas vertentes complementares:
1. As acções pastorais que se orientam para a vida interna da comunidade cristã. Nesse âmbito, do nosso programa pastoral para este ano, destaco alguns pontos:
1.1. Prioridade dada à Pastoral Juvenil. A juventude é o sector da sociedade mais sensível às mutações culturais; e, por isso mesmo, a pastoral orientada para os jovens exige revisão contínua e criatividade renovada. Convidei a Diocese, durante este ano, a uma reflexão aprofundada, sobre a pastoral juvenil. Objectivo: encontrar caminhos para anunciar Jesus Cristo aos jovens e proporcionar, àqueles que o quiserem, uma caminhada de aprofundamento da fé e de compromisso eclesial.
1.2. Particular atenção à Pastoral Vocacional: partimos de uma convicção central da nossa fé de que Deus é vivo, Cristo ressuscitado é vivo e conduz a sua Igreja e tem para ela e para cada crente um desígnio particular. Escutar a Palavra de Deus e perscrutar a Sua vontade e seguí-la, na obediência da fé e na generosidade da fidelidade, é o essencial de uma pastoral vocacional. À Igreja compete anunciar a Palavra de Deus, sobretudo através da meditação orante da Sagrada Eucaristia, ajudar no discernimento da Sua vontade para cada cristão e chamar em nome de Deus.
1.3. Congresso Internacional da Nova Evangelização: como é já do conhecimento público, a Diocese de Lisboa, em colaboração com as Dioceses de Viena de Áustria, de Paris e de Bruxelas, está empenhada na realização de um Congresso Internacional sobre a Nova Evangelização. É seu objectivo estudar e experimentar caminhos novos para a evangelização das grandes cidades. O Congresso terá dois momentos complementares: o estudo e a reflexão e a missão na cidade. O Congresso está já em curso, pois teve a sua abertura solene no passado dia 4 de Maio em Viena, onde se realizará a primeira sessão na primavera de 2003. Embora a sua realização em Lisboa esteja prevista só para 2005, a dinâmica do Congresso já arrancou, também entre nós. Depois de mais de um ano de trabalho da Comissão Diocesana para esse efeito nomeada, entramos agora numa fase importante de ver quais as paróquias onde vai acontecer a missão urbana e quais as forças eclesiais, estruturas e Movimentos, que se vão empenhar nela. O Congresso poderá, aliás, produzir como fruto intra-eclesial a experiência da convergência unificadora da multiplicidade de organizações eclesiais na mesma missão.
Durante este ano de 2003 tenho a esperança de poder contar com a participação dos três Cardeais-Arcebispos das outras Dioceses empenhadas no Congresso, proferindo cada um deles uma conferência em Lisboa. Neste momento está já confirmada a vinda do Arcebispo de Viena, Cardeal Christoph Schonborn, durante o mês de Fevereiro.
1.4. Visita Pastoral à Vigararia de Amadora. A vigararia da Amadora inclui todas as paróquias do Concelho da Amadora e algumas do Concelho de Sintra, desde Mira-Sintra até Belas e Queluz. A visita pastoral organizada é a expressão pastoral de uma realidade teológica: o Bispo é o pastor de toda a Diocese. E para além do esforço de a estruturar e governar, é seu dever visitar as comunidades cristãs, para que elas sintam próximo o seu Bispo, possam partilhar os seus problemas e com ele celebrar a fé. É um programa que me empenhará de Janeiro a Junho, em que, para além do encontro com as comunidades, privilegiamos alguns sectores para um trabalho específico, tais como os jovens, e os diversos agentes de pastoral.
1.5. A continuidade do Congresso Nacional da Família. Este Congresso realizou-se em Lisboa de 11 a 13 de Outubro. Está-se agora na fase de recolha do material, que será objecto de estudo por parte da Conferência Episcopal Portuguesa. A Diocese de Lisboa está determinada, através do seu Departamento da Pastoral Familiar, a dar seguimento a todas as linhas de força que daí surgirem. A visão cristã da família é um ideal a propor aos casais cristãos e é possível realizá-lo com a força de Deus e a ajuda da Igreja. Que ninguém considere ultrapassada a visão cristã do matrimónio, nem esteja à espera que a Igreja o altere, forçada pelas mutações culturais. Deixem-nos acreditar nas nossas "utopias".
2. A missão da Igreja no horizonte mais vasto da sociedade e da internacionalidade.
2.1. Não esqueceremos a missão da Igreja na cidade. É sua missão contribuir com a sua mensagem para a elaboração do sentido ético da sociedade. Tem, por missão específica, uma predilecção particular pelos pobres e pelos que sofrem, mas não deixará de intervir, na especificidade da sua missão, nos momentos importantes da vida da sociedade.
Este aspecto da missão da Igreja não é, facilmente programável, pois é sugerido pelos acontecimentos e problemas. Mas posso exemplificar com acções programáveis.
* Encontro com personalidades do mundo da cultura. Realiza-se no dia 6 de Novembro e vem no seguimento de um conjunto de iniciativas levadas a cabo pelo nosso Departamento da Comunicação e da Cultura.
* Uma tomada de posição, no momento actual de debate sobre a legislação do trabalho. Este aspecto da acção da Igreja situar-se-á no âmbito da Conferência Episcopal Portuguesa. Não é nossa intenção entrar no debate substantivo sobre o concreto do Projecto de Lei, mas sim iluminar toda esta problemática com a doutrina social da Igreja, na consciência da especificidade da nossa missão e de que a legislação do trabalho é apenas um elemento de uma problemática mais vasta, que diz respeito à construção de uma sociedade cada vez mais justa e de uma visão da economia e do desenvolvimento, verdadeiramente ao serviço da pessoa humana.
* Anuncia-se, como provável, um novo debate sobre o alargamento da despenalização do aborto. Este é, na nossa sociedade, um drama que a todos preocupa e faz sofrer. Estaremos do mesmo lado de sempre, o da defesa da vida. Estamos convencidos, e a ciência dá-nos razão, que o embrião humano é um ser humano, desde o início da sua existência e, portanto, com direito à vida.
Surgiu, nos últimos dias, no debate sobre esta questão, uma tomada de posição original: a de que o aborto só é problema de consciência para as pessoas que decidem, ou não, fazer, aceitar ou colaborar no aborto. Que do ponto de vista legal não é um problema de consciência, mas simplesmente um problema político.
É claro que é no drama da hipótese do aborto que a exigência da consciência pessoal se apresenta com toda a sua densidade. Mas o Estado, enquanto pessoa moral, não tem consciência? Não é ainda o Estado uma "pessoa de bem?". Não se rege o Estado por valores éticos na elaboração das Leis e na gestão da coisa pública? Não é a política regida por princípios éticos?
2.2. A participação em instâncias internacionais da Igreja.
Participei, há duas semanas, em Sarajevo, na reunião anual da CCEE (Confederação das Conferências Episcopais da Europa). É uma visão alargada dos problemas da Igreja, do Atlântico aos Urais. O comunicado final deste encontro foi posto à vossa disposição.
3. Uma nova Catedral para Lisboa.
Dado o aparecimento de notícias, nem sempre completamente exactas, sobre esta questão, quero dizer-vos uma palavra sobre o estado actual deste projecto.
Como é do conhecimento público, trata-se de um projecto com mais de 20 anos. Está mesmo elaborado, há vários anos, o programa que serviria de base ao concurso de arquitectura. Como é do conhecimento público, a localização decidida pelo meu antecessor, o Senhor Cardeal Ribeiro, foi o alto do Parque Eduardo VII, onde a Igreja adquiriu um terreno para esse efeito.
Logo no início da minha missão pastoral como Patriarca de Lisboa, aceitei reexaminar, quer o programa, quer a localização, baseando-se nos seguintes critérios:
- Uma Catedral do séc. XXI deveria enquadrar-se na Cidade Nova.
- A Catedral deverá servir de paroquial para uma zona nova, dispensando a construção de mais uma Igreja.
Em diálogo com a Câmara Municipal de Lisboa, que apoiou estes critérios, foi apontada como primeira hipótese de localização a urbanização "Nova Lisboa", na Murjeira. O actual Presidente da Câmara propôs-me não considerar esta solução como definitiva e procurar uma localização na zona oriental da cidade, garantindo a relação da nova Catedral com o rio. A zona do "Parque das Nações" é, neste momento, a hipótese em estudo. Nenhuma solução está encontrada e, muito menos decidida.
Patriarcado de Lisboa, 18 de Outubro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Conferência Internacional
"Globalização - Ciência, Cultura e Religiões"
INTERVENÇÃO DO CARDEAL PATRIARCA
Globalização e Religiões
1. Abordar o tema do papel das religiões no fenómeno da globalização, é acentuar a importância da cultura neste processo de unificação da humanidade como uma única família humana. Não quero, com isto, significar, que a religião se identifica com a cultura, mas verificar a importância decisiva das religiões no caldear das culturas, introduzindo-lhe uma componente decisiva: a referência do homem ao transcendente.
A importância da mediatização do mundo contemporâneo no processo da globalização acentuaria, em princípio, a importância decisiva da cultura nesse processo. Como tudo na história, também o processo de globalização é dialéctico. A humanidade está hoje perante um dilema: ser avassalada por uma globalização mecanicista, ao ritmo dos mercados e da assimetria dos processos económicos e dos ritmos de desenvolvimento, com acentuação das clivagens e das injustiças, ou lutar por uma globalização com sentido, cujo ritmo seja marcado pelas culturas. A globalização só significará um progresso qualitativo da humanidade, se a dimensão cultural lhe marcar o ritmo e desvelar o sentido. Não haverá globalização digna do homem sem primazia da cultura; nenhuma cultura será capaz de garantir o sentido positivo da globalização, se não valorizar o factor religioso.
Dada a pluralidade e especificidade das diversas culturas e religiões, um dinamismo se revela essencial no processo de globalização: o do diálogo inter-cultural e inter-religioso. É uma perspectiva que faz, timidamente, o seu caminho vencendo obstáculos aparentemente intransponíveis: a dimensão étnica das culturas e das religiões; a identidade dos povos ligada às tradições culturais e religiosas; o carácter irredutível da dimensão dogmática das religiões e das culturas; as tentações sincretistas, que geram mecanismos de defesa e afirmações fundamentalistas; o desvirtuar da pureza das religiões, manipulando-as para objectivos políticos ou económicos.
Mas nenhuma destas dificuldades pode impedir o diálogo, que terá por base o respeito e o conhecimento mútuos, na valorização de valores comuns. Ao nível da dimensão ética que tece o sentido do homem e da história, vai-se decantando uma espécie de "universal humano", que sublinhará a relação entre religião, cultura e criação, frente ao qual cada religião é chamada a um aprofundamento que lhe alargue o horizonte e busque a radicalidade. A construção deste "universal humano" não se fará à custa de sincretismos descaracterizantes, mas sim do reconhecimento mútuo de valores fundamentais.
O processo da globalização é também um dinamismo de mutação cultural e o diálogo inter-religioso é um bom caminho para as religiões entrarem nesse processo de transformação das culturas.
2. Queria ainda referir um outro elemento, interessante de analisar, no processo de globalização: a relação entre esta e a busca da universalidade. O sentido da universalidade está presente nas grandes religiões do mundo. Eu tenderia mesmo a considerá-lo constitutivo da autêntica religião. Quando uma fé religiosa se considera decisiva para o destino do homem, é natural que ela se considere decisiva para todos os homens. É, aliás, este dinamismo de universalidade, que fundamenta o sentido de missão e de anúncio da própria fé.
No judeo-cristianismo, tradição religiosa que conheço melhor, esta dimensão de universalidade é constitutiva da própria fé. Já no Génesis Deus celebra com Noé uma Aliança com toda a Humanidade e o arco-íris será o seu sinal (cf. Gen. 9,8-17). O Profeta Isaías proclamará a vocação de universalidade da fé de Israel: "Sucederá, nos dias que hão-de vir, que o monte do Templo do Senhor se há-de erguer no alto das montanhas e ficará acima das colinas. Ali acorrerão todas as nações, ali irão ter povos sem número" (Is. 2,2-3). E as últimas palavras de Jesus aos seus Apóstolos sublinham a universalidade da salvação que Ele realizou: "Ide e de todas as nações fazei discípulos" (Mt. 28,19).
Este sentido de universalidade religiosa pode ter grande importância no processo cultural da globalização, pois trata-se de um dinamismo de igualdade fundamental de todos os homens, porque toda a verdadeira mensagem religiosa é um anúncio de salvação e de fraternidade, na construção da harmonia, da justiça e da paz. Mas também este dinamismo de universalidade encontra dificuldades na fase actual da humanidade, quando as diversas mensagens de universalidade se chocam ou entram em concorrência. A harmonia deste dinamismo exige a afirmação e a prática da liberdade de religião. Quando uma religião é proibida, significa que uma outra é imposta, em nome de interesses vários: a unidade do Estado, uma visão unilateral de tradição cultural, a defesa da própria religião. A afirmação do princípio da liberdade religiosa não contradiz o direito de uma sociedade valorizar a harmonia, consolidada na tradição, entre uma determinada religião e a cultura de um povo. Mas concilia com esse direito o respeito pela liberdade das pessoas e afirma a sua dignidade fundamental. Seria importante que os responsáveis políticos pelas Nações, no diálogo global, hoje inevitável, relativizassem o princípio da "real politique", e não se regessem apenas por interesses económicos, mas introduzissem como assunto das relações bilaterais e multilaterais a defesa destes princípios fundamentais de afirmação da dignidade humana.
3. Mas vós não viestes aqui só para me ouvir a mim. Mais do que falar, a minha função aqui é fazer falar. Tenho a alegria de vos apresentar os verdadeiros intervenientes deste painel.
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 15 de Outubro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
"A Imagem da Igreja"
Homilia na celebração litúrgica da Virgem Maria, Imagem e Mãe da Igreja
Peregrinação Nacional das Famílias
Queridos Peregrinos,
1. Neste dia em que as famílias portuguesas se fizeram peregrinas, estamos a celebrar a festa litúrgica da "Virgem Maria, Imagem e Mãe da Igreja". Imagem viva da Igreja comunhão também a família cristã é chamada a sê-lo. Estamos, assim, perante duas imagens da Igreja enquanto comunhão dos Santos: Maria, a filha predilecta do Pai, a esposa-mãe do Verbo e templo do Espírito Santo e, por isso mesmo, Mãe da Igreja comunhão, e a família, experiência de comunhão de amor, símbolo da aliança de Deus com o seu Povo e do amor de Cristo pela sua Igreja, sacramento de salvação como a própria Igreja o é, lugar privilegiado do amor e da adoração. Somos chamados a contemplar três expressões da encarnação do amor divino que é comunhão de pessoas: Maria, a Igreja, a Família.
Jesus anunciou este mistério de comunhão na promessa feita aos discípulos, a propósito da oração: "Também vos digo, se dois de vós, na terra, unem as suas vozes para pedir seja o que for, isso ser-lhes-á concedido por Meu Pai que está nos Céus. De facto se estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles" (Mt. 18,19-20).
A leitura dos Actos dos Apóstolos narra-nos a primeira vez que os discípulos não se reuniram com Jesus fisicamente presente - Ele acabava de subir aos Céus - mas em nome d'Ele; e pela primeira vez Jesus cumpriu abundantemente a Sua promessa, tornando-se intensamente presente, através do dom do Espírito Santo. Essa reunião constitui a primeira imagem histórica da Igreja: os discípulos reunem-se em nome de Jesus, para rezarem a Deus Pai, movidos pelo dom do Espírito, que de todos eles faz um só, com a força da caridade. E Maria, qual semente do tempo novo, estava fisicamente presente nessa primeira concretização histórica da Igreja comunhão. Também ela congregada pelo Espírito, em nome de Jesus, aparece-nos como o ícone da própria Igreja, pois ninguém como ela é capaz da comunhão de amor. Estar ali, com os discípulos de Seu Filho, é fidelidade do seu amor maternal ao próprio Filho; a partir daquele momento, para ela, ser Mãe de Jesus é ser Mãe da Igreja. Jesus tinha-lhe anunciado esse desígnio, essa nova etapa da sua missão: "Mulher eis o teu filho" (Jo. 19,26).
Esta participação de Maria na primeira experiência de comunhão eclesial, selada com o dom do Espírito, ajudou a Igreja nascente a fazer dessa reunião em nome de Jesus, uma celebração da Sua Memória. É que estar reunido em Seu nome significa, necessariamente, estar com Ele no momento decisivo da Sua missão: a Páscoa. O Espírito Santo como força de Deus e Maria como ícone da Igreja, ajudam esta a centrar definitivamente a sua reunião na memória da Páscoa: "Fazei isto em Minha memória". A Eucaristia reúne a Igreja, a Eucaristia faz a Igreja, a Eucaristia ajuda a Igreja peregrina a alegrar-se já com o banquete eterno.
2. Essa promessa de Jesus de estar no meio daqueles que se reúnem em Seu nome, encerra o mistério da família cristã e por isso ela é, como Maria, ícone da Igreja comunhão de amor.
Reunidos em nome de Jesus! A celebração do sacramento do matrimónio constitui uma etapa completamente nova na união de um homem e de uma mulher que começaram a amar-se com a força da "carne e do sangue" (cf. Jo. 1,13). Unidos a Cristo pelo baptismo, numa comunhão de fé e de amor, quando decidem unir-se um ao outro numa comunhão de vida e de amor, Cristo quer estar no meio deles, sempre e para sempre, e só não estará se O puserem fora ou não Lhe abrirem a porta. Por força do seu baptismo, a comunhão conjugal do homem e da mulher cristãos, tende a ser, por vontade de Jesus Cristo, uma comunhão a três, porque comunhão com Jesus Cristo. E o Senhor participa na especificidade do seu amor esponsal, pois também Ele ama a Igreja como uma esposa (cf. Efs. 5,25).
Que força esta comunhão de amor com Cristo pode trazer ao amor conjugal; é que só o amor esponsal de Cristo pela Igreja encaminhará os cônjuges cristãos na descoberta progressiva da riqueza e do sentido do seu amor esponsal. Desde aquele momento em que Cristo santificou o seu amor, os esposos cristãos são chamados sempre a reunir-se, para se unir, em nome de Jesus: a reunir-se na sua intimidade de ternura; a reunir-se para rezar, para apresentarem ao Pai, em nome de Jesus, as suas preces; a reunirem-se na refeição fraterna; a reunirem-se nos projectos e nas missões comuns, nas lutas da vida, na solicitude de pais, na vitória sobre as provações e os sofrimentos. Reunidos para estarem unidos, pois em todos esses momentos eles realizam o seu amor esponsal, sendo um em Cristo e com Cristo.
Reunidos em nome de Jesus, eles reúnem-se "em Sua memória". A dimensão pascal do matrimónio, é a força do seu mistério escondido e a Eucaristia pode tornar-se a reunião decisiva da família, momento de renovação da sua aliança matrimonial ao ritmo da aliança de Deus com o seu Povo, festa das núpcias celebrada sempre de novo, aproximando-se em cada dia mais das núpcias eternas. A Eucaristia é o centro da família cristã, porque o é da Igreja; é que a família é imagem da Igreja, é a "Igreja doméstica".
3. Mãe e Imagem da Igreja, Maria é o ícone da família cristã. Nova Eva, ela é a Mãe de todos os que renasceram em Cristo. Nela foi definitivamente vencida a maldição de Eva e restabelecida a dignidade da mulher. Segundo a primeira leitura, no Livro do Génesis, foi dito ao demónio: "Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela" (Gen. 3,15). Maria é o anúncio jubiloso da dignidade da mulher na nova ordem da graça. Ela, a seduzida pelo demónio, vilipendiada pelo egoísmo e, tantas vezes, pela violência; ela, tantas vezes estigmatizada na sua fragilidade e considerada, injustamente, causa do pecado, aparece-nos triunfante, qual rainha saíndo do seu tálamo, ornada de virtudes, jubilosa na sua grandeza, terna na sua doçura. Ela a fraca, é agora o anjo protector; ela a sedutora, tornou-se na inspiração da generosidade, do sacrifício e do dom. Rainha da família, a mulher cristã é a mulher forte elogiada pelos livros sapienciais, a expressão da ternura, a afirmação da coragem, a defensora da comunhão. A mulher esposa e Mãe ocupa na família cristã o lugar que Maria ocupa na Igreja. Que Maria envolva hoje na ternura maternal do seu coração de mulher todas as famílias de Portugal e, de modo particular, as que se fizeram peregrinas do seu Santuário.
Santuário de Fátima, 13 de Outubro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
"A Família no futuro do Mundo e da Igreja.
A missão da Família Cristã"
Conferência no Encerramento do Congresso Nacional da Família
Lisboa, 12 de Outubro de 2002
1. Com o título prometido no programa esperam certamente de mim uma palavra de esperança e de perspectiva pastoral. A situação da família na Igreja e a missão da família no mundo são dimensões interdependentes. A missão da família cristã no mundo, não é separável da missão da Igreja na sociedade. A família só será uma realidade irradiadora do Reino de Deus se ela for uma realidade eclesial viva, fortemente marcada pela ousadia do Espírito e atravessada pela exigência da santidade cristã. A tibieza das famílias cristãs enfraquecerá a Igreja como sacramento de salvação e sinal do Reino.
Por isso, antes de abordar a missão da família cristã no mundo contemporâneo, parece-me necessário considerar as relações mútuas entre a família e a Igreja.
I - A Igreja e a Família.
2. A família, com as características essenciais que ainda hoje a definem, não é uma "invenção" do judeo-cristianismo. Ela constitui um dado estrutural da antropologia da criação. Na harmonia do universo, que preside a todo o seu processo evolutivo, o fenómeno humano surge como clímax de todo o processo e revela-se como a fonte de sentido de toda a evolução do universo. O homem desvela o segredo do sentido do cosmos; o homem, desde o seu aparecimento no processo da criação, revela-se com uma centralidade que dá sentido a todas as coisas.
Este "fenómeno humano" manifesta-se na bipolaridade sexuada do homem e da mulher e também neste aspecto o ser humano dá sentido a toda a vitalidade do universo. Homem e Mulher Ele os criou (Gen. 1, 27). Segundo a Bíblia, o homem criado à imagem de Deus é homem e mulher: dois indivíduos, um único ser humano, chamados à unidade que exprime e anuncia a vocação de unidade e harmonia do próprio cosmos.
Esta unidade procurada insere-se na busca progressiva da perfeição da criação, não é uma "fusão" com a perda da identidade dos sujeitos desta busca de unidade, mas uma comunhão, onde cada um mantendo a sua individualidade, a reconhece continuamente na relação com o outro. No par humano, o ser humano afirma-se como relacional, isto é, alguém que se descobre e constrói na relação com o outro. Sem anular o indivíduo este torna-se pessoa, porque encontra a sua verdade na relação.
Esta unidade relacional do homem e da mulher, que na sua complementaridade física e espiritual garantem a reprodução da espécie, mostra-se decisiva para a harmonia da criação, é o núcleo fundamental da vocação comunitária da humanidade e, por isso mesmo, sua célula fundante e fundamental. Fonte de sentido para toda a criação, esta unidade primordial alia a força da natureza com o sentido que lhe vem do espírito, afirmando, desde o início, a dimensão cultural e espiritual como componente essencial de toda a comunidade humana. Com a força da natureza, pode haver complementaridade física e reprodução da espécie; mas só haverá comunidade de pessoas com dimensão cultural e espiritual, que vai encontrar uma expressão decisiva na dimensão religiosa, ou seja, da comunhão com Deus, que se reconhece como Criador.
3. O judeo-cristianismo é o quadro religioso e cultural em que nos situamos. Ele não fundou a família como comunidade primordial, mas enriqueceu-lhe o sentido, desvelou-lhe o mistério, definiu-lhe o horizonte de perenidade e de eternidade. O "fenómeno humano" é o ponto de partida da revelação religiosa, mas esta supera-o porque lhe desvela o sentido definitivo. Toca-se a dimensão humana de Deus e a dimensão divina do homem. E é na comunidade primordial do homem e da mulher que se intui este encontro fundamental do humano e do divino. "Deus criou o homem à Sua imagem, homem e mulher Ele os criou" (Gen. 1, 27).
O diálogo entre Deus e o homem radica na criação do ser humano como dinamismo de relação e desafio de comunhão. No progresso desse diálogo revelador, Deus acabará por se manifestar como sendo Ele Próprio uma comunhão de Pessoas, onde a unidade do amor não compromete a individualidade dos sujeitos. E percebe-se, então, como um Deus comunhão de Pessoas só podia criar à Sua imagem, ou seja, só podia criar um ser humano que se afirmasse mais pela comunhão inter-pessoal do que pela individualidade dos sujeitos. Sobre a comunidade primordial do homem e da mulher brilha agora a luz da comunhão trinitária e a participação divina do ser humano expressa nessa comunhão. Criou-os à Sua imagem.
Esta imagem divina é, no ser humano, uma marca relacional e uma exigência de comunhão, que traz o gérmen de uma outra expressão maior desta vocação de comunhão: a possibilidade de entrar em comunhão com Deus. Percebe-se então que Deus criou porque queria alargar a Sua experiência de comunhão de amor e esse é o grande desafio que faz continuamente ao homem, na proposta de aliança. E o homem pode acolher e perceber essa proposta de aliança, porque na comunhão primordial homem e mulher ele traz a marca de uma vocação de aliança e de comunhão. Não é apenas uma expressão poética quando, através dos autores sagrados, Deus explica o Seu desejo de aliança com a humanidade, comparando-a à aliança primordial do homem e da mulher. E mesmo nessa etapa da revelação, que parece decisiva e inovadora, está-se apenas a explicitar o sentido profundo da aliança primordial do homem e da mulher.
4. Quando a vocação humana de comunhão, expressa desde a origem na comunhão do homem e da mulher, assume claramente a sua dimensão de transcendência na proposta divina de aliança com o Povo escolhido, a vida relacional dos homens e das mulheres vais ser interpelada por um duplo dinamismo: o de serem seres em relação e de fazerem comunhão entre si - é o dinamismo da comunidade - e de encontrarem na relação de aliança que Deus lhes propõe a força que lhes permite aprofundar continuamente a experiência comunitária; e tomarem a sério a aliança, fazendo comunhão com Deus, saboreando desde já as primícias da definitiva comunhão, no Reino definitivo.
Estes dois dinamismos entrecruzam-se na realidade concreta da vida do povo crente. A experiência de comunhão entre humanos pode ter a densidade da comunhão de aliança com Deus. Todas as verdadeiras experiências de comunidade integram a densidade da aliança, encontram nela a força que as faz crescer e a garantia da sua plenitude. Mais uma vez a família, comunidade primordial, aparece como experiência nuclear deste processo. A comunhão do homem e da mulher pode caminhar para a sua perfeição, porque Deus faz parte dessa comunhão. Comunidade natural, a união do homem e da mulher encontra na Palavra de Deus a luz que a guia pelos caminhos do amor. Comunhão de pessoas com a força de Deus, torna-se caminho e sinal da comunhão com Deus e gérmen da comunhão alargada no Povo de Deus.
Radica aqui a possibilidade de a comunhão conjugal ser sacramento da graça e da edificação da Igreja. Está encontrada a convergência inevitável entre a família comunhão e a Igreja comunhão. O amor de Cristo pela Igreja torna-se o modelo inspirador do amor dos esposos. Os maridos devem amar as suas esposas como Cristo ama a Igreja (cf. Efs. 5). Situar a comunhão familiar no âmago da comunhão eclesial revela o verdadeiro sentido da comunhão conjugal. A revelação do amor do Deus comunhão, desvela o sentido da criação. A graça plenifica a natureza.
5. Este horizonte da graça que plenifica a natureza constitui o pano de fundo doutrinal que orienta toda a acção da Igreja em relação à família cristã. E metodologicamente permito-me, antes de tratar de questões pastorais propriamente ditas, enumerar em síntese os pontos principais da doutrina cristã sobre o casamento e a família.
* O cristianismo não introduz na consideração da família alterações ontológicas na antropologia da família; antes adopta a antropologia da criação explicitando-lhe a dimensão transcendente, oferecendo-lhe uma força de autenticidade e plenificação e enquadrando-a no contexto religioso da aliança.
* A família é uma comunidade de pessoas, radicada na comunhão do homem e da mulher; a diferenciação e a complementaridade dos sexos é um elemento antropológico fundamental na compreensão cristã da família, porque o "humano" é homem e mulher e porque a procriação é elemento constitutivo do ideal familiar. Nenhuma espécie de abertura ou de adaptação aos tempos poderá levar jamais a Igreja a considerar como família as uniões entre pessoas do mesmo sexo.
* A família é uma comunhão de amor. A unidade procurada não é "fusão" mas comunhão de pessoas, exprime-se também pelo corpo, mas é união espiritual. Só o amor dá sentido à sexualidade humana.
* Esta comunhão é expressão da caridade e é possível com a força do Espírito Santo. A graça da comunhão recebida pelos esposos cristãos é um dom baptismal e é a mesma graça oferecida a todos os baptizados para que sejam comunhão, em Igreja.
* A união conjugal, sendo por natureza da ordem da comunhão de amor, tornou-se, em Cristo, sinal sacramental da graça eclesial.
* Como toda a experiência cristã, a união conjugal anseia por uma plenitude final. A dimensão escatológica do matrimónio confunde-se com a dimensão escatológica da Igreja.
A Família como alvo privilegiado da acção pastoral da Igreja. 6. A acção pastoral da Igreja em relação à família parte deste mistério perene da família. Trata-se de lhe revelar o seu mistério e de a ajudar a encontrar a sua plenitude. Não se pode pedir à Igreja que na sua acção pastoral renuncie a esta dimensão perene, que lhe foi apenas dada e revelada.
A Igreja terá, certamente, em conta as circunstâncias mutáveis da família, mas não pode mudar a sua compreensão do mistério da família, ao ritmo das mutações culturais e sociológicas. É sua missão, isso sim, ajudar as famílias cristãs a situar-se nessas mutações, com discernimento e coragem para viverem o mistério de sempre nas condições concretas do mundo de cada tempo.
Indicarei agora algumas características fundamentais da acção pastoral da Igreja em relação à família, aquilo que vulgarmente se designa pela expressão "pastoral familiar".
7. É uma pastoral baptismal. O baptismo é o fundamento do matrimónio cristão. Chamados, pela fé e pelo baptismo, à comunhão de caridade, em Igreja, por Jesus Cristo, não teria sentido que os esposos cristãos vivam a sua experiência primordial de comunhão, fora da exigência desta comunhão, em Igreja, caminho da santidade cristã. Trata-se, pois, de uma pastoral da fé, da esperança e da caridade, descobrindo progressivamente a novidade cristã na maneira de viver. É familiar porque toda a acção pastoral da Igreja integra e tem em conta as circunstâncias concretas da vida de cada cristão e de cada comunidade. Toda a acção pastoral se situa na perspectiva do mistério da encarnação.
É por isso que a Igreja, ao longo do seu caminhar no tempo, chegou à formulação jurídica do princípio que, entre cristãos, o único matrimónio válido, é o sacramento do matrimónio. Em circunstâncias, como as actuais, em que um grande número de baptizados, não fizeram uma iniciação cristã e não têm uma fé vivida, esta equação entre baptismo e sacramento traz problemas pastorais acrescidos. Um maior rigor na admissão dos nubentes ao matrimónio sacramento não é solução evidente. Exceptuando circunstâncias graves, não é justo negar o matrimónio religioso a dois nubentes baptizados que o pedem sinceramente. Temos de os ajudar a descobrir a verdadeira dimensão daquilo que pedem. Por mais difícil que isso seja na prática, o momento do pedido do casamento religioso pode ser aproveitado como momento de anúncio querigmático da pessoa de Jesus Cristo.
8. Esta circunstância põe em realce uma outra característica desta pastoral específica: como toda a pastoral baptismal deve ter um ritmo catecumenal. Trata-se de uma caminhada em que se aprofunde e experimente a riqueza do baptismo, a comunhão com Jesus Cristo, em Igreja, descobrindo a beleza da comunhão fraterna, iniciando-se na oração, e aceitando a novidade da moral cristã, porque se descobre que a comunhão com Cristo transforma todas as expressões da nossa vida.
A preparação para o matrimónio deveria ter o ritmo de uma caminhada catecumenal. Só intuindo e saboreando a novidade cristã os noivos se preparam para o casamento, pois só essa descoberta prepara para a vida da Igreja, como caminho de santidade. Mas mesmo depois do matrimónio celebrado, os casais deveriam, durante um tempo, aceitar continuar essa caminhada catecumenal, sobre a orientação do seu Bispo.
9. É uma pastoral comunitária. Trata-se de fazer descobrir a dimensão de comunhão de toda a vida cristã, em Igreja e a sua concretização nas diversas formas de vivência comunitária, entre as quais a família é a primeira, embora não a única. Toda a comunidade eclesial de aprofundamento da fé, que passa por Movimentos, grupos de Catequese de Adultos etc, deve ter ritmo e pedagogia comunitários, convergindo todos para a Eucaristia, principal expressão da comunhão eclesial. Na Igreja as pessoas individuais descobrem o sentido da vida na participação comunitária. A família não pode ser só o contexto em que os indivíduos crescem e encontram a própria felicidade. A sua grande riqueza, que é também a sua maior exigência, está na experiência comunitária. E em comunidade os indivíduos se não contribuem para a felicidade dos outros, também não constroem a própria felicidade.
10. É uma pastoral em ritmo pascal. Só participa na ressurreição de Cristo quem O segue, abraçando corajosamente a própria cruz. O mito da facilidade, da felicidade ao alcance da mão, enfraqueceu a família como espaço de fidelidade e de luta. A capacidade de amar, sofrendo, e a generosidade do perdão são atitudes cristãs essenciais à solidificação da família cristã como comunidade de amor. A família só resiste na coragem da luta, na generosidade do perdão, na resistência à tentação.
No ritmo de uma família interpenetram-se os desejos de radicalidade e a sabedoria da gradualidade. Mistério grandioso de graça, alicerçado na Páscoa de Cristo e fortalecido pelo dom do Espírito, deve ter como horizonte a radicalidade da santidade. Aventura de homens frágeis e pecadores, devem ter a humildade de não desanimar nos seus fracassos, pois o que parece humanamente impossível, torna-se possível com a força de Deus. Só o confundir o pecado com a virtude e as situações de fragilidade com a normalidade leva os esposos a fechar-se à esperança de um futuro novo. E como em toda a vida cristã, só a esperança permite que não se cave um fosso entre a fé e a caridade.
II - A Família na Igreja.
11. Para que toda a Igreja cresça como experiência de comunhão, é prioritário ajudar as famílias a serem experiências de comunhão de vida e de amor. Não só os casais se devem ajudar uns aos outros nesta construção da comunidade familiar, mas todos os outros agentes de pastoral, sobretudo os sacerdotes, os religiosos e religiosas e outras pessoas consagradas, devem dar prioridade a este objectivo pastoral, eu diria mesmo, devem deixar-se devorar por esta paixão de ajudarem as famílias a ser o que Deus quer que elas sejam. Aí se manifestará a complementaridade dos carismas na Igreja, porque a vocação cristã fundamental é comum a todos: ser comunhão, em Jesus Cristo, na caridade.
Aliás este reforçar da família como comunidade de fé e de amor é, em última análise, o objectivo das principais áreas da acção pastoral da Igreja. Quando se dá catequese às crianças e aos jovens, quando se cuida, com particular solicitude, das pessoas idosas, quando investimos na Escola Católica, estamos a colaborar com a família e a contribuir para a sua solidez como comunidade de vida. A família precisa de ser ajudada pela Igreja a ser comunidade, pois quanto mais ela o for, mais a Igreja toda o será, e a Eucaristia, grande expressão da Igreja comunhão, será cada vez mais a oferta da vida real dos seus filhos.
12. Será a família, enquanto tal, um agente de acção pastoral? É preciso ter em conta que a família pode ser, em si mesma, um espaço de irradiação apostólica. A família comunidade, que é continuamente repassada pelas exigências do Reino de Deus, é semente desse Reino.
Os membros dessa família que se empenham na acção apostólica, dentro da Igreja ou no meio do mundo como construtores de uma sociedade mais justa e fraterna, testemunham a força de vida que recebem da família. É difícil a uma pessoa casada viver profundamente o ritmo de comunhão, em Igreja, se não o vive na própria família. A Igreja não pode ser só um refúgio, embora por vezes o seja, como família onde se sentem reconhecidos e amados aqueles que não encontraram o amor.
Quando cada membro de uma família se insere profundamente na Igreja como comunhão, transportará para o seio da família essa experiência como semente da comunhão. Não é só a Igreja que recebe dinamismo de comunhão a partir da família; esta também é continuamente enriquecida pela experiência eclesial dos seus membros. A presença da família na Igreja, ajuda esta a ser uma grande família, onde todos são irmãos porque têm a Deus como Pai; mas a experiência de comunhão eclesial interpela continuamente as famílias a serem comunhão de vida e de amor.
III - A Família Cristã no mundo contemporâneo.
13. Quando falo de mundo contemporâneo falo, de modo particular, das sociedades Ocidentais, que melhor conhecemos e sentimos e onde estamos inseridos, embora aquilo que é perene da família cristã como sinal de um mundo novo seja válido para todos os quadrantes culturais.
Todos estamos conscientes de que o actual ambiente cultural não facilita a vida à família cristã. Esta para permanecer fiel e ser sinal, trava continuamente uma luta, como quem nada contra a corrente. Se resistir, fortalece-se; mas a fidelidade tornou-se mais exigente.
Sem a preocupação de ser exaustivo, indicarei alguns traços dessa cultura ambiente e as repercussões que têm sobre a família.
* A prioridade do indivíduo sobre a pessoa e a comunidade. A própria sociedade é concebida como um conjunto de indivíduos, com direitos e deveres regulados pela Lei e raramente se fala da dimensão comunitária da sociedade, que no entanto é o verdadeiro princípio da sua humanização.
Uma família concebida apenas como conjunto de indivíduos, com direitos e deveres, que não aprendam a encontrar o sentido da sua liberdade no dom de si mesmo aos outros, está ferida de morte como comunidade de vida e de amor. A infidelidade pode aparecer como um direito, a vida não partilhada uma afirmação da privacidade individual, e o divórcio a maneira de resolver conflitos.
* Uma visão funcional da sexualidade. Está na moda desligar a sexualidade do amor; se este existir, pode ajudar. A intimidade sexual aparece na lógica do próprio interesse, não gera compromissos, não é expressão de uma vida partilhada. Se a sexualidade não tiver a beleza e a exigência do amor, a união do casal não é construtora de comunhão e a sua estabilidade está ameaçada. É que na lógica da comunhão, nada exige tanto a gratuidade e generosidade do dom e da busca do bem do outro, como a intimidade sexual. A convivência acordada ou negociada será sempre um simulacro do amor.
* Prioridade do que é efémero e positivo sobre o perene com a marca da eternidade. Se vivemos numa civilização do provisório, do usa e deita fora, porque não havemos de mudar as opções fundamentais da nossa vida? Aliás haverá ainda lugar para opções definitivas?
* A ciência genética fez grandes progressos nos últimos tempos, permitindo ao homem penetrar no mundo insondável da vida. Esses progressos podem ser benéficos para os casais, desde que os critérios científicos não ditem comportamentos e não se transformem em princípios éticos.
* As leis que se aplicam à família são pragmáticas, tendem a regularizar situações de facto, raramente assentam em princípios doutrinais sobre a família. Legaliza-se o aborto, facilita-se o processo de divórcio, equiparam-se à família as chamadas "uniões de facto", ferindo a família na sua dignidade institucional. O universo ético que protege a família na sua dignidade é cada vez menos secundado pelas leis, obrigando os cônjuges à coragem de posições pessoais, generosas e decididas.
Neste contexto a família cristã, na sua fidelidade, assume a qualidade de denúncia profética, sinal de um mundo novo, traçando na sociedade um rasto de luz, semente da esperança.
14. E no entanto estamos convencidos que só a família, concebida como comunhão de amor e de vida, humaniza a sociedade. Dela irradia o carácter sagrado da vida, a dignidade do homem e da mulher, iguais e diferentes. A fidelidade generosa, no seio da comunidade familiar, é fonte de generosidade e de honestidade, no seio da sociedade.
Cada pessoa deve muito à força da família a maneira como se comporta em sociedade. A família é o ponto de partida para a cidade e o lar onde se regressa, em busca da força da comunidade. Famílias felizes são semente de uma sociedade diferente.
Será que a família cristã sofre, hoje, ataques específicos, ou os dados que referimos são apenas frutos inevitáveis da evolução da sociedade? Por vezes temos a sensação de que o ideal cristão de família é alvo de ataques concretos. Será que querem atingir a Igreja, destruindo a família? Mas cautela! Quem destruir a família, destrói a sociedade.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Congresso Nacional da Família
Discurso do Cardeal Patriarca de Lisboa na Sessão de Abertura
Senhores membros do Governo,
A presença de Vossas Excelências nesta Sessão de Abertura do Congresso Nacional da Família é de grande significado. Ela significa o reconhecimento, por parte do Governo Português, da relevância da problemática da família na nossa sociedade contemporânea. Tratando-se de uma iniciativa da Igreja, para celebrar o 20º aniversário de um grande documento do seu Magistério sobre a Família, a Exortação Apostólica "Familiaris Consortio", a vossa presença exprime, igualmente, a convicção de que as respostas aos problemas da família têm de ser procuradas numa convergência de esforços, do Governo, da Igreja e outras instituições da comunidade eclesial ou da sociedade civil. É natural que haja abordagens complementares por parte das diversas instituições. Mas o progresso da comunidade nacional muito beneficiaria, no que à família diz respeito, de uma concepção cultural comum, com base na antropologia da família, a sua dignidade institucional e as bases éticas que inspiram comportamentos e traçam um ideal de consolidação e crescimento. Não podemos pedir ao Estado que assuma a exigência espiritual cristã da família como comunidade de amor e de salvação; esse é o ideal cristão da santidade, radicado no baptismo e, através dele, em Cristo ressuscitado, que compete à Igreja propor. Mas esperamos do Estado, isso sim, que defenda e construa uma visão unificadora da base antropológica e da estrutura cultural e institucional da família, para o que muito contribuirá a actividade legislativa que tem a família como alvo.
Senhores Bispos,
Este é um Congresso da nossa responsabilidade, expressão da nossa missão de pastores em relação à família. Sabemos como é belo, mas exigente, o ideal cristão da família, concebida como experiência básica da comunhão eclesial, lugar da vivência da caridade, fonte inspiradora da novidade cristã ao nível dos comportamentos. A proposta eclesial do casamento como caminho de santidade cristã é uma missão da Igreja. Este Congresso significa, para nós, a determinação de uma solicitude pastoral renovada, na busca de caminhos que ajudem as famílias a solidificar-se como comunidades de vida e de amor.
Caros Congressistas,
Saúdo-vos e desejo-vos bom trabalho. A missão de um Congresso não é a de encontrar soluções imediatas para os graves problemas que atingem a família contemporânea. Mas através da discussão e do diálogo, podemos contribuir para o aprofundamento do tal quadro cultural que inspire a busca de políticas e de soluções. Será base inspiradora dessa busca o ideal cristão de família; sua condição primordial uma sólida base de antropologia da família; e preocupação subjacente a salvaguarda da dignidade da família como instituição e sua interligação com a sociedade como um todo. Sejam livres na discussão, ousados nas propostas, mas com aquela sabedoria, caldeada na obediência da fé, de quem só deseja pôr em realce as reais potencialidades da família como realização do desígnio de Deus, que quer fazer de toda a humanidade uma única família de irmãos, que chamam a Deus "Pai". Não deve ser nossa única preocupação defender a doutrina da Igreja, consolidada em dois mil anos de tradição. Disso se encarrega o Espírito Santo. É também nosso objectivo solidificar a esperança, proclamando as potencialidades do ideal evangélico do amor, que faz da família cristã um sinal de um futuro novo.
Lisboa, 10 de Outubro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Às Comunidades Cristãs do Patriarcado de Lisboa
Irmãos caríssimos,
Saúdo-vos no início de mais um Ano Pastoral. Durante ele o Senhor conduzir-nos-á pelos caminhos da santidade, aprofundando a fé, a esperança e a caridade, fazendo que a nossa Igreja Diocesana seja cada vez mais o Povo do Senhor e dispondo-nos a participar corresponsavelmente na Sua missão.
A nossa Diocese tem um Plano trienal de Pastoral; este é o segundo ano da sua realização, em que são sublinhadas algumas opções programáticas, que devem orientar a vida cristã da nossa Diocese. Hoje quero sublinhar uma dessas "linhas programáticas": "Pôr em prática uma "nova ousadia da caridade", que tenha como manifestação primeira o anúncio do Evangelho", e faço-o à luz de uma circunstância concreta que pede, com urgência, a prática da caridade: refiro-me à fome em Angola.
O Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, através de uma nota pastoral intitulada "Fome em Angola, urgência e caridade", lançou, a pedido da Caritas de Angola, uma campanha de recolha de fundos. A situação dramática de muitos milhares de pessoas, deslocados de guerra, pede a nossa intervenção urgente. Peço-vos que os donativos sejam dados em dinheiro, pois é mais fácil e mais rápido comprar os mantimentos em grandes quantidades, segundo as indicações da Caritas de Angola, que está no terreno e conhece as situações.
Espero que as Comunidades Cristãs se dinamizem nesta partilha fraterna, que ocorrerá durante todo o mês de Outubro. Certamente que o vosso Pároco dará orientações concretas para esta recolha. Podeis fazê-lo também directamente para o Patriarcado de Lisboa ou para a Caritas Diocesana de Lisboa, em cheque, ou por transferência bancária para as seguintes contas:Caritas Diocesana de Lisboa: BCP 45224008525
Patriarcado de Lisboa - Ajuda Angola: BNC 161466001-16
Caritas Portuguesa: Montepio Geral: 185108753
O mês de Outubro é o mês do Rosário. Acompanharemos a nossa partilha fraterna com a nossa oração a Maria, Rainha da Paz, pedindo-lhe a consolidação da Paz em Angola.
Lisboa, 26 de Setembro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Nota Pastoral do
Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa
"Fome em Angola, Urgência de Caridade"
para o lançamento da Campanha a favor de Angola
Há situações em que a caridade é urgente, quando irmãos nossos estão mergulhados no sofrimento e em perigo de vida. Nesses casos a urgência da caridade não nos deixa, sequer, o tempo de fazer análises da situação, quais as suas causas e que soluções a médio e longo prazo terão de se encontrar. Antes disso é preciso socorrer os nossos irmãos.
É, neste momento, o caso de Angola. Terminadas as hostilidades militares, veio ao de cima, com toda a sua gravidade, o drama humanitário. Populações deslocadas por causa da guerra, impossibilidade de cultivar os campos, penúria dos bens mais elementares à sobrevivência, põem milhares de pessoas, entre as quais os idosos e as crianças, perante a ameaça da morte pela fome.
Sabemos que Angola é um país rico, que há muita gente com muito dinheiro, que é urgente reorganizar a sociedade em ordem à solução destes problemas. Mas agora não há tempo de ficarmos a analisar essas questões. É preciso agir urgentemente para que menos pessoas morram de fome.
Graças a Deus várias organizações humanitárias estão a promover campanhas com o mesmo fim, como a Cruz Vermelha Portuguesa e a Oikos. A pedido da Caritas de Angola, organismo da Conferência Episcopal de Angola, a Conferência Episcopal Portuguesa, através da Caritas Portuguesa, vai lançar durante o mês de Outubro, junto das comunidades cristãs, uma campanha de donativos com esse fim, intitulada precisamente "Fome em Angola, Urgência de Caridade".
Dada a gravidade da situação, não é aconselhável fazer a recolha de produtos. Estes serão adquiridos em grandes quantidades, seguindo as orientações da Caritas de Angola. Os donativos devem, pois, ser feitos em dinheiro.
A campanha será organizada em plano diocesano, através das caritas diocesanas, com o dinamismo que cada bispo diocesano queira imprimir-lhe. O resultado final será todo canalizado para a Caritas Portuguesa, que o entregará à Caritas de Angola, entidade capaz de garantir que os nossos donativos chegam aos seus destinatários.
O Conselho Permanente da CEP achou por bem não comprometer obrigatoriamente com esta campanha, nenhum ofertório das celebrações dominicais, mas em cada diocese os bispos diocesanos poderão fazê-lo. É preciso encontrar formas fáceis para os cristãos poderem participar. Pedimos aos meios de comunicação social, particularmente aos da Igreja, que colaborem nesta campanha.
A recolha de donativos processar-se-á durante todo o mês de Outubro. Mês do Rosário, aconselha-nos a acompanhar a nossa partilha de bens com a oração, pedindo a Deus, por intercessão de Nossa Senhora, a consolidação da paz em Angola.
Lisboa, 23 de Setembro de 2002
Homilia do Cardeal-Patriarca nas Ordenações de Presbíteros e Diáconos
1. Na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, a Igreja de Lisboa reúne-se para a ordenação de novos presbíteros e diáconos, que em comunhão connosco, os Bispos, garantirão o exercício do sacerdócio e do ministério. Trata-se de uma festa litúrgica na qual, durante muitos anos, a Igreja de Lisboa ordenou os seus padres.
Esta circunstância convida-nos a uma consciência de unidade e de fraternidade, entre os membros do presbitério, dos sacerdotes e diáconos com o seu Bispo, numa comunhão que é semente de unidade de toda a Igreja. Saúdo todos os sacerdotes que hoje celebram o aniversário da sua ordenação sacerdotal.
Os textos bíblicos que agora escutámos realçam três dimensões da vida e ministério dos Apóstolos Pedro e Paulo, base perene de uma compreensão do ministério e de uma espiritualidade sacerdotal: o ministério apostólico é concebido como um combate, que pode ser ganho porque o Senhor não falta com a Sua força, esperando Ele a confissão pronta da Sua qualidade messiânica e da Sua Senhoria de ressuscitado.
2. O "bom combate" do ministério apostólico: grava-se no nosso coração o testemunho de Paulo, já no ocaso da sua vida terrena: "combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Daqui em diante está-me reservada a coroa de justiça, que o Senhor, Juiz justo, me dará no dia do Juízo". Noutras passagens das suas cartas, Paulo concretiza as aventuras desse combate. E para Pedro ele começou logo em Jerusalém, nos primeiros dias da Igreja, no confronto com o Sinédrio. Ambos venceram a última batalha, na coroa do martírio, vitória da caridade na aparência da derrota humana.
O exercício do ministério sacerdotal poderá, ainda hoje, no nosso contexto cultural e social, comparar-se a um combate? Penso que sim. Ele recebe da imagem do combate, a decisão inabalável de lutar, com todas as forças a que possamos recorrer, por atingir objectivos irrenunciáveis, que definem a essência mesma do serviço sacerdotal. Em qualquer combate quando as causas porque lutamos esmorecem ou se confundem, a derrota é inevitável. Por isso Paulo afirma noutra passagem das cartas: "Sei em Quem acreditei".
O nosso ministério é, hoje, antes de mais, o combate da fidelidade. Como é encorajador e estimulante ver Paulo, no fim da vida, afirmar: "guardei a fé". A sua causa foi a mesma, do princípio ao fim: Cristo morto e ressuscitado. O dom do sacerdócio e do ministério que hoje recebeis, constitui uma nova exigência de fidelidade.
Antes de mais, fidelidade a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. Chamados a participar no Seu próprio Sacerdócio, enquanto Pastor e Cabeça da Igreja, uma exigência de intimidade crescente com o Senhor é semeada no vosso coração. Exercer o sacerdócio de Cristo, sem ser íntimo de Jesus Cristo, é um contra-senso e, porventura, um escândalo. Só assim a vossa palavra será um testemunho, confessando com amor a Cristo, Messias e Salvador.
Mas o vosso combate pela fidelidade, será também o da fidelidade ao ministério que vos é confiado. Ele não é vosso, é serviço amoroso de Cristo ao seu Povo. Não podereis reinventar o ministério, mas apenas servi-lo com todas as vossas forças, na unidade da Igreja, pois o ministério que vos é confiado é o ministério da Igreja. E sabemos quanto esta fidelidade exige hoje coragem e determinação, perante as correntes na moda, as exigências da sociedade de nos adaptarmos aos seus critérios, as próprias exigências dos cristãos pouco esclarecidos, que tantas vezes pedem à Igreja o que ela não lhes pode dar. Combate de fidelidade também na vigilância e na luta contra as nossas fragilidades pessoais. Deus e o seu Povo esperam de nós o testemunho de um coração casto e puro, do desprendimento pobre e generoso, da total disponibilidade para o serviço; esperam, sobretudo, que lhes demos a Palavra que converte e o autêntico pão de vida que alimenta. É uma ilusão pensar que a exigência e a santidade da nossa vida pessoal não se repercutem na fecundidade do nosso ministério. Mesmo quando os nossos pecados não são públicos, a sua influência negativa pode ser universal.
3. O nosso ministério é também um combate pela verdade. O Senhor Jesus deixou-nos, para esse combate, o critério supremo: "Eu sou a Verdade". Ele é a verdade da Igreja, sempre compreendida de novo, que pode ser comunicada servindo-se dos elementos próprios de cada cultura e de cada tempo, mas inalterável porque Ele é definitivo. Vivemos num tempo que valoriza a busca subjectiva da verdade. O nosso ministério não nega esse direito de cada pessoa de fazer o seu próprio caminho de verdade; somos chamados, isso sim, a fazê-los confrontar-se, na sua busca, com a verdade de Jesus Cristo. É dessa que somos ministros e o seu sujeito perene é a Igreja, através do seu Magistério e do "sentido da fé" de todo o povo crente. Por isso rezamos, todos os dias, na Eucaristia: "Senhor, não olhes para os nossos pecados, mas para a fé da Tua Igreja". Através do vosso ministério, sereis testemunhas autorizadas da "fé da Igreja". Que dignidade e que responsabilidade! Isso exige a escuta permanente da Palavra, a oração persistente e o estudo aturado. Com essa tríplice experiência, estareis mais preparados para perscrutar os anseios e os problemas dos nossos irmãos.
4. O vosso ministério é, também, um combate pela primazia absoluta da atitude de serviço. Sereis ministros de Cristo Servo, Ele que afirmou de Si Mesmo, não ter vindo para Ser servido, mas para servir. É uma ideia bela, mas na rotina de toda uma vida será o vosso caminho de martírio, porque de dom total da vossa vida. Experimentareis o que significa ser, na Eucaristia, oferente e vítima oferecida, em união com Cristo, nosso Sumo Sacerdote e bom Pastor.
5. Este combate é a continuação do combate do próprio Cristo, e na Sua morte e ressurreição Ele é definitivamente vencedor. E a sua vitória é a garantia da nossa vitória. Pedro sentiu-o de perto, quando um anjo o liberta da prisão. Quanta força e confiança brotaram dessa experiência: "agora sei realmente que o Senhor mandou o seu Anjo e me libertou". O mesmo testemunho nos dá Paulo: "o Senhor esteve a meu lado e deu-me força". Isto continua a ser verdade hoje, dois mil anos depois: o combate do ministério apostólico não se pode travar só com as nossas forças humanas; ele não é uma loucura impossível, porque connosco luta o Senhor vitorioso que nos comunica essa força de vitória através do dom do Espírito. O sacerdote é, no seu ministério, um profeta desta dimensão sobrenatural da vida e da história.
Quantos sacerdotes poderiam, hoje, dar também este testemunho, quando no concreto da sua vida apostólica podem reconhecer: "o Senhor esteve a meu lado e deu-me força". Este é o mistério da Igreja: os grandes combates pela implantação do Reino de Deus travam-se em público, com todos os meios humanos ao nosso alcance; mas a vitória decide-se em segredo, no silêncio da nossa fidelidade adorante. Aí aprendemos, com Maria, a "fazer tudo o que Ele nos disser".
Mosteiro dos Jerónimos, 29 de Junho de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
Carta das Organizações Católicas Portuguesas sobre Imigração
Exmos. Senhores Governantes,
Quando, na perspectiva da Cimeira de Sevilha, tendes entre mãos propostas que visam regular o direito de asilo e organizar os fluxos migratórios provenientes de países europeus e de países terceiros de outros continentes, os signatários desta Carta - representantes de diversas organizações católicas portuguesas - querem, em cooperação e solidariedade, apresentar-vos perspectivas do seu modo de ver o fenómeno global da imigração actual e dos refugiados, numa óptica humanista cristã.
1. A vossa honrosa missão obriga-vos a procurar para todas as pessoas uma melhor qualidade de vida num são e pacífico convívio de culturas e religiões. Quanto a nós, conscientes da nossa responsabilidade cívica e dos imperativos humanistas e éticos decorrentes do nosso viver de cidadãos e de cristãos, continuaremos a colaborar com todas as Instituições e Organizações da sociedade civil e do Governo para que aos problemas da Mobilidade Humana sejam dadas respostas que dignifiquem os imigrantes e refugiados, os governantes e, de modo geral, os europeus de cada país. Estaremos sempre contra quem oprima os imigrantes, nomeadamente as redes de tráfico de homens e mulheres. Não aprenderemos a classificar os imigrantes de "legais" e ilegais", "comunitários" e "extra-comunitários".
2. Consideramos a "Convenção Internacional para a protecção dos direitos de todos os trabalhadores migrantes e membros de suas famílias", aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 18.12.90 e ainda não ratificada pelos países europeus, um texto universal que deve inspirar atitudes e guiar a adopção de medidas a partir da próxima Cimeira de Sevilha, dedicada em grande parte aos imigrantes e refugiados. É hora de esta Convenção merecer uma séria reflexão "concertada" por parte dos países da UE.
3. É vossa tarefa indeclinável a defesa do bem comum, da justiça social e da segurança dos cidadãos; também vos compete encontrar formas de gerir eficazmente os fluxos migratórios para o progresso e paz da Europa e do Mundo, o que só é possível contrariando as suas causas e prevenindo os desequilíbrios demográficos que podem criar. Assim, novas estruturas policiais, "relatórios de oportunidades de trabalho" e "sistemas de quotas", sejam elas fixas ou graduais, não serão nunca medidas totalmente eficazes, já que actuam apenas sobre uma parte do fenómeno. Pelo contrário, estas medidas impedirão a inserção plena dos imigrantes, aumentarão as desconfianças, a xenofobia e as desordens sociais.
4. A Europa deve reconhecer que lhe pertence em grande parte a responsabilidade da migração. A nosso ver, os grandes desequilíbrios de bens no mundo e as expectativas de mudança de vida sentidas por quem luta pela sobrevivência por não ter o mínimo de bens e entra na aventura das migrações internacionais são criados pela própria Europa e por um estilo de vida de consumismo e esbanjamento propagandeado pelos "mass media". A quem ouve falar de tal "vida dourada" e está no limiar da pobreza é normal que lhe nasçam forças e procure apoios para emigrar de qualquer jeito.
5. A qualidade de vida não é um bem privado ilimitado. Conforme o princípio da interdependência, tem também a ver, como qualquer outro bem, com a dignidade de vida de outras pessoas de perto ou de longe. A justiça exige um mínimo de qualidade de vida para cada ser humano e sua família, apontando assim, o "destino universal dos bens da terra". A luta legítima por este "mínimo" faz-nos compreender o imigrante que se sujeita a toda a insegurança de transporte, de máfias, de adversidades e lembra-nos a sábia Declaração Universal dos Direitos Humanos, Art. 13º, 1., quando diz que "Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado".
6. A melhor forma de controlar os fluxos migratórios é combater as suas causas (fome, subdesenvolvimento, pobreza, conflitos, dívida externa e corrupção, entre outras), nomeadamente cumprindo os compromissos nacionais e comunitários já assumidos de ajuda ao desenvolvimento, adoptando e cumprindo medidas justas no comércio internacional e evitando apoiar ou promover a corrupção nos países pobres.
7. Pensamos ser importante, se bem que insuficiente, um Plano de Imigração para a U.E. e seus países membros. As suas coordenadas principais não devem ser economicistas e de defesa nacional e europeia contra o imigrante. É que qualquer problema ou anomalia da sociedade só encontra caminho de solução quando cada homem e mulher é considerado e reconhecido como pessoa e a entrada e permanência num país não pode estar absolutamente dependente dum difícil, prévio e burocrático contrato de trabalho, na maioria dos casos, sazonal ou precário.
Assim, a nosso ver, qualquer 'Plano de Imigração' tem que colocar no centro a dignidade da pessoa humana e do próprio trabalho; deve, nomeadamente, estabelecer a justiça no salário e defender o imigrante de empresários e intermediários sem escrúpulos ou fora da legalidade; tem que salvaguardar a vida dos imigrantes vítimas de horas irregulares e forçadas de trabalho e das teias criminosas das "máfias"; deve ajudar os imigrantes, suas famílias e associações a inserirem-se cultural, social, política e civicamente para uma cidadania plena. Neste processo de inserção não pode ser ignorada a importância das religiões, e nós, cristãos portugueses em sintonia com outros homens e mulheres crentes, queremos continuar a participar activa e responsavelmente no debate público e na defesa da dignidade humana.
8. Cabe responsabilidade histórica à Europa na resolução dos problemas da migração em era de Globalização e em fase de preparação do Alargamento da União Europeia a Oriente previsto para 2004. A Europa não se pode fechar na defesa do seu próprio bem estar. Deve ser superado todo e qualquer egoísmo nacionalista! Os cidadãos de países pobres têm direito natural a entrar nos países ricos, tal como no século passado o fizeram os europeus empobrecidos encontrando trabalho, sucesso e liberdade em países de outros continentes.
9. Está a propor-se a penalização dos estados da U.E. que deixem entrar clandestinamente imigrantes, cortando-lhes fundos comunitários, e semelhante sanção em cortes na Cooperação Europeia a governos de países terceiros que são origem ou permitem o trânsito da imigração ilegal; está a sugerir-se uma "polícia" que guarde as fronteiras externas da Europa e maiores restrições no direito de asilo. Estas medidas, a nosso ver, não são adequadas e não conseguirão fazer da Europa uma "fortaleza" ou "praça" inexpugnável. Medidas destas conduzem só a maior dependência dos imigrantes em relação aos empregadores e a novas e subtis formas de escravatura e, consequentemente, ao aumento da insegurança, da criminalidade, e da anarquia na vida pública. A dignidade dos europeus depende da dignidade de todos os outros povos e nunca poderá ser suportada com a "infra-dignidade" de ninguém.
10. Desejamos a todos Vós, Governantes da nossa Europa da igualdade, liberdade e fraternidade e da matriz cristã, um discernimento sadio e inteligente dos problemas bem como sentimentos de justiça e de humanidade que permitam à Europa continuar a ser um continente de acolhimento de pessoas e culturas, um continente solidário e de diálogo entre todos os seus povos e com todos os continentes.
Lisboa, 17 de Junho de 2002
Os signatários:
Capelania dos Imigrantes Africanos (CA)
Capelania dos Imigrantes Ucranianos e Europeus de Leste (CUEL)
Cáritas Portuguesa (CP)
Centro Padre Alves Correia (CEPAC)
Jesuit Refugee Service (JRS - Portugal)
Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC/MTC)
Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM)
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA SOLENIDADE DO CORPO DE DEUS
"Paróquia e Eucaristia"
1. Escolhemos esta Paróquia de Santo Condestável para celebrar, neste ano, a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, para nos associarmos a esta comunidade paroquial na celebração do seu jubileu de ouro, cinquenta anos após a Sagração da sua Igreja. Esta data tem sido valorizada pela comunidade paroquial para recordar e agradecer, pessoas e factos, manifestações da solicitude de Deus. Como não recordar as pessoas do Senhor Cónego Fernando Duarte, e do Senhor Padre Mário Cunha, que identificou todo o seu ministério sacerdotal com o crescimento desta Paróquia, e tantos leigos que o Senhor já chamou e que foram grandes obreiros da construção da casa do Senhor.
Mas as celebrações jubilares são também ocasião para reflectir sobre o presente, pressentir e equacionar os desafios pastorais que se apresentam à comunidade, e crescer na fidelidade ao chamamento do Senhor. Nesta Festa do Corpo de Deus, quero dar o meu contributo pessoal a essa reflexão, meditando sobre a relação vital que existe entre a Eucaristia e a Igreja, considerada como comunidade de crentes, chamada a ser realização concreta do mistério da comunhão. De facto a Eucaristia está no centro da realização concreta do mistério da comunhão, como já ensinava Tertuliano: "A Eucaristia faz a Igreja".
2. A Eucaristia é a expressão máxima da proximidade e da acessibilidade de Deus, o que permite à Igreja a convivência íntima com o Seu Senhor. Como vão longe os tempos das teofanias do Sinai, em que a transcendência de Deus se manifestava assustadora, levando os crentes de Israel a convencerem-se que ninguém podia aproximar-se de Deus e continuar vivo. No mistério da encarnação Deus escolheu estar próximo através de realidades humanas, simples como a vida, e que tornam acessível, para nós, o próprio mistério de Deus. A ternura de um Homem, chamado Jesus, o calor da Sua Palavra, a Sua piedade filial para com Deus, os Seus gestos carregados de significado: a água convertida em vinho, o pão multiplicado, a ternura para com as crianças, a misericórdia para com os pecadores; e sobretudo a Sua Vida feita dom, até à morte e morte de Cruz. Em tudo isso Ele é a presença amorosa de Deus: "Quem Me vê, vê o Pai"; "Eu e o Pai somos um".
Jesus lança a sua Igreja nesse caminho de construir a intimidade com Deus através das coisas simples, que não só não assustam, mas estão entre as mais belas da vida: a água que purifica e fecunda; o óleo que fortalece; o pão que alimenta, no contexto do "banquete", refeição festiva que aproxima os corações. É no contexto dessa elevação das coisas simples e belas à qualidade de manifestações da presença amorosa de Deus, que o Senhor disse aos discípulos, na ceia pascal: comei este Pão, porque Ele é o meu Corpo. Ele já os tinha preparado para essa simplicidade transcendente, quando disse às multidões, depois da multiplicação dos pães: "Eu sou o Pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente". Os Israelitas tinham feito a experiência de se alimentarem, no deserto, com um pão descido do Céu, o maná. Jesus afirma-Se como o novo Maná, isto é, o novo alimento com que Deus socorre o seu Povo.
A Eucaristia educa a Igreja na simplicidade dos caminhos da salvação. Para se aproximar de Deus, partilhar a Sua vida, acolher o Seu amor, não são precisos meios grandiosos nem discussões intelectualmente elaboradas: basta abandonar-se à alegria de um banquete fraterno e saborear com delícia espiritual o pão dos pobres e dos humildes tornado sacramento da presença do Senhor. Nada há de mais simples do que aceitar o convite para o banquete e com o coração em festa "comer desse Pão e beber desse vinho" . A celebração eucarística deve ser bela, porque valoriza mais a contemplação do que a reflexão. Devem ser repassadas de beleza a proclamação da Palavra, os cânticos de louvor, a harmonia dos gestos e das atitudes; mas deve ser bela, sobretudo, porque os corações estão em festa, porque vão conviver com o Senhor e com os irmãos. À Eucaristia vai-se por amor, na Eucaristia aviva-se o amor, da Eucaristia parte-se com amor, transmitindo na simplicidade da vida a alegria do Reino de Deus, numa atenção renovada às necessidades dos irmãos, enriquecendo todas as nossas experiências de amor humano com maior pureza do coração e maior gratuidade do dom. Na Eucaristia a comunidade cristã descobre o caminho da santidade.
3. Na Eucaristia a Igreja descobre-se como um povo de peregrinos, porque Cristo, o Pão descido do Céu, é o novo maná com que Deus alimenta o seu Povo nas agruras da caminhada. O Livro do Deuteronómio evocava-nos as dificuldades da caminhada, no deserto, do povo do Antigo Testamento. E o Povo que nós somos, nas circunstâncias em que somos chamados a viver e testemunhar a fé, não terá momentos mais difíceis do que a travessia do deserto? As fragilidades dos cristãos, até de sacerdotes, que escandalizam o mundo com os seus pecados; os obstáculos colocados à missão da Igreja, que tantas vezes tomam a forma violenta do ataque e da perseguição; as dúvidas na fé e a pusilanimidade que nos tira a coragem de viver segundo o Evangelho, testemunhando com a nossa vida aquilo que proclamamos pela palavra; os momentos de provação, de sofrimento, de solidão. A Igreja continua a ser um Povo que carrega sobre os ombros a dureza do peregrino. Mas na Eucaristia ela pode ouvir, sempre de novo, aquela promessa consoladora de Jesus: "Vinde a Mim vós que andais sobrecarregados e Eu vos aliviarei". Este "vinde a Mim", nos caminhos da Igreja, é um convite para a Eucaristia, enquanto banquete fraterno e enquanto encontro silencioso e adorante de Jesus no sacrário. Oh! se pudessem ser narradas a força que aí se recebe, a intimidade que aí se constrói, a coragem que nos entusiasma a continuar. Ao longo de dois mil anos, as manifestações mais generosas de amor, o abandono mais confiante da nossa dor, as decisões mais ousadas da nossa liberdade, aconteceram nesse diálogo silencioso, que só Deus conhece, com Cristo, "Pão vivo que desceu do Céu". Aí Ele se nos revelou como Senhor das nossas vidas, esposo do nosso coração, luz das nossas trevas, consolador das nossas aflições, alimento que recupera as nossas forças enfraquecidas.
A autenticidade de uma comunidade cristã e de cada cristão que com ela caminha, manifesta-se na maneira de celebrar a Eucaristia e no amor com que se adora a Eucaristia. Na nossa tradição latina acentuou-se, sobretudo, a obrigação de participar na Eucaristia, forma de celebrar o Domingo como Dia da Ressurreição do Senhor. E pela defesa desse direito lutaram os cristãos, tantas vezes com o risco da própria vida, sempre que as forças do mundo lho dificultavam ou impediam.
Nós, ao contrário, corremos o risco de desperdiçar a Eucaristia; sempre que motivos fúteis e de simples comodidade nos dispensam dela; quando nela participamos de forma rotineira e sem densidade de amor; quando fazemos dela a simples evocação dos nossos mortos ou maneira de solenizar as nossas festas; ou mesmo na linha de costumes institucionalizados, a utilizamos como forma de sustentação do clero. Não, a Eucaristia não é isso: ela é a nossa experiência pascal, o nosso reencontro, sempre revivido e renovado, com Cristo ressuscitado; ela é a nossa comunhão de amor, a alegria da nossa fé, a razão de ser do nosso compromisso, a firmeza do nosso testemunho. Salvemos a Eucaristia e salvaremos a Igreja.
Paróquia de Santo Condestável, 30 de Maio de 2002
† JOSÉ, Cardeal Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DO DIA DA IGREJA DIOCESANA
1. O mistério da Santíssima Trindade é a plenitude da revelação de Deus. E esta plenitude de revelação não se limita à compreensão de Deus, que permanece mistério; ela é experiência de Deus, progressivamente intensa e envolvente, da ordem do amor, que gera a sua própria inteligibilidade. A luz que nos permite compreender Deus é a própria luz de Deus, que ilumina todo o nosso ser, porque Deus se tornou, para nós, experiência de amor. A presença de Deus na nossa vida não é fruto de uma conclusão lógica, mas de um abandono confiante na fé. Não se trata apenas de aceitar com a luz da razão, mas sim de aceitar que Ele nos surpreenda com a Sua proposta de amor e se torne experiência de vida.
Os textos bíblicos que lemos nesta celebração situam esta experiência de Deus como algo de progressivo, conduzida pelo próprio Deus, mas desejada e aceite pelo homem. Desde a experiência de Moisés no Sinai, a quem Deus se revela numa nuvem, envolvente mas difusa, até à experiência cristã de comunhão com Deus, em Jesus Cristo, vai um longo caminho: "a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós" (2Co. 13,13).
Este itinerário, da "nuvem" à experiência envolvente e insondável da comunhão de amor, é o de todos os cristãos. É preciso reconhecê-lo: para muitos de nós, a presença de Deus na nossa vida está mais próxima dessa nuvem que envolve a nossa vida do que da experiência luminosa do amor-comunhão. Acreditamos em Deus, a nossa vida, sobretudo nos momentos mais fortes, refere-se a Ele, esperando que nos proteja, mas não o experimentámos como experiência de amor pessoal, participando no amor que une as três pessoas divinas. Ainda nos lembramos, porventura, dos tempos do catecismo, que Deus é Trindade de Pessoas, iguais e distintas, mas não as reconhecemos na sua distinção, não sabemos quem é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, pois só os podemos reconhecer nessa comunhão de amor.
2. O crescimento da Igreja, da nossa Igreja Diocesana, processa-se percorrendo este itinerário que nos conduz da "nuvem" à experiência de amor que nos faz participar na comunhão trinitária. Na simbologia da "nuvem" há um elemento que permanece em todo o percurso: o seu carácter envolvente: quanto mais mergulhamos no amor de Deus, em Jesus Cristo, com a força do Espírito, mais teremos acesso à vida eterna, ou seja, à vida plena e definitiva.
Por outro lado, a obscuridade que a simbologia da "nuvem" também encerra, destina-se a dissipar-se com o crescimento da fé, dando lugar à luz de Deus, na claridade do amor. Voltando às leituras desta celebração, o primeiro elemento que começa a dissipar a obscuridade da nuvem é a Palavra do próprio Deus, que se nos revela como um Deus amor: "O Senhor é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar, e cheio de benevolência e fidelidade" (Ex. 34,6). Os cristãos permanecem nessa visão nebulosa de Deus porque não escutam a Palavra de Deus. A escuta da Palavra, em atitude crente e orante, será sempre um elemento decisivo no crescimento da fé dos cristãos.
Mas é em Jesus Cristo que a obscuridade da nuvem começa a dissipar-se definitivamente: "Deus amou de tal maneira o mundo que entregou o Seu Filho Único, para que todo o homem que acredita n'Ele, não se perca, mas tenha a vida eterna" (Jo. 3,16). Cristo é a luz decisiva. "O Verbo era a luz verdadeira que ilumina todos os homens" (Jo. 1,9). Ele vence as trevas do pecado e dissipa a obscuridade das nossas experiências incompletas de Deus. Porque Ele se fez homem, facilita-nos uma experiência encarnada de relação com Deus. Amando-o, reconhecemos n'Ele o Filho e isso abre-nos à adoração de Deus Pai. Só um amor forte a Jesus Cristo permite ao cristão mergulhar progressivamente no mistério de Deus, comunhão de amor entre Pessoas.
Essa luz de Cristo torna-se perene e presente em cada momento da nossa caminhada, através do dom do Espírito Santo. Ele é-nos dado como luz definitiva de Deus, segundo a promessa do próprio Jesus: "O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse" (Jo. 14,26).
O Espírito é a luz definitiva de Deus. Ele conduz-nos a uma tal experiência de intimidade e de amor, que Deus deixa de ser, na nossa vida, a tal realidade vaga e distante, para Se revelar na intensidade de um amor pessoal, comunhão de amor entre pessoas, que introduz nessa comunhão todos aqueles que acreditam em Cristo, segundo a palavra do próprio Jesus: "Se alguém Me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará e nós viremos a Ele e faremos n'Ele a nossa morada" (Jo. 14,23). Deus já não se limita a querer habitar com os homens; deseja habitar no íntimo de cada homem. Na coabitação com Deus, dissipa-se em nós toda a obscuridade da "nuvem", porque Deus é, em nós, luz do amor, da verdade e da vida.
3. Este é o itinerário a percorrer pelas famílias cristãs, para chegarem a ser autêntica experiência de comunhão de amor, cuja fonte é Deus, como absoluto do amor. O matrimónio, enquanto vocação cristã, situa-se no âmago da nossa participação no mistério da encarnação do Filho de Deus. Conduzidos pelo Espírito de Cristo, os esposos cristãos alcançam, através do seu amor humano, a experiência do amor que tem a sua fonte em Deus. O amor humano é sinal sacramental do amor divino.
Esta dimensão sobrenatural do amor humano, onde este atinge a sua verdadeira plenitude, mostra-nos que Deus, Trindade Santíssima, é o fundamento do amor cristão. No casamento cristão não há progresso no crescimento do amor, sem uma união contínua a Deus. Na "Igreja doméstica", Deus faz parte da família, pois cada um dos seus membros alicerça a sua relação com os outros na relação fundamental de cada um com Cristo, através do baptismo. Além da expressão da sua própria ternura, devem acolher a ternura de Deus, através da escuta orante da Palavra, da celebração da Eucaristia e do amor generoso e gratuito. Se se deixarem guiar pelo Espírito, a sua própria ternura será, um para o outro, a expressão da ternura de Deus. O cultivo de uma espiritualidade conjugal é uma componente decisiva de toda a pastoral familiar.
A construção de uma família cristã é uma concretização sublime do dinamismo de unidade no amor que brota da Santíssima Trindade, onde a unidade de amor entre Pessoas iguais e distintas é perfeita. De Deus Uno e Trino, pelos caminhos da encarnação do Filho e do dom do Espírito, brota um dinamismo que procura conduzir à unidade a infinita variedade dos seres humanos. Essa foi a oração de Jesus ao Pai: "que todos sejam um, como Tu, Pai estás em Mim e Eu em Ti, que eles estejam em Nós, para que o mundo acredite que Tu Me enviaste" (Jo. 17,21). A partir dessa força unificadora se constrói a Igreja, chamada à unidade, na variedade das pessoas e dos caminhos de cada um. Esta unidade é a vocação fundamental do casal: "eles serão os dois um só" e Deus é a única fonte garantida dessa unidade.
Como exigência desta unidade está a fidelidade. A infidelidade no amor divide as pessoas e compromete a unidade. Num casal cristão só o perdão como participação no amor misericordioso de Deus, interrompe a desagregação provocada pela infidelidade e reconduz o amor a um projecto de unidade.
Por outro lado a fidelidade, que é participação do amor em Deus, dá ao amor dos esposos as características da perenidade e da eternidade. Toda a acção de Deus é definitiva e por isso Jesus, falando do casamento, advertiu: "não separe o homem o que Deus uniu" (Mt. 19,6). A indissolubilidade do matrimónio não é, apenas, uma norma jurídica, brota da essência mesma do amor. Como todos sabemos, a indissolubilidade é, hoje, a qualidade do matrimónio mais ameaçada e só a comunhão com Cristo, na Sua fidelidade à Igreja, a pode salvar. Quando os casais cristãos não saem da "nuvem", não deixam que a luz do amor de Deus os ilumine e fortaleça, a infidelidade a Deus acarreta a infidelidade um ao outro, a infidelidade compromete a unidade, e a falta de unidade leva à separação.
Peçamos a Maria, o perfeito templo de Deus, que guie todas as famílias cristãs da nossa Diocese para que elas possam ser o anúncio vivo de uma Igreja comunhão.
Mafra, Domingo da Santíssima Trindade, 26 de Maio de 2002
† JOSÉ, Cardeal Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DO DOMINGO DE PÁSCOA
"O combate da morte com a Vida"
1. A sequência da Liturgia pascal canta: "a morte e a vida travaram um duelo admirável; o Rei da vida, que tinha sido morto, reina vivo". Um duelo entre a vida e a morte, eis o maior drama da humanidade; é um combate que nenhum homem pode evitar, embora se faça tudo para o retardar. Combate incerto, pois só com as forças humanas, nenhum vencedor está, à partida, garantido. Segundo a nossa fé, a vitória segura da vida só nos é garantida na Páscoa de Jesus e é por isso que ela é a fonte da nossa esperança.
Neste combate a morte é um inimigo ardiloso, pois muda continuamente de fisionomia e de táctica. Começa por debilitar o seu contendor, enfraquecendo-o pelo medo e fazendo-o perder de vista as verdadeiras forças da vida, levando-o, por vezes, a chamar vida àquilo que já são características da morte. Cristo, o primeiro grande vencedor desse combate, usou como arma nesse combate o nunca perder de vista a verdade da vida, a plenitude da vida, não cedendo as suas armas ao inimigo. Ao fazer-nos participar da Sua Ressurreição, fortalece-nos com essa armadura, fazendo-nos experimentar a verdadeira vida, permitindo-nos não cair em ambiguidades ou confusões nesse combate de vida ou de morte. É a primeira condição para se sair vitorioso desse duelo, nunca perder de vista o que é a vida, a plenitude da vida. Sempre que cedemos na nossa compreensão da exigência e da beleza da verdadeira vida, fornecemos armas ao inimigo.
2. Sem esta graça pascal, em que o Espírito Santo, Espírito de Vida, infunde nos nossos corações a experiência da vida em plenitude, este combate entre a vida e a morte torna-se dramático e tantas vezes se cela com a vitória da morte. E o grande derrotado é sempre o homem, na sua ânsia de plenitude e de felicidade.
A primeira expressão desta derrota é o pecado. Este tem sempre, na sua raiz, a perda do sentido da verdadeira vida, porque o homem procura espontaneamente a vida. Mas se adultera o sentido da verdadeira vida, se chama vida àquilo que não o é, procurando a vida, encontra a morte. Somos libertos desta confusão pelo Espírito de Jesus, como escreve Paulo aos Romanos: "Agora não há condenação para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do espírito que dá a vida em Cristo Jesus te libertou da lei do pecado e da morte" (Rom. 8,1-2). Verdadeiramente Cristo ressuscitou para nossa libertação.
Ao perder de vista o sentido do mistério da vida, o homem fica enfraquecido neste combate. E são tantas as circunstâncias, na nossa sociedade contemporânea, em que o homem sai derrotado ou desiste mesmo do combate. É que a luta pela vida é exigente, supõe uma visão clara da sua dignidade intocável, o que se transforma em exigência ética e a coragem de renunciar a caminhos, que tantas vezes aparecem como busca de solução para problemas reais, que passem pela violação da vida. A vida humana é um valor absoluto, que tem a sua origem em Deus, o qual, apesar de no-la dar, não abdica de ser o Seu Senhor. Quando, para procurar solução para dramas reais da existência, se segue o caminho de menosprezar a vida, é sair derrotado deste combate entre a morte e a vida. A agressão violenta contra a vida humana tem de ser um caminho fechado para a busca de soluções para os dramas humanos. É assim com o suicídio, com a eutanásia, com o aborto, com o homicídio, com a guerra como busca de solução para os conflitos.
Todos sabemos que este combate não é fácil e é por isso que a Páscoa de Jesus Cristo se torna decisiva para a humanidade. O Espírito de Jesus ressuscitado não anula a luta, vem fortalecer-nos para a luta, dando-nos possibilidades de vitória. Mas sempre que a morte leva a melhor, aumenta o drama da humanidade. Estão aí a confirmá-lo, mesmo no nosso tempo, os milhões de vítimas inocentes, injustamente sacrificadas no altar do triunfo da violência e da morte.
3. Jesus Cristo foi o primeiro que saiu completamente vitorioso deste combate. A Sua morte foi a expressão máxima do desvio da consciência da humanidade; a Sua ressurreição foi a afirmação derradeira de que Deus é o Senhor da Vida. Ele o Filho, que não conheceu pecado, isto é, que nunca perdeu de vista a verdadeira Vida que Ele experimentava em Deus, sofre a morte como pecado dos outros, afirma a vitória da vida como experiência pessoal que Ele recebe de Deus. Esse é o anúncio do Apóstolo Pedro, porque é a grande novidade de uma humanidade renascida: "Deus ressuscitou-O ao terceiro dia... e constituiu-O Juiz dos vivos e dos mortos". A vida de Cristo ressuscitado passa a ser o critério de discernimento e de juízo de todos os combates entre a vida e a morte.
Participar na ressurreição de Cristo é adoptar um padrão de vida com o horizonte de Deus, que não se esgota nem se identifica com aquilo que conhecemos da vida neste mundo, mas nos projecta para a vida em Deus. Escutámos agora isso na Carta aos Colossenses: "Uma vez que ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo se encontra, sentado à direita de Deus". E o Apóstolo acrescenta: "Cristo é a nossa vida".
Meus irmãos e irmãs, este é o anúncio pascal. Quanto mais procurarmos o sentido da vida em Cristo ressuscitado, mais fortalecidos ficaremos para o nosso combate pessoal entre a vida e a morte, que temos que continuar a travar, na esperança de uma vitória final, que será a nossa própria ressurreição dos mortos. Então a nossa vida triunfará, com Cristo, na Glória.
Sé Patriarcal, 31 de Março de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DA VIGÍLIA PASCAL
"Estai vigilantes"
1. Estamos em vigília de oração, longa vigília de quem caminha, guiados pela Palavra de Deus, iluminados pela luz de Cristo, purificados nas águas regeneradoras do baptismo, ao encontro de Cristo na Sua glória. A vigília é a atitude recomendada aos discípulos que esperam a vinda do Senhor. "Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia vai chegar o vosso Mestre" (Mt. 24,42). Estar vigilante, à espera do Senhor, é a atitude exigida à Igreja, povo da ressurreição e que acredita na segunda vinda de Cristo glorioso.
Segundo os ensinamentos de Jesus, o modo de preencher esta vigília é a oração: "Vigiai, pois, e rezai em todo o tempo, para terdes a força de escapar a tudo o que há-de acontecer e de vos apresentardes com confiança diante do Filho do Homem" (Lc. 21,36). E na longa vigília que foi a Sua agonia em Gétsemani, aos discípulos sonolentos, Jesus recomenda: "Porque é que estais a dormir? Levantai-vos e rezai, para não entrardes em tentação" (Lc. 22, 46).
Estamos em vigília porque vamos celebrar a Páscoa. Cristo ressuscitado manifesta-se na Sua Igreja, vem ao nosso encontro, talvez de maneira surpreendentemente única. Mas sempre a Igreja interpretou está vigília da Páscoa como a atitude de um Povo que se prepara para o encontro definitivo com Cristo glorioso. É por isso que nesta vigília cabe toda a nossa história, passada, presente e futura, desde a criação do mundo ou do início da vida de cada um de nós, passando pela redenção, caminho que cada um de nós começou a percorrer no dia do seu baptismo, na certeza de fé que o Senhor está connosco e nós vamos ao Seu encontro, pois Ele é a razão de ser e o ponto de convergência final da nossa vida e da nossa história. Nesta vigília cabe a vida de cada um de nós, com a sua história de graça e de pecado, de alegrias e de tristezas, de avanços e recuos, de desejo de fidelidade e de experiência dolorosa de fraqueza. Nesta vigília, a vida de cada um de nós revela-se como uma peregrinação, num esforço corajoso para não perder o rumo do caminho. Podem-nos acompanhar, nesta noite, todos aqueles e aquelas que entraram no nosso caminho, que caminharam connosco ou se desviaram do rumo certo. Aqueles que amámos, aqueles com quem sofremos, aqueles com quem partilhámos um ideal, porque queremos nesta noite, tudo deixar penetrar com a luz de Cristo ressuscitado.
Nesta vigília está toda a nossa Igreja de Lisboa, na sua peregrinação de fidelidade. Descobrir Cristo ressuscitado, assumir-se como Seu corpo e Seu povo, é o seu objectivo. Aprofundar a fé, construir comunhão, testemunhar o amor são os desafios que se lhe apresentam. Que longo caminho a percorrer para que sejamos a Igreja de Jesus ressuscitado, como Ele a deseja e a ama. Na oração desta noite estarão presentes: os nossos sacerdotes, para que sejam "outros Cristos"; os nossos seminaristas, para que se deixem cativar por esse Cristo que é a plenitude da vida; pelos catequistas, para que recebam a Palavra com amor e a testemunhem com convicção; os esposos, para que se abram à acção do Espírito de Jesus ressuscitado, que lhes santificará o amor; os nossos jovens, para que descubram a riqueza do seu baptismo.
Por esta vigília pode passar, também, toda a nossa Pátria, com os seus problemas, as suas lutas pela justiça e pela dignidade da pessoa humana. Pediremos ao Senhor que a luz de Cristo ilumine as inteligências e os corações daqueles que se preparam para governar, para que sejam generosos no serviço do bem comum, sábios e prudentes nos discernimentos, corajosos nas decisões inevitáveis, confiantes e mobilizadores de todos quantos desejam o progresso de Portugal. Somos uma Igreja em vigília e não podemos deixar de ter presente, na nossa oração, o Povo a que pertencemos.
2. A liturgia desta noite ensina-nos a fazer vigília, inspirando o ritmo de toda a nossa vida, concebida como peregrinação para a nova Jerusalém, ao encontro do Senhor.
* Ilumina-nos a luz de Cristo ressuscitado. A luz é, nesta noite, o símbolo do Espírito Santo, dom Pascal por excelência, que dá um sentido novo a toda a nossa existência. Tudo na Igreja e na caminhada da fé é conduzido por esta luz, aliás toda a missão da Igreja consiste em iluminar todos os povos com essa luz de Cristo que se reflecte no seu rosto (cf. Lumen Gentium, n. 1). É esta luz que nos guia nos caminhos do bem e do amor e nos conduz à vida. Segundo o Apóstolo Paulo, sem essa luz, que é o Espírito de Cristo ressuscitado, nem conseguiremos reconhecer em Jesus o Senhor.
* Conduz-nos à meditação da Palavra de Deus e acolhê-la como Palavra viva de Deus, só é possível com a luz de Cristo. Nesta noite a Palavra convida-nos a percorrer a nossa história e a relê-la à luz da Páscoa de Jesus. Desde a criação, em que Deus criou o homem à Sua imagem; esta relação criador-criatura é tão frequentemente esquecida, sempre que os homens se arvoram em senhores da vida, esquecendo a componente que toda a vida tem, a dignificá-la, por ter a sua origem em Deus, Ele o Senhor da vida. Meditamos, depois, toda a longa história da nossa salvação, a proposta de aliança, aquele contraste entre a misericórdia de Deus e a nossa teimosia em pecar, aquele desejo de Deus de ter um povo, de que Ele possa ser Deus, isto é, reconhecido numa relação de intimidade e de proximidade e como Deus empenha neste projecto todas as suas armas, até à encarnação do próprio Filho de Deus.
* Neste longo percurso da Palavra somos convidados a reler, com outra luz, a nossa própria vida e a nossa história. Cristo, na plenitude do tempo, surge-nos aí como o caminho a seguir, o Senhor que nos atrai e nos chama, o amigo que nos consola, a plenitude onde queremos chegar.
* Iluminados pela luz de Cristo e guiados pela Palavra, somos convidados a redescobrir o nosso baptismo, o nosso novo nascimento para uma vida marcada pela novidade pascal. Reler a nossa existência à luz da graça baptismal que permanece. Como toda a nossa vida se renovaria se rejuvenescêssemos em nós a frescura do nosso baptismo. Esse é, nesta noite, o convite da Igreja e o desejo de Jesus ressuscitado. Ao deixarmos que o Espírito renove em nós a frescura do nosso baptismo, acolhemos com imensa ternura estes nossos irmãos que vão ser baptizados. A luz de Cristo vai, pela primeira vez, iluminar os seus corações e o Espírito Santo lhes abrirá o caminho do amor. Acolhemo-los com gratidão e esperança, pois eles querem juntar-se a nós, ser peregrinos connosco nesta caminhada ao encontro do Senhor.
Continuemos em vigília, porque já nesta noite o Senhor pode vir ao nosso encontro, na expectativa do Reino.
Sé Patriarcal, 30 de Março de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DA SEXTA-FEIRA SANTA
"Contemplar a Cruz através do olhar de Maria"
1. "Stabat Mater dolorosa, iúxta Crúcem lacrimosa, dum pendébat Filius". Silenciosa aos pés da Cruz, com o coração retalhado de dor, Maria é figura da humanidade redimida. Nesta Sexta-Feira Santa convido-vos a contemplar o mistério da Cruz de Cristo, através do olhar maternal de Maria.
O evangelista São João refere-nos que aos pés da Cruz, onde o Senhor entrega a vida, estavam a Mãe de Jesus, acompanhada por sua irmã Maria, mulher de Cleófas e Maria de Magdala (cf. Jo. 19,25). Jesus tinha sido praticamente abandonado por todos. Os discípulos dispersaram-se, restando apenas João, aquele que Jesus amava; os miraculados desapareceram, as multidões que O seguiam e O aclamaram como Messias nas rua de Jerusalém, tinham pedido a Sua condenação. Só Maria, Sua Mãe, acompanhada por duas amigas e João são fiéis até ao fim. Eles vencem o medo e superam a dor e não evitam a Cruz. Essa é a primeira atitude que podemos aprender com Maria: não ter medo da Cruz, contemplá-la com amor, porque aquele crucificado é a encarnação do amor. Aproximamo-nos da Cruz porque nela está suspenso alguém que nos ama infinitamente, nosso Senhor e Mestre. Naquela Cruz joga-se o nosso destino; ali somos gerados para uma vida nova, nas núpcias misteriosas entre Deus e a humanidade; e Maria, que dera à luz o Verbo encarnado, surge como Mãe da nova humanidade, participando como mulher Mãe nesse parto doloroso da humanidade redimida. Jesus explicita essa nova maternidade de Maria, ao dizer-lhe, referindo-se a São João: "Mulher, eis o teu filho". A maldição que tinha caído sobre outra mulher, Eva, a primeira mãe da humanidade, condenada a dar à luz os seus filhos na dor (cf. Gen. 3,16) é vencida na dor de Maria. Também ela, aos pés da Cruz, gera os novos filhos na dor, mas a sua dor é o sofrimento da redenção.
2. Aos pés da Cruz está Maria como co-redentora. Quis Deus que entre ela e o seu Filho, houvesse uma unidade de missão, e essa missão Maria aceitou-a, desde o primeiro momento, na obediência da fé. "Eu sou a Serva do Senhor, cumpra-se em mim a Tua Palavra" (Lc. 1, 38). Essa obediência total à vontade do Pai será a atitude contínua de Jesus. A Sua fidelidade é uma obediência que, segundo São Paulo, encontra a sua máxima expressão naquela Cruz: humilhando-Se ainda mais, obedeceu até à morte na Cruz (cf. Fil. 2,8). E na Carta aos Hebreus que há pouco escutámos, diz-se que Ele, "apesar de ser Filho, aprendeu, de quanto sofrera, o que é obedecer" (Heb. 5,8). Aprender a obediência, aprofundar a atitude de abandono à vontade de Deus, eis algo que Maria não deixou de aprofundar, desde a anunciação até à Cruz. Aos pés da Cruz, tal como Seu Filho, Maria obedece, abandona-se ao desígnio misterioso de Deus e percebe, na Cruz, qual era a vontade de Deus a que se abandonara no início. A sua obediência é, agora, mais radical e profunda, pois percebe que é mais exigente aceitar a vontade de Deus acerca do Seu Filho do que acerca dela própria. A sua obediência é a mesma de Jesus, ela é co-redentora.
Contemplemo-la, no seu olhar terno e sereno, de quem abraça o mundo no dom do Seu Filho e aprendamos, com ela, a obedecer à vontade do Senhor, quando nos convida à conversão, quando nos atrai para a intimidade, quando nos envia em missão, quando nos interpela a sermos santos, como Ele é Santo. A Cruz de Cristo é, em cada momento, um apelo à conversão, um convite à confiança, um desafio de amor. Se hesitarmos na resposta, cruzemos o nosso olhar com o dela, e peçamos-lhe que seja nossa mediadora.
3. Contemplar Maria aos pés da Cruz é captar a redenção como drama, que atinge a sua profundidade no sofrimento de inocentes, pessoas cujo coração puro nunca conheceu o pecado. O sofrimento revela-se-nos, neles, não como castigo merecido da culpa, mas na força positiva da sua energia criadora. Porquê o sofrimento de corações inocentes, como o de Cristo e o coração Imaculado de Sua Mãe? Já no Antigo Testamento, nas regras da Páscoa Judaica, estava determinado que a vítima pascal deveria ser um cordeiro sem defeito (cf. Ex. 12,5). Na nova Páscoa, Jesus, o mais puro dos homens, que exprime na natureza humana a própria pureza de Deus, é o novo Cordeiro Pascal. Fora assim que João Baptista, apontando-O com o dedo, O apresentou aos seus discípulos: "Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo. 1,29). Mas no altar do sacrifício, como vítima sem mancha, acompanha-O Maria, Sua Mãe. Por isso a liturgia bizantina chama a Maria "a cordeira de Deus". Ela é, verdadeiramente, co-redentora.
Contemplando Maria aos pés da Cruz, canta uma antífona daquela tradição litúrgica: "Ao ver o Cordeiro, Pastor e Redentor, injustamente levantado na Cruz, a cordeira exclama, chorando amargamente: o mundo rejubila aceitando de Ti a redenção, as minhas entranhas ardem ao ver a Tua crucifixão, que Tu sofres por misericórdia; Deus bondoso, Senhor sem pecado! A Ela clamamos com fé: alcança-nos misericórdia, ó Virgem, concede-nos a remissão dos pecados, a nós que nos prostramos diante do Teu sofrimento" (1).
Contemplamos o mistério da Cruz através do coração Imaculado da Mãe de Jesus, também ela imolada com o Cordeiro Pascal. Naquela Cruz joga-se o destino da humanidade pecadora, o destino de cada um de nós. Mesmo que sofrêssemos todas as dores do mundo, elas não mereceriam a nossa redenção. Interpretá-las-íamos como castigo dos nossos pecados, porventura como vingança de Deus. Só corações inocentes podiam acolher o sofrimento como expressão dramática do amor de Deus ofendido, percebendo-lhe a grandeza do amor misericordioso. Num coração inocente o sofrimento é todo dom e oferta, é hino de louvor.
Fixando o nosso olhar em Maria, Mãe dolorosa, percebemos a dramaticidade do pecado como ofensa à glória devida a Deus. A gravidade do pecado consiste nisso: que uma criatura criada à imagem de Deus, exerça a sua liberdade contra o desígnio amoroso desse mesmo Deus. Ao tomarem sobre si os nossos pecados, Jesus e Sua Mãe, sem nunca terem pecado, não se limitam a sofrer em vez dos pecadores, sofrem por causa do pecado, com tal intensidade, que repõem a glória ofendida e restituem, como que em nova criação, a capacidade de os homens pecadores se abandonarem à misericórdia.
4. Recomeça ali, aos pés daquela Cruz, uma nova possibilidade de fidelidade à aliança com Deus, nasce um povo novo, gerado na inocência do seio virginal da Igreja, de que Maria é Mãe e figura. "Depois Jesus disse ao discípulo: eis a tua Mãe" (Jo. 19,27). Aos pés da Cruz, contemplando Maria, descobrimos a fecundidade virginal da Igreja, que nos gera na inocência, para um caminho novo de fidelidade. Como aconteceu com Jesus e Sua Mãe, a inocência não nos liberta do sofrimento; mas permite-nos aceitar todo o sofrimento e fazer dele um dom, dando-lhe força redentora. Contemplando Maria, aos pés da Cruz, aprenderemos, com ela, a abraçar a nossa cruz, e fazer dela oferta eucarística e hóstia de louvor, para a redenção do mundo.
Sé Patriarcal, 29 de Março de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
NOTA: 1 - Joseph L'Edit, Marie dans la Liturgie de Byzance, pp. 194
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DA CEIA DO SENHOR
"A Eucaristia é a fonte da caridade"
1. Esta celebração da Ceia do Senhor evoca e realiza sacramentalmente a primeira páscoa cristã, aquela que Jesus desejou ardentemente e exprime o infinito amor de Deus pelos homens. O Pai entrega o Seu Filho por nós, Jesus abandona-Se totalmente a essa vontade amorosa de Deus e entrega-Se por nós, até à morte. A densidade que envolve aquela ceia pascal é, antes de mais, a densidade do amor trinitário que une o Pai e o Filho: "Jesus, sabendo que o Pai Lhe pusera tudo nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa…"; é nesse amor que os discípulos são envolvidos juntamente com toda a humanidade. Aquela páscoa revela-nos que a salvação é um perene abraço de amor com que Deus envolve a humanidade, em Jesus Cristo.
Hora do amor radical e definitivo, é também a hora da verdade. Antes de mais da verdade da nossa fragilidade e do nosso pecado. Há quem não se deixe amar, quem não se deixe envolver por esse amor infinito. "Vós estais limpos, mas não todos". Jesus sabia que um deles o ia atraiçoar. Esta há-de ser a verdade dramática do mundo, até ao fim. Deus continua a amar infinitamente os homens em cada Eucaristia celebrada, mas poucos se deixam amar até ao fundo.
Mas esta é também a hora da verdade de Jesus como Messias, Servo de Yahwé. Quantos cenários de grandeza humana tinham sido erguidos para descrever o Messias-Rei! O triunfador político, o que reúne o que resta do Povo e desbarata os seus inimigos, o que vem lavar em sangue a humilhação de um povo oprimido e restaurar a glória de Israel. É certo que Jesus se afastara tantas vezes dessa visão messiânica adulterada pelas visões mundanas da Sua Senhoria; é certo que Ele se identificou com o homem celeste, que desce de junto do trono de Deus, e com o Servo humilde e sofredor, que "não veio para Ser servido, mas para servir e dar a vida como resgate da multidão" (Mt. 20,28).
E ao longo destes dois mil anos, quanta confusão sempre que se revestiu o ministério pastoral das honras e grandezas deste mundo. Naquela hora de verdade, nada podia ficar confuso. Com um gesto e com a Sua palavra, Jesus situa o ministério apostólico nascente na Sua própria verdade de Servo. "Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque O sou. Se Eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Eu dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também" (Jo. 13,14-15).
2. Na evocação desta cena do "lava-pés", pôs-se quase sempre o acento naqueles a quem Jesus lava os pés, não percebendo que quem ocupa o centro desta cena é o próprio Senhor, na humildade da sua condição de Servo. Aqueles a quem os pés são lavados, isto é, que são o objecto da caridade divina do coração de Cristo, podem ser todos os homens e mulheres deste mundo: os pobres, os prisioneiros, os perseguidos, os jovens e os velhos, e até aqueles que são mais fiéis a Jesus. A todos Ele abraça na Sua solicitude de Pastor e no Seu amor de Esposo. Mas o principal da mensagem deste gesto é a prioridade da caridade e do serviço em todas as situações de poder na Igreja. Quanto maior é a dignidade a que o Senhor nos elevou, maior é a exigência do amor e do serviço. Quem quiser ser grande, faça-se servo. Neste gesto, Jesus foi mais claro do que nunca: quem quiser ser seu discípulo tem de abraçar a humildade do servo, tem de pegar na sua cruz e segui-Lo. E esta verdade suprema da páscoa brota da intensidade de amor do coração de Cristo: "tendo amado os seus que estavam no mundo, Jesus amou-os até ao fim" (Jo. 13,1).
3. Esta densidade de amor renova-se em cada Eucaristia. Esta é, na Igreja, a fonte inesgotável da caridade. Ela é o momento da densidade trinitária do amor, pelos caminhos da encarnação. Unidos a Cristo, oferecemo-nos com Ele ao Pai num amor que vence todas as leis da carne e do sangue, para tocar a infinita simplicidade do dom. Aí aprendemos a rezar, pois toda a nossa oração é prolongamento dessa intimidade com Deus, que Cristo nos propicia ao unir-nos a Ele no Seu amor infinito. A adoração é a expressão mais autêntica da oração, e é no mistério da Eucaristia que aprendemos a adorar. Só na adoração da Eucaristia se descobre a oração.
É da Eucaristia que recebemos a força para amar os irmãos. Todo o amor caridade brota do amor infinito com que Cristo nos amou naquela primeira páscoa. Não é fácil amar os irmãos. Todos somos capazes de percorrer as primeiras etapas do amor quando este é fácil e gratificante para quem nos ama. Mas quando amar significa perdoar ou exige a abnegação do serviço àqueles que ninguém ama ou pouco têm para retribuir, o amor fraterno revela-se como dom gratuito, participação na generosidade de Deus e aprende-se na Eucaristia, sacramento do amor. Em cada Eucaristia somos amados por Deus, em Jesus Cristo, e somos enviados como testemunhas do amor. Na Eucaristia os esposos aprofundam o seu amor, aproximando-o do amor de Cristo pela Igreja; os jovens descobrem um ideal, encontrando em Jesus Cristo o caminho que os leva à vida; os evangelizadores percebem a verdadeira Palavra que nos vem do coração de Deus. A Eucaristia é a fonte da santidade cristã, pois aí encontramos o Senhor vivo, companheiro da nossa peregrinação e Senhor das nossas vidas. Na Eucaristia aprendemos a humildade da nossa caminhada, porque aí sentimos dolorosamente como o pecado que ainda há em nós contrasta com a santidade de Deus. Na Eucaristia experimentamos a misericórdia. Nesta Páscoa, com o coração contrito, aproximemo-nos desta fonte da graça e alcançaremos misericórdia.
Sé Patriarcal, 28 de Março de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DA MISSA CRISMAL
"Um Reino de Sacerdotes"
1. Na tradição cristã, este dia de Quinta-Feira Santa é marcado por uma espiritualidade sacerdotal. Deve-se isso ao facto de ter sido na celebração da primeira Páscoa do tempo definitivo, que Jesus Cristo manifestou plenamente o seu múnus sacerdotal, que tinha apenas sido anunciado e prefigurado no sacerdócio do Antigo Testamento. Na continuidade da História da Salvação, naquela Páscoa, tudo mudou. Um pequeno diálogo entre Jesus e os discípulos anuncia esta novidade radical. Eles perguntam a Jesus: onde queres celebrar este ano a Páscoa? Na sua resposta, Jesus não se limita a indicar o lugar, mas dá a entender a densidade de que essa Páscoa se reveste para Ele: "O Meu tempo está próximo" (cf. Jo. 26,17-18).
Tudo tinha sido anunciado, na longa preparação deste momento decisivo. Desde o sacrifício de Abraão que aceita oferecer o seu filho, que à última hora Deus substitui por um cordeiro (cf. Gen. 22,11-14) que ia sendo sugerido que o cordeiro pascal era apenas símbolo anunciador do sacrifício do Messias, Filho de Deus. Na Páscoa daquele ano, Deus fez a troca ao contrário: substitui o cordeiro pelo Filho, o autêntico e definitivo Cordeiro Pascal. E Jesus, ao responder aos discípulos, sabia dessa troca. Aquele momento desencadeia no Seu coração toda a radicalidade da Sua missão e da Sua obediência filial. Quando se sentam à mesa, diz-lhes: "desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco antes de sofrer" (Lc. 22,14). São João exprime, por outras palavras, esta radicalidade de Jesus: "Agora a minha alma está perturbada. E que dizer? Pai, livra-Me desta hora? Mas se foi para isto que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o Teu nome" (Jo. 12,27-28).
É a primeira Páscoa em que se oferece o verdadeiro Cordeiro Pascal, para garantir para todo o sempre, a realidade da aliança entre Deus e o seu Povo. É uma aliança definitiva, não apenas por ser a última, mas por ficar decisivamente garantida a sua realização. O seu horizonte temporal é a eternidade. Isso supunha duas coisas: a vítima perfeita, o oferente capaz e um povo novo que pudesse, até ao fim, garantir uma fidelidade e intimidade de comunhão com o seu Deus e Senhor. A vítima imaculada e o sacerdote capaz estão garantidas em Jesus Cristo, sacerdote oferente e vítima oferecida. Mas aquela Páscoa não se podia esgotar na atitude sacrificial de Jesus Cristo, que inaugura, assim, o sacerdócio definitivo. Ela tinha de gerar um povo novo, o "novo povo de Deus", capaz de ser fiel à Aliança, "nova e eterna Aliança", e de perpetuar, em união com Cristo, a oferta do sacrifício de louvor. O sacerdócio de Jesus Cristo tem, como primeiro fruto da sua fecundidade, um povo sacerdotal. É por isso que o Senhor introduz na Sua oferta pascal a dimensão da Igreja como oferente do mesmo sacrifício, até ao fim: "fazei isto em Minha memória" (Lc. 22,19). Até ao fim dos tempos compete à Igreja, unida a Cristo e em nome de Cristo, oferecer o sacrifício da redenção, pois o Senhor "só voltará a comer a Páscoa quando ela se realizar plenamente no Reino dos Céus" (Lc. 22,16).
2. Os textos da Escritura que acabámos de escutar, acentuam esta qualidade sacerdotal de todo o Povo de Deus. O Profeta Isaías define, assim, o novo povo messiânico: "Vós sereis chamados sacerdotes do Senhor e tereis o nome de ministros do nosso Deus" (Is. 61,6). E o Apocalipse, referindo-se a Cristo glorioso, acrescenta: "Aquele que nos ama, que, pelo Seu Sangue, nos libertou do pecado e fez de nós um Reino de Sacerdotes para o Seu Deus e o Seu Pai" (Apc. 1,5-6). Ao referir Deus Pai como destinatário último da qualidade sacerdotal da Igreja, São João situa o sacerdócio do Povo de Deus como participação e actualização do sacerdócio de Cristo. Ser sacerdote é poder oferecer a Deus o sacrifício de louvor, oferecer e oferecer-se, tal como Cristo. O acto ministerial de oferta, a celebração litúrgica, ganha densidade na oblação da vida concreta daqueles que oferecem. Como diz o Concílio Vaticano II, "todos os discípulos de Cristo, perseverando na oração e no louvor de Deus, devem oferecer-se como vítimas vivas, santas, agradáveis a Deus e dando testemunho de Cristo" (cf. Lumen Gentium, n. 10).
A oferta sacerdotal do Povo de Deus é sempre participação na oferta do próprio Jesus Cristo, que exerce o Seu sacerdócio, como cabeça da Igreja, através dos ministros ordenados, o sacerdócio ministerial. É por isso que o Concílio afirma que estas duas expressões da qualidade sacerdotal do "novo Povo de Deus", o sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum a todos os fiéis, se ordenam um para o outro, não há expressão de um sem o outro. O sacerdócio ministerial, que torna sacramentalmente presente na Igreja, de modo particular na celebração eucarística, Cristo Sumo Sacerdote e Cabeça da Igreja, é essencial para que a Igreja toda possa exprimir a sua dimensão sacerdotal. Não há Igreja sem Eucaristia, não há Eucaristia sem sacerdócio ministerial.
3. À natureza teológica da compreensão do sacerdócio da Igreja e na Igreja, deve corresponder uma coerência pastoral. Seria tão grave ignorar a dimensão sacerdotal de todo o Povo de Deus, reduzindo a ideia de sacerdócio aos ministros ordenados, como supervalorizar o sacerdócio baptismal, comum a todos os fiéis, como se ele bastasse e a Igreja pudesse passar, ainda que em situação de limite, sem o sacerdócio ministerial. E num momento da sua história, em que assistimos à diminuição do número de sacerdotes, esta confusão poderia instalar-se. quando se insiste que os leigos poderão assumir as responsabilidades dos sacerdotes, ou se dilui uma pastoral das vocações, insistindo apenas na vocação baptismal, comum a todos os fiéis, podemos estar perante os primeiros sintomas dessa confusão.
Na nossa Diocese tem-se feito um aprofundamento sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja, e este é um desafio pastoral em que não podemos esmorecer. Eles são sujeitos da missão da Igreja e a eles se deve a vitalidade das nossas instituições de caridade, o esforço de comunicar a fé às crianças e aos jovens, a pastoral dos doentes e dos idosos e a presença do espírito do Evangelho no meio do mundo, nas estruturas e dinamismos da sociedade como um todo. E nós os sacerdotes devemos estimular e apoiar, segundo a graça própria do nosso ministério, esta riqueza e pluralidade apostólica de todos os cristãos. Quanto mais os fiéis leigos se comprometem na missão da Igreja, mais precisam dos sacerdotes. Nós encarnamos sacramentalmente, para eles, pelo dom do nosso ministério, a própria pessoa e missão de Jesus Cristo, quando lhes anunciamos a própria Palavra do Senhor, lhes perdoamos com o próprio amor misericordioso de Jesus, quando os amamos como Ele ama, quando reunimos nas nossas mãos toda a sua oferta de vida, e a tornamos Eucaristia.
4. Este carácter indispensável do ministério sacerdotal, convida-nos a um empenhamento decidido e decisivo na pastoral das vocações sacerdotais. O Santo Padre é acutilante a esse respeito: "Um generoso empenho certamente há-de ser posto - sobretudo através de uma oração insistente ao Senhor da messe (cf. Mt. 9,38) - na promoção das vocações ao sacerdócio e de especial consagração. Trata-se dum problema de grande importância para a vida da Igreja em todo o mundo. Mas, nalguns países de antiga evangelização, tal problema tornou-se dramático devido à alteração do contexto social e à aridez religiosa causada pelo consumismo e secularismo. É necessário e urgente estruturar uma vasta e capilar pastoral das vocações, que envolva as paróquias, os centros educativos, as famílias, suscitando uma reflexão mais atenta sobre os valores essenciais da vida, cuja síntese decisiva está na resposta que cada um é convidado a dar ao chamamento de Deus, especialmente quando este pede a total doação de si mesmo e das próprias forças à causa do Reino" (NMI, n. 46). E aí o nosso papel de sacerdotes é decisivo. Pelo testemunho da nossa vida, que torna atraente, embora exigente, este ministério; pela disponibilidade para acompanhar pessoalmente os jovens na sua caminhada de fé e de discernimento vocacional; pela coragem de interpelar e chamar, como o Senhor chamou; pelo cultivar em toda a comunidade cristã o interesse pelas vocações sacerdotais, sobretudo através da oração, do conhecimento e amor aos nossos seminários e aos actuais candidatos ao sacerdócio. Cada um deles deve merecer de todos um respeito sagrado pelo projecto que o próprio Senhor faz germinar no seu coração.
Na origem de uma vocação sacerdotal está sempre a pessoa de Jesus, que atrai e chama; mas normalmente essa atracção de Jesus Cristo encarna numa figura de sacerdote. Nesta Quinta Feira Santa, na alegria do nosso presbitério reunido, queria pedir-vos, queridos Padres, um empenhamento decidido nas vocações sacerdotais. É o nosso amor à Igreja que o exige, é o próprio Senhor que nos atraiu a nós, Quem no-lo pede. As vocações sacerdotais são um dom de Deus; mas nós podemos merecê-lo através da nossa fé, da nossa oração e dedicação apostólica.
Sé Patriarcal, 28 de Março de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DE DOMINGO DE RAMOS
"A Palavra e o gesto"
1. Com esta celebração entramos na Semana Santa, a "Semana Maior", toda ela meditação sobre a nossa redenção, contemplação do rosto de Jesus que deu a vida por nós, encarnando dolorosamente o amor com que Deus nos ama; um rosto doloroso, que comunica a serenidade confiante do Filho e anuncia o esplendor da Sua glória divina. Toda a caminhada quaresmal convergiu para esta densidade celebrativa e todos sabemos que a profundidade da nossa Páscoa em muito depende da radicalidade do nosso itinerário quaresmal. Durante esta semana, contemplando a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, somos convidados a descobrir o nosso próprio itinerário de salvação. Escutando a Palavra do Senhor com ouvidos de discípulo, através da significação envolvente dos gestos litúrgicos, acolhendo em silêncio a densidade do mistério, deixando crescer em nós o desejo de entrega e de fidelidade, descobriremos o nosso próprio caminho de libertação, que nos levará à intimidade consoladora da filiação divina.
Na actual liturgia da Igreja não são muitas as celebrações em que a encenação simbólica de acontecimentos da vida de Jesus aparece integrada ao lado da abundante riqueza dos símbolos sacramentais. Duas dessas evocações acontecem, precisamente, nesta Semana Maior: a evocação da entrada messiânica de Jesus em Jerusalém e do gesto de Jesus que lava os pés aos seus discípulos, mostrando-lhes que o caminho da glória é um caminho de despojamento e humildade. Em ambas estas evocações se sublinha a importância dos gestos enquanto expressões de fé e de amor, a sugerir-nos que, durante esta semana, o tempo não é para longos discursos, mas antes para gestos significativos e envolventes que nos levem ao abandono de todo o nosso ser ao mistério do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo. Havemos de nos prostrar em adoração, de beijar a Cruz do Senhor, de empunhar bem alto a luz, sinal de alegria e de esperança, deixarmo-nos banhar, recolhidos, pela água purificadora que evoca o nosso baptismo. Em todos estes gestos exprimiremos o abandono do nosso coração, procurando no silêncio a linguagem da nossa compreensão. As palavras pronunciadas serão apenas a revelação do sentido desse silêncio adorante.
2. Para a mais clara e explícita proclamação da Sua qualidade messiânica, Jesus optou por um gesto, linguagem da profecia messiânica de Zacarias: "Exulta com todas as tuas forças, filha de Sião, clama de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o Teu Rei vem a ti; Ele é justo e vitorioso, humilde e montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, cria de uma jumenta" (Za. 9,9; cf. Is. 62,11). Neste gesto está definida a humildade e a mansidão da glória do Rei messiânico. Ele não se afirmará com o fragor dos cavalos e dos carros de guerra dos triunfadores deste mundo, mas com a humildade de um servo. São Paulo, contemplando já a plena glória do itinerário de Jesus Cristo, interpretará esta profecia: "Cristo Jesus, de condição divina, não se prevaleceu da Sua igualdade com Deus. Mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo" (Fil. 2,6).
Naquele dia, em Jerusalém, Jesus tem consciência de que as profecias se cumprem na Sua pessoa. Ao montar naquele jumento e entrar assim em Jerusalém, Ele assume-se como Messias; e a multidão percebeu, responde com gestos de aclamação, faz uma profissão de fé no Rei messiânico. Mas aquela multidão, e os próprios discípulos, não perceberam que aquela entrada em Jerusalém era apenas a primeira etapa de um longo e doloroso percurso, em que se revelará a verdadeira identidade do Messias na humildade do Servo sofredor, obediente até à morte e morte de Cruz. Isso é próprio dos gestos: abrem para o mistério mas não o explicam. Só a fidelidade pessoal a Jesus nos permitirá passar de gesto em gesto, identificando-nos com Ele no mistério redentor. Nesse itinerário que o Senhor iniciou e no qual nos convida a segui-Lo com fidelidade de discípulos, aparecerão outros sinais: a humilhação da prisão, a injustiça de um processo sem julgamento, os entorses à própria lei estabelecida, a condenação a uma morte ignominiosa. A simplicidade daquele jumento vai dramatizar-se em toda a humilhação do Messias Servo de Yahwé, e nesse itinerário poucos o acompanharam até ao fim: a multidão muda de atitude e pede a sua condenação na praça pública, chegando ao cúmulo de lhe preferir um criminoso de direito comum; os discípulos fogem assustados e Pedro chega mesmo a dizer que não o conhece de lado nenhum. Só Maria, sua Mãe, e algumas mulheres, vão até ao fim e estão com Ele, adorando-O na Sua Cruz.
3. Temos de reconhecer que este itinerário do Messias de Deus era misterioso e exigente. Aqueles discípulos que O abandonaram, depois de O terem seguido, aquela multidão que O condena, depois de O ter aclamado, sofreram da fragilidade de uma fé pouco enraizada na fidelidade a Jesus Cristo, independentemente da exigência do caminho. Jesus morre sozinho, não porque não tivesse tido em vida amigos incondicionais e multidões que o aclamaram e com Ele se comoveram. Jesus morre sozinho, porque essa solidão exprime dramaticamente a separação da humanidade pecadora em relação a Deus; Jesus morre sozinho, porque essa solidão vence o divórcio entre o homem e Deus, voltando a viabilizar a aliança de amor; Jesus morre sozinho, porque a Sua solidão é a semente de uma nova comunhão.
Segui-Lo como discípulos só é radicalmente possível depois desta Sua vitória sobre a morte, na solidão e no abandono. O novo itinerário do discípulo é possível, porque Jesus ressuscitado nos enviou o Seu Espírito. Fortalecidos por Ele, não nos ficaremos pelos momentos fáceis e triunfais da nossa condição de cristãos. Segui-Lo-emos, tomando a nossa própria Cruz, tendo ouvidos de discípulo, isto é, um coração aberto e atento a toda a Palavra que nos chega do coração de Deus. Esta Palavra desvendará o sentido dos gestos. E nesta semana o grande gesto é a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, a convidar-nos ao abandono silencioso e adorante.
Sé Patriarcal, 24 de Março de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
CATEQUESE DO CARDEAL PATRIARCA NO 6.º DOMINGO DA QUARESMA
"Amor e Vocação"
Catequese do Domingo de Ramos
1. Falar dos caminhos cristãos do amor é, necessariamente, falar de vocação. Dissemos no início destas Catequeses Quaresmais que o tema nos levaria a descobrir mais profundamente a convergência entre a natureza e a graça, isto é, entre as capacidades naturais de amar e o chamamento de Deus a um amor maior, cuja possibilidade não depende, apenas, da nossa natureza, mas do dom do Espírito Santo, que nos é dado a partir da nossa relação com Cristo, desde o baptismo. Deus atrai-nos, revela-se-nos e mostra-nos o Seu desígnio, de Quem nos criou para atingirmos a perfeição do amor, na caridade, e a plenitude da comunhão com Ele e com os irmãos.
Ao descobrirmos a radicalidade do Seu desígnio de amor em Jesus Cristo, percebemos que já nos criou por amor e para o amor - a essas potencialidades da criação chamamos natureza - e que nos atrai continuamente para um amor maior, desígnio explicitado na sua Palavra. Porque nos atrai, nos interpela e nos chama, os caminhos do amor são uma vocação e toda a vocação cristã é um caminho de amor. Foi por isso que escolhi este tema da vocação como ponto de chegada da nossa caminhada quaresmal.
Dimensão pascal da vocação cristã.
2. O facto de esta Catequese acontecer no Domingo de Ramos, início da Semana Santa, ajudar-nos-à a descobrir melhor a dimensão pascal de toda a vocação cristã e a ultrapassar os conceitos culturais de vocação, concebida como escolha do próprio caminho, daquilo que cada um deseja ser na vida. A vocação cristã é participação na vocação de Jesus Cristo, que encarna na Sua vida as exigências do amor de Deus Pai pelos homens, e que sacrifica a Sua vida à realização desse desígnio de amor. E continua a ser assim: aceitar uma vocação é dar prioridade absoluta, na nossa vida, à realização do desígnio de Deus e isso só nos é possível participando da fidelidade de Jesus Cristo. Seguir uma vocação é deixar-se atrair por Jesus Cristo, não um Cristo imaginado por nós, mas o Cristo realisticamente concreto da Páscoa. Segundo as suas próprias palavras é segui-Lo como discípulo, começando por abraçar, com amor, a própria Cruz.
É o evangelista São João quem nos apresenta a Cruz de Cristo como realidade que nos atrai, sinal de um caminho novo, o caminho da salvação. "E Eu, elevado da terra, atrairei todos os homens a Mim" (Jo. 12,32). Eis a questão: como pode o rosto de Cristo sofredor atrair os homens e mulheres de todos os tempos, de uma maneira tão forte que os leva a dar um sentido radicalmente novo às suas vidas? É por isso que o Santo Padre convidou todos, no início do novo milénio, a contemplar o rosto de Cristo, um rosto doloroso, mas que nunca perdeu a serenidade confiante de um filho. Esse rosto doloroso é o rosto amoroso do próprio Filho de Deus 1.
O rosto doloroso de Cristo continua a atrair, porque nos revela o amor de Deus por nós, e nos ajuda a descobrir quem é Jesus, cujo ser, vocação e missão se exprimem na sua fidelidade filial ao amor de Deus e ao Seu desígnio de amor para cada homem. É ainda São João quem o afirma: "quando tiverdes elevado o Filho do homem, então sabereis quem Eu sou e que não faço nada por Mim mesmo; o que o Pai me ensinou, Eu o digo e aquele que Me enviou está comigo" (Jo. 8,27-29).
Na Cruz de Cristo eleva-se da terra a esperança da misericórdia para o homem pecador, que recupera a sua dignidade de filho de Deus. Não tenhamos medo de o afirmar: naquela Cruz está suspensa a humanidade pecadora, que se abandona à misericórdia de Deus, que aceita deixar-se morrer, na sua vida de pecado, para renascer para uma vida nova e uma dignidade recuperada. Naquela Cruz foi executado um inocente, mas que assumiu totalmente a condição pecadora da humanidade. "Aquele que não havia conhecido pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nos tornássemos, n'Ele, justiça de Deus" (2Cor. 5, 21).
Este é o sentido profundo de toda a vocação cristã. Ela é possível, porque morremos na Cruz, com Cristo, com Ele nos abandonámos totalmente ao amor misericordioso de Deus, e entregámos a nossa vida para que esse mistério de misericórdia abrace a humanidade. Só conhecemos, verdadeiramente, o drama do nosso pecado, quando sentimos a força libertadora da misericórdia e nos deixamos morrer para que o Reino de Deus triunfe, em nós e no mundo. A atracção da Cruz é a paixão por esse rosto novo da humanidade, é o convite a deixar morrer em nós o "homem velho" e construir a nossa vida com a novidade pascal da confiança e da fidelidade.
Toda a vocação é chamamento à santidade. 3. Na Cruz de Cristo conjugam-se, em núpcias misteriosas e fecundas, a santidade de Deus, o "três vezes santo" (cf. Is. 6,3), com o pecado do homem. Naquela Cruz um homem é tão santo como Deus, e recupera para o projecto de santidade, todos os homens que se unam a Ele. A santidade de Cristo não é apenas divina, é humana, exprimiu-se na existência humana de um Homem concreto, no compromisso da sua liberdade; e é a de um homem marcado pelo pecado, não o seu, mas os nossos, que Ele assumiu como seus. É por isso que a santidade de Jesus Cristo é modelo para a nossa santidade. N'Ele descobrimos todos os desafios da santidade cristã:
* O deixar morrer radicalmente em nós o pecado e a sua memória. E esse mergulho no abismo da morte é abandono confiante ao amor misericordioso de Deus;
* A fidelidade sem reservas à vontade de Deus, que é um desígnio de salvação;
* Balbuciar, timidamente, nesse abismo da morte, a primeira expressão de louvor ao Deus Santo. Quando o louvor brota espontaneamente do nosso coração pecador, é sinal de que a morte está a ser vencida pela vida, mesmo ainda na dureza da paixão, isto é, da nossa luta contra o pecado;
* A libertação do coração para um amor purificado, digno de Deus. A Cruz é um acto de amor infinito e sem reservas e restitui-nos a possibilidade de sermos como Deus na nossa experiência do amor. Aí o cristão partilha da urgência e da universalidade do amor salvífico de Deus. Na sua pregação Jesus anuncia esta novidade de amor, num coração redimido, falando-nos do amor difícil, aquele que não pode contar com a força da natureza, o amor daqueles que espontaneamente não são amáveis. "A minha mensagem é esta: amai os vossos inimigos, rezai pelos vossos perseguidores e assim sereis filhos do vosso Pai que está nos Céus" (Mt. 5,44-45).
* A esperança da ressurreição, que brota, como flor espontânea, da própria experiência do sofrimento oferecido. A certeza da vida experimenta-se na generosidade e na grandeza da morte.
Unir-se a Cristo, pelo baptismo, é participar, com Ele, na plenitude da santidade como fidelidade ao Pai. É a mensagem de Paulo aos Romanos: "Se morremos para o pecado, como é que ainda permanecemos nele? Ou ignorais que, baptizados em Jesus Cristo, foi na Sua morte que fomos baptizados? De facto, no baptismo fomos sepultados, com Ele, na morte, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova" (Rom. 6,2-4). A primeira concretização da santidade cristã é a luta contra o pecado, aceitando morrer com Cristo, para que a nossa vida renovada seja participação na Sua ressurreição.
A vocação á santidade é inerente à vocação cristã, é chamamento para todos independentemente das vocações concretas que seguirem. "Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação" (1Tes. 4,3). E o Papa diz-nos, citando o Concílio: "É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade" 2. O chamamento à santidade concebida como perfeição do amor, é a fonte de todas as exigências morais do cristianismo.
Chamamento universal na variedade das diversas vocações. 4. Podem ser muitos os caminhos em que os cristãos procuram realizar esta universal vocação à santidade. Todos têm em comum a dimensão pascal da vocação cristã. Fiel ao fio condutor destas Catequeses Quaresmais, referirei, em primeiro lugar, o matrimónio como caminho de santidade e o sentido em que o matrimónio pode ser uma vocação cristã.
Para se falar do matrimónio como vocação cristã, não basta gostar de se casar. Esse é o chamamento da natureza, comum a todos os homens e mulheres. Quando se trata de discernir uma vocação, o cristão sente, no mais profundo do seu ser, duas vozes: a da natureza e a do Espírito de Cristo, a Quem se uniu pelo baptismo. E toda a vocação cristã supõe que se escute a voz do Espírito, que nos revela as exigências da santidade e os caminhos da construção do Reino de Deus. Os que escolhem o matrimónio como vocação cristã, não podem ouvir apenas a voz da natureza, mas escutar os chamamentos de Deus, a revelação da Sua vontade e decidirem-se a viver as realidades próprias do matrimónio com a exigência da santidade, o que supõe a determinação de mergulhar, continuamente, na morte de Cristo, todos os instintos de uma natureza pecadora, para que eles se convertam em forças de amor-caridade. Como já referimos noutra Catequese, esta é a graça própria do sacramento do matrimónio.
É bom lermos, a este propósito, um texto da Novo Millenio Ineunte: "Na visão cristã do matrimónio, a relação entre um homem e uma mulher - relação recíproca e total, única e indissolúvel - corresponde ao desígnio original de Deus, o qual, ofuscado na história pela "dureza do coração", foi restaurado no seu esplendor primordial por Cristo, mostrando o que Deus quis "ao princípio" (Mt. 19,8). No matrimónio elevado à dignidade de sacramento, está expresso o "grande mistério" do amor esponsal de Cristo pela sua Igreja" (cf. Efs. 5,32) 3.
5. O matrimónio como vocação descobre-se em cada dia da vida do casal, que procura viver em Cristo morto e ressuscitado todo o seu dinamismo de amor: uma sexualidade purificada e redimida, a vivência da felicidade na sua dimensão de alegria pascal, na delicadeza da fidelidade, interpelados pela fidelidade de Jesus Cristo, a generosidade da fecundidade procurada e respeitada como participação no acto criador de Deus, a irradiação do seu amor de esposos na construção da comunidade familiar e na edificação da Igreja.
Nem sempre no início, no momento da celebração do matrimónio, está garantida a consciência desta vocação à santidade, embora a graça sacramental esteja radicalmente garantida pelo baptismo. Quero apenas dizer que, é triste constatá-lo, o casamento religioso não significa, necessariamente, a escolha do matrimónio como vocação cristã. A prática da Igreja de facilitar, com o mínimo de condições, o casamento canónico, parte da sua convicção de que, entre baptizados, só é válido o casamento sacramento e que os baptizados, quando o pedem seriamente, têm direito a ele. Mas é um grande desafio à acção pastoral, junto dos jovens, no momento das suas escolhas, junto dos noivos na preparação para o seu casamento, junto dos esposos para os ajudar a descobrir, em cada dia, o caminho maravilhoso que encetaram, talvez sem uma consciência completa disso. Não podemos esquecer que outras dimensões da nossa pastoral diocesana dificilmente encontrarão soluções sem a evangelização da família.
6. A compreensão da dimensão pascal do matrimónio, enquanto vocação cristã, ajuda a compreender a virgindade consagrada como opção vocacional. Se a confrontarmos apenas com o casamento entendido como realização de uma inclinação natural, a virgindade por amor do Reino fica desenquadrada, aparece como um caminho difícil, porventura incompreensível, única vocação a exprimir a radicalidade da morte e ressurreição de Cristo.
Convido os jovens a não se assustarem, ao fazerem a sua escolha vocacional. Confrontem as suas escolhas com as exigências da santidade cristã e abram-se não apenas à voz da natureza, mas à voz do Espírito que revela o plano de Deus a cada um. Faço minhas as palavras de João Paulo II na Novo Millenio Ineunte: "Um generoso empenho certamente há-de ser posto - sobretudo através de uma oração insistente ao Senhor da messe (cf. Mt. 9,38) - na promoção das vocações ao sacerdócio e de especial consagração. Trata-se dum problema de grande importância para a vida da Igreja em todo o mundo. Mas, nalguns países de antiga evangelização, tal problema tornou-se dramático devido à alteração do contexto social e à aridez religiosa causada pelo consumismo e secularismo. É necessário e urgente estruturar uma vasta e capilar pastoral das vocações, que envolva as paróquias, os centros educativos, as famílias, suscitando uma reflexão mais atenta sobre os valores essenciais da vida, cuja síntese decisiva está na resposta que cada um é convidado a dar ao chamamento de Deus, especialmente quando este pede a total doação de si mesmo e das próprias forças à causa do Reino" 4.
Sé Patriarcal de Lisboa, 24 de Março de 2002
JOSÉ, Cardeal Patriarca
NOTAS:
1 - Novo Millenio Ineunte, nn. 24-26
2 - NMI, n. 30, cf. Lumen Gentium, n. 40
3 - NMI, n. 47
4 - NMI, n. 46
CATEQUESE DO CARDEAL PATRIARCA NO 5.º DOMINGO DA QUARESMA
"A Virgindade por amor do Reino dos Céus"
1. Depois de quanto dissemos sobre a dimensão cristã e sacramental da sexualidade humana e do matrimónio e da beleza da união nupcial como comunhão de amor, fica-nos a pergunta: que sentido tem a virgindade como vocação cristã, que exclui as núpcias humanas e supõe a renúncia a uma certa vivência da sexualidade? É preciso reconhecer que esta questão é hoje levantada por muitos cristãos, porventura por alguns daqueles e daquelas que escolheram a virgindade como caminho de vida.
Mas se alargarmos o horizonte do nosso olhar à sociedade como um todo, verificamos que a virgindade é um caminho incompreensível, quando muito aceite no contexto do respeito pelas opções da vida pessoal e privada. As causas desta rejeição encontramo-las no naturalismo de toda a nossa cultura, distante da dimensão sobrenatural da existência, que encontra na liberdade sexual uma das suas concretizações. Mas é preciso não esquecer que também o matrimónio cristão é uma ruptura com essa perspectiva naturalista da sexualidade, pois no sacramento esta é elevada à vivência de fé da comunhão de Cristo com a Igreja. O quadro de compreensão do sentido da escolha da virgindade é da ordem sobrenatural da fé, tem como quadro de referência comparativo a vivência da sexualidade no matrimónio cristão, autêntico caminho de santidade e não uma visão naturalista da sexualidade e do amor. Na perspectiva da fé, há mais proximidade entre a virgindade e o matrimónio cristão do que entre este e essa visão naturalista da sexualidade e do amor.
O amor humano na perspectiva do Reino.
2. A partir da nossa adesão, pela fé, a Cristo Ressuscitado e da nossa união vital a Ele, pelo baptismo, toda a nossa realidade humana e, de modo particular, a nossa caminhada no amor, ganham sentido na perspectiva do Reino de Deus. É a "vida nova" segundo o Espírito que nos é dado.
São João no prólogo do seu Evangelho situa este horizonte novo em que passa a situar-se toda a vida dos discípulos de Jesus: "a todos aqueles que O receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, àqueles que acreditam no Seu Nome, que nem o sangue, nem o querer da carne, nem o querer do homem, mas só Deus gerou" (Jo. 1, 12-13).
Esta é a novidade radical da vida cristã, que não anula a vida natural, mas a purifica e eleva a ponto de ser vivida com a radicalidade de Deus. No que ao amor e à sexualidade diz respeito, a sua vivência passa a ser a comunhão no amor de Deus pelo seu Povo, de Cristo pela sua Igreja. Quer seja vivida no sacramento do matrimónio, quer na virgindade consagrada, a capacidade humana de amar exprime-se em Cristo e no Seu amor pela Igreja. Ambos os caminhos são participação no amor esponsal de Cristo pela Igreja, cujo corpo integramos. Membros da Igreja, amada por Cristo como uma esposa, ao construirmos o nosso caminho de amor, somos amados por Cristo esposo, amamos naqu'Ele que nos amou.
Entre a virgindade e o matrimónio cristão, nas diferenças específicas de cada carisma, há algo de comum: fazer da nossa sexualidade, com a força do Espírito Santo, um caminho do amor-caridade. Descobre-se o sentido específico da virgindade, não numa oposição negativa em relação ao sacramento do matrimónio, mas numa convergência positiva e mutuamente interpelante e enriquecedora, pois ambos são caminhos em que aceitamos deixar transformar todas as nossas forças de amor pelo amor de Jesus Cristo. É bom lermos, a este respeito, um texto da Familiaris Consortio: "A virgindade e o celibato pelo Reino de Deus, não só não diminuem em nada a dignidade do matrimónio, mas antes a pressupõem e confirmam. O matrimónio e a virgindade são os dois modos de exprimir e de viver o único mistério da Aliança de Deus com o seu Povo. Quando não há apreço pelo matrimónio, não o há também pela virgindade consagrada; quando a sexualidade humana não é considerada um grande valor dado pelo Criador, perde o seu significado a renúncia pelo Reino dos Céus" (1).
Virgindade um dom explicitamente cristão.
3. O celibato por amor do Reino dos Céus é, na sua vivência e na sua compreensão, uma experiência explicitamente cristã, que tem em Cristo o seu modelo inspirador, e na união a Ele a força que a motiva. Nenhuma referência extra-bíblica à virgindade, cultural ou cultual, conhecidas na antiguidade, pode ser considerada antecedente desta vocação cristã. Nem sequer o tão falado celibato praticado pelos essénios da comunidade de Qum'ran. É que entre eles "a virgindade era mais a recusa global da sexualidade do que a escolha de um valor; e os motivos de uma tal rejeição estavam na concepção da sexualidade como uma realidade negativa, quase demoníaca" (2), perspectiva completamente ausente da tradição bíblica.
No Antigo Testamento, devido ao sentido positivo da sexualidade e ao prestígio da fecundidade, que via na maternidade o maior benefício de Deus, anunciador do dom messiânico, a virgindade como escolha de vida não aparece. Mas podemos encontrar sinais de um germinar progressivo de atitudes que, mais tarde, à luz de Cristo, encontrarão o seu significado pleno no celibato voluntário por amor do Reino.
O culto de Yahwé exige a continência temporária, pois o serviço de Deus exige uma unificação interior que a continência ajuda a construir (cf. Lev. 22, 3-7). Também na valorização de viuvez casta (cf. Jd. 8, 1-8 e Lc. 2, 36) onde, por falta de uma clara dimensão escatológica, a renúncia às segundas núpcias significava uma confiança total em Deus, para melhor acolher a sua Palavra e dedicar-se ao serviço dos irmãos. Podemos também citar os casos de esterilidade fecunda (cf. 1Sm. 1, 1-2 e Lc. 1, 5-25) em que a fé e o total abandono ao desígnio de Deus abria para uma fecundidade misteriosa, porque fora dos ritmos da natureza.
Mas aparecem-nos alguns casos de escolha do celibato por chamamento de Deus. O caso do Profeta Jeremias que diz: "a Palavra de Deus foi-me dirigida nestes termos: não tomes mulher, não tenhas nesta terra nem filhos nem filhas" (Jer. 16, 1-2). É a denúncia da caducidade do casamento e da fecundidade, manchadas pela infidelidade de Israel e o anúncio de outras núpcias, as de Yahwé com o povo e de uma outra fecundidade ao ritmo da salvação. Esta renúncia ao casamento é, em Jeremias, um sinal, como em Oseias tinha sido sinal do tempo novo, o tempo da misericórdia, o seu casamento com uma prostituta, anunciando as núpcias de Yahwé com um Israel convertido e renovado (cf. Os. 1,2 - 3,1-5).
À medida que nos aproximamos do Novo Testamento, aparecem-nos grandes figuras cuja existência é a afirmação da exclusividade de Deus. João Baptista, o "amigo do esposo", o que anuncia o Messias e que exprime na sua existência essa radicalidade de Deus, embora fosse apenas o anúncio das realidades novas do tempo do Espírito. As palavras de Jesus a seu respeito situam-no bem como a personagem charneira entre o tempo antigo e o tempo novo: "Eu vo-lo digo, entre os filhos de mulher, não há ninguém maior do que João; e no entanto o mais pequeno no Reino de Deus é maior do que ele" (Lc. 7, 28).
Mas é em Maria e José que toda esta longa preparação atinge o seu vértice, no anúncio de uma convergência misteriosa, própria do tempo definitivo, entre três valores aparentemente não conciliáveis entre si: o matrimónio, a fecundidade, a virgindade. Esta é a escolha fundamental de Maria, deixando a Deus, em quem confia, que encontre o caminho de conciliação entre a virgindade, que nela é a expressão de uma total entrega a Deus, e o matrimónio inevitável e a fecundidade desejada. (3)
Cristo virgem, causa e modelo da virgindade por amor do Reino.
4. Este rosto novo da virgindade tem a ver com o tempo novo, início de uma nova criação, inaugurados em Jesus Cristo. O ser, a existência e a missão de Jesus, são profundamente virginais. O seu Ser virginal brota do mistério da união hipotática, em que a sua divindade se une radicalmente à humanidade. Na sua própria Pessoa e mistério concretizam-se as anunciadas núpcias entre Deus e a humanidade, inaugurando o tempo definitivo da criação. A sua permanente participação na comunhão de amor trinitário, unifica todas as concretizações do Seu amor nesse amor divino. A Sua virgindade é um coração indiviso, porque unificado em Deus. Todo o Seu amor pelos homens é virginal, porque amando-os, os reconduz ao único amor da Sua vida, Deus. O Seu amor pela Igreja é esponsal, porque virginal.
Jesus explica esta sua experiência, difícil de perceber no contexto judaico, com o mistério do Reino. Aos discípulos, que mostram dificuldade em aceitar as exigências do matrimónio na lógica do Reino, Jesus responde: há quem não case por causa do Reino dos Céus. Tendo consciência de que esta é uma linguagem nova, acrescenta: quem puder entender que entenda (cf. Mt. 19, 10-12).
A radicalidade do Seu amor ao Pai, no Espírito Santo, é unificadora de todo o Seu amor redentor, tudo é reconduzido a esse acto fontal de amor e exprime-se na radicalidade de serviço do Reino que comunica aos discípulos. Esse amor exclusivo tudo exige, tudo possibilita e Jesus sabe que essa exigência incluirá a Sua morte na Cruz: "Se alguém vem a Mim, sem se desprender de seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não tomar a sua cruz e Me seguir, não pode ser meu discípulo" (Lc. 14, 26-27).
Mas Jesus sabe que esta radicalidade do Reino, n'Ele já presente, seria uma realidade do tempo definitivo, que pode já ser partilhada pelos discípulos que aceitam segui-Lo nessa radicalidade, na esperança da plenitude escatológica, em que as maneiras de amar do tempo presente passarão, dando lugar ao amor definitivo, a forma de amar daqueles que participaram na Sua ressurreição: "Os filhos deste mundo tomam mulher ou marido. Mas aqueles que forem julgados dignos de tomar parte no outro mundo e na ressurreição dos mortos, não tomam mulher nem marido; aliás nem sequer podem, porque são semelhantes aos anjos, e são filhos de Deus porque são filhos da ressurreição" (Lc. 20, 34-36).
Seguir Jesus no seu amor virginal é possível porque já participamos na Sua ressurreição e, por Ele, participamos no amor de Deus. A atracção do definitivo, em termos de amor, pode acontecer num coração humano recriado pelo Espírito Santo, aceitando toda a exigência de viver nas realidades do mundo presente, uma forma de amar que só será plena no Céu.
A vitória definitiva sobre a solidão.
5. Na Igreja apostólica encontramos uma abordagem explícita do tema da virgindade como alternativa ao matrimónio, enquanto caminho de vivência cristã do amor. Refiro-me ao texto da 1.ª Carta aos Coríntios (1Cor. 7, 25-39). Trata-se de um texto marcado por uma forte densidade escatológica, dando prioridade às vivências que são da ordem do "tempo definitivo", que será inaugurado com a última vinda de Cristo, face às realidades do "tempo presente", transitórias por natureza, entre as quais o Apóstolo coloca o matrimónio, mesmo aceitando-o como caminho legítimo de santidade. "Passará a figura deste mundo" (v. 31).
Deste texto ressaltam algumas características da virgindade escolhida como caminho de fidelidade a Cristo:
* Não é um caminho comum e muito menos se pode impôr. É um carisma, ou seja, uma graça própria e um dom.
* A autoridade de Paulo para propor este caminho é apenas o seu testemunho pessoal e a qualidade de experiência de liberdade que a virgindade pode proporcionar. Não esqueçamos que é o mesmo Apóstolo que disse de si mesmo: para mim viver é Cristo (cf. Gal. 2,20; Fil. 1,21).
* É exactamente na especial relação com Jesus Cristo que Paulo identifica a especificidade da virgindade. Trata-se de uma relação exclusiva, com um coração indiviso, a Cristo, tal como Ele o tinha em relação ao seu Pai Celeste. "O homem que não se casa, ocupa-se só nas coisas do Senhor e na maneira de agradar ao Senhor" (v. 32). É um estado de vida que une a pessoa a Cristo, sem divisões nem partilhas (v. 35).
* E finalmente Paulo acha que este dom de um "coração indiviso" ao amor de Cristo, é a vitória definitiva sobre a solidão, porque cumula completamente as necessidades de amor do coração humano. A novidade deste caminho, que é pascal e escatológico, é sugerida num contraste com o Livro do Génesis. Aí se disse, explicando a plenitude do ser humano como homem e mulher, que não é bom que o homem esteja só (cf. Gen. 2,18). Agora Paulo afirma que é preferível que se fique só com o Senhor (v. 40).
Parece claro nesta intuição do Apóstolo que o matrimónio como vitória sobre a solidão não é a solução definitiva. E a experiência humana mostra-nos que não o é. Só Deus vencerá definitivamente o risco da solidão, mesmo para as pessoas casadas. A entrega total de amor a Cristo, que se exprime na virgindade, proporciona uma realização relacional e amorosa, que preenche cabalmente a necessidade humana de amar e ser amado. É por isso que a virgindade não é só, nem denúncia, nem privação. É a abertura à surpresa de Deus, dom inaudito do amor de Cristo, início de uma nova maneira de amar. A virgindade é possível porque é um caminho de amor novo, plenificante e fecundo.
A fecundidade do amor virginal.
6. Caminho novo de amor, a virgindade não pode ser concebida como negação da sexualidade, ou renúncia ao amor e à fecundidade. Opção que só a fé torna possível, a caminho da virgindade une a pessoa ao amor virginal e esponsal de Jesus Cristo, situa-a no âmago do mistério da Igreja e da sua maternidade fecunda. O âmbito do amor é a edificação do Reino de Deus. O mandamento novo "amai-vos uns aos outros como Eu vos amei", adquire um realismo particular no amor virginal, alarga ao infinito o horizonte das pessoas a amar; o amor simplifica-se no dom total de si mesmo, cada vez mais despojado e gratuito, cujo dinamismo impulsionador é o do próprio Reino de Deus. Que ninguém tenha ilusões: o que torna o amor virginal possível é o próprio amor de Jesus Cristo e a fecundidade espiritual da Igreja.
O próprio Jesus dá a entender que a fecundade do amor virginal é da ordem do Reino dos Céus. Àqueles que deixaram tudo para O seguir, Ele promete, "já no presente, cem vezes mais, em casas, irmãos e irmãs, em mães e filhos, em campos, juntamente com perseguições e no futuro a vida eterna" (Mc. 10,30).
Uma atitude que aparece, inicialmente, como uma renúncia ao mundo e às coisas do mundo, revela-se, na perspectiva da fé, um reenvio ao mundo, a partir de Cristo e do seu amor. Durante dois mil anos, multidões de homens e de mulheres, cativados pelo absoluto do amor de Deus em Jesus Cristo, alargaram o horizonte da sua capacidade de amar, adoraram a Deus com um coração indiviso e amaram os irmãos, sobretudo os que mais ninguém ama, com a própria ternura de Deus. A fecundidade do amor virginal actualiza o amor da própria Igreja pelos homens, ajudando a aproximar-nos mais do amor de Deus. Um coração virginal é mais capaz de amar como Deus ama.
Sé Patriarcal de Lisboa, 17 de Março de 2002
JOSÉ, Cardeal Patriarca
NOTAS:
1 - Familiaris Consortio, n. 16
2 - Sandro MAGGIOLINI, Il matrimonio, la verginita, Milão (1977), pg. 168
3 - cf. Ibidem, pp. 169 e ss
Queridos Sacerdotes!
1. Com viva emoção, dirijo-me a vós, como é tradição por ocasião do dia de Quinta-feira Santa, sentando-me de certo modo convosco àquela mesa do Cenáculo onde o Senhor Jesus celebrou com os Apóstolos a primeira Eucaristia: um dom oferecido a toda a Igreja, um dom que, embora sob o véu sacramental, O torna "verdadeira, real e substancialmente" presente (Concílio de Trento, DS 1651) nos Sacrários de todas as latitudes. Diante desta presença muito especial, a Igreja desde sempre se inclina em adoração: "Adoro te devote, latens Deitas"; desde sempre se deixa arrebatar pelos arroubos espirituais dos Santos e, como Esposa, recolhe-se numa efusão íntima de fé e de amor: "Ave, verum corpus natum de Maria Virgine".
Ao dom desta presença muito especial, que se perpetua no supremo acto sacrifical tornando-se nosso alimento, Jesus associou, precisamente no Cenáculo, uma tarefa específica dos Apóstolos e seus sucessores. Desde então ser apóstolo de Cristo, como o são os Bispos e os presbíteros que participam da sua missão, significa estar habilitado a agir in persona Christi Capitis. Isto acontece de forma suprema sempre que se celebra o banquete sacrifical do corpo e do sangue do Senhor. Assim o sacerdote de algum modo empresta a Cristo o rosto e a voz: "Fazei isto em memória de Mim" (Lc 22, 19).
Como é maravilhosa a nossa vocação, meus queridos irmãos sacerdotes! Podemos verdadeiramente repetir com o Salmista: "Como agradecerei ao Senhor tudo quanto Ele me deu? Elevarei o cálice da salvação invocando o nome do Senhor" (Sal 116b/115, 12-13).
2. Numa meditação renovada e jubilosa deste dom, queria, neste ano, deter-me convosco sobre um aspecto da nossa missão que já o ano passado, nesta mesma ocasião, propus à vossa atenção. Acho que merece ser aprofundado ainda mais. Refiro-me à missão que o Senhor nos deu de representá-Lo não só no Sacrifício Eucarístico mas também no sacramento da Reconciliação.
Há uma íntima conexão entre este dois sacramentos. A Eucaristia, ápice da economia sacramental, é também a sua fonte: todos os sacramentos em determinado sentido brotam dela e conduzem a ela. Isto vale de modo especial para o sacramento destinado a "mediar" o perdão de Deus, que, nos seus braços, acolhe novamente o pecador arrependido. Com efeito a Eucaristia, enquanto representação do Sacrifício de Cristo, também tem a tarefa de nos libertar do pecado. A este respeito, recorda-nos o Catecismo da Igreja Católica: "A Eucaristia não pode unir-nos a Cristo sem nos purificar, ao mesmo tempo, dos pecados cometidos e nos preservar dos pecados futuros" (n. 1393). Na economia da graça decidida por Cristo, todavia, esta sua energia purificadora, ao mesmo tempo que efectua directamente a purificação dos pecados veniais, só indirectamente atinge os pecados mortais, que prejudicam radicalmente o relacionamento do fiel com Deus e a sua comunhão com a Igreja. "A Eucaristia - lê-se ainda no Catecismo - não está ordenada ao perdão dos pecados mortais. Isso é próprio do sacramento da Reconciliação. O que é próprio da Eucaristia é ser o sacramento daqueles que estão em plena comunhão com a Igreja" (n. 1395).
Ao reafirmar esta verdade, a intenção da Igreja não é certamente diminuir o papel da Eucaristia, mas especificar o seu significado dentro da economia sacramental inteira, tal como foi traçada pela sabedoria salvífica de Deus. Aliás, esta é a linha decisivamente apontada pelo Apóstolo, quando escrevia aos Coríntios: "Assim todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se cada qual a si mesmo e, então, coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que come e bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação" (1 Cor 11, 27-29). Na sequência desta advertência paulina, coloca-se o princípio segundo o qual "aquele que tiver consciência dum pecado grave deve receber o sacramento da Reconciliação antes de se aproximar da Comunhão" (CIC, 1385).
3. Ao lembrar esta verdade, meus queridos irmãos no sacerdócio, sinto o desejo de convidar-vos calorosamente, como fiz já no ano passado, a que pessoalmente descubrais e façais descobrir a beleza do sacramento da Reconciliação. Há alguns decénios e por diversos motivos, este sacramento atravessa uma certa crise, à qual me tenho referido mais de uma vez, decidindo mesmo que sobre ela reflectisse um Sínodo dos Bispos, cujas indicações compendiei depois na exortação apostólica Reconciliatio et pœnitentia. Por outro lado, não posso deixar de recordar com profunda alegria os sinais positivos que, sobretudo no Ano Jubilar, atestam como este sacramento, devidamente apresentado e celebrado, pode ser amplamente apreciado mesmo pelos jovens. Esta estima é certamente favorecida pela necessidade de comunicação pessoal, que hoje se torna mais difícil por causa dos ritmos frenéticos da sociedade tecnológica, mas por isso mesmo sentida cada vez mais como uma carência vital. É certo que se pode dar resposta a tal carência de vários modos. Mas como não reconhecer que o sacramento da Reconciliação, sem se confundir com nenhuma das diversas terapias de tipo psicológico, oferece como que por sobreabundância uma resposta significativa também a esta exigência? Fá-lo ao relacionar o penitente com o coração misericordioso de Deus através do rosto amigo dum irmão.
Sim, verdadeiramente grande é a sabedoria de Deus que, pela instituição deste sacramento, quis dar resposta também a uma necessidade profunda e irreprimível do coração humano. Devemos ser intérpretes amorosos e clarividentes desta sabedoria no contacto pessoal, que somos chamados a estabelecer com tantos irmãos e irmãs na celebração da Penitência. A este respeito, quero reafirmar que a celebração pessoal é a forma ordinária de administração deste sacramento e, só em "casos de grave necessidade", é legítimo recorrer à forma comunitária com confissão e absolvição colectiva. São bem conhecidas as condições que se requerem para tal género de absolvição, mas recordo que nunca se fica exonerado da sucessiva confissão individual dos pecados graves, que os fiéis se devem comprometer a fazer para ser válida a absolvição (cf. CIC, 1483).
4. Lancemo-nos, com alegria e confiança, à descoberta deste sacramento. Antes de mais, vivamo-lo nós próprios como uma exigência profunda e uma graça incessantemente desejada para restituir vigor e impulso ao nosso caminho de santidade e ao nosso ministério.
Simultaneamente esforcemo-nos por ser autênticos ministros da misericórdia. Com efeito, nós sabemos que neste sacramento, como em todos os outros aliás, ao mesmo tempo que damos testemunho duma graça que vem do Alto e opera por si mesma, somos chamados também a ser instrumentos activos dela. Por outras palavras - e isto enche-nos de responsabilidade - Deus conta também connosco, com a nossa disponibilidade e fidelidade para realizar os seus prodígios nos corações. Na celebração deste sacramento, talvez mais do que noutros, é importante que os fiéis tenham uma experiência viva do rosto de Cristo Bom Pastor.
Permiti, pois, que me entretenha convosco sobre este tema, de certo modo encontrando-vos nos lugares onde cada dia - nas catedrais, nas paróquias, nos santuários ou noutros lugares- vos ocupais da administração deste sacramento. Repassam pela mente as páginas do Evangelho que mais directamente nos apresentam o rosto misericordioso de Deus. Como não pensar no comovente encontro do filho pródigo com o Pai misericordioso? Ou na imagem da ovelha perdida e reencontrada, que o Pastor, todo contente, coloca aos ombros? O abraço do Pai, a alegria do Bom Pastor devem ser testemunhados por cada um de nós, queridos Irmãos, no momento em que nos é pedido para fazermos de ministros do perdão a favor dum penitente.
Mas, para melhor realçar algumas dimensões específicas deste colóquio muito especial de salvação que é a confissão sacramental, quero hoje tomar como "ícone bíblico" o encontro de Jesus com Zaqueu (cf. Lc 19, 1-10). De facto, tenho a impressão de que o sucedido entre Jesus e o "chefe dos publicanos" de Jericó se pareça em vários aspectos com uma celebração do sacramento da misericórdia. Seguindo esta narração breve mas muito densa, queremos de certo modo perscrutar, nas atitudes e na voz de Cristo, todas as tonalidades de sapiência humana e sobrenatural que nós próprios devemos procurar exprimir, para que o sacramento seja vivido da melhor forma possível.
5. Como sabemos, a narração apresenta o encontro de Jesus com Zaqueu quase como um facto casual. Jesus entra em Jericó e atravessa a cidade acompanhado pela multidão (cf. Lc 19, 3). Quanto a Zaqueu, parece que sobe ao sicómoro levado quase só pela curiosidade. Às vezes os encontros de Deus com o homem revestem-se precisamente da aparência da casualidade. Mas nada é "casual" na perspectiva de Deus. Ocupados como estamos nas realidades pastorais mais diversas, às vezes pode desanimar-nos ou desmotivar-nos o facto de que muitos cristãos não só não prestam a devida atenção à vida sacramental, mas frequentemente, quando se abeiram dos sacramentos, fazem-no de modo superficial. Quem tem experiência de confissões, de como habitualmente se aproximam deste sacramento, pode às vezes ficar perturbado com o facto de que alguns fiéis chegam a confessar-se não sabendo bem sequer o que querem. Alguns tomam a decisão de ir confessar-se apenas porque sentem falta de ser ouvidos. Outros, pela exigência de receber um conselho. Outros ainda, pela necessidade psicológica de libertarem-se do peso do "sentido de culpa". Muitos sentem autêntica carência de restabelecer uma relação com Deus, mas confessam-se sem ter a consciência suficiente das obrigações que daí derivam e, quem sabe, fazendo um exame de consciência muito redutivo, por falta de formação acerca das implicações duma vida moral inspirada no Evangelho. Qual é o confessor que não teve esta experiência?
Pois bem! Tal é o caso de Zaqueu. Tudo o que lhe acontece é de pasmar. Se, num dado momento, não se tivesse verificado a "surpresa" do olhar de Cristo, ele teria ficado talvez um mudo expectador da sua passagem pelas estradas de Jericó. Jesus teria passado ao seu lado, não dentro da sua vida. Ele próprio não suspeitava que a curiosidade, que o levara a um gesto tão singular, era já fruto duma misericórdia que o precedia, atraía e, bem depressa, mudaria no íntimo do coração.
Meus queridos sacerdotes, pensando em muitos dos nossos penitentes, leiamos uma vez mais aquela indicação estupenda que Lucas refere sobre o comportamento de Cristo: "Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: "Zaqueu, desce depressa, pois tenho de ficar em tua casa"" (Lc 19, 5).
Cada um dos nossos encontros com um fiel que nos pede para se confessar, mesmo de forma um pouco superficial porque não motivado nem preparado adequadamente, pode ser sempre, pela graça surpreendente de Deus, aquele "local" junto do sicómoro onde Jesus levantou os olhos para Zaqueu. Para nós, é-nos impossível medir quanto tenham penetrado os olhos de Cristo no íntimo do publicano de Jericó. Sabemos, porém, que aqueles são os mesmos olhos que fixam cada um dos nossos penitentes. No sacramento da Reconciliação, somos instrumentos dum encontro sobrenatural com leis próprias, que devemos apenas respeitar e favorecer. Deverá ter sido, para Zaqueu, uma experiência impressionante ouvir chamar-se pelo seu nome. Na boca de muitos conterrâneos, aquele nome era pronunciado com grande desprezo. Agora ouve proferi-lo com uma ternura tal que exprime não só confiança, mas familiaridade e de algum modo urgência duma amizade. Sim, Jesus fala a Zaqueu como a um velho amigo, que talvez O esquecera, mas nem por isso Ele renunciara à sua fidelidade e, por conseguinte, entra com a doce pressão do afecto na vida e na casa do amigo reencontrado: "Desce depressa, pois tenho de ficar em tua casa" (Lc 19, 5).
6. No relato de Lucas, impressiona o tom da linguagem: tudo é tão personalizado, delicado, afectuoso! Não se trata apenas de comoventes traços de humanidade. Há, neste texto, uma urgência intrínseca, expressa por Jesus enquanto revelador definitivo da misericórdia de Deus. Diz Ele: "Tenho de ficar em tua casa" ou, traduzindo mais literalmente, "é necessário que Eu fique em tua casa" (Lc 19, 5). Seguindo o mapa misterioso das estradas que o Pai Lhe indicou, Jesus encontrou no seu caminho também Zaqueu. Detém-Se na sua casa, como se se tratasse dum encontro previsto desde o princípio. A casa deste pecador está para se tornar, não obstante as numerosas murmurações da mesquinhez humana, um lugar de revelação, o cenário dum milagre da misericórdia. Certamente que isso não acontecerá, se Zaqueu não libertar o seu coração dos laços do egoísmo e dos nós da injustiça cometida com a fraude. Mas, a misericórdia já o alcançou como oferta gratuita e sobreabundante. A misericórdia precedeu-o!
O mesmo se dá em cada encontro sacramental. Não devemos pensar que é o pecador, com o seu caminho autónomo de conversão, que merece a misericórdia. Ao contrário, é a misericórdia a impeli-lo pela estrada da conversão. O homem, por si mesmo, nada pode; e nada merece. A confissão, antes de ser um caminho do homem para Deus, é a chegada de Deus à casa do homem.
Assim, em cada confissão, podemos encontrar-nos com os mais diversos tipos de pessoas. Duma coisa devemos estar certos: antes do nosso convite e mesmo antes das nossas palavras sacramentais, os irmãos que pedem o nosso ministério estão já envolvidos por uma misericórdia que neles opera a partir de dentro. Oxalá consigamos, através das nossas palavras e do nosso ânimo de pastores, sempre solícitos por cada uma das pessoas, capazes de intuir os seus problemas e de acompanhar com delicadeza o seu caminho dando-lhes confiança na bondade de Deus, ser colaboradores também da misericórdia que acolhe e do amor que salva.
7. "Tenho de ficar em tua casa". Procuremos penetrar ainda mais profundamente nestas palavras. São uma proclamação. Antes de indicar uma decisão de Cristo, elas proclamam a vontade do Pai. Jesus apresenta-Se como alguém que tem um mandato concreto. Ele próprio tem uma "lei" que deve observar: a vontade do Pai, que cumpre com tal amor que dela faz o seu "alimento" (cf. Jo 4, 34). As palavras com que Jesus Se dirige a Zaqueu não são apenas uma forma de estabelecer uma relação, mas o anúncio dum projecto traçado por Deus.
O encontro dá-se no âmbito da palavra de Deus, que se identifica com a palavra e o rosto de Cristo. Isto mesmo constitui o início necessário de todo o encontro autêntico para a celebração da Penitência. Ai se tudo se reduzisse a recursos humanos de comunicação! A atenção às leis da comunicação humana pode ser útil, e não devem ser transcuradas, mas tudo há-de estar fundado na palavra de Deus. Por isso, o rito do sacramento prevê também que seja proclamada ao penitente esta palavra.
É um ponto que não deve ser subestimado, embora não seja fácil de realizar. Os confessores experimentam continuamente como é difícil explicar as exigências desta palavra a quem só a conhece superficialmente. E o momento em que se celebra o sacramento não é certamente o mais adequado para suprir essa lacuna. Ter-se-á de remediá-la, com tacto pastoral, na fase anterior da preparação, proporcionando as indicações fundamentais que permitam a cada um confrontar-se com a verdade do Evangelho. Entretanto o confessor não deixará de valer-se do encontro sacramental para ajudar o penitente a entrever de algum modo a misericordiosa condescendência de Deus, que lhe estende a mão não para o ferir mas para salvá-lo.Aliás, como se pode ignorar as dificuldades objectivas, que a tal respeito suscita a cultura dominante do nosso tempo? Não é raro os próprios cristãos maduros sentirem-se obstaculizados por ela no seu compromisso de sintonia com os mandamentos de Deus e com as directrizes do magistério da Igreja que explicitam esses mesmos mandamentos. Isto verifica-se no caso de tantos problemas de ética sexual e familiar, de bioética, de moral profissional e social, mas sentem também problemas no âmbito dos seus deveres relacionados com a prática religiosa e com a participação na vida eclesial. Tudo isto requer um trabalho catequético tal que é impossível o confessor assumi-lo no momento da administração do sacramento. Melhor será fazer disso tema de aprofundamento durante a preparação para a confissão. Podem ser de grande ajuda, para tal objectivo, as celebrações penitenciais, preparadas de modo comunitário e finalizadas na confissão individual.
Para bem delinear tudo isto, o "ícone bíblico" de Zaqueu oferece-nos também uma indicação importante. No sacramento, antes de nos encontrarmos com "os mandamentos de Deus", encontramo-nos, em Jesus, com "o Deus dos mandamentos". A Zaqueu, Jesus apresenta-Se a Si mesmo: "Tenho de ficar em tua casa". Jesus é o dom para Zaqueu, e simultaneamente Ele é a "lei de Deus" para Zaqueu. Quando alguém encontra Jesus como um dom, então até o aspecto mais exigente da lei adquire a "leveza" própria da graça, segundo aquela dinâmica sobrenatural que levava Paulo a afirmar: "Se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a lei" (Gal 5, 18). Cada celebração da Penitência devia suscitar no ânimo do penitente o mesmo frémito de alegria que provocaram as palavras de Cristo em Zaqueu, que "desceu imediatamente e recebeu-O cheio de alegria" (Lc 19, 6).
8. Por outro lado, a primazia e a sobreabundância da misericórdia não devem fazer esquecer que esta é apenas o pressuposto da salvação, que chega a bom termo na medida em que encontra resposta por parte do ser humano. De facto, o perdão concedido no sacramento da Reconciliação não é um acto externo, uma espécie de "regularização" jurídica, mas um verdadeiro encontro do penitente com Deus, que restabelece a relação de amizade que o pecado rompera. A "verdade" desta relação exige que o homem acolha o abraço misericordioso de Deus, superando qualquer resistência derivada do pecado.
Assim acontece com Zaqueu. Sentindo-se tratado por "filho", começa a pensar e comportar-se como um filho, e demonstra-o redescobrindo os irmãos. Sob o olhar amoroso de Cristo, o seu coração abre-se ao amor do próximo. Duma posição de insensibilidade, que o levara a enriquecer sem se importar com o sofrimento alheio, Zaqueu passa a uma atitude de partilha, que se traduz numa verdadeira "divisão" do seu património: a "metade dos bens" para os pobres. A injustiça, que causou dano aos irmãos com a fraude, é reparada restituindo-lhes o quádruplo: "Se defraudei alguém em qualquer coisa, devolver-lhe-ei quatro vezes mais" (Lc 19, 8). Só quando chegou a este ponto é que o amor de Deus alcançou o seu objectivo e se operou a salvação: "Veio hoje a salvação a esta casa" (Lc 19, 9).
Este caminho da salvação, expresso claramente no episódio de Zaqueu, deve servir-nos, queridos sacerdotes, de orientação para desempenhar, com sábio equilíbrio pastoral, a nossa difícil tarefa no ministério das confissões. Este sempre se ressente das pressões contrapostas de dois excessos: o rigorismo e o laxismo. O primeiro não tem em conta a parte inicial do episódio de Zaqueu: a misericórdia preveniente, que impele à conversão e valoriza até os progressos mais insignificantes no amor, porque o Pai deseja fazer o impossível para salvar o filho perdido. "O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido" (Lc 19, 10). O segundo excesso, o laxismo, esquece-se que a salvação plena, a salvação não só oferecida mas recebida, a salvação que verdadeiramente cura e levanta, implica uma autêntica conversão às exigências do amor de Deus. Se Zaqueu tivesse acolhido o Senhor em casa sem chegar a uma atitude de abertura ao amor, à reparação do mal feito, a um propósito firme de vida nova, não teria recebido, no seu íntimo, o perdão que o Senhor lhe oferecera com tanta solicitude.
Importa estar sempre atentos a manter o justo equilíbrio para não incorrer em nenhum destes dois extremos. O rigorismo oprime e afasta. O laxismo deseduca e ilude. O ministro do perdão, enquanto encarna para o penitente o rosto do Bom Pastor, deve exprimir igualmente a misericórdia preveniente e o perdão que cura e dá a paz. Na base destes princípios, compete ao sacerdote discernir, no diálogo com o penitente, se este está preparado para a absolvição sacramental. A delicadeza do encontro com as almas, num momento tão íntimo e frequentemente doloroso, impõe certamente muita discrição. Se não transparecer o contrário, o sacerdote deve supor que o penitente, ao confessar as faltas, sente uma autêntica dor dos pecados com o relativo propósito de emenda. Tal suposição poderá contar com melhor fundamento, se a pastoral da reconciliação sacramental souber oferecer oportunos subsídios, garantindo momentos de preparação para o sacramento que ajudem cada um a maturar suficientemente em si mesmo uma consciência do que vem pedir. É claro todavia que, se resultar evidente o contrário, o confessor tem o dever de dizer ao penitente que não está pronto ainda para a absolvição. Se esta fosse dada a quem declara explicitamente que não quer emendar-se, o rito reduzir-se-ia a pura ilusão, antes teria quase o sabor dum acto mágico, capaz talvez de suscitar uma aparência de paz, mas não aquela paz profunda da consciência, garantida pelo abraço de Deus.
9. À luz do que fica dito, aparece mais claro por que razão a forma ordinária da reconciliação sacramental deve ser o encontro pessoal do confessor com o penitente, enquanto a modalidade da absolvição colectiva é de carácter excepcional. Como se sabe, a prática da Igreja chegou gradualmente à celebração privada da penitência, após séculos em que dominara a fórmula da penitência pública. Esta evolução não só não alterou a substância do sacramento - e não podia ser doutro modo! - mas inclusive aprofundou a sua fisionomia e eficácia. Assim aconteceu com a assistência do Espírito Santo, que também nisto cumpriu a sua missão de levar a Igreja "para a verdade total" (Jo 16, 13).
Com efeito, a forma ordinária da Reconciliação não só exprime bem a verdade da misericórdia divina e do perdão que dela dimana, mas ilumina a própria verdade do homem num dos seus aspectos fundamentais: a originalidade de cada pessoa, que, embora vivendo num tecido relacional e comunitário, jamais se deixa reduzir à condição duma massa informe. Isto explica o eco profundo que suscita no espírito ouvir-se chamar pelo próprio nome. Saber-se conhecido e acolhido por aquilo que somos, pelas nossas qualidades mais pessoais, faz-nos sentir verdadeiramente vivos. A própria pastoral devia ter em maior consideração este aspecto para equilibrar prudentemente os momentos comunitários, nos quais se sublinha a comunhão eclesial, com os momentos de atenção às exigências do indivíduo. Em geral, as pessoas esperam ser reconhecidas e acompanhadas, e é precisamente através desta proximidade que elas sentem mais forte o amor de Deus.
Nesta perspectiva, o sacramento da Reconciliação apresenta-se como um dos percursos privilegiados desta pedagogia da pessoa. Aqui o Bom Pastor, através do rosto e da voz do sacerdote, aproxima-Se de cada um, iniciando um diálogo pessoal feito de escuta, conselho, conforto, perdão. O amor de Deus é tal que, sem faltar aos outros, consegue concentrar-se sobre cada um. Quem recebe a absolvição sacramental deve poder sentir o calor desta solicitude pessoal. Deve experimentar a intensidade do abraço paterno dado ao filho pródigo: "[O pai] correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos" (Lc 15, 20). Deve poder ouvir aquela voz timbrada de amizade que o publicano Zaqueu escutou, chamando-o pelo nome a uma vida nova (cf. Lc 19, 5).
10. Isto mostra também a necessidade duma adequada preparação do confessor para a celebração deste sacramento, que se deve realizar de modo que resplandeça, inclusive nas formas externas da celebração, a sua dignidade de acto litúrgico, segundo as normas indicadas pelo rito da Penitência. Isto não exclui a possibilidade de se fazerem as adaptações pastorais requeridas pelas circunstâncias, quando sugeridas por verdadeiras exigências do penitente, à luz do princípio clássico que reconhece a salus animarum como suprema lex da Igreja. Deixemo-nos, pois, guiar pela sabedoria dos Santos. Com coragem, façamos a proposta da confissão ao jovens. Encontremo-nos com eles, sabendo ser junto deles amigos e pais, confidentes e confessores. Eles precisam de encontrar-nos ora num papel ora noutro, ora numa dimensão ora noutra. Além disso, sejamos escrupulosos em manter verdadeiramente actualizada a nossa formação teológica, tendo em vista sobretudo os novos desafios éticos, permanecendo sempre ancorados ao discernimento do magistério da Igreja. Relativamente às questões éticas nodais da actualidade, sucede às vezes que os fiéis saem da confissão com as ideias bastante confusas, nomeadamente porque não encontram nos confessores a mesma linha de avaliação. Na realidade, aqueles que desempenham, em nome de Deus e da Igreja, este delicadíssimo ministério têm o dever concreto de não cultivar e, mais ainda, de não manifestar em sede sacramental juízos pessoais não sintonizados com o que a Igreja ensina e proclama. Não se pode confundir com amor o acto de faltar à verdade por um equivocado sentido de compreensão. Não nos é permitido proceder a reduções por nosso livre arbítrio, ainda que com a melhor das intenções. A nossa missão é ser testemunhas de Deus, fazendo-nos intérpretes duma misericórdia que salva, mesmo quando se manifesta como juízo sobre o pecado do homem. "Nem todo o que Me diz: "Senhor, Senhor", entrará no reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus" (Mt 7, 21).
11.Queridos sacerdotes! Desejo que me sintais particularmente unido convosco, na hora em que vos reunis à volta dos vossos Bispos, nesta Quinta-feira Santa do ano 2002. Todos experimentámos um renovado impulso eclesial nesta alvorada do novo milénio, sob o signo "partir de Cristo" (cf. Novo millennio ineunte, 29ss). Era desejo de todos que tal coincidisse com um novo período de fraternidade e de paz para a humanidade inteira. Ao contrário, vimos correr mais sangue. Fomos novamente testemunhas de guerras. Com angústia, sentimos a tragédia da divisão e do ódio que destroçam as relações entre os povos.
Além disso, neste momento nós, sacerdotes, temos sido pessoal e profundamente perturbados pelos pecados de alguns irmãos nossos que atraiçoaram a graça recebida na Ordenação, chegando a ceder às piores manifestações do mysterium iniquitatis que actua no mundo. Originaram-se assim escândalos graves, com a consequência dum pesada sombra de suspeita lançada sobre os restantes sacerdotes benfazejos, que desempenham o seu ministério com honestidade, coerência e até caridade heróica. Enquanto a Igreja manifesta a sua solicitude pelas vítimas e procura dar resposta, segundo verdade e justiça, a cada penosa situação, todos nós - cientes da fraqueza humana, mas confiando na força sanante da graça divina - somos chamados a abraçar o "mysterium Crucis" e empenhar-nos ainda mais na busca da santidade. Devemos rezar a Deus para que, na sua providência, suscite nos corações um generoso ressurgimento daqueles ideais de total doação a Cristo que estão na base do ministério sacerdotal.
Precisamente a fé em Cristo é que nos dá força para olhar o futuro com confiança. De facto, sabemos que o mal habita desde sempre no coração do homem e só quando este, alcançado por Cristo, se deixa "conquistar" por Ele é que se torna capaz de irradiar à sua volta paz e amor. Como ministros da Eucaristia e da Reconciliação sacramental temos, a título muito especial, a tarefa de espalhar no mundo esperança, bondade, paz.
Faço votos de que vivais, na paz do coração e em profunda comunhão entre vós, com o Bispo e com as vossas comunidades, este dia santíssimo em que recordamos, com a instituição da Eucaristia, o nosso "nascimento" sacerdotal. Com as palavras que Cristo dirigiu aos Apóstolos no Cenáculo, depois da ressurreição, e invocando a Virgem Maria, Regina Apostolorum e Regina pacis, a todos abraço fraternalmente: Paz, paz a todos e a cada um de vós. Boa Páscoa!
Vaticano, 17 de Março de 2002
JOÃO PAULO II
CATEQUESE DO CARDEAL PATRIARCA NO 4.º DOMINGO DA QUARESMA
"A Fecundidade do Amor"
1. O amor é a mais bela expressão da vida e por isso comunica espontaneamente a vida. São Tomás de Aquino afirmou-o numa fórmula, hoje consagrada: "amor est difusivum sui", isto é, o amor expande-se a si mesmo, difunde-se à sua volta.
É esta característica do amor que explica o mistério da criação. Deus, o amor absoluto - "Deus é amor" (1Jo. 4,8-16) - que exprime, desde toda a eternidade, a fecundidade desse amor, na vida íntima da Santíssima Trindade, na geração do Filho e na inspiração do Espírito Santo, concretiza-a também na criação do universo e do homem. Deus cria a partir do amor e para o amor; o homem foi criado por amor e para o amor.
Esta expansividade do amor exprime-se, na nossa vida, de maneiras muito simples: uma pessoa feliz ajuda os outros a serem felizes, alguém que ama, traça à sua volta, um rasto de luz e de vida. É por esse mesmo dinamismo que a Igreja, amada por Jesus Cristo, reflecte no seu rosto, para os outros homens, a luz de Cristo. (1) O amor gera no coração das pessoas que amam e são amadas, um dinamismo, uma inquietação, que as faz sentir-se enviadas a testemunhar o amor. Essa força é a origem, por exemplo, do dinamismo missionário e apostólico e do ardor de todos os grandes apaixonados pelo serviço dos outros homens. O fruto espontâneo da fecundidade do amor é semear o amor, amando cada vez mais os que já amamos, descobrindo que amar é anunciar e comunicar a vida. Jesus disse: "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo. 10,10).
A fecundidade do matrimónio cristão.
2. Relembremos aqui que a comunhão conjugal, união de amor do homem e da mulher, é a mais forte expressão da "imagem de Deus" que trazem gravada no seu coração. Por isso esse amor participa da fecundidade do amor de Deus. Essa fecundidade é total. Não só participam espiritualmente desse amor divino, entrando na comunhão trinitária e semeando, com o seu amor, a alegria noutros corações, mas partilham com Deus a alegria da criação, gerando filhos, outros homens e mulheres, também eles "imagens de Deus" e vocacionados para o amor. Ao gerar filhos, o homem e a mulher participam no poder criador de Deus. Diz o Santo Padre João Paulo II na Familiaris Consortio: "na sua realidade mais profunda, o amor é essencialmente dom. o amor conjugal, levando os esposos ao conhecimento recíproco que os torna "uma só carne", não se esgota no interior do próprio casal, já que os habilita para a máxima doação possível, pela qual se tornam cooperadores de Deus no dom da vida a uma nova pessoa humana. Deste modo os esposos, enquanto se dão entre si, dão, para além de si mesmos, um ser real - o filho, reflexo vivo do seu amor, sinal permanente da unidade conjugal e síntese viva e indissociável do seu ser de pai e mãe". (2)
Segundo o Livro do Génesis, a procriação de um filho constitui a plenitude do dinamismo da criação. Do mesmo modo que a criação do homem só ficou completa com a criação da mulher, assim a do casal só atingiu a sua plenitude no nascimento de Caim. Eva, depois de ter concebido e dado à luz exclama: "adquiri um homem pelo poder de Deus" (Gen. 4,1). Na sua fecundidade o par humano atinge a sua plenitude enquanto imagem de Deus. A alegria da maternidade é a mais bela exultação pelo dom da vida. Eva reconhece duas coisas fundamentais no dom da fecundidade: o filho que gerou é um homem, igual ao que saiu das mãos de Deus, e ela gerou-o com o poder de Deus, não um poder mítico e factual, mas dinamismo inserido na força da criação. A procriação é a plenitude da criação.
Leiamos, a este propósito, mais um texto da "Familiaris Consortio": "Deus, com a criação do homem e da mulher à Sua imagem e semelhança, coroa e leva à perfeição a obra das suas mãos. Chama-os a uma participação especial do seu amor e poder de Criador e Pai, mediante a sua cooperação livre e responsável na transmissão do dom da vida humana. (...) A fecundidade é o fruto e o sinal do amor conjugal, o testemunho vivo da plena doação recíproca dos esposos" (3), e da sua disponibilidade para realizarem na vida a obra fecunda do próprio Deus.
Amor esponsal e amor paternal-maternal.
3. O amor esponsal revela a identidade profunda do homem e da mulher. A sua união de amor torna-se revelação e é fonte de conhecimento mútuo. E nessa revelação da identidade profunda do homem e da mulher, ressalta a sua qualidade de pai e de mãe. O amor conjugal desabrocha na paternidade e na maternidade. E assim se reconhecem, mais uma vez, como "imagem de Deus". É que no mistério de Deus, comunhão trinitária, a cuja imagem foram criados, o Espírito de amor revela a identidade de Deus Pai e de Deus Filho; a paternidade de Deus Pai é partilhada pelo homem, criado à imagem de Deus, na paternidade e na maternidade humanas. Quando alguns arriscam afirmar que Deus também é mãe, exprimem apenas a intuição que a maternidade humana é participação do mistério da paternidade divina. Aliás, nada na criação se assemelha tanto ao coração de Deus como um coração de mãe, que encontra a sua plena expressão no coração de Nossa Senhora, a Virgem Mãe.
O Livro do Génesis, narração original da criação, une a intimidade conjugal ao conhecimento mútuo dos esposos e esse conhecimento revela, na experiência da fecundidade, a dimensão de paternidade e maternidade. "O homem conheceu Eva, sua mulher; ela concebeu e deu à luz Caim e exclamou: adquiri um homem, com o poder de Deus" (Gen. 4,1). Neste texto é Adão, o homem, que reconhece a mulher na sua maternidade, e ao conhecer a sua companheira como mãe, reconhece-se a si mesmo como pai. A maternidade da mulher é a experiência a partir da qual o casal se reconhece, mais profundamente, na sua esponsalidade.
Ouçamos, a este propósito, o Papa João Paulo II nas suas catequeses: "Toda a constituição do corpo da mulher, o seu aspecto particular, aquelas qualidades que, pela força de uma atracção perpétua, estão na origem do conhecimento de que nos fala Gen. 4,1-2, estão em estreita ligação com a maternidade. Com a simplicidade que lhe é própria, a Bíblia e, na sequência dela, a Liturgia, honram e louvam, ao longo dos séculos "as entranhas que te trouxeram e os seios que te alimentaram" (Lc. 11,27). Estas palavras constituem um elogio da maternidade, da feminilidade do corpo da mulher, na sua expressão típica de amor criador. São palavras que no Evangelho são dirigidas à Mãe de Cristo, a Maria a segunda Eva. Por outro lado, a primeira mulher no momento em que se revelava a maturidade maternal do seu corpo, quando concebeu e deu à luz exclama: "adquiri um homem pelo poder de Deus"" (4).
No filho, um ser humano, o homem e a mulher reconhecem-se na sua dignidade fundamental. Ouçamos ainda o Santo Padre: "a procriação faz com que o esposo e a esposa se reconheçam reciprocamente num "terceiro" gerado por eles. É por isso que este conhecimento se transforma numa descoberta, em certo sentido, uma revelação do novo ser humano, no qual, um e outro, homem e mulher, se reconhecem ainda a si mesmos, descobrem a sua humanidade, a sua imagem viva"(5).
Mas segundo o texto sagrado, este conhecimento mútuo começa no reconhecimento, por ambos, do fruto das suas entranhas, como um homem, imagem de Deus. Ainda hoje, o reconhecimento da dignidade humana do fruto do ventre materno, pelo homem e pela mulher, é causa de grande alegria, mas também exigência de coragem e sentido ético. O mistério da vida gerada, que envolve o sentido da própria existência do homem pai e da mulher mãe, não deixa espaço para ambiguidades morais. Um homem e uma mulher que geram um filho, ou o aceitam na sua dignidade de um outro ser humano e se descobrem na sua própria dignidade, ou o rejeitam, negando-se a si mesmos.
Fecundidade física e fecundidade espiritual.
4. É próprio do amor conjugal viver todas as expressões físicas da comunhão das pessoas, com o espírito e com o coração. É a dimensão espiritual da convivência que dá à relação a sua dimensão verdadeiramente humana. Isto tem duas consequências principais: a fecundidade física, sem densidade espiritual, não é sinal de plenitude relacional, pode ser apenas tolerada ou dramaticamente rejeitada; por outro lado a ausência de fecundidade física não compromete, necessariamente, a fecundidade do amor conjugal, como afirma claramente a Familiaris Consortio: "A fecundidade do amor conjugal não se restringe somente à procriação dos filhos, mesmo entendida na dimensão especificamente humana: alarga-se e enriquece-se com todos aqueles frutos da vida moral, espiritual e sobrenatural que o pai e a mãe são chamados a dar aos filhos e, através dos filhos, à Igreja e ao mundo" (6).
A geração física da vida é apenas o início de um processo de fecundidade do amor, aberto sobre o horizonte da eternidade, que acompanha o filho, em solicitude paternal-maternal durante o resto da vida dos pais e se alarga na experiência do amor fraterno, em Igreja. E é esta dimensão espiritual da fecundidade que permite aos casais que não puderam gerar fisicamente um filho, não serem estéreis no seu amor, porque conduzidos pelo Espírito de Deus, souberam envolver com o seu amor paternal e maternal outros que dele precisam. É que ser pai e mãe é, realmente, participar no amor paternal de Deus.
A fecundidade apostólica do amor conjugal.
5. Mistério de comunhão, santificado pelo Espírito Santo, o amor conjugal, expressão específica da caridade, expande-se na edificação da Igreja como mistério de comunhão. Há uma fecundidade apostólica do amor conjugal dos cristãos. O primeiro campo dessa fecundidade é a família, comunidade a construir a partir das experiências e das potencialidades do amor, como autêntica realização da Igreja, a "Igreja doméstica". E todos conhecemos as exigências desta missão, na complexidade sociológica da família contemporânea, que põe à prova todas as concretizações e virtualidades do amor.
As famílias cristãs são guiadas, nesta difícil, mas apaixonante missão, pela clareza do magistério da Igreja. "No matrimónio e na família constitui-se um complexo de relações inter-pessoais - vida conjugal, paternidade-maternidade, filiação, fraternidade - mediante as quais cada pessoa humana é introduzida na "família humana" e na "família de Deus", que é a Igreja. O matrimónio e a família cristã edificam a Igreja. Na família, de facto, a pessoa humana não é só gerada e progressivamente introduzida, mediante a educação, na comunidade humana, mas graças à regeneração do baptismo e à educação na fé, é introduzida também na família de Deus, que é a Igreja.
A família humana, desagregada pelo pecado, é reconstituída na sua unidade pela força redentora da morte e ressurreição de Cristo. O matrimónio cristão, que participa da eficácia salvífica deste acontecimento, constitui o lugar natural onde se realiza a inserção da pessoa humana na grande família da Igreja" (7).
De facto, a fragilidade da família como comunidade de vida e de amor em construção, repercute-se na Igreja como uma das suas fragilidades. Apoiar os pais e as famílias nesta edificação de autênticas comunidades de vida, deve ser nossa prioridade nas opções pastorais. E com a mesma clareza dizemos aos esposos e pais cristãos que a família é o campo primordial da vossa actividade e testemunho apostólicos.
A vivência do vosso matrimónio, fortalecida pela graça do sacramento e contextualizada nas exigências concretas da vossa comunidade familiar, serão fontes principais inspiradoras de uma espiritualidade e caminho da vossa santificação. É a partir desse santuário, que é a vossa família, que a fecundidade do vosso amor alargará os horizontes e frutificará em zelo apostólico e ardor missionário, para a edificação da Igreja como mistério de comunhão.
10 de Março de 2002
JOSÉ, Cardeal Patriarca
NOTAS:
1 - Cf. Lumen Gentium, n.º 1
2 - Familiaris Consortio, n.º 14
3 - Ibidem, n.º 28
4 - João Paulo II, À l'immage de Dieu homme et femme, pg. 175
5 - Ibidem, pg. 174
6 - Familiaris Consortio, n.º 28
7 - Ibidem, n.º 15
CATEQUESE DO CARDEAL PATRIARCA NO 3.º DOMINGO DA QUARESMA
"O sacramento do matrimónio: a graça plenifica a natureza"
Os sacramentos na vida do cristão.
1. A vida cristã é uma caminhada para a santidade. Esta consiste na vida sintetizada no amor, plenitude de todos os dons que recebemos de Deus, quando nos criou. A santidade não anula a natureza, é, antes, a sua plenitude. Deus revelou-nos, através da história da salvação, que este crescimento no amor é feito com Ele, que celebra uma aliança de intimidade com o seu povo. Jesus Cristo, o Filho de Deus e homem completamente obediente a Deus, leva, na sua Páscoa, esta aliança à perfeição. N'Ele todos os homens podem atingir a plenitude da aliança com Deus. Ele próprio, falando da sua Paixão, se refere ao derramamento do Seu próprio Sangue, como sinal de aliança: "Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, que vai ser derramado por vós" (Lc. 22,20).
Os cristãos celebram e vivem esta aliança de amor, sempre numa referência necessária à morte e ressurreição de Cristo, prolongada na sua vida, como força de amor, pelo dom do Espírito Santo. Os sacramentos da Igreja são meios de os cristãos referirem a sua vida à Páscoa de Jesus, recebendo deles a força do Espírito, para poderem viver a sua vida como experiência de dom e de amor.
Segundo a tradição da Igreja, são sete os sacramentos, todos eles vivência e actualização da Páscoa de Cristo, no Espírito Santo. Mas como eles se dirigem à vida concreta das pessoas e à vitalidade da Igreja, como Povo do Senhor, podemos dividi-los em três grupos, segundo a sua significação específica: os sacramentos da iniciação cristã. Baptismo, confirmação, eucaristia, realizam a união do cristão a Cristo ressuscitado e, por Ele, à Santíssima Trindade, tornando-o capaz de celebrar a Páscoa de Jesus; o sacramento da ordem consagra e santifica os ministros de Cristo, que hão-de agir em nome de Cristo, para santificação de toda a Igreja; há depois um terceiro grupo de sacramentos que relacionam com a morte e ressurreição de Cristo, dimensões da experiência humana, particularmente universais e significativas. A experiência do pecado, assumida e confessada e transformada pelo arrependimento, no sacramento da reconciliação proporciona a graça da conversão; a experiência da doença, do sofrimento e da morte, oferece, no sacramento da unção, a graça da saúde, da força para sofrer e da conversão a Deus, que será nosso juiz, justo e bondoso; o casamento, enquanto experiência de amor e de comunhão, encontra, no sacramento do matrimónio, a graça de um amor mais generoso e de uma comunhão tão profunda que se funde com a própria comunhão de Cristo com o seu Povo.
Porquê mais um sacramento?
2. Já falámos, nos domingos anteriores, da beleza do projecto de Deus acerca da união esponsal do homem e da mulher, como experiência de amor e comunhão, mas também da fragilidade dos dinamismos humanos do amor, enfraquecidos pelo pecado. Para que a união conjugal atinja a plenitude do amor, os esposos precisam de ser fortalecidos com a força do Espírito, que os ajuda a viver a sua aliança de amor ao ritmo da aliança de Deus com o seu Povo, definitivamente ratificada na morte de Cristo. O casamento é uma experiência humana onde é cada vez mais claro que, para o amor não definhar, antes crescer até à perfeição da caridade, precisa da força de Deus. O sacramento do matrimónio, consequência da união dos esposos a Cristo, pelo baptismo, é a fonte dessa força.
O casamento, enquanto comunhão de amor do homem e da mulher, não começa com Cristo, ele é um dom da criação. A Páscoa de Jesus redime-o, fortalece-o e permite-lhe atingir a perfeição querida por Deus desde a criação. O Papa João Paulo II afirma: "Cristo revela a verdade originária do matrimónio, a verdade do princípio e, libertando o homem da dureza do seu coração, torna-o capaz de a realizar inteiramente" 1. Esta plenitude do amor conjugal faz parte da plenitude da aliança com Deus, realizada na Cruz de Cristo, onde os cristãos mergulham, pelo baptismo. Continua o Santo Padre: "No sacrifício da Cruz manifesta-se inteiramente o desígnio que Deus imprimiu na humanidade do homem e da mulher, desde a sua criação. O matrimónio dos baptizados torna-se, assim, o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, selada no Sangue de Cristo. O Espírito, que o Senhor infunde, dá um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge a plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver a mesma caridade de Cristo que Se entrega sobre a Cruz" 2. E mais à frente, referindo-se às graças próprias deste sacramento, o Papa acrescenta: "Trata-se de características normais do amor conjugal natural, mas com um significado novo, que não só as purifica e as consolida, mas eleva-as a ponto de as tornar expressão dos valores propriamente cristãos" 3.
O sinal sacramental.
3. Todos os sacramentos realizam a sua graça própria através de uma realidade sinal, rica de significado humano, através da qual o Espírito de Deus realiza uma nova significação, da ordem da plenitude da salvação. O significado sobrenatural é obra do Espírito; mas a significação humana da realidade sinal sugere-a: no baptismo, a água purificadora e vivificadora, significa e realiza o nascimento para uma vida nova, participação na vida de Cristo ressuscitado.
No sacramento do matrimónio qual é a realidade sinal? É a própria realidade do amor conjugal. Tratando-se de uma comunhão de amor, nenhuma outra realidade poderia significar melhor a perfeita comunhão, na caridade, a que o Espírito Santo conduz os cristãos. E o amor conjugal é sinal do amor redentor de Jesus Cristo, na pluralidade das suas dimensões. Demos, ainda, a palavra ao Santo Padre: "O amor conjugal comporta uma totalidade na qual entram todas as componentes da pessoa: chamamento do corpo e do instinto, força do sentimento e da afectividade, aspiração do espírito e da vontade. O amor conjugal tem, por fim, uma unidade profundamente pessoal, aquela que, para além da união numa só carne, conduz a um só coração e a uma só alma" 4.
Sendo a própria realidade humana do casamento o sinal sacramental do matrimónio, os esposos cristãos, por força do seu baptismo, celebram o sacramento, de que são ministros, ao ritmo da vivência da sua união conjugal, vivida na generosidade e na fidelidade. É um sacramento de celebração contínua, o que ajuda os esposos cristãos a dar à sua vida conjugal uma dimensão de celebração e de louvor. A sua vida torna-se liturgia. Voltemos a ler a "Familiaris Consortio": "O matrimónio cristão, como todos os sacramentos que estão ordenados à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo e a prestar culto a Deus é, em si mesmo, um acto litúrgico de louvor a Deus, em Jesus Cristo e na Igreja: celebrando-o, os esposos cristãos professam a sua gratidão a Deus pelo dom sublime que lhe foi dado de poder reviver na sua existência conjugal e familiar, o mesmo amor de Deus pelos homens e de Cristo pela sua esposa" 5.
4. O sacramento do matrimónio, ao constituir como sinal sacramental a união dos esposos, exprime o realismo do mistério da encarnação, em que o Verbo eterno de Deus se nos dá, numa comunhão de amor, através do Seu próprio Corpo: "Tomai e comei, isto é o meu Corpo" (Mt. 26,26); e São Lucas acrescenta "que vai ser entregue por vós. Fazei isto em minha memória" (Lc. 22,19). A encarnação e o sacrifício redentor de Cristo são o fundamento de uma teologia do corpo. O corpo exerce, no conjunto do mistério da pessoa humana, um papel simbólico de sinal. Ele exprime e torna visível os sentimentos do espírito e do coração: a ternura, a entrega e o dom, a intimidade e a fecundidade, o desejo unificador de comunhão.
Numa das suas Catequeses de quarta-feira o Santo Padre afirma, referindo-se ao sacramento do matrimónio: "Como sinal visível, o sacramento constitui-se com o ser humano enquanto corpo, na realidade da sua masculinidade e feminilidade visíveis. Com efeito, o corpo e só ele, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino. Ele foi criado para transferir para a realidade visível do mundo o mistério escondido, desde toda a eternidade, em Deus e ser o seu sinal visível" 6.
Sinal visível das realidades invisíveis, o corpo exprime a comunhão de amor entre o homem e a mulher e o aprofundamento dessa comunhão, na caridade é, exactamente, a graça própria deste sacramento. E mais uma vez este crescimento qualitativo entre duas pessoas se insere na relação entre Cristo e a Igreja, sendo a sua realização.
No Antigo Testamento era comum fazer da união esponsal o símbolo da união de Deus com o seu Povo, no mistério da aliança. No Novo Testamento verifica-se uma transformação qualitativa desta imagem. A verdadeira e definitiva comunhão esponsal é aquela que existe entre Cristo e o Seu corpo, que é a Igreja e as núpcias dos cristãos participam dessa comunhão esponsal e, através do sacramento, realizam-na na sua própria experiência humana de casal, foco de irradiação de uma nova comunhão alargada, a família, autêntica concretização da Igreja comunhão. A família, a partir da graça do sacramento, torna-se, realmente, uma "igreja doméstica". É São Paulo que faz a síntese entre estes dois momentos de um mesmo mistério: "Eis que o homem deixará o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher e os dois formarão uma só carne. Este é um mistério de grande alcance, porque se aplica a Cristo e à Igreja" (Ef. 5,31-32). Isto é possível porque os cônjuges cristãos, antes de serem o corpo um do outro, fazem ambos parte do Corpo de Cristo. São Paulo, afirmando que, com o Seu corpo, Cristo se une à Igreja, pergunta: "E nós, não somos membros do Seu Corpo?" (Ef. 5,29-30).
É por isso que, na vida de um casal cristão, a Eucaristia, enquanto comunhão com Cristo, é um momento tão importante, como a sua própria união conjugal.
Voltamos a citar a Familiaris Consortio: "O dever de santificação da família tem a sua primeira raiz no baptismo e a sua expressão máxima na Eucaristia, à qual está intimamente ligado o matrimónio cristão (...) Redescobrir e aprofundar essa relação é absolutamente necessário, se se quiserem compreender e viver com maior intensidade as graças e responsabilidades do matrimónio e da família cristã. A Eucaristia é a fonte mesma do matrimónio cristão" 7.
As graças próprias do sacramento do matrimónio.
5. Globalmente abraçando todas as concretizações, a graça própria do sacramento do matrimónio é o caminho de santidade dos esposos. "O sacramento do matrimónio, que retoma e especifica a graça santificante do baptismo, é a fonte própria e o meio original de santificação para os esposos". Esta graça sublinha o carácter perene e contínuo deste sacramento. "O dom de Jesus Cristo não se esgota na celebração do matrimónio, mas acompanha os esposos ao longo de toda a existência. (...) Jesus Cristo permanece com eles, para que, assim como Ele amou a Igreja e Se entregou por ela, de igual modo os esposos cristãos são fortalecidos e como que consagrados em ordem aos deveres do seu estado por meio de um sacramento especial; cumprindo, graças à energia deste, a própria missão conjugal e familiar, penetrados do Espírito de Cristo que impregna toda a sua vida de fé, esperança e caridade, avançam cada vez mais na própria perfeição e mútua santificação e cooperam assim juntos para glória de Deus" 8.
6. Mais concretamente, a graça específica do sacramento é o aprofundamento da comunhão conjugal, como autêntica vivência da caridade e participação no amor com que Cristo ama a Igreja. Isto supõe a generosidade do dom, a vitória sobre todas as tentações de egoísmo e de auto-procura, a vivência do próprio corpo como sinal de dom e de comunhão e não como busca de si mesmo. No amor conjugal o próprio prazer é oferecido ao outro, na busca de uma plenitude de comunhão.
Esta graça sacramental ajudará à revelação mútua dos cônjuges, ao respeito pela identidade e dignidade de cada um, à ajuda mútua e fraterna; ensina a perdoar e a acreditar, em cada momento, que o amor é possível, atraídos pela comunhão definitiva no Reino dos Céus.
7. Outro aspecto da graça própria deste sacramento é a sua fecundidade eclesial. A comunhão verdadeira entre os esposos prolonga-se na construção da comunidade familiar, como autêntica comunhão de vida e de amor e na edificação da Igreja como mistério de comunhão e esposa de Cristo. Há uma fecundidade apostólica no amor conjugal. Mas nisso falaremos no próximo domingo.
Sé Patriarcal de Lisboa, 3 de Março de 2002
JOSÉ, Cardeal Patriarca
NOTAS:
1 - Familiaris Consortio (FC), n.º 13
2 - Ibidem
3 - Ibidem
4 - Ibidem
5 - Ibidem, n.º 56
6 - João Paulo II, À l'immage de Dieu homme et femme, pg. 157-158
7 - Familiaris Consortio, n.º 57
8 - Ibidem, n.º 56 ; cf.Gaudium et Spes, n.º 49
CATEQUESE DO CARDEAL PATRIARCA NO 2.º DOMINGO DA QUARESMA
"Amor e Sexualidade"
Introdução.
1. A relação entre amor e sexualidade constitui uma evidência afirmada, ao longo de séculos, pelas culturas, o que significa aceitar que a sexualidade humana só encontra expressão com sentido na experiência do amor e que é um dinamismo de amor. Esta é a perspectiva base da visão cristã do homem e da mulher.
No entanto, mais recentemente, uma visão estritamente funcional dos dinamismos humanos, põe em causa essa equação, afirmando, como válida, uma expressão da sexualidade desligada do amor. Uma olhadela ao primeiro dia do "site" posto à disposição dos jovens pela Secretaria de Estado da Juventude sobre sexualidade, é disso elucidativo. Afirma um jornal diário: "parecia haver uma unanimidade em torno da ligação entre sexo e amor: o amor não é preciso, mas se as duas pessoas gostarem uma da outra, o sexo tem outro sabor". Uma outra resposta dizia que "basta ter confiança, e que haja amor de preferência" . [1]
É neste contexto que se situa a nossa Catequese de hoje. A Igreja é continuamente interpelada para aceitar abordagens funcionais da sexualidade, mas ela não pode reger-se, nesta matéria, por visões culturais ou sociológicas. A sua antropologia, isto é, a sua doutrina acerca do homem, concebido este como homem e mulher, fundamenta-se na revelação, isto é, na verdade criacional do homem como projecto de Deus e nos é transmitida pela Sagrada Escritura e pela Tradição. E esta visão revelada do homem conduz-nos a uma afirmação central no que ao sentido da sexualidade diz respeito: a sexualidade humana exprime-se na natureza bissexuada do ser humano, isto é, na complementaridade do homem e da mulher e encontra o seu sentido numa relação de amor. Em termos cristãos esta união do homem e da mulher, no amor, tende para ser uma expressão da caridade, isto é, do amor que encontra a sua força, não apenas na natureza, mas na graça de Deus.
Homem e Mulher Deus os criou.
2. Entre os "mitos de origem", ou seja, tradições, normalmente religiosas, que explicam a origem da humanidade, há uma entre os povos orientais que me permito referir aqui, porque nos ajuda a encontrar o contexto para a leitura dos textos bíblicos de origem, do Livro dos Génesis. Conta essa tradição mítica que, no início da humanidade Deus criou um único ser, que reunia em si todas as características do masculino e do feminino. Mas esse ser revelou-se de tal maneira forte que os deuses o temeram. Para o enfraquecer dividiram-no em dois, o homem e a mulher que, assim separados, ficaram mais fracos. É por isso que, desde esse dia, o homem e a mulher procuram unir-se de novo, para recuperar a força perdida. Sugere-nos a narração bíblica, que põe na boca de Deus Criador esta afirmação: o homem e a mulher serão os dois um só. (cf. Gen. 2,24; Mt. 19,5).
Os textos do Génesis (Gen. 2,7-25 e 1,26-31) são narrações de origem, que aliás integram "mitos de origem" oriundos de outras culturas, em que o autor sagrado introduz a especificidade da revelação. Os dois textos são complementares e, em conjunto, comunicam-nos a primeira compreensão bíblica do mistério do homem, que só viria a ser totalmente revelada em Nosso Senhor Jesus Cristo. Deles ressaltam os seguintes traços característicos do homem:
* A Corporeidade do homem: trata-se de um ser único em toda a criação. Corpóreo como todos os outros, mas a sua vida não é apenas biológica, depende do sopro de Deus. "Deus modelou o homem com o barro da terra e insuflou nas suas narinas um espírito de vida e o homem tornou-se um ser vivo" (2,7). A vida do homem exprime-se no corpo, mas é espiritual, tem a sua origem no sopro divino. Esta é uma chave decisiva para a interpretação da sexualidade humana que exclui espiritualismos radicais que excluam o corpo, ou visões fisicistas que não respeitem as exigências do espírito.
* A criação do homem (no sentido de ser humano) só fica completa com a criação da mulher. Esta é introduzida com a declaração solene de que a solidão não é boa para o homem: "não é bom que o homem esteja só" (2,18). A diferenciação dos sexos é o caminho escolhido por Deus para que o homem e a mulher vençam a solidão. "É bom que Eu lhe faça um complemento para que se possa unir a ele" (2,18). Repare-se que a ameaça da solidão não é, automaticamente, vencida. A sua possibilidade está unida à autonomia de cada um dos seres humanos. Em toda a dinâmica desta narração está subjacente o problema da liberdade e da iniciativa humanas: o homem é chamado a colaborar na obra da criação. Está dito que não é bom, nem para o homem, nem para a mulher, estarem sós. Mas eles têm de se descobrir um ao outro para serem completos e fortes e vencerem a solidão. Nessa descoberta mútua um do outro, eles reconhecem-se como pessoas, isto é, como seres em relação.
* A experiência de comunhão representa para os seres humanos a sua força e a sua plenitude. A reacção de Adão à criação de Eva é o primeiro poema de amor da história da humanidade: "Esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne" (2,23). João Paulo II considera este texto o protótipo bíblico do Cântico dos Cânticos. "O texto conciso de Gén. 2,23 que revela as palavras do primeiro homem ao ver a mulher criada, "arrancada dele", pode ser considerado como o protótipo bíblico do Cântico dos Cânticos. E se é possível detectar impressões e emoções ao ler palavras tão antigas, poderíamos arriscar dizer que a profundidade e a força desta primeira emoção, desta emoção "original" experimentada pelo homem, ser masculino diante da humanidade da mulher e, ao mesmo tempo, perante a feminilidade de outro ser humano, é verdadeiramente única e irrepetível" [2].
Segundo o Livro dos Génesis, o homem e a mulher só vencerão a solidão e encontrarão a sua força, neste encantamento mútuo de uma comunhão de amor.
Criados à imagem de Deus.
3. Depois de apresentar o mistério do homem e da mulher, como seres capazes de solidão e de comunhão de amor, o autor sagrado, continuando a aprofundar o mistério do homem, faz uma afirmação ousada: nessa comunhão de amor o homem e a mulher são a imagem do próprio Deus, Ele próprio comunhão amorosa de pessoas, na comunhão trinitária: "Deus criou o homem à Sua imagem, à imagem de Deus os criou, homem e mulher os criou" (1,27).
Ouçamos, ainda, o Santo Padre: "O homem tornou-se imagem e semelhança de Deus, não só pela sua própria humanidade, mas também pela comunhão de pessoas que o homem e a mulher formam desde o início. A imagem tem como função reflectir o modelo, reproduzir o seu próprio protótipo. O homem torna-se imagem de Deus, menos no momento da solidão do que no momento da comunhão. Com efeito, desde a origem, ele não é só a imagem que reflecte a solidão de uma Pessoa que rege o mundo, mas é essencialmente a imagem duma insondável comunhão divina de Pessoas" [3]. O Deus de quem o homem é a imagem, não é um ser solitário, ainda que omnipotente, mas uma comunhão de pessoas. A narração do Génesis abre-nos para uma visão trinitária da imagem de Deus. Não é por acaso que, na revelação cristã, a união de amor entre Cristo e a Igreja é apresentada como comunhão esponsal, modelo definitivo e radical da união de amor entre o homem e a mulher.
Características da sexualidade humana na revelação bíblica.
4. Ao ler estas narrações da criação, iluminados pela posterior revelação, podemos identificar os principais dinamismos constitutivos da sexualidade humana:
* É uma sexualidade relacional. Só se descobre verdadeiramente o que é ser homem e ser mulher, numa relação mútua de amor. O homem (ser masculino) é homem para a mulher e esta é-o para o homem. O sentido profundo da sexualidade humana é indesligável desta relação. Qualquer expressão solitária da sexualidade ou a sua vivência entre pessoas do mesmo sexo, acabam por ser a expressão da solidão humana.
* A sexualidade é um dinamismo de amor encarnado. Na comunhão de amor entre o homem e a mulher, consegue-se a síntese harmónica entre a dimensão espiritual e a corpórea do amor. O corpo é uma linguagem de amor, símbolo de comunhão, sacramento da harmonia. Mas a densidade espiritual será sempre característica de todo o amor.
* Expressão de intimidade. Todo o amor constrói uma experiência de intimidade, que passa pela revelação como dom da própria intimidade, em ordem ao conhecimento mútuo, à contemplação do outro, à unidade de dois seres num só. Na sexualidade humana, a intimidade dos corpos não se pode desligar da intimidade espiritual, mas o dom do próprio corpo pode significar a entrega do coração e a alegria da comunhão. A intimidade supõe generosidade e sentido do dom; tudo é oferecido, para tudo ser recuperado na alegria da unidade. A busca egocêntrica do prazer atraiçoa a sexualidade como dinamismo de intimidade. A revelação cristã abre-nos para o verdadeiro horizonte desta busca da intimidade de comunhão, na medida em que nos revela que a verdade definitiva de uma relação íntima entre duas pessoas é realização do mistério de comunhão, impossível sem a intimidade com Deus.
* Dinamismo de fecundidade: segundo a narração do Génesis, a vivência da união sexual entre o homem e a mulher foi fecunda e deu como fruto um filho. "O homem conheceu Eva, sua mulher: ela concebeu e deu à luz Caim e exclamou: adquiri um homem pela força de Deus" (Gén. 4,1). Imagem de Deus, o homem e a mulher, plenitude da humanidade na sua relação de amor, tornam-se colaboradores de Deus no dom da vida. A união sexual, expressão da comunhão de amor, é sempre aberta à comunicação da vida, porque segundo o plano de Deus, a vida brota do amor.
Esta abertura da sexualidade à comunicação da vida tem sido posta em questão pela cultura, originando uma discussão ética. O centro da discussão reside nisto: podem o homem e a mulher, pelos meios que a ciência e a técnica foram pondo ao seu alcance, fechar temporária ou definitivamente a sua sexualidade à comunicação da vida? A inspiração revelada da sexualidade diz-nos que isso não é ético, o que não significa que cada união entre o homem e a mulher se justifique apenas pela comunicação da vida. O planeamento da fecundidade física pelo casal faz parte do amor e da generosidade com que é vivida toda a relação de intimidade.
* Um tesouro ameaçado: a vivência da sexualidade insere-se no crescimento do homem no amor, luta de todos os dias e de toda uma vida, atraído pela verdade, ameaçado pela fragilidade. É uma construção generosa de vitória sobre os possíveis desvios, que nós cristãos sabemos ser impossível sem a graça de Deus.
O Livro dos Génesis, enquanto narração de origem, inclui esta fragilidade da sexualidade no próprio dinamismo da criação. Há um contraste entre a inocência e o sentido de culpa. O "mito" da árvore da ciência do bem e do mal sugere-nos que a vida amorosa do homem e da mulher tem uma dimensão moral. Dificilmente o homem acertará com o caminho do bem, se não vive a sua sexualidade como dom e obediência ao plano de Deus.
O texto fala-nos da inocência original: "ora os dois estavam nus, o homem e a mulher não tinham vergonha um do outro" (Gén. 2,25). Todo o verdadeiro amor é inocente; esta inocência original é o anúncio da verdadeira inocência, dom do Espírito de Jesus ressuscitado; é a inocência baptismal anunciada.
Mas o texto mostra logo a seguir como essa inocência original é um tesouro ameaçado. O homem acusa a mulher, não seguiram o plano de Deus e passaram a ter vergonha da sua nudez (cf. Gen. 3,7ss). Quando o homem e a mulher se escondem um do outro, é a sua comunhão de amor que está ameaçada.
Quais são as grandes ameaças à verdade da sexualidade humana? Resumem-se todas a uma: a tentação da sua vivência fora da beleza e da exigência de uma relação de amor. A procura da expressão sexual como auto-fruição egoísta de prazer e bem estar; o não perceber que, numa relação de amor, a vivência da própria sexualidade é um dom feito ao outro; o desligar a dimensão física da sexualidade da ternura e da intensidade espiritual da comunhão; o desligar forçadamente a vivência da sexualidade da generosidade do dom da vida. Porque se trata da construção generosa da comunhão, a vivência positiva da sexualidade supõe a força de Deus, pois só Ele nos torna capazes de crescer no amor, até à beleza da caridade.
A castidade é possível.
5. A castidade é, na vida cristã, uma expressão do amor-caridade. As chamadas virtudes morais são a vivência da caridade num sector concreto das realidades da nossa vida. A castidade é a vivência generosa da sexualidade, integrada nas exigências globais da santidade cristã e da caridade.
Estando ligada à vivência da sexualidade, a castidade vive-se em relação, com Deus, com a pessoa amada, com todos os outros irmãos com quem queremos construir a Igreja como comunhão. A castidade supõe a renúncia a experiências sexuais facilitantes, mas essa renúncia é dom, anuncia o desejo de vivência generosa de todos os nossos dinamismos de amor, no contexto da comunhão conjugal, mas também no contexto mais alargado da comunhão eclesial. Há uma fecundidade eclesial da castidade, o que explica que a virgindade assumida possa ser um caminho de vivência da sexualidade. Mas disso falaremos num dos próximos domingos.
Sé Patriarcal de Lisboa, 24 de Fevereiro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
NOTAS:
1 - Jornal O PÚBLICO, edição de 14 de Fevereiro de 2002
2 - João Paulo II, À l'immage de Dieu homme et femme, Cerf (1980), pg. 74
3 - Ibidem, pg. 77
CATEQUESE DO CARDEAL PATRIARCA NO 1.º DOMINGO DA QUARESMA
"Do Amor à Caridade"
1. O amor é o tema mais presente nas diversas culturas da humanidade, quase a sugerir que o sentido da vida humana se decide na experiência de amor e na forma de amar. O nosso tempo não faz excepção e o amor ocupa o centro da busca humana: é cantado na poesia, analisado na literatura, celebrado na dedicação generosa ao próximo. Ele é festa e drama, luz e interrogação, paixão e ternura serena, desejo e posse, contemplação e estímulo para a acção; busca de intimidade e comunhão ou simples procura da própria felicidade, tornando-se, tantas vezes, o rosto disfarçado do egoísmo.
No amor sobressaem duas realidades: a pessoa que ama e a realidade amada, a que poderíamos chamar o "objecto" do amor. O sujeito do amor é sempre a pessoa humana, no seu todo, com o espírito e com o corpo, com a inteligência e com o coração; o "objecto amado" podem ser realidades materiais: pode-se amar a natureza, um animal, uma obra de arte. Mas é quando a realidade amada é outra pessoa, que o amor atinge a grandeza digna do homem, pois aí os sujeitos do amor podem ser, ao mesmo tempo, amantes e amados. O amor proporciona, então, o encontro profundo entre pessoas, a construção de uma intimidade, a alegria libertadora da comunhão. Mas, quando alguém reduz outra pessoa a simples "objecto amado", dá-se a degradação do próprio amor, porque a pessoa do outro é desejada ou possuída como objecto que gera algo de útil e agradável para o próprio: bem estar, prazer, utilidade pelo que faz ou significa.
Assim o ser humano fala de amor nas diversas situações do seu conviver com os outros: amam-se os amigos, os pais e os filhos, amam-se um homem ou uma mulher, ama-se a Deus e cada uma destas experiências de amor têm as suas características próprias e expressões específicas. É próprio do ser humano não esgotar a sua capacidade de amar apenas numa destas experiências de amor; ao contrário, cada experiência de amor vivida com generosidade abre para todas as outras. As mais envolventes de todo o ser tornam a pessoa capaz de amar em todas as circunstâncias. O amor de Deus, quando vivido com verdade e radicalidade, influencia todas as experiências de amor.
Amarás a Deus sobre todas as coisas.
2. O judeo-cristianismo é a religião que mais valoriza a experiência de amor, exactamente porque nos revela Deus como Pessoa que ama e quer ser amada, com quem o homem pode estabelecer uma verdadeira intimidade de amor e comunhão. E se é possível ao homem ser amado por Deus e abandonar-se a Ele, numa resposta de amor, essa experiência influencia todas as experiências humanas de amor. O amor do próximo brota do amor de Deus; a comunhão com Deus dá ao homem a força e o dinamismo de progredir continuamente, em qualidade, em todas as suas experiências do amor.
Do amor à caridade, enuncia-nos o itinerário do crescimento do amor, onde as capacidades naturais de amar, enfraquecidas pelo pecado, são redimidas e potenciadas pela força do Espírito de Deus, isto é, pela energia amorosa que nos vem do facto de sermos amados por Deus e de o procurarmos amar, mais que todas as outras realidades humanas. É um tema que nos situa no âmago da relação entre a nossa natureza humana e o dom da graça divina, pois a caridade significa aquele grau de perfeição do amor que só é possível ao homem com a força do Espírito Santo. A caridade acontece naqueles que fizeram da sua experiência de amor a Deus, a fonte de toda a sua capacidade de amar. "Amar a Deus sobre todas as coisas" e seguir o mandamento novo de Jesus "amai-vos uns aos outros como Eu vos amei", só é possível ao homem, com a força de Deus. Mas sendo sobrenatural, é também a plena realização das nossas capacidades naturais de amar. A caridade é a verdade plena do amor, porque é o amor ao ritmo do Espírito de Deus.
Deus deu-nos um coração capaz de amar.
3. Não é a fé que nos dá a capacidade de amar. Deus criou-nos à sua imagem e, por isso, capazes de amar. Esta capacidade foi ferida pelo pecado e precisa de ser resgatada pelo amor misericordioso de Deus. A redenção restitui ao coração humano a sua capacidade de amar e eleva-o à plenitude dessa capacidade, amando a Deus e amando como Deus ama.
É na sua capacidade de amar que o homem se assemelha mais a Deus. O amor humano tem, em gérmen, todas as características do amor divino, embora não consiga, sem a graça, vivê-las em plenitude.
A atracção: todas as experiências de amor inter-pessoal começam nesse sentir-se atraído pelo outro. De repente uma outra pessoa torna-se especial, porventura única, porque há nela algo que me atrai: a sua beleza, a sua bondade, a sua inteligência, o seu mistério. A atracção do bem e da beleza está, quase sempre, na origem do amor. Nesse algo que nos atrai reconhecemos a nossa identidade profunda, os nossos anseios mais íntimos, a definição do nosso próprio ser. Começar a amar é deixar-se guiar por essa atracção, em busca de uma relação. Jesus comparou o Reinos dos Céus a um tesouro que, quando se descobre, faz-se tudo para o alcançar. E fala de atracção ao referir o amor dos discípulos para com Ele: "Ninguém vem a Mim (isto é, me seguirá) se o Pai não o atrair" (Jo. 6,44).
Só nos sentimos atraídos por alguém cuja realidade é atraente. A caridade começa sempre na atracção de Deus. Jesus refere-se a isso quando nos diz que foi Ele que nos amou primeiro. A atracção de Deus chega a ser tão forte que se torna irresistível. Sentir-se atraído é o primeiro convite a amar.
A revelação: a atracção conduz-nos à pessoa amada. Mas o amor só começa se houver revelação. A beleza que nos atrai é escondida e misteriosa, cada pessoa guarda no segredo do seu coração o seu tesouro. E desvelá-lo ao outro é já atitude generosa do dom de si mesmo. Se aquele que me atrai me aceita e se revela, o amor começa. A palavra que revela, o gesto que anuncia, constróem o encontro progressivo entre pessoas que se amam. É por isso que o amor é a mais verdadeira fonte do conhecimento do outro. As pessoas que se amam aprendem a conhecer-se progressivamente ao ritmo do amor.
Esta exigência de revelação constitui uma das maiores dificuldades do amor humano. As pessoas querem amar e ser amadas, mas não estão dispostas a revelar-se, guardam os seus segredos, escondem o seu mistério. Por vezes esperam ou até exigem a revelação do outro, mas não estão dispostas a abandonar-se na confiança. Entre desconhecidos o amor não cresce, pode mesmo murchar e morrer. Por outro lado o conhecimento mútuo aumenta a atracção recíproca.
Na experiência do amor de Deus, a Sua revelação é constitutiva do próprio amor. O Deus que nos atrai revela-se àqueles que o procuram. Revelando-se, Deus conduz-nos à intimidade com Ele; e quanto mais se revela, mais nos atrai. E ao desvelar-se a Si Mesmo, Deus revela-nos o seu projecto de amor para nós, o Seu desígnio de salvação. A sua Palavra é resposta de amor e luz que nos guia à plenitude da vida e do amor.
A contemplação: toda a verdadeira experiência de amor inclui momentos de contemplação. Ao entrar, pela revelação, na intimidade da pessoa que nos atraiu, a beleza agora experimentada leva à contemplação. Este êxtase de amor perante a pessoa amada é dos aspectos mais cantados pelos poetas. No caso do amor de Deus, este contemplar a pessoa amada chama-se adoração. "É o Senhor teu Deus que tu adorarás e só a Ele prestarás culto" (Mt. 4,10). Na nossa caminhada de fé essa contemplação adorante é apenas inicial. Ela intensifica-se ao ritmo do acolhimento da Palavra reveladora de Deus e dos dinamismos do Seu amor recebidos no íntimo do nosso coração, mas só no Céu ela será perfeita, pois só então "conheceremos como somos conhecidos" e veremos, não como num espelho, mas face a face (1Cor. 13,12).
No amor humano esta dimensão contemplativa exprime-se espontaneamente, ao ritmo do amor: o ficar encantado pelo outro, o sentido de gratidão tão próprio do amor, a harmonia e a serenidade interiores que brotam do amor, momentos de profunda comunhão envolvendo a totalidade do ser. Se nada disso acontece ou se tudo isso deixou de acontecer, é porque o amor foi semente que não germinou e planta que não floriu.
A intimidade: todo o dinamismo amoroso busca uma experiência de intimidade entre pessoas. É o que, em linguagem cristã, se chama a comunhão. A intimidade entre pessoas significa a revelação total de um ao outro, com o dom de todo o ser, aceitando ser conhecido, para conhecer. A intimidade realiza a experiência unitiva, expressão máxima do amor. Os sujeitos da relação amorosa encontram-se de tal modo um no outro, que se sentem como um só. "E serão dois numa só carne" (Gen. 2,24).
A experiência religiosa, na revelação judaico-cristã, resume-se à construção de uma intimidade entre Deus e o homem, entre Deus que se nos revela ser Ele mesmo uma comunhão de Pessoas, e o homem que é chamado a entrar nessa comunhão de amor. É a proposta de aliança feita por Deus a Abraão, cuja plenitude será revelada por Jesus: "E nós viremos a Ele e faremos n'Ele a nossa morada" (Jo. 14,23). Esta intimidade com Deus, quando acontece, torna-se central e decisiva, dá sentido a todas as experiências de intimidade construídas entre pessoas humanas, que encontram a sua verdade sendo reconduzidas à intimidade de Deus, e preenche toda a ânsia de intimidade do coração humano. O amor desabrocha na caridade. Veremos noutro dia que é por isso que a virgindade pode ser uma experiência de amor totalizante, realizando plenamente a ânsia de amor do coração humano.
Em todas as suas buscas e dramas de amor, o ser humano procura a experiência de intimidade. Mas tantas vezes não a consegue por fragilidade e infidelidade. Toda a forma de egoísmo, que reduz a pessoa amada à categoria de objecto possuído; toda a dificuldade em se revelar, escondendo-se nos seus segredos; toda a falta de generosidade confiante, que impede a entrega sem limites, impedem essa intimidade unitiva. Aí se experimenta que o coração humano precisa de redenção e que a autêntica intimidade só pode ser fruto da graça do Espírito, expressão do amor-caridade.
A ternura: é o dinamismo fundamental que exprime todas estas dimensões do amor. A ternura é contemplação do ser amado, é entrega generosa e totalizante, é revelação do coração, é abertura à intimidade. Ela exprime o encantamento pelo outro e é disposição de intimidade. É a expressão do amor que envolve, mais espontaneamente, a totalidade do ser, na generosidade gratuita da entrega ao outro. Onde não houver ternura, dificilmente haverá amor.
A ternura exprime uma das qualidades mais belas do amor: a bondade e a misericórdia. Amar é ser bom. A ternura é generosa, tudo dá, tudo faz pelo bem do outro, tudo desculpa, tudo perdoa. Só a ternura pode curar os corações feridos e voltar a unir aqueles a quem a infidelidade separou. Os atributos da ternura são os mesmos com que S. Paulo descreve a caridade (1Cor. 13). É por isso que, na Sagrada Escritura, a ternura é o principal atributo do amor de Deus por nós. Só assim Deus nos podia amar, sendo bom, misericordioso e cheio de compaixão.
A incapacidade de ternura é o efeito mais dramático do pecado no coração humano, aquilo a que o Evangelho chama a "dureza do coração". A incapacidade de ternura significa a incapacidade de amar e sublinha a necessidade da transformação, pela graça, desse coração empedernido.
A redenção do amor.
4. Toda a beleza do coração humano se exprime nesta capacidade de amar. Mas aí reside, também, o rosto doloroso da aventura humana, a corrupção desse dinamismo de amor. Quanta profanação da palavra amor, que esconde o egoísmo, a insensibilidade, a incapacidade de ternura e de comunhão. No ser humano, enfraquecido pelo pecado, o seu coração precisa de ser redimido, para realizar a sua vocação de amor. Já no Antigo Testamento é claro que o chamamento à aliança com Deus supõe a renovação do coração. Os profetas denunciam a corrupção e a dureza do coração, que torna os israelitas incapazes da aliança. "Este povo tem um coração desviado e rebelde" (Jr. 5,23), "um coração incircunciso" (Lv. 26,41), "um coração mau" (Jr. 7,24). Eles precisam de invocar Deus e Lhe pedir que lhes recrie "um coração puro" (Sl. 51,12). E esta é a grande promessa da redenção, a promessa de um "coração novo". "Eu derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; de todas as vossas imundices e de todos os vossos ídolos. Eu vos purificarei. Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo, tirarei da vossa carne o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vós e farei que caminheis segundo as minhas Leis" (Ez. 36, 25-28).
Esta promessa de um coração renovado viabilizará a aliança como uma união de ternura e de amor: "desposar-te-ei para sempre, desposar-te-ei na justiça e no direito, na ternura e no amor; desposar-te-ei na fidelidade e tu conhecerás o Senhor" (Os. 2,21-22).
Jesus inicia a sua pregação por um convite à conversão do coração (Mc. 1, 15), fundamental para entrar na dinâmica do Reino. Jesus, o verdadeiro e definitivo "coração novo", realiza entre o homem e Deus o amor radical e definitivo, a plenitude da aliança. Mas misteriosamente a expressão sublime desse amor novo é a Sua morte na Cruz, o seu Sangue derramado é o sinal da aliança definitiva, e na sua entrega Ele redime o nosso coração. No baptismo mergulhamos com Ele, na morte, para ressurgirmos com um coração novo. O caminho do amor-caridade voltou a ser possível, sabendo nós que no nosso caminho de amor encontramos sempre a exigência da Cruz.
O itinerário que nos leva do amor à caridade passa pela vivência do mistério pascal, porque todos os nossos dinamismos de amor precisam de ser purificados e redimidos. O caminho do amor não é fácil, tantas vezes significa aceitar morrer para viver, superar na renúncia e no sofrimento os instintos de facilidade a que nos conduz o nosso desejo de amar. O caminho do amor é o caminho da generosidade e da coragem.
A caridade é um dom do Espírito.
5. A redenção do coração humano, radicalmente garantida no amor total de Cristo na Cruz, torna-se viva e recriadora em cada homem, através do dom do Espírito Santo, Ele próprio o amor divino personificado. É por isso que a redenção não produz fruto automático no homem; mesmo depois da morte de Cristo continua a haver corações empedernidos. É preciso unir-se a Cristo morto e ressuscitado, pela fé e pelo baptismo e abrir o coração ao Amor, para acolher o dom do Espírito transformador. Só Ele nos dará um "coração novo", capaz de acolher o amor divino e amar com a força de Deus, na realidade começar a amar como Deus ama. Deus revela-se-nos, então, com a ternura de um Pai, bondoso e misericordioso, que nos atrai cada vez mais e se desvela progressivamente no Seu mistério. Dirigir-se a Deus como Pai só é possível pela acção do Espírito Santo (Rom. 8,15). O Espírito Santo derrama nos nossos corações o amor de Deus (Rom. 5,5). Esse amor tem a marca da eternidade e do definitivo. Nada deste mundo poderá jamais separar-nos do amor de Deus com que amamos Jesus Cristo (Rom. 8,35ss).
Este dom do amor de Deus transforma qualitativamente as experiências de amor humano, elevadas ao nível da caridade divina. O amor do próximo é indissociável do amor de Deus. "Quem não ama o seu irmão que vê, não pode dizer que ama a Deus que não vê" (1Jo. 4,20ss). O amor humano atinge as qualidades do amor divino. "Sede misericordiosos como o vosso Pai Celeste é Misericordioso" (Lc. 6,36). É essa qualidade radical da caridade que ressalta na recomendação de Paulo aos Efésios: "procurai imitar Deus como filhos muito amados e segui a via do amor a exemplo de Jesus Cristo que nos amou e Se entregou por nós" (Efs. 5, 1-2).
6. O caminho que nos leva do amor à caridade é um longo percurso, que inclui a redenção do nosso coração e de toda a nossa capacidade humana de amar; passa pela abertura progressiva do nosso coração ao amor de Deus, realiza-se através de todos os meios sacramentais da graça. Quando me reconcilio com Deus, quando celebro a Eucaristia, quando sou confirmado pelo Espírito Santo, lanço-me nessa aprendizagem do amor novo, que me levará a amar o meu irmão como Cristo nos amou. O amor conjugal, objecto central destas Catequeses Quaresmais, é o exemplo mais claro que a vivência sacramental é o único caminho para enxertarmos sobre as raízes de um coração humano convertido, o mistério da caridade.
Sé Patriarcal de Lisboa, 17 de Fevereiro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA MISSA DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS
1. Em Igreja, iniciamos hoje os exercícios quaresmais, preparando a celebração da Páscoa deste ano da graça. Na Liturgia da Igreja, está é a mais longa preparação de uma festa cristã. Certamente porque a Páscoa ocupa na Liturgia e na existência cristã um lugar central, único e decisivo. É a festa da nossa redenção e do dom do Espírito, início de uma vida nova e renovada. A Páscoa marca a diferença e sublinha a passagem da existência humana à vida cristã. Preparar a Páscoa é assumir essa diferença, recuperar, na nossa vida concreta, toda a novidade libertadora de homens e mulheres reconciliados com Deus e renovados pelo Espírito de Jesus Ressuscitado.
Na continuidade da minha Carta Pastoral e da Mensagem que para vós escrevi no início desta Quaresma, proponho como tema para a nossa caminhada quaresmal deste ano "evangelizar o amor", ou seja, escutar a Palavra de Deus e recorrer a todos os meios da graça para purificar todas as expressões do nosso amor humano, tantas vezes ainda manchado pelos nossos pecados e abrirmo-nos ao dom do Espírito, que derrama o amor de Deus nos nossos corações. Trata-se do nosso coração, endurecido pelos interesses e preocupações da vida, em ordem a deixar que o Senhor nos dê um "coração novo", para aceitarmos a sua proposta de aliança, nova e definitiva aliança selada no sangue de Cristo.
É o apelo que Deus nos faz através do Profeta Joel: "Voltai para mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes. Voltai para o Senhor vosso Deus". Há neste apelo uma urgência e ela é a própria urgência de Deus. O Profeta confessa que Deus se encheu de brios e quer perdoar ao seu povo. Essa mesma urgência de Deus ressalta da Carta de Paulo ao Coríntios: "Nós vos pedimos por amor de Cristo: reconciliai-vos com Deus".
É impressionante esta urgência de Deus na mudança do nosso coração. Nós é que precisamos e é Ele que tem pressa, que se deixa devorar pela urgência de nos poder amar. É a intensidade de amor do esposo que anseia pela intimidade de amor com o seu Povo e com cada um de nós. A oferta da salvação não é só por causa de nós e para nosso bem; é por causa de Deus, da generosidade do seu amor, do seu propósito de aliança com os homens, da manifestação da sua glória. Como é pobre uma perspectiva de salvação, vista apenas como busca de solução para a nossa vida. A salvação envolve profundamente Deus no seu desejo de dom, na delicadeza da sua ternura misericordiosa, na fecundidade do seu poder criador. Deus tem urgência em que lhe abramos o coração, porque decidiu, desde toda a eternidade, ser Deus connosco, ser Deus em nós. É a força de um desígnio, a voragem de uma escolha de amor. É por isso que é muito triste para Deus a nossa recusa ou mesmo a lentidão da nossa resposta de conversão a Ele, acolhendo o Seu amor.
Na Páscoa celebramos o momento em que um homem, Jesus Cristo, acolheu totalmente essa voragem de amor de Deus Seu Pai. E no coração verdadeiramente novo de Jesus Cristo está a esperança de uma mais total e profunda resposta dos homens ao amor de Deus. Só essa esperança fez com que Deus nos amasse infinitamente, em Jesus Cristo, amor que nos envolveu totalmente no dia do nosso baptismo, momento em que nos unimos a Jesus Cristo e aceitámos esta caminhada de renovação contínua do coração.
2. Segundo a mensagem do Profeta, este voltar o coração para Deus é feito com "jejuns, lágrimas e lamentações". "Tocai trombetas em Sião, ordenai um jejum!". O regresso a Deus é um caminho de penitentes. Esta mesma exigência mantém-se na pedagogia da Quaresma.
Por detrás da exigência da penitência está a realidade do pecado, que é complexa e subtil. Regressamos a Deus vindos de muito longe, daquele afastamento da intimidade com o Senhor a que nos conduziram os nossos sentimentos, as escolhas da nossa vontade, as opções do nosso coração. Sofrer na carne sublinha o contraste entre a santidade de Deus e o nosso pecado. "Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes". A penitência ajuda-nos a compreender como é despojado o caminho do amor e exigente a intimidade com Deus. Somos chamados, é certo, a participar na comunhão divina com todo o nosso ser, espírito e corpo; todos os dinamismos da nossa natureza podem ser convertidos em força do amor de Deus. Mas também é certo que, para isso, a exaltação da nossa natureza precisa de ser reconduzida à humildade, para não se tornar obstáculo no caminho da caridade.
A penitência, enquanto mortificação dos sentidos, é participação na paixão de Cristo. "Ele que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por amor de nós, para que em Cristo, nos tornássemos justos aos olhos de Deus". A penitência do cristão tem uma dupla dimensão: unir-se ao sofrimento de Cristo, que dá ao meu sofrimento a capacidade de me redimir; participar na fecundidade do seu sofrimento inocente, que merece aos pecadores a graça de encetarem o caminho da redenção. Se em Adão somos pecadores, precisando de sofrer pelos nossos pecados, em Cristo participamos de uma inocência recuperada, na vida nova segundo o Espírito, e podemos merecer para os outros a redenção. O mistério da Cruz, agora participado por nós, continua a ser o único sinal de uma esperança verdadeira, levantado perante as nações.
3. A penitência, porque é um caminho de humildade, ajuda-nos a viver a gratuidade da salvação. Purifica tudo o que são critérios mundanos: o parecer bem, o dar nas vistas, o gostar de ser considerado ou elogiado. A penitência coloca-nos despojados perante Deus, à única razão de ser e a única recompensa. Numa sociedade inebriada de vaidades, retalhada por dissenções, magoada por egoísmos e violências, esta humildade silenciosa de quem busca o amor com os olhos postos apenas em Deus, pode ser portadora de uma fecundidade salvífica que escapa às nossas análises. Durante a Quaresma sejamos esse povo humilde e penitente, que merece para a nossa sociedade a graça da conversão.
Sé Patriarcal, 13 de Fevereiro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA MISSA DE ABERTURA DO ANO JUDICIAL
1. Nesta celebração, em que vós, que trabalhais no âmbito da administração da justiça, quereis dar à Abertura do Ano Judicial uma dimensão espiritual e crente, proponho-me reflectir convosco sobre um tema difícil, mas apaixonante, lançado pelo Papa João Paulo II na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, celebrado no passado dia 1 de Janeiro: a relação entre a justiça e o perdão. O Papa propõe-nos o tema, como testemunho pessoal da sua reflexão preocupada sobre as desordens e violências do mundo contemporâneo. Confessa-nos Ele: "muitas vezes me detive a reflectir nesta questão: qual é o caminho que leva ao pleno restabelecimento da ordem moral e social tão barbaramente violada? A convicção a que cheguei, raciocinando e confrontando-me com a reflexão bíblica, é que não se estabelece cabalmente a ordem violada, senão conjugando mutuamente justiça e perdão. As colunas da verdadeira paz são a justiça e aquela forma particular de amor que é o perdão".
A primeira reflexão que é justo fazer é que o Santo Padre tem como referência o conceito bíblico de justiça, que consiste no repor progressivamente a ordem e a harmonia desejadas por Deus para o homem e para a sociedade. Supõe a proposição positiva dos valores constitutivos dessa harmonia, porque a justiça não se promove apenas corrigindo os erros, mas supõe também a superação dos erros e dos conflitos, para que cada homem e a sociedade como um todo, continuem a ter como horizonte a plenitude da vida, da harmonia e da paz. E essa superação positiva dos fracassos, pessoais e colectivos, na perspectiva bíblica supõe o amor misericordioso que perdoa, esse perdão que recupera interiormente a dignidade do homem. Era esse o desafio lançado pelo Apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto: "revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra o outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também". Na óptica da Sagrada Escritura, a reposição da justiça, isto é, da harmonia da ordem e da verdade, supõe necessariamente a misericórdia e o perdão.
2. Mas a questão não é fácil. Na nossa cultura e, porventura, na lógica da ordem jurídica, justiça e perdão não vão facilmente em conjunto. Fazer justiça parece contrapor-se a perdoar. Mas lembra-nos o Papa que o perdão não se opõe à justiça, mas ao rancor e à vingança. "O perdão não se opõe de modo algum à justiça, porque não consiste em diferir as legítimas exigências da reparação da ordem violada; mas visa, sobretudo, aquela plenitude da justiça que gera a tranquilidade da ordem, a qual é bem mais do que uma frágil e provisória cessação de hostilidades, porque consiste na cura, em profundidade, das feridas que sangram nos corações. Para tal cura, ambos, a justiça e o perdão, são essenciais".
A primeira base para que não haja oposição entre justiça e perdão é a relação entre justiça e verdade. A justiça, na sua dimensão objectiva, é a reposição da verdade ofendida, verdade da Lei desrespeitada, da dignidade ou integridade dos outros ofendida, da harmonia social perturbada. E o restabelecimento da verdade põe a claro a responsabilidade, dos culpados, das pessoas e das instituições. A verdade da justiça exige que ela seja, na medida do possível, a reposição da ordem. Mas a verdade da justiça é também a verdade interior das pessoas, das suas fraquezas, da esperança de recuperação, do sentido e motivações dos seus comportamentos. E a esse nível pode situar-se o perdão. Porque a justiça é uma dimensão do relacionamento social das pessoas, estas podem ser objectivas no repor da verdade e misericordiosas no coração, amando quem julgam ou, porventura condenam, desejando a sua recuperação, pois só então será completamente reposta a justiça. Diz o Papa: "Como acto humano, o perdão é, antes de mais, uma iniciativa individual do sujeito, na sua relação com os seus semelhantes".
O perdão situa-se, assim, numa ordem moral das exigências do amor, que não exclui, antes completa, a objectividade da verdade. Acrescenta ainda o Santo Padre: "Só na medida em que se afirmem uma ética e uma cultura do perdão é que se pode esperar uma "política do perdão", expressa em comportamentos sociais e instrumentos jurídicos, nos quais a mesma justiça assuma um rosto mais humano". O perdão introduzido na administração da justiça, é o sorriso da esperança dirigido a quem falhou e precisa de acreditar no caminho da dignidade recuperada.
Sendo uma atitude de pessoas para com outras pessoas, o perdão pode ter uma dimensão comunitária e social. Ouçamos ainda a Mensagem Pontifícia: "A pessoa tem uma dimensão social essencial, que lhe permite estabelecer uma rede de relações com a qual se exprime a si mesma. Consequentemente o perdão torna-se necessário também a nível social. As famílias, os grupos, os Estados, a própria comunidade internacional, necessitam de abrir-se ao perdão, para restaurar os laços interrompidos, superar situações estéreis de mútua condenação, vencer a tentação de excluir os outros, negando-lhes a possibilidade de apelo. A capacidade de perdão está na base de cada projecto de uma sociedade futura mais justa e solidária".
O progresso da justiça só pode significar o avanço para uma ordem social mais harmónica e mais autêntica e isso é impossível sem acreditar no homem, sem generosidade para perdoar, fazendo de cada tratativa uma manifestação da esperança.
Sé Patriarcal, 24 de Janeiro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
SOLENIDADE DE SÃO VICENTE,
PADROEIRO PRINCIPAL DO PATRIARCADO
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
1. Celebramos hoje a festa do Mártir São Vicente, Padroeiro da Diocese e da Cidade de Lisboa. É, para todos nós, ocasião de invocarmos a bênção e a protecção de Deus, para a nossa Cidade, por intercessão de São Vicente.
A esta celebração associam-se, habitualmente, os Autarcas de Lisboa. Quero, neste momento, saudar Vossa Excelência, Senhor Presidente da Câmara, que pela primeira vez celebra São Vicente na sua qualidade de primeiro responsável pelo progresso, harmonia e bem estar da Cidade. São Vicente acompanhá-lo-á, dando-lhe força para não desistir das causas em que acredita, discernimento para tomar as decisões justas e escolher os caminhos e meios mais ajustados ao fim que todos desejamos: fazer de Lisboa uma Cidade harmoniosa, recuperada na sua beleza, ordenada na vida fervilhante que a atravessa, solidária para com os mais desfavorecidos, atenta na prevenção das ameaças que pesam hoje sobre todas as populações urbanas, fiel à sua tradição e digna da sua história, ousada no conceber um futuro onde os seus habitantes se sintam bem. Em todas as mudanças democráticas, sois chamados à coragem: para continuar a obra começada, e tantas são em Lisboa, pois uma Cidade é também continuidade; para alterar o que for necessário, se a justiça o exigir e o são ordenamento da Cidade o aconselhar.
Uma Cidade é obra de todos. Pode Vossa Excelência contar com a colaboração da Igreja de Lisboa, sempre que ela for sugerida ou aconselhada, experiência que também tiveram os seus antecessores, pois a Igreja respeita e colabora com o poder democraticamente legitimado. Permito-me dizer-lhe que também conto com a sua colaboração na solução dos problemas que se vão apresentando à presença da Igreja na Cidade.
2. Celebramos a festa de um Santo Mártir, o que me sugere fazer algumas considerações a propósito do martírio cristão. Os recentes acontecimentos mundiais puseram em relevo, na comunicação social, uma certa visão muçulmana do martírio, chamando "mártires" aos suicidas voluntários, que sacrificam a vida por uma causa, fazendo da sua morte por imolação, apenas mais um momento da violência de todo um processo. E já ouvi um responsável político de um país estrangeiro, com quem tive ocasião de me encontrar, talvez num esforço de compreensão do fenómeno, a compará-lo ao martírio cristão. Ora essa comparação é completamente desajustada. Também os cristãos podem pôr generosamente em risco a própria vida, e tantos o fazem continuamente na missão que exercem na Cidade, por uma causa nobre de serviço dos irmãos. São generosos, abnegados, mas não mártires. E mesmo nesses, o dom da vida é um gesto de paz e de amor e nunca um elo de uma cadeia de violência.
O mártir não é um suicida, não escolheu morrer, impuseram-lhe injustamente a morte. O mártir é um perseguido, supõe sempre um perseguidor, daqueles que o Senhor anuncia no Evangelho. E os perseguidores não são apenas inimigos do homem, são inimigos de Deus. Perseguem as pessoas na sua qualidade de seguidores de Jesus Cristo e do seu Evangelho. O martírio é um testemunho de fidelidade a Jesus Cristo, é uma profissão de fé, com o risco da própria vida, que se aceita perder em nome de um valor maior: a fidelidade.
O martírio supõe uma força especial de Deus. Só são dignos dele os que se abandonaram confiadamente nas mãos de Deus, os que perceberam que a fidelidade abrange a vida e a morte, os que acreditam na fecundidade da morte suportada e da vida oferecida. O martírio é o culminar de uma vida, curta ou longa, de fidelidade a Jesus Cristo e de identificação com Ele, que foi o primeiro Mártir a quem impuseram a morte e que, nessa violência, ofereceu a vida. O martírio é o triunfo da liberdade sobre a violência, a vitória de quem, sendo perseguido, não se deixa vencer e encontra o caminho da sua vitória na oferta da vida e no perdão dos perseguidores.
3. Não peçamos a Deus para imitar São Vicente no martírio. Mas imitemo-lo na fidelidade a Cristo, na capacidade de fazer da vida um dom, na liberdade para reagir às adversidades com generosidade superior, na coragem para fazer de toda a nossa vida um testemunho. E peçamos-lhe, confiadamente, a sua protecção para a nossa Diocese e para a nossa Cidade.
Sé Patriarcal, 22 de Janeiro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
MENSAGEM DE QUARESMA 2002 - CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA
"Evangelizar o amor"
1. Toda a Quaresma é uma longa celebração do mistério pascal, fonte perene e inesgotável da salvação e de toda a vida cristã. Durante 40 dias, somos todos chamados a uma peregrinação interior em que, guiados pela Palavra de Deus, abrimos o nosso coração ao dom da conversão. E esta é sempre uma conversão ao amor, supõe uma mudança de vida, reencontrando a pureza baptismal. É que este longo tempo de preparação espiritual evoca a preparação dos catecúmenos, chamados a receber o baptismo, na Páscoa. Converter-se é recuperar a graça original do nosso baptismo, sacramento em que Deus nos amou, envolvendo-nos no dom redentor de Jesus Cristo.
Na continuidade da Carta Pastoral que vos dirigi, introduzindo o Programa Diocesano de Pastoral, resolvi propor-vos como lema para esta Quaresma "Evangelizar o amor". A própria expressão sugere uma novidade radical do amor cristão. Todos os nossos dinamismos e capacidades humanas de amor precisam de ser evangelizados, isto é, repassados da graça da redenção para se tornarem capazes de acolher e exprimir o amor-caridade, que tem em Deus a sua fonte, que é o próprio amor de Deus participado por nós. O amor de Deus foi depositado nos nossos corações, pelo Espírito Santo, dom pascal por excelência. É Ele que nos faz participar na caridade divina. O Santo Padre, na sua Mensagem para esta Quaresma, mostra-nos como a vivência da caridade é o único autêntico sinal da autenticidade cristã, na linha de S. Paulo que escrevia aos cristãos de Corinto: Se não tiver caridade, nada sou" (cf. 1Cor. 13, 2-3).
2. Evangelizar o amor é, antes de mais, descobrir que todo o amor verdadeiro tem em Deus a sua fonte e é um dom gratuito de Deus. O amor de Deus é um dom radical e gratuito, dramaticamente expresso no dom que nos faz do seu Filho Jesus Cristo. E este continua a ser, hoje, o maior dom de Deus à sua Igreja. Jesus Cristo é um dom actual de Deus, entrega-se em cada Eucaristia, cruza a existência de cada um de nós, com poder para a transformar. Preparar a Páscoa, é abrir-se à actualidade deste dom.
O próprio Jesus Cristo se entrega livremente ao Pai, por nós, por nosso amor. Escreve o Santo Padre: "O desígnio salvífico do Pai celestial realizou-se com o dom livre e total do Filho Unigénito aos homens. "A minha vida ninguém Ma tira; sou Eu que a dou por Mim mesmo" (Jo. 10,18), afirma Jesus, deixando bem claro que é voluntariamente que sacrifica a sua mesma vida pela salvação do mundo". Evangelizar, em nós, o amor, é abrir-se a esta gratuidade do dom de Deus, é descobrir que tudo aquilo de que somos capazes na linha do Reino dos Céus, é dom de Deus. A nossa vida cristã, que tantas vezes nos parece difícil e exigente, é continuamente balizada pelo dom de Deus, pela bondade amorosa e gratuita de Deus. A nossa peregrinação quaresmal, na medida em que nos abrirmos a esta gratuidade do amor de Deus, pode tornar-se acção de graças e hino de louvor.
3. Evangelizar o amor é deixarmo-nos repassar por esta generosidade de Deus e abrirmo-nos ao amor gratuito dos irmãos. A Quaresma é convite a lutar contra os nossos egoísmos, a cultivar a genuína gratuidade no bem que praticamos. O amor dos irmãos é uma participação no amor com que Deus os ama e por isso Ele se identifica com eles. Ouçamos novamente o Papa, na sua Mensagem: "dando-nos de coração, tornamo-nos sempre mais cientes de que a nossa doação aos outros é resposta aos numerosos dons que o Senhor continua a conceder-nos. Gratuitamente recebemos, demos gratuitamente!
Haverá período mais oportuno que a Quaresma para dar este testemunho de gratuidade que o mundo tanto necessita? No mesmo amor que Deus nos tem se encerra o apelo para nos darmos gratuitamente aos outros".
Na Diocese de Lisboa, na Quaresma deste ano, a minha proposta de destino da nossa partilha fraterna, fruto da generosidade e da renúncia, são os nossos irmãos de Timor, no ano em que têm acesso à independência como Estado e como Nação. Coerentes com as nossas disposições e promessas jubilares, ajudaremos a construir em Timor uma Maternidade-Escola, que ofereceremos às Igrejas irmãs de Díli e Baucau. Estaremos, com a nossa partilha, ao serviço da vida. Cada criança que nascer, acarinhada por nós, será um hino à vida, o maior de todos os dons de Deus.
4. Evangelizar o amor é deixar transformar, em Jesus Cristo, todos os nossos dinamismos humanos de amor: a sexualidade, a ternura, a sociabilidade, a necessidade de partilha e de comunhão, que são capacidades de amor, mas incapazes da caridade. Esta é sempre dom do Espírito Santo; é por isso que o casamento é um sacramento.
Pensando, de modo particular, nos nossos jovens, que na frescura da sua juventude, decidem o rumo a dar à sua vida amorosa; nos casais jovens, a encetar uma experiência bela e exigente de comunidade familiar; em todas as famílias, ambiente natural para a educação para o amor, tratarei este tema nas Catequeses Quaresmais deste ano, a realizar na Sé Catedral em todos os Domingos da Quaresma.
Anuncio-vos desde já o programa:
1.º Domingo (17 de Fevereiro)
"Do amor à caridade"
2.º Domingo (24 de Fevereiro)
"Amor e sexualidade"
3.º Domingo (3 de Março)
"O sacramento do matrimónio: a graça plenifica a natureza"
4.º Domingo (10 de Março)
"A fecundidade do amor"
5.º Domingo (17 de Março)
"A virgindade por amor do Reino dos Céus"
Domingo de Ramos (24 de Março)
"Amor e vocação"
Encetemos esta peregrinação em direcção à Páscoa; a Palavra de Deus iluminar-nos-à; a penitência e a oração tornarão dócil o nosso coração; a partilha fraterna ajudar-nos-à a saborear a alegria da caridade. Connosco caminhará Maria, Senhora das Dores, Mãe generosa que nos doou o Seu Filho, Mãe solícita da Igreja guiando-a pelos caminhos da salvação.
Lisboa, 22 de Janeiro de 2002, Solenidade de São Vicente, Padroeiro Principal do Patriarcado
† JOSÉ, Cardeal Patriarca
MENSAGEM DE QUARESMA 2002 - JOÃO PAULO II
"Recebestes de graça, dai de graça" (Mt 10, 8)
Caríssimos Irmãos e Irmãs,
1. Preparamo-nos para percorrer o caminho da Quaresma que nos conduzirá às solenes celebrações do mistério central da fé: o mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Dispomo-nos a viver o tempo propício que a Igreja oferece aos crentes para meditar a obra da salvação realizada pelo Senhor na Cruz. O desígnio salvífico do Pai celestial realizou-se com o dom livre e total do Filho unigénito aos homens. "A minha vida ninguém Ma tira; sou Eu que a dou por Mim mesmo" (Jo 10, 18), afirma Jesus, deixando bem claro que é voluntariamente que sacrifica a sua vida pela salvação do mundo. Para confirmar este dom tão grande de amor, o Redentor acrescenta: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos" (Jo 15, 13).
A Quaresma, ocasião providencial de conversão, ajuda-nos a contemplar este supremo mistério de amor. Ela constitui um retorno às raízes da fé, porque meditando sobre o dom incomensurável de graça que é a Redenção, não podemos deixar de constatar que tudo nos foi dado por iniciativa amorosa de Deus. Para meditar precisamente sobre este aspecto do mistério salvífico, escolhi como tema da mensagem quaresmal deste ano as palavras do Senhor: "Recebestes de graça, dai de graça" (Mt 10, 8).
2. Deus entregou-nos livremente o seu Filho: quem pôde ou pode merecer semelhante privilégio? Afirma São Paulo: "todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela sua graça" (Rom 3, 23-24). Deus amou-nos com infinita misericórdia sem levar em conta a condição de grave ruptura que o pecado causara na pessoa humana. Ele inclinou-Se benevolamente sobre a nossa enfermidade, vendo esta como ocasião para uma nova e ainda mais esplêndida efusão do seu amor. A Igreja não cessa de proclamar este mistério de infinita bondade, exaltando a livre decisão divina e o seu desejo, não de condenar o homem, mas de o readmitir à comunhão consigo.
"Recebestes de graça, dai de graça". Que estas palavras evangélicas ressoem no coração de cada comunidade cristã durante a sua peregrinação penitencial para a Páscoa. A Quaresma, evocando o mistério da morte e ressurreição do Senhor, leve todo o cristão a maravilhar-se intimamente com a grandeza de tal dom. Sim! Recebemos gratuitamente. Não será por acaso a nossa existência totalmente marcada pela benevolência de Deus? O desabrochar da vida e o seu prodigioso desenvolvimento é um dom. E precisamente por ser dom, a existência não pode ser considerada como domínio ou propriedade privada, ainda que as potencialidades, de que hoje dispomos para melhorar a sua qualidade, pudessem fazer supor o contrário, ou seja, que o homem seja o seu "dono". De facto, as conquistas da medicina e da biotecnologia poderiam às vezes levar o homem a imaginar-se como o criador de si próprio, e a ceder à tentação de manipular "a árvore de vida" (Gn 3, 24).
Vale a pena reafirmar aqui que nem tudo aquilo que for tecnicamente possível é lícito moralmente. Se é louvável o esforço da ciência por garantir uma qualidade de vida mais em consonância com a dignidade do homem, jamais deve ser esquecido que a vida humana é um dom e que esta permanece um valor, mesmo quando é atingida pelo sofrimento e a velhice. Um dom que deve ser sempre acolhido e amado: gratuitamente recebido e gratuitamente colocado ao serviço dos demais.
3. A Quaresma, ao propor-nos novamente o exemplo de Cristo que Se imolou por nós no Calvário, ajuda-nos de maneira singular a compreender que a vida é redimida n'Ele. Através do Espírito Santo, Ele renova a nossa vida e torna-nos participantes daquela mesma vida divina, que nos introduz na intimidade de Deus e faz-nos experimentar o seu amor por nós. Trata-se de um dom sublime, que o cristão deve proclamar com alegria. São João escreve no seu Evangelho "E a vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste" (Jo 17,3). Esta vida, que nos foi comunicada pelo Baptismo, deve ser continuamente alimentada por nós, como uma fiel resposta individual e comunitária, pela oração, a celebração dos Sacramentos e o testemunho evangélico.
Tendo, com efeito, recebido a vida gratuitamente, devemos, por nossa vez, doá-la de modo gratuito aos irmãos. É o que Jesus pede aos discípulos, ao enviá-los como suas testemunhas pelo mundo: "Recebestes de graça, dai de graça". O primeiro dom a oferecer é uma vida santa, testemunha do amor gratuito de Deus. Que o itinerário quaresmal seja para todos os crentes um apelo constante a aprofundar esta nossa peculiar vocação. Devemos abraçar, como crentes, uma existência fundada na "gratuidade", dedicando-nos sem reservas a Deus e ao próximo.
4. "Que tens tu - admoesta São Paulo - que não hajas recebido?". Amar os irmãos, dedicar-se a eles é uma exigência que brota desta convicção. Quanto mais necessidade eles têm, tanto mais se impõe ao crente a missão de os servir. Por acaso, não permite Deus que haja condições de penúria para que, acudindo nós aos outros, aprendamos a libertar-nos do nosso egoísmo e a viver com autêntico amor evangélico? É claro o mandamento de Jesus: "Se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não o fazem já os publicamos?" (Mt 5, 46). O mundo avalia as relações com os outros a partir do interesse e do proveito próprio, segundo uma visão egocêntrica da existência na qual, com frequência, não cabem os pobres e os débeis. Toda a pessoa, até a menos dotada, deve, pelo contrário, ser acolhida e amada por si mesma, prescindindo dos seus méritos e defeitos. Antes, quanto mais se acha em dificuldade, tanto mais deve ser objecto de nosso amor concreto. É este amor que a Igreja testemunha, através de numerosas instituições, cuidando dos doentes, marginalizados, pobres e explorados. Deste modo, os cristãos tornam-se apóstolos de esperança e construtores da civilização do amor.
É bem significativo que Jesus tenha pronunciado estas palavras: "Recebestes de graça, dai de graça", precisamente ao enviar os apóstolos a propagar o Evangelho da salvação, primeiro e principal dom por Ele oferecido à humanidade. Ele quer que o seu Reino, já vizinho (Mt 10, 5ss.), se difunda através de gestos de amor gratuito dos seus discípulos. Assim fizeram os apóstolos na aurora do cristianismo, e aqueles que os encontraram sentiram que eram portadores de uma mensagem maior do que eles mesmos. Corno então, também hoje o bem realizado pelos crentes torna-se um sinal e, frequentemente, um convite a crer. Mesmo quando o cristão acode às necessidades do próximo, como no caso do bom samaritano, a sua ajuda nunca é meramente material. Sempre é também anúncio do Reino, que comunica o sentido pleno da vida, da esperança, do amor.
5. Caríssimos Irmãos e Irmãs! Possa o estilo com que nos preparamos para viver a Quaresma ser este: a generosidade real pelos irmãos mais pobres! Dando-nos de coração, tornamo-nos sempre mais cientes de que a nossa doação aos outros é resposta aos numerosos dons que o Senhor continua a conceder-nos. Gratuitamente recebemos, demos gratuitamente!
Haverá período mais oportuno que a Quaresma para dar este testemunho de gratuidade de que o mundo tanto necessita? No mesmo amor que Deus nos tem se encerra o apelo para nos darmos gratuitamente aos outros. Agradeço a todos quantos - leigos, religiosos, sacerdotes - prestam nos quatro cantos do mundo este testemunho de caridade. Possa fazer o mesmo cada cristão, nas diversas situações em que se encontre.
Que Maria, Virgem e Mãe do Belo Amor e da Esperança, seja guia e apoio neste itinerário quaresmal. A todos incluo com afecto na minha oração, enquanto de bom grado concedo a cada um, especialmente àqueles que diariamente labutam nas numerosas fronteiras da caridade, uma especial Bênção Apostólica
Vaticano, 4 de Outubro de 2001
JOÃO PAULO II
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
NO DIA MUNDIAL DA PAZ
1. Nesta celebração interpenetram-se duas perspectivas, que interpelam toda a Igreja: a liturgia da oitava do Natal, centrada na maternidade divina de Maria, e o Dia Mundial da Paz, enriquecido, em cada ano, por uma Mensagem do Santo Padre, a sugerir o conteúdo da nossa oração e a contribuir para a formação progressiva de uma cultura da paz. Os dois temas podem convergir na nossa oração. A oração do cristão encontra o seu princípio e fundamento na nossa união a Cristo, é uma expressão de amor aos homens, nossos irmãos e de comprometimento na construção de uma sociedade harmónica, como Deus a deseja, assente sobre os alicerces da justiça e da paz.
Ao rezar pela paz, o cristão afirma a sua convicção de que a paz é um dom de Deus e que a escuta da Palavra de Deus nos alarga os horizontes da verdadeira construção da paz. Essa convicção de fé herdámo-la já do Povo de Israel e está claramente confessada na oração de bênção que nos refere o Livro dos Números: "O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz". E o Novo Testamento dá uma articulada doutrina sobre a paz. Esta assenta no respeito pelo projecto de Deus para o homem e para a sociedade, tem como alicerces a verdade e a justiça, como atitudes fundamentais o amor e o perdão. O tema da Mensagem do Papa para este Dia Mundial da paz, como que os resume a todos: "Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão". A justiça é fruto da verdade e do amor e o perdão é a mais generosa e desprendida forma de amor.
2. O pano de fundo da mensagem papal é a actual ordem internacional e as mais recentes ameaças à paz, entre as quais ele destaca o terrorismo como a mais irracional e violenta forma de tentar impor uma certa visão do mundo, sem esquecer as situações de injustiça objectiva, que suscitam o terrorismo, embora o não justifiquem. Embora eu tenha escolhido como pano de fundo desta minha intervenção, a sociedade portuguesa, no momento que está a viver, e que nós desejamos seja cada vez mais justa e em paz, grandes afirmações da Mensagem do Santo Padre poderão servir-nos de guia:
A paz é a tranquilidade da ordem, citando Santo Agostinho; nenhuma verdade ou visão da verdade se podem impor, muito menos pela violência, embora todos tenhamos o direito de a propor, no contexto de uma sociedade de pessoas em diálogo; o perdão, sendo prioritariamente uma atitude pessoal, tem de ter uma expressão colectiva e social, na medida em que as sociedade são conduzidas por pessoas.
O momento que o país atravessa, na iminência de os cidadãos serem chamados a pronunciarem-se através do voto, não apenas sobre quem querem que os governe, mas também sobre o modelo de sociedade que desejam, uma reflexão de todos, o mais profunda possível, é necessária. Nós os cristãos somos chamados a fazê-la, certamente motivados pelos problemas concretos da sociedade, mas sobretudo iluminados pela fé e as suas exigências morais, no quadro da doutrina da Igreja sobre o papel dos cristãos na construção da cidade e da maneira de a Igreja se relacionar corresponsavelmente com todas as estruturas da sociedade.
3. Porque todos desejamos uma sociedade alicerçada na justiça e na paz, ressalta a definição Agostiniana da paz concebida como "tranquilidade da ordem". A ordem é a harmonia da sociedade e quando ela assenta na justiça, no respeito pela dignidade de cada pessoa e não apenas na afirmação, mas na promoção da liberdade, a ordem oferece aos cidadãos a tranquilidade. Na linguagem política contemporânea, ao falarmos de ordem, pensamos espontaneamente na "ordem democrática". A democracia, para além de um sistema de governo, estipula e promove os direitos e deveres dos cidadãos e a sua forma de participar no bem comum e determina a natureza e a complementaridade dos poderes; mas ela só será garantia dessa ordem geradora de tranquilidade e de paz se promover um debate contínuo sobre o modelo de sociedade que desejamos construir. A definição de uma "ordem", antes de ser um problema político, é um projecto cultural e espiritual. A colaboração, na complementaridade, entre políticos, agentes culturais e fazedores de opinião, é necessária e urgente, certamente numa dialéctica inevitável, que não deve comprometer a convergência na tal "ordem" harmónica que todos desejamos. A actividade política sem dinamismo e debate culturais, é uma ameaça para a democracia, para a tal ordem que é o fundamento da paz.
Seria importante que o período de debate político que se aproxima fosse também um debate cultural, de modo a que os cidadãos, ao pronunciarem-se, o não fizessem apenas sobre pessoas ou agrupamentos políticos, mas, de forma substantiva, sobre projectos de sociedade. Não deixa de ser impressionante verificar a pouca importância que têm tido nos debates eleitorais, o conhecimento das propostas programáticas para a sociedade e as formas de as implementar.
4. Neste debate cultural, nós os cristãos não podemos deixar de ter em conta a doutrina da Igreja sobre a sociedade, a qual, não se identificando com nenhum projecto político-partidário, enuncia princípios e valores decisivos para a edificação de uma sociedade harmónica, baseada na solidariedade, na justiça e na paz.
Antes de mais, o respeito e o cultivo do carácter sagrado da vida humana, desde a sua concepção até à morte natural, base essencial do respeito pela dignidade da pessoa humana, quer individualmente, quer no seu relacionamento comunitário e social.
A vitória sobre todas as formas de individualismo e a afirmação clara da responsabilidade de cada um no progresso da sociedade. Esta tem de ser obra de todos, na dedicação generosa ao bem comum. A tentação de descarregar sobre os governantes toda a responsabilidade da construção da sociedade, mina o próprio conceito de ordem democrática e facilita visões centralizadoras do Estado. O direito de exigir tem de ser proporcional à participação generosa no bem comum.
Para promover esta responsabilidade social dos cidadãos, é importante que os diversos projectos de sociedade valorizem o papel da chamada sociedade civil, num são relacionamento com o Estado, que não se identifica com a Nação, mas se deve assumir como seu servidor. O respeito pelo princípio da subsidariedade é essencial à construção de uma sociedade plural, obra de todos.
A defesa e a promoção da liberdade. Valor fundamental de uma sociedade democrática, o exercício da liberdade é indesligável da responsabilidade, da generosidade para com os outros, da prossecução de objectivos comuns. A liberdade democrática não pode ser o simples somatório das liberdades individuais, mas a afirmação de uma identidade comunitária.
Por outro lado, a construção dessa "tranquilidade na ordem", supõe o cultivo de valores como a honestidade e desprendimento no serviço, a competência para bem exercer as funções próprias de cada um, a justiça nos julgamentos e a equidade na distribuição de bens e oportunidades. Uma ordem social que promova a tranquilidade é incompatível com a corrupção, com as desigualdades e as injustiças sociais, com a persistência da pobreza e da marginalidade.
5. A introdução destes valores na construção da harmonia numa sociedade plural, exige o cultivo do diálogo, lúcido e corajoso, entre pessoas e grupos, em vez do confronto ideológico e político. O diálogo supõe o respeito pela diferença e a procura de grandes objectivos comuns, na busca da verdade como alicerce sólido da construção social. Mas a descoberta dessa verdade não é fácil, passa pela dialéctica das diversas visões da verdade, segundo as filosofias, as crenças religiosas, a própria elaboração política. A este propósito, João Paulo II afirma na Mensagem deste ano, referindo-se ao terrorismo: "por vezes, o terrorismo é filho de um fundamentalismo fanático, que nasce da convicção de poder impor a todos a aceitação da própria visão da verdade. Mas a verdade, uma vez alcançada - e isso verifica-se sempre de forma limitada e imperfeita --jamais pode ser imposta. O respeito pela consciência alheia, na qual se reflecte a própria imagem de Deus (cf. Gén. 1, 26-27), permite apenas propor a verdade ao outro, a quem compete depois acolhê-la responsavelmente. Pretender impor aos outros com violência aquela que se presume ser a verdade, significa violar a dignidade do ser humano e, em última instância, ultrajar a Deus, de quem ele é a imagem".
Transpondo isto para a busca da verdade no diálogo social, significa que ninguém tem o direito de impor a própria visão da verdade, mas sim de a propor com convicção, aberto às parcelas de verdade presentes em toda a busca sincera. O contrário roça pelo fundamentalismo que pode ser religioso, ideológico, económico ou político.
6. Nós cristãos encontramos em Cristo, Palavra eterna de Deus, a fonte da verdade. Proponhamos a nossa experiência da verdade com convicção, participando responsavelmente no debate sobre a sociedade que queremos construir, dando conteúdo substantivo às nossas escolhas democráticas.
Paço de Arcos, 1 de Janeiro de 2002
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
MENSAGEM DE JOÃO PAULO II
DIA MUNDIAL DA PAZ - 1 DE JANEIRO DE 2002
NÃO HÁ PAZ SEM JUSTIÇA
NÃO HÁ JUSTIÇA SEM PERDÃO
1. Este ano o Dia Mundial da Paz é celebrado tendo como pano de fundo os dramáticos acontecimentos do passado dia 11 de Setembro. Naquele dia, foi perpetrado um crime de terrível gravidade: em poucos minutos milhares de pessoas inocentes, de várias procedências étnicas, foram horrorosamente massacradas. Desde então, por todo o mundo as pessoas tomaram consciência, com nova intensidade, da sua vulnerabilidade pessoal e começaram a olhar o futuro com um sentido, jamais pressentido, de íntimo medo. Diante deste estado de ânimo, a Igreja deseja dar testemunho da sua esperança, baseada na convicção de que o mal, o mysterium iniquitatis, não tem a última palavra nas vicissitudes humanas. A história da salvação, delineada na Sagrada Escritura, projecta uma grande luz sobre toda a história do mundo ao mostrar como sobre ela vela sempre a solicitude misericordiosa e providente de Deus, que conhece os caminhos para sensibilizar mesmo os corações mais endurecidos e alcançar bons frutos mesmo de uma terra árida e infecunda. Esta é a esperança que anima a Igreja no início do ano 2002: com a graça de Deus este mundo, no qual as forças do mal parecem uma vez mais triunfar, há-de realmente transformar-se num mundo em que as aspirações mais nobres do coração humano poderão ser satisfeitas, num mundo onde prevalecerá a verdadeira paz.
A paz: obra de justiça e amor
2. Os recentes acontecimentos, com os terríveis factos sangrentos aqui lembrados, estimularam-me retomar uma reflexão que frequentemente brota do mais íntimo do meu coração, quando lembro os acontecimentos históricos que marcaram minha vida, especialmente nos anos da minha juventude.
Os indescritíveis sofrimentos de povos e indivíduos, vários deles meus amigos e conhecidos, causados pelos totalitarismos nazista e comunista, sempre interpelaram o meu espírito e motivaram a minha oração. Muitas vezes me detive a reflectir nesta questão: qual é o caminho que leva ao pleno restabelecimento da ordem moral e social tão barbaramente violada? A convicção a que cheguei, raciocinando e confrontando com a Revelação bíblica, é que não se restabelece cabalmente a ordem violada, senão conjugando mutuamente justiça e perdão. As colunas da verdadeira paz são a justiça e aquela forma particular de amor que é o perdão.
3. Mas, nas circunstâncias actuais, pode-se falar de justiça e, ao mesmo tempo, de perdão como fontes e condições da paz? A minha resposta é que se pode e se deve falar, apesar da dificuldade que o assunto traz consigo, e da tendência que há a conceber a justiça e o perdão em termos alternativos. Mas o perdão opõe-se ao rancor e à vingança, não à justiça. Na realidade, a verdadeira paz é " obra da justiça " (Is 32, 17). Como afirmou o Concílio Vaticano II, a paz é " fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana, e que deve ser realizada pelos homens, sempre anelantes por uma mais perfeita justiça " (Const. past. Gaudium et spes, 78).
Há mais de quinze séculos que na Igreja Católica ressoa o ensinamento de Agostinho de Hipona, segundo o qual a paz, a ser conseguida com a colaboração de todos, consiste na tranquillitas ordinis, na tranquilidade da ordem (cf. De civitate Dei, 19, 13).
Por isso, a verdadeira paz é fruto da justiça, virtude moral e garantia legal que vela sobre o pleno respeito de direitos e deveres e a equitativa distribuição de benefícios e encargos. Mas, como a justiça humana é sempre frágil e imperfeita, porque exposta como tal às limitações e aos egoísmos pessoais e de grupo, ela deve ser exercida e de certa maneira completada com o perdão que cura as feridas e restabelece em profundidade as relações humanas transtornadas. Isto vale tanto para as tensões entre os indivíduos, como para as que se verificam em âmbito mais alargado e mesmo as internacionais. O perdão não se opõe de modo algum à justiça, porque não consiste em diferir as legítimas exigências de reparação da ordem violada; mas visa sobretudo aquela plenitude de justiça que gera a tranquilidade da ordem, a qual é bem mais do que uma frágil e provisória cessação das hostilidades, porque consiste na cura em profundidade das feridas que sangram nos corações. Para tal cura, ambas, justiça e perdão, são essenciais.
Estas são as duas dimensões da paz que desejo analisar nesta mensagem. O seu Dia Mundial oferece este ano, a toda a humanidade e de modo particular aos Chefes das Nações, a oportunidade de reflectir sobre as exigências da justiça e sobre o apelo ao perdão diante dos graves problemas que continuam a afligir o mundo, dos quais, não por último, o novo nível de violência introduzido pelo terrorismo organizado.
O fenómeno do terrorismo
4. É precisamente a paz baseada na justiça e no perdão que, hoje, é atacada pelo terrorismo internacional. Nestes últimos anos, especialmente após o fim da guerra fria, o terrorismo transformou-se numa rede sofisticada de conluios políticos, técnicos e económicos, que ultrapassa as fronteiras nacionais e se estende até abranger o mundo inteiro. Trata-se de verdadeiras organizações, dotadas frequentemente de enormes recursos financeiros, que elaboram estratégias em vasta escala, atingindo pessoas inocentes, de forma alguma envolvidas nos objectivos que se propõem os terroristas.
Usando os seus mesmos sequazes como armas para atingir pessoas incautas e indefesas, estas organizações terroristas manifestam de modo assustador o instinto de morte que as alimenta. O terrorismo nasce do ódio e gera isolamento, desconfiança e retraimento. A violência atrai violência, numa trágica espiral que arrasta também as novas gerações, herdando elas assim o ódio causador das divisões precedentes. O terrorismo baseia-se no desprezo da vida do homem. Precisamente por isso, dá origem não só a crimes intoleráveis, mas constitui em si, enquanto recorre ao terror como estratégia política e económica, um verdadeiro crime contra a humanidade.
5. Existe, portanto, um direito a defender-se do terrorismo. É um direito que deve, como qualquer outro, obedecer a regras morais e jurídicas na escolha quer dos objectivos quer dos meios.
A identificação dos culpados deve ser devidamente provada, porque a responsabilidade penal é sempre pessoal, não podendo por isso ser estendida às nações, às etnias, às religiões a que pertencem os terroristas. A colaboração internacional na luta contra a actividade terrorista exige também um empenho particular do ponto de vista político, diplomático e económico para resolver, com coragem e determinação, eventuais situações de opressão e marginalização que estejam na origem dos objectivos terroristas. O recrutamento dos terroristas, de facto, é mais fácil em contextos sociais onde os direitos são espezinhados e as injustiças longamente toleradas.
No entanto, deve-se afirmar claramente que as injustiças existentes no mundo jamais podem ser invocadas como desculpa para justificar os atentados terroristas. Além disso, deve-se assinalar que, entre as vítimas da derrocada radical da ordem intentada pelos terroristas, incluem-se em primeiro lugar os milhões de homens e mulheres menos preparados para resistir ao colapso da solidariedade internacional. Refiro-me especificamente aos povos em vias de desenvolvimento, que já vivem no limite ínfimo da sobrevivência e que seriam os mais dolorosamente atingidos pelo caos político e económico global. A falsidade da pretensão que se arroga o terrorismo de agir em nome dos pobres é patente.
Não se mata em nome de Deus!
6. Quem mata, com actos terroristas, cultiva sentimentos de desprezo pela humanidade, manifestando desespero pela vida e pelo futuro: nesta perspectiva, tudo pode ser odiado e destruído.
O terrorista considera a verdade em que crê ou o sofrimento que padece tão absolutos que legitimam a sua reacção de destruir inclusivamente vidas humanas inocentes. Por vezes, o terrorismo é filho de um fundamentalismo fanático, que nasce da convicção de poder impôr a todos a aceitação da sua própria visão da verdade. Mas a verdade, uma vez alcançada - e isto verifica-se sempre de forma limitada e imperfeita - jamais pode ser imposta. O respeito pela consciência alheia, na qual se reflecte a mesma imagem de Deus (cf. Gn 1, 26-27), permite apenas propôr a verdade ao outro, a quem compete depois acolhê-la responsavelmente. Pretender impôr aos outros com violência aquela que se presume ser a verdade, significa violar a dignidade do ser humano e, em última instância, ultrajar a Deus, de quem aquele ele é imagem. Por isso, o fanatismo fundamentalista é um comportamento radicalmente contrário à fé em Deus. Visto de outro modo, o terrorismo instrumentaliza não somente o homem, mas também Deus, acabando por fazer d'Ele um ídolo de que se serve para os seus próprios fins.
7. Por isso, nenhum responsável das religiões pode ser indulgente para com o terrorismo e, muito menos, pregá-lo. É profanação da religião proclamar-se terrorista em nome de Deus, cometer violência ao homem em nome de Deus. A violência terrorista é contrária à fé em Deus Criador do homem, em Deus que cuida e ama o homem. E de modo particular, ela é totalmente contrária à fé em Cristo Senhor, que ensinou os seus discípulos a rezar: " Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido " (Mt 6, 12). Seguindo a doutrina e o exemplo de Jesus, os cristãos estão convencidos de que usar de misericórdia significa viver plenamente a verdade da nossa vida: podemos e devemos ser misericordiosos, porque usou de misericórdia para connosco um Deus que é Amor misericordioso (cf. 1 Jo 4, 7-12). Aquele que nos redime mediante o seu ingresso na história e, através do drama da Sexta-feira Santa, prepara a vitória do dia de Páscoa, é um Deus de misericórdia e de perdão (cf. Sal 103(102), 3-4.10-13).
Aos que O criticavam por comer com os pecadores, Jesus assim se exprimiu: " Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque não vim chamar os justos, mas os pecadores " (Mt 9, 13). Os seguidores de Cristo, baptizados na sua morte e ressurreição, devem ser sempre homens e mulheres de misericórdia e de perdão.
A necessidade do perdão
8. Mas o que significa concretamente perdoar? E perdoar porquê? Uma dissertação sobre o perdão não pode ignorar estas questões. Retomando uma reflexão que já tive ocasião de oferecer no Dia Mundial da Paz de 1997 (" Oferece o perdão, recebe a paz "), desejo recordar que o perdão, antes de ser um facto social, tem a sua sede no coração de cada um. Somente na medida em que se afirmam uma ética e uma cultura do perdão, é que se pode esperar numa " política do perdão ", expressa em comportamentos sociais e instrumentos jurídicos, nos quais a mesma justiça assuma um rosto mais humano.
Na verdade, o perdão é primariamente uma decisão pessoal, uma opção do coração que vai de encontro ao instinto espontâneo de devolver o mal com o mal. Tal opção tem o seu termo de comparação no amor de Deus, que nos acolhe apesar do nosso pecado, e o seu modelo supremo no perdão de Cristo que do alto da cruz rezou: " Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem " (Lc 23, 34).
O perdão tem pois uma raiz e uma medida divinas. Isto, porém, não exclui que se possa acolher o seu valor também à luz de considerações humanas razoáveis. A primeira delas deriva da experiência que o ser humano vive em si próprio quando comete o mal: ele apercebe-se então da sua fragilidade e deseja que os outros sejam indulgentes para com ele. Deste modo porque não fazer aos outros aquilo que cada um espera que seja feito a si próprio? Cada ser humano abriga dentro de si a esperança de poder retomar o percurso da vida sem ficar para sempre prisioneiro dos próprios erros e culpas. Sonha poder levantar de novo o olhar para o futuro, para descobrir ainda perspectivas de confiança e empenho.
9. Como acto humano, o perdão é antes de mais uma iniciativa individual do sujeito na sua relação com os seus semelhantes. Porém, a pessoa tem uma dimensão social essencial, que lhe permite estabelcer uma rede de relações com a qual se exprime a si mesma: infelizmente não só para o bem, mas também para o mal. Consequentemente, o perdão torna-se necessário também a nível social. As famílias, os grupos, os Estados, a mesma Comunidade internacional, necessitam de abrir-se ao perdão para restaurar os laços interrompidos, superar situações estéreis de mútua condenação, vencer a tentação de excluir os outros, negando-lhes a possibilidade de apelo. A capacidade de perdão está na base de cada projecto de uma sociedade futura mais justa e solidária. Pelo contrário, a falta de perdão, especialmente quando alimenta o prolongamento de conflitos, supõe custos enormes para o desenvolvimento dos povos. Os recursos são destinados para manter a corrida aos armamentos, as despesas de guerra, as consequências das represálias económicas. Acabam assim por faltar os recursos financeiros necessários para gerar desenvolvimento, paz e justiça. Quantos sofrimentos padece a humanidade por não saber reconciliar-se, e quantos atrasos por não saber perdoar! A paz é a condição do desenvolvimento, mas uma verdadeira paz torna-se possível somente com o perdão.
O perdão, estrada mestra
10. A proposta do perdão não é de imediata compreensão nem de fácil aceitação; é uma mensagem de certo modo paradoxal. De facto, o perdão implica sempre uma aparente perda a curto prazo, mas garante, a longo prazo, um lucro real. Com a violência é exatamente o contrário: opta-se por um lucro de vencimento imediato, mas prepara para depois uma perda real e permanente. À primeira vista, o perdão poderia parecer uma fraqueza, mas não: tanto para ser concedido quanto para ser aceito, supõe uma força espiritual e uma coragem moral a toda a prova. Em vez de humilhar a pessoa, o perdão leva-a a um humanismo mais pleno e mais rico, capaz de reflectir em si um raio do esplendor do Criador.
O ministério que realizo ao serviço do Evangelho faz-me sentir vivamente o dever, e dá-me por sua vez a força, de insistir sobre a necessidade do perdão. É o que faço hoje, animado pela esperança de poder suscitar reflexões serenas e maduras que levem a uma renovação geral no corações das pessoas e nas relações entre os povos da terra.
11. Ao meditar sobre o tema do perdão, não é possível deixar de recordar algumas trágicas situações de conflito, que há demasiado tempo alimentam ódios profundos e dilacerantes, com a consequente espiral de tragédias pessoais e colectivas sem fim. Refiro-me, particularmente, àquilo que sucede na Terra Santa, lugar bendito e sagrado do encontro de Deus com os homens, lugar da vida, morte e ressurreição de Jesus, o Príncipe da paz.
A delicada situação internacional põe em destaque, com vigor renovado, a urgência da solução do conflito árabe-israelita, que perdura há mais de cinquenta anos, oscilando em fases mais ou menos agudas. O contínuo recurso a actos de terrorismo ou de guerra, que agravam a situação de todos e ensombram as perspectivas, deve dar finalmente lugar a uma negociação definitiva. Os direitos e as exigências de cada um poderão ser levados em devida consideração e contemplados equitativamente, se e quando prevalecer em todos a vontade de justiça e de reconciliação. Dirijo novamente àqueles amados povos o veemente convite a que se empenhem por uma nova era de mútuo respeito e colaboração construtiva.
Compreensão e cooperação inter-religiosa
12. Neste grande esforço, os líderes religiosos têm uma sua responsabilidade específica. As confissões cristãs e as grandes religiões da humanidade devem colaborar entre si para eliminar as causas sociais e culturais do terrorismo, ensinando a grandeza e a dignidade da pessoa e incentivando uma maior consciência da unidade do género humano. Trata-se de um campo concreto do diálogo e da colaboração ecuménica e inter-religiosa, colocando as religiões ao serviço da paz entre os povos.
De modo particular, estou convencido de que os líderes religiosos judeus, cristãos e muçulmanos devem tomar a iniciativa da pública condenação do terrorismo, recusando toda a forma de legitimação religiosa ou moral a quem dele participa.
13. Testemunhando unanimemente a verdade moral de que o assassínio deliberado do inocente é sempre um pecado grave, em toda a parte e sem excepções, os líderes religiosos do mundo favorecerão a formação de uma opinião pública moralmente correcta. Este é o pressuposto necessário para a edificação de uma sociedade internacional capaz de procurar a tranquilidade da ordem na justiça e na liberdade.
Um compromisso nesta linha por parte das religiões não deixará de conduzir à estrada do perdão, que leva à recíproca compreensão, ao respeito e à confiança. O serviço que as religiões podem prestar em prol da paz e contra o terrorismo consiste precisamente na pedagogia do perdão, porque o homem que perdoa ou pede perdão entende que existe uma Verdade maior do que ele e, acolhendo-a, consegue ele mesmo transcender-se a si próprio.
Oração pela paz
14. Precisamente por este motivo, a oração pela paz não é um elemento que " vem depois " do empenho pela paz. Pelo contrário, está no âmago do esforço para a edificação de uma paz na ordem, na justiça e na liberdade. Orar pela paz significa abrir o coração humano à irrupção da força renovadora de Deus. Com a força vivificadora da sua graça, Ele pode criar oportunidades para a paz mesmo onde pareça que existam somente obstáculos e retraimento; pode reforçar e ampliar a solidariedade da família humana, apesar de velhas histórias de divisões e lutas. Orar pela paz significa rezar pela justiça, por um recto ordenamento no âmbito das Nações e nas relações entre elas. Quer dizer também rezar pela liberdade, especialmente pela liberdade religiosa, que é um direito humano e civil fundamental de cada indivíduo. Orar pela paz significa rezar para alcançar o perdão de Deus e, ao mesmo tempo, crescer na coragem de que necessita quem, por sua vez, quer perdoar as ofensas sofridas. Por todos estes motivos, convidei os representantes das religiões do mundo para virem a Assis, a cidade de São Francisco, no próximo dia 24 de Janeiro, rezar pela paz. Deste modo, queremos mostrar que o genuíno sentimento religioso é uma fonte inesgotável de mútuo respeito e de harmonia entre os povos: antes, nele reside o principal antídoto contra a violência e os conflitos. Neste tempo de grave preocupação, a família humana necessita que lhe sejam recordadas as razões seguras da nossa esperança. É isto mesmo que queremos proclamar em Assis, pedindo a Deus Omnipotente - conforme a sugestiva expressão atribuída ao mesmo São Francisco - que faça de nós um instrumento da sua paz.
15. Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão: eis o que quero anunciar nesta Mensagem a crentes e não crentes, aos homens e mulheres de boa vontade, que têm a peito o bem da família humana e o seu futuro.
Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão: é o que quero lembrar aos que detêm as sortes das comunidades humanas, para que nas suas graves e difíceis decisões, se deixem sempre guiar pela luz do verdadeiro bem do homem, na perspectiva do bem comum. Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão: não me cansarei de repetir esta advertência a todos os que, por uma razão ou por outra, cultivam dentro de si ódio, desejo de vingança, propósitos de destruição.
Neste Dia da Paz, suba mais intensa no coração de todo o crente a prece por cada uma das vítimas do terrorismo, pelas suas famílias atingidas tragicamente, e por todos os povos que o terrorismo e a guerra continuam a ferir e a transtornar. Nem sejam excluídos do raio de luz da nossa oração aqueles que ofendem gravemente Deus e o homem, através destes actos desumanos: seja-lhes concedido entrar em si próprios e tomar consciência do mal que fazem, abandonando qualquer propósito de violência e procurando o perdão. Possa a família humana, nestes tempos tormentosos, encontrar paz verdadeira e duradoura, aquela paz que só pode nascer do encontro da justiça com a misericórdia!
Vaticano, 8 de Dezembro de 2001
JOÃO PAULO II