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DOCUMENTAÇÃO


LEGISLAÇÃO CIVIL E IGREJA

ÍNDICE DE ACTOS OFICIAIS
 

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DOCUMENTAÇÃO - 2001


HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
NO PONTIFICAL DO DIA DE NATAL

    1. Nesta solene celebração do Natal, os textos da Sagrada Escritura colocam-nos perante a urgência de anunciar Jesus Cristo aos homens do nosso tempo, para estes se poderem confrontar com Ele, acolhendo-O e isso significa aceitar a ruptura de uma mudança de vida, porque a salvação passa, necessariamente, pela conversão, ou rejeitando-O. Não é, hoje, frequente que os homens se confrontem com Jesus Cristo com essa radicalidade. A atitude mais comum é a de simples integração do cristianismo num quadro cultural, aliás mutável, onde o sincretismo não é excluído, em que a liberdade do homem como fazedor da história, iluminado pela razão, continua a ser o principal ponto de referência. Basta verificar a relativização progressiva da beleza e da dimensão estética da existência no caldear da cultura e da civilização.
    Ora toda a verdadeira evangelização, se der fruto, leva a um encontro vital com Jesus Cristo, que provoca rupturas e gera aberturas para uma outra compreensão do homem, da vida e da história. O verdadeiro evangelizador, ou confia que isso é possível, provocar a mudança exigida pela abertura à salvação, ou não passa de um agente cultural, de cariz religioso. O profeta Isaías, na primeira leitura, dá-nos o testemunho vigoroso dessa confiança: "O Senhor vai resgatar Jerusalém… descobre o seu Santo braço à vista de todas as nações e todos os confins da terra verão a salvação do Nosso Deus".
    O verdadeiro evangelizador acredita na revolução do Evangelho e no triunfo do Reino de Deus, porque é a força da sua fé que o faz pôr-se a caminho, com ousadia, para anunciar. É uma atitude cheia de grandeza e de dignidade, como proclama o mesmo profeta: "Como são graciosos, nas montanhas, os pés do mensageiro da paz. Anuncia boas novas, proclama a salvação e diz a Sião: o teu Deus é Rei".

    2. São João, no prólogo do seu Evangelho, ao meditar sobre a encarnação do Verbo eterno de Deus, tem consciência dessa tensão dramática provocada por Jesus Cristo, rosto humano de Deus. "O Verbo era a Luz verdadeira, que a todo o homem ilumina, ao vir a este mundo. Ele estava no mundo, e o mundo, feito por meio d'Ele, não O conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não O acolheram". A rejeição de Cristo significa a rejeição da luz. São João refere-se à atitude do Povo Judeu, que não reconheceu em Jesus o Messias. Mas como toda a Palavra de Deus, também esta tem uma actualidade dramática: Jesus continua a vir, a propor-se como salvador, e quase nunca é acolhido com a radicalidade da Palavra eterna de Deus.
    A quem se poderão aplicar hoje estas palavras duras do Apóstolo? Antes de mais a nós cristãos e à Igreja como um todo. Nós somos seus, somos o seu Povo, que Ele adquiriu, resgatando-nos, e que Ele ama, com a delicadeza de um amor esponsal. Isto ainda é, hoje, verdade: "Ele veio para o que era seu e os seus não O receberam". Não O receberam quando não aceitaram a ruptura que Ele propõe, encetando o caminho da santidade; quando a sua Palavra não ilumina a nossa vida, guiando-nos apenas por outras luzes, naturais, mesmo que sejam as da razão e da consciência; quando não fomos capazes de contemplar o Seu rosto e aguentar toda a exigência do Seu olhar.
    Mas se aquele "veio para o que era seu" significa toda a humanidade por Ele criada, a situação é ainda mais dramática. São João afirma que, como criador, todas as coisas são suas: "Ele estava, ao princípio, junto de Deus. Tudo se fez por meio d'Ele, e, sem Ele, nada se fez". Quando assistimos às agressões à dignidade da pessoa humana, à adulteração da própria harmonia da natureza, aos egoísmos ferozes que se tornam causas de opressão de multidões, vemos a que nível o Verbo eterno de Deus, que tudo criou, é rejeitado pela sua criatura. A rejeição da luz, no mundo contemporâneo, não é só, nem principalmente, religiosa: é cultural, ética, social. O nosso mundo precisa de salvação e é urgente anunciá-la.

    3. Mas a esperança do profeta Isaías não foi desmentida. Há aqueles que O acolhem e se abrem a uma renovação que os faz participar da vida divina: "Mas a quantos O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a eles que acreditaram no Seu nome". Esses são os que seguem Jesus Cristo, que escutam a Sua Palavra e participam da sua Páscoa. O seu número exacto só Deus o conhece, embora o Senhor lhes tenha chamado "pequeno rebanho". São os que acreditam na força transformadora do Espírito e sabem que, na ordem da graça, não há impossíveis; se Deus tudo pode, com Deus não há impossíveis. É que eles sabem que essa vida nova não nasceu da vontade da carne e do homem; eles sabem que nasceram de Deus.
    Este "resto fiel" dá densidade histórica à esperança cristã. Eles são a semente que germina, o fermento que leveda, a luz que ilumina todos os que estão em casa, o sal que tempera e dá sentido. Esses são a semente de um mundo novo, a que poderemos, finalmente, chamar o "Reino de Deus". Eles já não são "mundanos", mas quer o Senhor que eles permaneçam no mundo, afirmação da dignidade radical da criação e da história. Glosando Isaías, podemos dizer como são belos esses homens e mulheres, filhos de Deus, que não fogem do realismo do mundo, mas são no meio dele, afirmação da luz de Cristo e da sua radicalidade de sentido. Eles sabem, e essa é a sua força e consolação, que o "Verbo se fez carne e habitou entre nós"!

    Sé Patriarcal, 25 de Dezembro de 2001

    † JOSÉ, Cardeal-Patriarca








HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA NOITE DE NATAL 2001

    1. Nesta noite Santa de Natal ecoa, pela primeira vez, o grande anúncio de Jesus Cristo, feito por um mensageiro divino aos pastores, que representam aqui todos os "pobre de Yahwé", os corações simples que esperavam a salvação de Deus: "Venho trazer-vos uma boa nova, que será grande alegria para todo o Povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um salvador, que é o Messias Senhor".
    Uma boa notícia, um "Evangelho", que encherá de alegria os corações. A boa notícia é Jesus Cristo, desde o seu nascimento, como manifestação suprema do amor de Deus pelos homens. Depois daquele anúncio do anjo aos pastores, este pregão do Evangelho nunca mais se calou: retomou-o o baptista, que anunciou a proximidade de Jesus, já presente no meio do Povo; foi o grande anúncio do próprio Jesus, proclamando que o "Reino de Deus" estava já no meio de nós; foi a urgência dos Apóstolos, depois da Páscoa, testemunhando a Ressurreição de Cristo; é missão inalienável da Igreja, ao longo dos tempos, até ao fim, anunciando Jesus Cristo como Salvador e caminho de plenitude para o homem. Nós não podemos não falar d'Ele, desabafava Pedro aos carcereiros; "ai de mim se não evangelizar", confessava Paulo. Enquanto houver um homem que não tenha escutado esta boa nova, a Igreja não pode, nem parar, nem descansar. É por isso que a evangelização é a sua missão perene, até ao fim. Essa é a missão da Igreja: anunciar Jesus Cristo, fazer conhecer Jesus Cristo, para que os homens, encontrando-se com Ele, o sigam como discípulos, descubram o mistério da vida e do amor, contemplando o seu rosto, sentindo o palpitar do seu coração, que nos revela Deus.
    Se acreditamos verdadeiramente que Jesus Cristo é decisivo para o homem, a urgência deste anúncio torna-se dramática. Ao observar o mundo contemporâneo, e lançando o olhar sobre a nossa própria cidade, quantos irmãos e irmãs nossos não escutaram nunca essa boa nova. Vivem num quadro cultural, marcado pelo cristianismo, ouviram falar de Jesus Cristo, sabem que Ele existiu e que fundou uma religião, mas nunca cruzaram verdadeiramente as suas vidas com Ele; mas como o hão-de encontrar, se não houver quem lho anuncie, o torne vivo e próximo num testemunho de vida e de amor?
    É certo que aprofundar o conhecimento e a relação com Jesus Cristo é desafio contínuo que se apresenta a todos os que já conhecem o Senhor e por Ele se deixam congregar na comunidade cristã, para celebrar e viver a Páscoa. Mas este anunciar de novo, talvez pela primeira vez, a pessoa de Cristo, filho de Deus, a todos aqueles que nunca acolheram Jesus Cristo como a boa notícia, é urgente e missão de todos os cristãos. Nos últimos meses temos andado preocupados em saber quantos são os que ainda se reúnem ao Domingo, e é bom que, por todos os meios ao nosso alcance, nos esforcemos por conhecer melhor a fisionomia cultural e espiritual dos católicos. Mas ainda mais importante do que isso é saber se aqueles que se reúnem ao Domingo para celebrar a Páscoa, têm o entusiasmo, a convicção e a ousadia para anunciar Jesus Cristo a quem ainda não o encontrou.
    Devemos desejar que sejam muitos os que já se encontraram com o Senhor, de modo a sentirem necessidade de se reunir com Ele, no dia da Ressurreição, para celebrar a Páscoa; mas devemos preocupar-nos com a capacidade dessas assembleias cristãs reunidas, regressarem ao mundo, quando se dispersam, como testemunhas dessa boa nova da salvação. Pequena era a primitiva comunidade de Jerusalém e no entanto eles levaram o anúncio do Evangelho até aos confins da terra.

    2. Este primeiro anúncio de Jesus Cristo não pode ser, nem um programa, nem uma estratégia: é uma urgência, uma paixão, a alegria de comunicar a vida. Só pode ser feito por testemunhas, isto é, por aqueles e por aquelas que já fizeram a experiência de encontrar o Senhor e sabem como isso transformou as suas vidas. Tem de ser feito por todos, não depende de estruturas, mas da verdade interior, supõe simplicidade e ousadia, para aproveitar todas as aberturas que a normal convivência com as pessoas proporciona; significa atenção aos momentos, aos acontecimentos significativos, às circunstâncias interpelantes. Exige desprendimento e gratuidade, não tentando contabilizar o resultado do nosso esforço de anunciar. O próprio Jesus nos explicou que este anúncio da boa nova é comparável a um semeador que faz do mundo o seu campo, que semeia, semeia, sabendo que alguma semente cairá entre os espinhos, ou mesmo no meio do caminho. Neste aspecto da primeira evangelização, o mais importante para a Igreja não é contar quantos se converteram com o nosso anúncio, mas sim anunciar sempre, na certeza de que em alguns corações abertos à vida o Senhor entrará. Quanto mais sincero for o nosso anúncio, mais se aplica hoje aquela frase de Jesus: "quem quiser ouvir que oiça". E em última análise, o verdadeiro fruto da palavra anunciada, só Deus o conhece, pois só Ele recolherá, no seu celeiro, os frutos da nossa seara.

    3. O anjo afirma que esta boa nova é motivo de alegria para todo o Povo. Referia-se, em primeiro lugar, ao Povo de Israel cuja religiosidade estava muito centrada na expectativa messiânica. Ao falar de todo o Povo, o anjo testemunha o optimismo de Deus, pois sabemos como os contemporâneos de Jesus o rejeitaram. O grupo dos discípulos cujos corações foram inundados pela alegria da Páscoa, foram um "pequeno rebanho", que cresceu ao ritmo da comunicação dessa alegria. Mas ao longo dos séculos, esta afirmação do anjo foi confirmada por milhões de pessoas, que no silêncio das suas vidas, descobriram a verdadeira alegria, porque encontraram Jesus Cristo. A Igreja sempre considerou a alegria como um dos principais frutos do Espírito e anunciar Jesus Cristo é, também, testemunhar a nossa alegria. Foi a primeira reacção de Maria, depois da anunciação: "a minha alma rejubila no Senhor".
    Mas em que consiste essa alegria? Ela é a exultação de experimentar a proximidade de Deus, tão vivo, que O sentimos como amor, experimentar que Deus nos ama. É uma alegria que é confiança, que é harmonia e paz, luz que tudo ilumina, vigor que tudo transforma. Foi assim que Isaías alimentou a esperança no Messias: "Naqueles dias, o povo que andava nas trevas, viu uma grande luz... multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento". E noutro texto apresenta o Messias como a manifestação do ardente amor de Deus pelo seu Povo: "tal como um jovem recebe uma virgem, o teu construtor desposar-te-á e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus". Ao fazer-se Homem, Deus desposou a humanidade, propondo essa intimidade esponsal com um Deus próximo e ardente, disposto a saciar o coração humano de toda a sua fome de amor. O encontro com Jesus Cristo, gera em nós a alegria do amor reencontrado.

    4. Nesta noite de Natal saúdo todos os que, na nossa Igreja, transformam a sua fé em anúncio e a todos desejo que a alegria deste Natal seja aquela que brota do coração amoroso de Deus, experimentado em Jesus Cristo, que no-lo tornou próximo e acessível.

    Sé Patriarcal, 24 de Dezembro de 2001

    † JOSÉ, Cardeal-Patriarca








HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA
SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

    1. Esta festa litúrgica da Imaculada Conceição da Virgem Maria, convida-nos a contemplar, no realismo de uma existência concreta, a de Nossa Senhora, o mistério da graça divina, na Igreja, povo de crentes chamados à santidade. É mais fácil captar a beleza da vocação cristã, confrontando-nos com a sua vivência por pessoas concretas. Aí captamos, com a força de um testemunho exemplar, a viabilidade da santidade.
    Desta vocação à santidade nos fala S. Paulo na Carta aos Efésios. Tem a ver, antes de mais, com o eterno desígnio de Deus acerca dos homens que criou: "destinou-nos de antemão a sermos seus filhos adoptivos, mediante Jesus Cristo, por benevolência da Sua vontade, para louvor da glória da Sua graça, com a qual nos favoreceu no Seu Filho predilecto". Este desígnio de Deus de fazer de cada homem um filho, com acesso à intimidade de Deus Pai, encerra a razão de ser da própria criação. Deus não criou um ser qualquer, criou filhos, destinados à plena partilha da vida, a que eles hão-de aderir pela sua própria liberdade. Ao criar o homem como um filho, em cada homem Deus revê-se no seu único Filho, à imagem do qual todos fomos criados, e em Quem teremos acesso à plenitude da relação filial com Deus. Diz o Apóstolo: "foi assim que, n'Ele, nos escolheu antes da criação do mundo, a fim de sermos, na caridade, santos e irrepreensíveis diante d'Ele".
    Tal como a criação foi obra de Deus, esta construção progressiva da qualidade filial em nós, é obra de Deus, através da força criadora de Cristo ressuscitado. "Lá dos Céus, encheu-vos com toda a espécie de bênçãos espirituais, em Cristo". Deus tem para nós um desejo e dá-nos toda a força que o pode tornar realidade.

    2. Em Maria este plano de Deus realizou-se plenamente. Ninguém se aproximou mais da plenitude filial de Jesus Cristo, porque nela, como em nenhuma outra criatura, aquelas "bênçãos do Céu" foram totalmente fecundas.
    O anjo da anunciação, ao saudar Maria, fala de plenitude de graça - "Salvé ó cheia de graça". Esta plenitude de graça é, na verdade, atributo de Jesus Cristo e é dessa sua plenitude que toda a Igreja recebe o dom da vida divina (cf. Efs. 1, 22).
Se o mensageiro divino reconhece, em Maria, uma plenitude de graça, esta só pode ser uma participação na plenitude do próprio Jesus Cristo.
    Em Maria, esta plenitude de graça exprime-se na duração. Porque é obra de Deus, aconteceu nela desde o primeiro momento da sua existência; mas exprime-se também na profundidade e na radicalidade: a intimidade com Deus é total, a santidade de Deus reflecte-se na sua vida de forma cristalina. Entre o que Deus desejou para ela e o que ela é, na realidade da sua existência, não há distância alguma, aquela distância que o pecado introduziu, dramaticamente, na vida de todos os homens.
    Nesta plenitude de graça, realizada numa criatura, somos chamados a contemplar o próprio mistério da graça. O que é, afinal, a graça de Deus? É a presença amorosa e solícita de Deus na vida daqueles que chama à santidade, identificando-os com a plenitude de vida do próprio Cristo.
"Bênçãos espirituais em Cristo", lhe chama S. Paulo, predilecção amorosa de Deus, revela o anjo a Maria: "Achaste graça diante de Deus". Esse amor de Deus é criador, possibilita a realização da nossa vocação sobrenatural e a realização, em nós, do chamamento de Deus à santidade. O projecto de Deus é viável em nós, porque Deus o torna possível com o Seu amor, que continua a ser um amor criador. Caminhamos para a santidade, na certeza de que Deus nos ama.
    As manifestações desse amor solícito de Deus, estão todas reunidas em Jesus Cristo, o verdadeiro dom de Deus à humanidade e concretizam-se no dom da Palavra de Deus, em que Ele nos revela a intimidade do seu desígnio, nos sacramentos, em que nos faz participar na força renovadora da Páscoa, e em todas as manifestações pessoais do amor de Deus por cada um de nós, concretizadas na intimidade da oração e no calor da caridade. Porque de amor se trata, ele precisa de ser aceite num coração acolhedor e colaborante; porque de amor de Deus se trata, ele é a garantia de que a santidade é possível, de que a sua força viabilizará todos os nossos anseios e propósitos. É por isso que o Santo Padre fala de um princípio essencial da visão cristã da vida: o primado da graça. "há uma tentação que sempre insídia qualquer caminho espiritual e também a acção pastoral: pensar que os resultados dependem da nossa capacidade de agir e programar. É certo que Deus nos pede uma real colaboração com a Sua graça, convidando-nos, por conseguinte, a investir, no serviço pela causa do Reino, todos os nossos recursos de inteligência e de acção; mas ai de nós se esquecermos que, "sem Cristo nada podemos fazer"" (cf. Jo. 15,5, in NMI, n. 3)
    A plenitude de graça em Maria afirma-se na sua resposta à proposta de Deus, que ela aceita porque acredita que Deus a realizará, Ele a Quem nada é impossível: "faça-se em mim segundo a Tua palavra".
    Esta plena aceitação da iniciativa de Deus em nós, que nos torna progressivamente capazes da filiação divina, introduz-nos, já neste mundo, num estado de intimidade de comunhão com Deus, Trindade Santíssima. A essa situação a tradição cristã chamou "estado de graça", situação habitual e duradoira da nossa comunhão com Deus, espelhando progressivamente na nossa vida a santidade do Deus que nos ama. Deus recria-nos, para sermos cada vez mais "criaturas novas", mais dignos de sermos amados por Ele. A graça, neste sentido, é a inauguração anticipada da glória celeste.
    Também neste sentido Maria é a cheia de graça, pois a sua intimidade adorante com a Santíssima Trindade, através da relação maternal com Jesus, seu Filho, é total e perfeita. Nunca Deus conseguiu amar tão perfeitamente uma criatura, como amou Maria, porque nunca ninguém, como ela, se deixou amar por Deus. O anjo revela a Maria que Deus está verdadeiramente encantado com ela.
    Para todos os filhos de Eva, a graça é também o triunfo da misericórdia. Deus amou-nos nos nossos pecados. Maria, Nova Eva, testemunha do triunfo de Jesus Cristo sobre o demónio e o pecado, é, verdadeiramente, a Mãe de todos os que reviveram em Cristo. A plenitude de graça significa nela, também, a vitória da co-redenção.

Sé Patriarcal, 8 de Dezembro de 2001

† JOSÉ, Cardeal Patriarca







HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NAS ORDENAÇÕES DE DIÁCONOS

    1. Iniciamos hoje um novo Ano Litúrgico, o ano cristão. O ano é uma medida do tempo, da nossa vida e da nossa história, e segundo uma longa tradição cultural de muitos povos, o tempo mede-se a partir de um acontecimento particularmente significativo, que seja referência espiritual da vida e da história. Assim os judeus contaram o tempo a partir da libertação do Egipto; os romanos, a partir da fundação da cidade. Nós os cristão só poderíamos contar o tempo a partir de Jesus Cristo. Por isso o ano cristão é mais que a medida do tempo; é a sua celebração como tempo da salvação. Toda a nossa vida, na sua duração, está centrada em Jesus Cristo, ganha sentido na Páscoa de Jesus, aprofunda-se na configuração com Cristo, encontrará a sua plena realização, na comunhão total e definitiva com o Senhor, na Casa do Pai.
    A leitura do Profeta Isaías mostra-nos como Cristo é o centro da história, não apenas para os que viveram depois d'Ele, mas de toda a história humana, reunida na mediação do Povo eleito e da sua esperança messiânica. O templo do Senhor, elevado sobre as colinas e ponto de convergência de todos os povos e nações, é o anúncio de Jesus Cristo, a verdadeira morada de Deus entre os homens. Só em Cristo se realiza esta profecia, pois só Ele atrairá a si homens e mulheres de todos os povos e nações. Só Ele nos ensina, definitivamente, os caminhos de Deus; essas veredas, são as sendas por Ele apontadas aos discípulos, para, seguindo-O construírem o Reino de Deus.
    S. Paulo refere-se à densidade e exigência deste tempo da salvação. Como cristãos, ou aceitamos essa exigência, ou a nossa vida perde sentido. É o itinerário do discípulo de Cristo, acolher, sempre de novo a sua Palavra, para passar das trevas à luz. Esta é o símbolo da renovação interior que em nós realiza o Espírito de Cristo, que inclui uma renovação moral, o deixar as obras das trevas e praticar as obras da fé, na experiência da caridade. É esse o sinal de que a salvação está agora mais perto de nós, do que quando abraçamos a fé. Mas a contrária também é verdadeira: se não abandonámos as "obras das trevas", a salvação pode estar hoje, mais longe de nós, do que quando abraçámos a fé.

    2. A última etapa deste caminhar é a última vinda do Senhor, de que nos fala o texto evangélico. Será o tempo da verdade definitiva da humanidade, porque será julgada. Ele virá recolher no seu celeiro os frutos de uma longa e fatigada sementeira, em que se fará a definitiva separação do trigo e do joio. Justo juiz, introduzirá os justos na prometida plenitude da vida. Mas este momento decisivo da história não é apenas o fim; é mesmo mais plenitude do que fim, pois pode ser vivida no tempo presente da nossa vida. Este encontro definitivo com Cristo não é desligável do nosso primeiro encontro com Ele, na fé, nem da nossa peregrinação de discípulos.
Sempre que se intensifica, em nós, a união a Cristo, no amor, na renovação do nosso coração, na fidelidade à missão, não só preparamos, mas antecipamos esse encontro definitivo do fim dos tempos. É em Cristo que, na nossa vida presente, coexistem o pecado e a graça, a caridade experimentada, mas ainda não plenificada, se cruzam o tempo e a eternidade.

    3. Ao longo de 2000 anos de cristianismo, este irromper da plenitude escatológica de Cristo no presente histórico da Igreja e da vida de cada cristão, foi vivida na experiência da caridade e da radicalidade evangélica, dando forma à santidade cristã.
    Mas também desde o início, a opção pelos "conselhos evangélicos", foi sinal interpelante de que é possível viver a vida presente, ao ritmo da plenitude escatológica de Jesus Cristo. A pobreza, a obediência e a castidade, exprimindo em três dimensões fundamentais da vida humana, a radicalidade de Cristo ressuscitado. A pobreza, maneira de usar e se servir dos bens materiais, sem deixar que nos dominem o coração e a liberdade; a obediência, a decisão de, sempre e em todas as circunstâncias, pôr a vontade de Deus, que nos treinamos a perscrutar, acima da nossa própria vontade; a virgindade escolhida como experiência de amor, dando prioridade exclusiva ao amor com que Deus nos ama em Jesus Cristo, Ele a nossa plenitude e a nossa alegria e nos envia a amar os irmãos como Ele os ama, presenças sacramentais do seu próprio amor.
    Não admira que a Igreja começasse a escolher os seus sacerdotes, ministros de Cristo Sacerdote, entre os que desejam seguir os conselhos evangélicos. Tal como a Eucaristia a que o sacerdote preside, a vivência dos conselhos evangélicos é sinal da irrupção da plenitude escatológica no tempo presente. Aos candidatos que hoje se apresentam, antes de lhes impor as mãos, interrogá-los-ei sobre a sua disposição de seguirem os conselhos evangélicos.
    Numa sociedade profundamente marcada pela ganância do dinheiro, pela afirmação da vontade própria de cada um e por vivências da sexualidade que tantas vezes a desviam do amor, perguntam-se muitos se este caminho dos conselhos evangélicos, é possível e tem sentido. Digo-vos, queridos ordinandos, digo a todos os jovens, que é possível porque Deus é fiel. É possível, se acontece na coerência de uma escolha muito séria de Jesus Cristo e se nos esforçámos, pela Palavra, pela oração e pelos sacramentos, por aprofundar a nossa relação vital com Ele. Este caminho vive-se no tempo, mas tem o dinamismo do tempo definitivo, a que temos acesso na Páscoa de Jesus.

    4. O Advento que hoje começamos a celebrar é tempo de esperança, de desejo de acolher e conhecer melhor Jesus Cristo. Ilumina-o, qual estrela da manhã, Maria Imaculada, a Mãe de Jesus, a serva do Senhor que deu primazia absoluta à Palavra de Deus e, no seu coração imaculado, viveu toda a plenitude do seu amor de esposa e Mãe, como expressão da sua virgindade, porque virginal é o amor de Deus que a atraiu. Sigamos o rasto de luz que irradia da sua plenitude de graça.

Mosteiro dos Jerónimos, 2 de Dezembro de 2001

† JOSÉ, Cardeal Patriarca







A REFORMA CATEQUÉTICA EM PORTUGAL


CONFERÊNCIA DO CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA
NA ASSEMBLEIA DOS BISPOS FRANCESES (*)

I - Contexto da reforma catequética.

    1. A catequese, enquanto realização da missão evangelizadora da Igreja e etapa do crescimento da fé e de iniciação à vida cristã, deve ter em conta a problemática de conjunto, quer da Igreja, quer da sociedade na sua evolução sociológica e cultural. Nada é mais ilusório do que uma iniciativa catequética fechada na sua pedagogia, sem tentar dar resposta aos problemas e aos pedidos das pessoas concretas, com as suas características específicas.
    A sociologia portuguesa sofreu, nestes últimos anos, uma mutação social e cultural profunda e acelerada. País de tradição católica, com uma componente laica, anti-clerical e jacobina, esta mutação fez-se sentir no próprio interior da Igreja. Cerca de 90% da população ainda se declara católica (aguardamos os resultados do último recenseamento da população realizado no ano passado), de entre os quais 30% se declaram praticantes. Simultaneamente, efectuamos o recenseamento da prática dominical, cujos resultados ainda estão a ser estudados, mas os primeiros indicadores fazem-nos crer numa diminuição numérica, que deve ser comparada com os dados da população em geral.
    No entanto, um dado é permanente: cerca de dois terços dos baptizados não têm uma fé vivida e celebrada e muitos deles não são crentes. Isto convida-nos a reflectir sobre a facilidade com que se baptizam as crianças e sobre a nossa incapacidade de ir ao encontro daqueles que baptizamos, para os introduzir numa verdadeira iniciação cristã, e encontrar caminhos missionários de anúncio de Jesus Cristo a esta multidão de baptizados não crentes ou muito pouco crentes.

    2. Além disso, esta "comunidade eucarística" não é isenta de problemas. Só Deus conhece o número dos que procuram a santidade e crescem na caridade. Muitos destes cristãos praticantes não fizeram uma verdadeira iniciação cristã, o que os torna mais vulneráveis às modificações culturais e sociais.
    Enumero rapidamente alguns aspectos da evolução da sociedade, que se repercutem facilmente na comunidade eclesial:

    - A laicização da cultura que conduz a um naturalismo na interpretação da existência, marcado por uma espécie de racionalismo lógico, que influencia as opções éticas e põe em questão as normas morais; a perspectiva sobrenatural, essencial à visão cristã da santidade, enfraquece ou acaba por desaparecer.

    - O culto da liberdade individual, muito acentuado no processo revolucionário que conduziu à democracia pluralista, leva a uma visão individual da verdade, da moral, da procura do sentido da vida. A consciência eclesial de um "nós" dissolve-se; a Igreja já não é considerada pessoa de verdade, de acção; ela é dificilmente aceite como "senhora da verdade", sendo o seu magistério, frequentemente, reduzido ao nível da opinião.

    - O culto do provisório, do mutável, que deixa muito pouco lugar a opções definitivas e à perenidade de certas dimensões da vida, sobretudo da vida cristã.

    - A redução da expressão religiosa ao nível do privado, do subjectivo individual, minimizando a sua dimensão comunitária e as suas consequências sociais. A Igreja é confundida com a hierarquia; as suas tomadas de posição são aceites ao nível social, facilmente recusadas ao nível da moral pessoal. O próprio sentido do religioso dilui-se e torna-se sincrético. Há uma vaga de simpatia pelas religiões não-cristãs, como se todas as religiões fossem equivalentes.

    - O enquadramento sociológico desempenha um papel cada vez menos importante na prática religiosa. Uma fé comprometida é, cada vez mais, uma opção pessoal da liberdade individual. Isto também tem que ver com o tratamento pastoral da "religiosidade popular", elemento fortemente centrado nas tradições e que, por vezes, temos desvalorizado demais.

    3. No interior da comunidade eclesial, sublinho os seguintes traços:

    3.1. O reforço da dimensão comunitária da fé cristã. Existem comunidades vivas e responsáveis. A ideia da comunidade como verdadeiro sujeito da missão da Igreja começa a desenvolver-se, o que leva a um laicado cada vez mais participativo e responsável. A edificação de "comunidades evangelizadas e evangelizadoras" é, desde a "Evangelium Nuntiandi" o nosso "slogan" pastoral.

    3.2. Verifica-se um enorme interesse pelos estudos bíblicos e teológicos. Mas facilmente se queimam as etapas, inserindo uma curiosidade racional a propósito das verdades da fé, na ausência de uma verdadeira iniciação cristã. Uma informação teológica sem uma verdadeira iniciação no mistério da experiência cristã pode levar a um criticismo mais racional do que crente.

    3.3. Um fosso crescente entre a fé confessada e a fé vivida na novidade evangélica da experiência cristã.

    3.4. A crise da família. Esta, enquanto primeira comunidade de comunicação da fé e de verdadeira iniciação cristã depois do baptismo, rareia cada vez mais. Uma grande percentagem das crianças que, apesar de tudo, se inscrevem na catequese paroquial, pertence a famílias separadas e nem sequer teve o primeiro anúncio da fé. Para mais, o enquadramento numa comunidade eclesial de fé ainda não é tão forte que possa substituir a família, mesmo havendo casos muito positivos, em que crianças se tornam verdadeiras evangelizadoras das suas próprias famílias.


II - Breve apanhado histórico sobre a reforma catequética em Portugal

    4. Situo-me no quadro temporal da segunda metade do séc. XX, que está centrado no grande acontecimento do Concílio Vaticano II e no seu dinamismo de renovação.
    O caminho percorrido vai de uma catequese das crianças, concebida fundamentalmente como preparação imediata para os sacramentos, sobretudo da Eucaristia (primeira comunhão) e da Reconciliação, a uma catequese concebida como iniciação cristã e formação permanente, orientada para toda a gente, todas as idades e todas as etapas da vida.

    4.1. O ponto de partida deste longo caminho contava com a família cristã como primeira comunidade de fé, onde uma verdadeira iniciação à fé, sobretudo vivida, estava garantida. Uma preparação imediata para os sacramentos era feita, na maior parte dos casos, pelos próprios párocos ou por catequistas. Acentuava-se a memorização de fórmulas de fé e de oração (de que o catecismo de S. Pio X era o instrumento) e a comunicação da dimensão misteriosa dos sacramentos. Se não garantia uma grande compreensão da fé, esta catequese iniciava na fé e na oração, sendo seguro que era acompanhada pela prática dominical, pela oração em família e por uma iniciação às exigências morais.

    4.2. A partir dos anos 50, dão-se grandes movimentos na Igreja que influenciam, directa ou indirectamente, a catequese: o desenvolvimento das ciências pedagógicas na educação; o alargamento progressivo da escolaridade obrigatória, aumentando progressivamente a sua duração (4 anos, 6 anos, 9 anos), o que condicionou a organização da própria catequese paroquial; os grandes movimentos eclesiais (reforma litúrgica, Acção Católica, vocações sacerdotais) influenciaram a catequese. Um laicado bem formado descobre a catequese como missão, etc.
    Nesta etapa, ouso enumerar algumas características:

    - A organização da catequese privilegia o esforço da compreensão sobre a memorização e a experiência religiosa;

    - Verifica-se a primazia da pedagogia sobre os conteúdos;

    - Os destinatários continuam a ser as crianças e, a partir de certa altura, os adolescentes. A oferta catequética segue de perto a escolaridade obrigatória (actualmente, a oferta catequética abrange um período de 10 anos);

    - Faz-se um grande esforço na elaboração dos primeiros catecismos que, pela primeira vez, apresentam uma visão de conjunto das verdades da fé;

    - Estrutura-se a formação de catequistas leigos; recebem "cursos" em que os aspectos pedagógicos são, frequentemente, preponderantes; elaboram-se os primeiros textos para catequistas; uma estruturação diocesana e nacional dá os seus primeiros passos.
    A pedagogia catequética é complementada pelos movimentos para crianças e adolescentes: a "cruzada eucarística", a Acção Católica para crianças e outros.

    - Os aspectos mais negativos:

    - A descontinuidade. A catequese é concebida para crianças e adolescentes, e não como um esforço contínuo, dirigido a toda a gente, de todas as idades. A ruptura entre o fim da catequese e a idade adulta era uma realidade. Praticamente ainda não se falava de catecumenado, porque os não baptizados eram raros e falar de catequese a um adulto era quase ofensivo.

    - O facto da dimensão "ensino - conhecimento" prevalecer sobre o testemunho da fé, e a preocupação de uma espécie de "curriculum" dos sacramentos, e não o desejo de se iniciar na vida da fé, reduzem os frutos da caminhada catequética. Muitas crianças e jovens abandonam a prática religiosa depois de terem percorrido este "curriculum". Interrogamo-nos se a catequese fez crescer a fé.

    4.3. Nos anos 80, a Conferência Episcopal aprovou um novo plano catequético para todo o país. Nesta etapa (em que ainda estamos, de certo modo), sublinho os seguintes pontos:

    - O plano catequético é concebido como uma caminhada (para 10 anos) em que a dimensão doutrinal aparece como instrução, mas sobretudo como iluminação duma experiência vital. O ritmo eclesial é acentuado, e os sacramentos da iniciação enquadram-se na progressão de um caminho a percorrer. A perspectiva bíblica e a pedagogia de história da salvação estão mais presentes.

    - Novos catecismos e livros para o catequista foram elaborados de acordo com estes critérios. Procura-se valorizar a dimensão simbólica da fé e a descoberta da celebração da fé, através da liturgia;

    - O "ministério" do catequista começa a definir-se como "vocação específica" e faz-se um grande esforço para a sua formação;

    - O papel da memória é reabilitado no sentido duma tradição e duma continuidade da comunidade de fé. Volta-se a algumas "fórmulas" a aprender "par coeur" (Em francês, no original.), quer dizer, a guardar no coração;

    - As ciências pedagógicas, entretanto, valorizaram o papel da memória como elemento estruturante do crescimento intelectual e espiritual. Aprender "as orações" é uma maneira de aprofundar a memória de Jesus e de todos os que nos precederam na confissão da fé e na oração;

    - Devido ao facto dum itinerário catequético previsto para 10 anos, produz-se uma nova relação entre catequese e pastoral da juventude, mesmo que esta seja dificilmente concebida como continuidade da caminhada catequética. A idade da celebração do sacramento da Confirmação ainda hoje é uma "quaestio disputata";

    - O grande número de crianças não baptizadas (fenómeno dos anos 70) introduz a necessidade de um ritmo catecumenal no próprio seio da pedagogia catequética.

    4.4. Durante este período, surgiram elementos novos, mudanças de sociedade e de Igreja:

    - A crise da família acentua-se e a descristianização da sociedade aumenta. Muitas crianças chegam à catequese sem nunca terem ouvido o primeiro anúncio da fé. A primeira etapa da catequese torna-se kerigmática.

    - Muitos pais já não são praticantes, o que torna difícil um caminho catequético concebido como iniciação à celebração e à oração. Começou-se um trabalho com os pais, que se revelou difícil e insuficiente.

    - Os catequistas leigos são mais numerosos e não foi possível garantir a todos a formação adequada, sobretudo porque a sua persistência na função não é suficientemente duradoura. Acabam por não poder valorizar bem os elementos pedagógicos (catecismos e outros) postos à sua disposição. Em todo o caso, fez-se um grande esforço para a sua formação doutrinal, pedagógica e espiritual.

    - A escola torna-se, para as crianças, cada vez mais pesada e cansativa. Escola mais "week-end" deixam pouco espaço para a catequese.

    - A própria dimensão de organização levanta problemas novos. Numa diocese como a de Lisboa, temos mais de 10.000 catequistas, várias paróquias da periferia com mais de 1.000 crianças na catequese. Tudo isto exige uma grande organização, onde a qualidade e a autenticidade evangélicas nem sempre são fáceis.


III - O momento presente: as opções pastorais

    5. Entramos, também nós, num período de revisão do processo catequético, no quadro do desafio duma "nova evangelização".
    Neste momento, apenas posso enunciar algumas opções fundamentais que representam outras tantas preocupações e intuições:

    5.1. A catequese é um processo contínuo do cristão e da comunidade eclesial. Ainda é difícil interiorizar a perspectiva do Directório que considera a catequese dos adultos como o ponto de referência inspirador de todo o processo catequético. Passamos anos demais a tomar como referência a catequese das crianças e dos adolescentes. Mas a perspectiva começa a entrar nas mentalidades relativamente bem. Isto indica-nos que a grande renovação se deve situar ao nível da catequese dos adultos, na sua pluralidade metodológica.

    5.2. Há um grande número de baptizados, crianças e adultos, que não estão preparados para iniciar um caminho catequético. Têm necessidade de um anúncio; a criatividade nos caminhos e nos métodos a seguir é um grande desafio. Não devemos queimar as etapas. A vida de fé tem o seu ritmo, o seu início, o seu crescimento, a sua alegria, a sua plenitude. A convergência harmoniosa entre uma pastoral kerigmática e a catequese é necessária.

    5.3. O processo catequético deve ser concebido como uma verdadeira iniciação cristã, de inspiração baptismal, integrando harmoniosamente os múltiplos aspectos da experiência cristã: aprofundamento da fé, iluminação da fé pela doutrina, a fé celebrada e praticada na vida moral, a alegria da celebração e da oração, o compromisso na construção de um mundo novo, a experiência de comunhão e de fraternidade na comunidade eclesial.

    5.4. Prioridade absoluta à dimensão comunitária da fé. A Igreja enquanto comunidade de fé é o verdadeiro sujeito da missão, o verdadeiro responsável da catequese, e o enquadramento no crescimento na fé. O enquadramento paroquial da catequese é uma opção principal, apesar de serem propostos dinamismos diocesanos na catequese dos adultos. As dioceses e as paróquias devem ser organizadas como "comunhão de comunidades", devendo o ritmo comunitário estar presente em todas as iniciativas catequéticas. Acreditamos na fé em comunidade.

    5.5. Uma continuidade harmoniosa das etapas do processo catequético deve ser procurada e mesmo uma convergência entre catequese dos adultos, dos jovens, das crianças. Ensaiamos experiências em que os pais aceitam fazer um caminho catequético ao mesmo tempo que os filhos, podendo fazer da catequese uma ocasião de diálogo e de partilha em família.

    5.6. A preparação e formação contínua dos catequistas é crucial e decisiva. Não deve ser unicamente escolar e teórica. Esta formação deve ter, também ela, um ritmo de iniciação cristã e de catequese de adultos, em pequenas comunidades. É muito importante que os catequistas sejam testemunhas da fé; um ensino não comunica necessariamente a fé.
    Pretende-se que pelo menos uma parte do itinerário de formação seja percorrido em conjunto por vários "servidores eclesiais": catequistas, animadores de pequenas comunidades, ministros da Eucaristia e da liturgia, agentes da pastoral social, etc. A descoberta da fé e da Igreja é a mesma para todos.

    5.7. O processo catequético deve respeitar e valorizar a pluralidade da Igreja, guardando a sua unidade. Esta variedade é a das pessoas, dos carismas, dos movimentos, dos métodos e das pedagogias. Nenhuma espécie de monolitismo eclesial pode favorecer a realização da missão evangelizadora da Igreja.

    5.8. Só depois de tudo isto é que a produção de textos pedagógicos terá sentido. O Catecismo da Igreja Católica, garantia da unidade da fé, está concebido de modo a permitir uma variedade de textos pedagógicos, mesmo que um texto (catecismo) nacional continue a ter sentido e a ser necessário.

    5.9. Tenho o sentimento de que estamos a percorrer caminhos novos, enriquecidos pelas nossas experiências e esforços passados, mesmo sendo imperfeitos. A atracção e a exigência de uma evangelização que seja verdadeiramente nova supõem criatividade e audácia, a coragem de nos fazermos ao largo, conduzidos pelo Espírito de Deus.

Lourdes, 7 de Novembro de 2001

        † José, Cardeal Patriarca de Lisboa


(*) Original em língua Francesa







ENCONTRO DO CARDEAL PATRIARCA COM A COMUNICAÇÃO SOCIAL

NO INÍCIO DO ANO PASTORAL DE 2001-2002

    1. O início de um novo ano pastoral foi marcado em toda a Igreja e, consequentemente, também no Patriarcado de Lisboa, por três ordens de acontecimentos, diversos entre si, mas que se podem iluminar mutuamente:

    2. Como disse, a simultaneidade destes acontecimentos, torna inevitável que se interpenetrem, iluminando-se mutuamente, em ordem a inspirar a acção pastoral da Igreja. O Sínodo foi convocado, tendo em conta que o início do milénio constitui "um momento novo da história humana" que "põe no centro da consciência mundial um futuro a construir e, por isso, o tema da esperança" (Instrumentum Laboris, n.1). Estas afirmações ganharam uma densidade nova, com os acontecimentos do dia 11 de Setembro. O futuro novo a construir assume a densidade dramática de uma mudança de rumo da história e a esperança, se se tornou mais necessária e inevitável, tornou-se mais difícil e exigente.
    O entrecruzar-se destes dois acontecimentos sentiu-se vivamente no ambiente sinodal. A preocupação palpável no rosto do Papa, a presença do Cardeal Arcebispo de Nova York, em relevo porque era o relator principal deste Sínodo e que, por duas vezes, abandonou os trabalhos, para estar com a sua Igreja, em tempos difíceis; a presença do Bispo de Karachi, no Paquistão, que abandonou os trabalhos, logo no início, para estar com a sua comunidade; a visita inesperada ao Papa do pai do Presidente Bush, o ex-Presidente George Bush, que o Papa recebeu na própria sala do Sínodo no intervalo da manhã e a que fez uma referência imediata na Aula Sinodal; a densidade da comemoração do dia 11 de Outubro, em que o Sínodo se transformou, por momentos, em assembleia de oração densa e confiante; o início das actividades militares no Afeganistão e os contínuos apelos do Papa à paz, uma paz que respeite a justiça.
    E como pano de fundo o tema que nos reunira: "O Bispo servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo". O tema surgira numa consequência lógica das últimas assembleias ordinárias, no contexto do desafio da nova evangelização: a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo, em 1987; a formação dos sacerdotes, em 1990; a vida consagrada, em 1994. Para um novo anúncio do Evangelho da esperança, a reflexão sobre o ministério do Bispo tinha o sabor de uma síntese e de um clímax a atingir, dada a relevância desse ministério no ser e no acontecer da Igreja. Anunciar a um mundo agitado pela surpresa dos acontecimentos, que Jesus Cristo e o seu Evangelho são a mais válida e definitiva fonte de esperança, não depende só dos Bispos, pois é missão de toda a Igreja, mas a missão dos Bispos é decisiva, na medida em que lhes compete ir à frente, como pastores, conduzindo corajosamente a Igreja pelos caminhos do amor e da fraternidade, alicerçados na fé e na certeza de que o Espírito de Deus nos acompanha, não se limitando a falar da esperança, mas a serem, no meio dos sofrimentos da família humana, testemunhas vivas da esperança.
    Deixai que vos confesse que aquela assembleia foi, para mim, o primeiro sinal vivo de esperança e confiança. Bispos de todo o mundo, pastores das Igrejas de Cristo em todas as latitudes geográficas e culturais, que se apresentam fortes na comunhão que os une, fiéis crentes como qualquer fiel das suas comunidades, humildes na renúncia a grandezas e poderes, dispostos a dar a vida e a procurar apenas a melhor maneira de servir. Eles eram ali testemunhas de outras tantas Igrejas, inseridas na complexidade da realidade humana actual, certamente com os seus pecados e limites, mas determinados a viver em comunhão com Deus e com os irmãos, a construir a justiça, a dar prioridade absoluta a quem sofre, independentemente da sua raça ou credo, a proclamar corajosamente a verdade que liberta, que abre clareiras de luz para os caminhos da construção de uma nova harmonia mundial.
    Das inúmeras intervenções na Assembleia Sinodal, ressaltavam imagens fortes, inspiradas no Evangelho, dos pastores que Deus pôs hoje a guiar as Igrejas: o pastor solícito pela sorte dos seus fiéis, o guardião vigilante, o pai, o irmão, o amigo, o consolador, o servo, o mestre, o homem forte, sacramento da bondade de Deus. Como sintetizou o relator principal, o já referido Card. Arcebispo de Nova York, trata-se de imagens que apresentam o Bispo como homem de fé e de visão, homem de esperança e homem de luta, homem de mansidão e de comunhão.
    Neste nosso mundo em convulsão, a Igreja de Cristo presente em toda a parte, pode ser apenas um fermento e uma semente, mas que é sinal de esperança de que um mundo novo ainda é possível. Senti que a Igreja não se limita a falar da esperança. A sua realidade, no mundo de hoje, é já um sinal de esperança.

    3. Porque o mundo, devido aos acontecimentos referidos, se tornou tremendamente concreto nestes dias, o anúncio da esperança é empenhativo e comprometedor. O Sínodo teve, permanentemente, como pano de fundo, essa realidade concreta do nosso mundo. E a pergunta surgia no coração de cada um de nós: o que é anunciar a esperança? Que lugar há para a esperança? A sua porta de entrada pode estar nas rupturas provocadas pelos acontecimentos, que se podem transformar em aberturas para a mensagem da esperança.
    Nas análises de reacção aos acontecimentos que me foi possível seguir durante este mês, detecto três linhas de força, sem pretensão de ser completo e, muito menos, exaustivo.
    A primeira é a que situa os acontecimentos no contexto da globalização da pobreza, acabando com a visão bipolar do mundo, entre países desenvolvidos e países não desenvolvidos, em que as regras da convivência são as da inter-relação funcional entre estes dois universos. Pareceu-me particularmente significativo o resumo que nos foi distribuído de uma conferência do Presidente do Banco Mundial, o Sr. James Wolfensohn, na Assembleia Geral da Sociedade Inter-Americana de Imprensa, em Washington.
    A sua tese é de que esse mundo bipolar acabou, o mundo é só um, onde a pobreza de uns acaba por ser problema de todos, porque a pobreza num lugar começou a ser exportada, sob a forma de violência, para todos os lados. "Os dois mundos desapareceram. Hoje há só um mundo. E na comunidade internacional, devemos preparar-nos para ser cidadão globais e preparar os nossos filhos para serem cidadãos globais, num mundo que será muito menos bipolar do que o mundo em que vivemos agora". "Quem acreditava que havia uma parede entre estes dois mundos, penso que agora já crê que, simbólica e realmente, essa parede se desmoronou. Para mim isso significa uma mudança enorme em termos de interdependência global e do papel da instituição a que presido, e muito para além dela, da forma de pensarmos o desenvolvimento". Temos de nos habituar a pensar para além dessa parede, a pensar globalmente. Para nós Ocidentais isso obriga-nos a perceber que já não vivemos protegidos, numa cultural Ocidental, mas numa cultura global.
    A sua conclusão é clara: o 11 de Setembro tornou evidente para todos, que "o tema da desigualdade entre os ricos e os pobres não é um tema que se possa continuar a evitar; talvez a nossa geração ainda o consiga fazer, mas a dos nossos filhos não conseguirá". Há um dado novo que ressalta destes acontecimentos: a pobreza globalizou-se e começou a ser problema também para os ricos, pois quando não há soluções válidas, ela é exportada como violência. "Enquanto existir pobreza, os ricos não terão paz".
    Esta mensagem é carregada de interpelações aos que pensam e decidem o ritmo do desenvolvimento económico mundial. Estas interpelações vêm ao encontro da doutrina social da Igreja, e das corajosas intervenções de João Paulo II. A partir deste Sínodo vai, com certeza, ser uma linha de força contínua da missão dos Bispos em todo o mundo. O mundo vai mudar, o mundo começou a mudar, embora não se conheçam os difíceis caminhos desse percurso. Ainda estamos a tempo de essa mudança ser fruto da escolha de um caminho novo; se isso não acontecer, essa mudança será o fruto final de um sofrimento colectivo, que ainda se pode evitar ou mitigar.

    Uma segunda linha de força das reacções é a que tenta situar os acontecimentos no contexto de um confronto entre religiões, entre o islamismo e o ocidente cristão. Sem deixar de ter o seu fundo de objectividade, é perigosa esta grelha de análise, sobretudo se for exclusiva. Permito-me referir algumas coordenadas a exigir particular ponderação de todos nós: antes de mais, a identificação feita pela corrente fundamentalista do Islão, entre o Ocidente e a Cristandade. Sabemos da importância do cristianismo no caldear das civilizações ocidentais, mas também da importância que a laicidade adquiriu no evoluir da cultura ocidental; por outro lado, esta crise tem feito vir ao de cima as clivagens existentes entre o Islão, as suas correntes teológicas interpretativas do Corão, as suas seitas, as leituras mais religiosas ou mais políticas da fé. Em artigos de opinião surgidos do universo islâmico, essas clivagens são evidenciadas, o próprio Bin Laden é denunciado como querendo ser o novo profeta Maomé, presidindo a um Islão dominador do mundo de amanhã; é também de sublinhar a sensatez das reacções, que vão desde o Santo Padre ao Presidente Bush, de não confundir o Islão com esta imagem de terror. O Papa tem reafirmado que nenhuma religião pode ser factor de violência. Estive igualmente atento ao surgir de um dado, que não sendo novo, apareceu neste contexto com insistência peculiar: o falar de nação islâmica, congregando numa única nação, com um projecto único, todos os que, no contexto actual, seguem essa religião, relativisando os Estados e os respectivos líderes políticos.
    Perante estes dados, a reacção da Igreja é a de continuar a promover o diálogo inter-religioso, o serviço de toda a pessoa humana na sua dignidade, a de não cerrar fileiras num "ocidente cristão" que se defende, porque hoje - e essa é a diferença em relação à época das cruzadas - a zona de implantação do cristianismo é o mundo, mesmo que seja apenas como semente de esperança. Os nossos irmãos muçulmanos sabem que os cristãos estarão a seu lado nas verdadeiras lutas pela dignidade da pessoa humana, sobretudo pela dignidade da mulher - acredito que a mulher muçulmana terá uma palavra importante a dizer neste caldear de uma nova ordem mundial. Mas também esperamos deles sinais de esperança, sinais de respeito pela liberdade de consciência, pela liberdade cultural e religiosa.
    Uma terceira via de reacção, foi a do ateísmo militante e agressivo em ordem ao fenómeno religioso. Perante acontecimentos dramáticos, dizem-nos: eis o resultado das religiões. Todas elas são violentas, o pior mal que aconteceu à humanidade. Foram vozes isoladas, é certo, mas chocantes num contexto de grande densidade existencial. Chocou-me a perspectiva cultural dessas reacções. Claro que não posso esperar de um ateu que introduza a dimensão religiosa como elemento constitutivo de uma orientação e de um sentido. Mas tenho o direito de esperar que homens de cultura reconheçam que a maior parte da cultura da humanidade, desde os mais remotos tempos, foi inspirada pelas diversas religiões. Sem as religiões, a história cultural da humanidade esvanecer-se-ia no vácuo. A fé religiosa inspirou as mais significativas expressões da beleza ao longo da história. E como se pode esquecer a força inspiradora de amor fraterno, dedicação ao próximo que sofre, que a fé religiosa, de modo particular a fé cristã, foi ao longo dos séculos? Não, a lição a tirar destes acontecimentos não pode ser um convite ao ateísmo ou agnosticismo generalizados, como fonte inspiradora de valores. Deus, procurado na humildade da nossa fé, no reconhecimento das nossas fraquezas, pessoais e colectivas, é a única fonte sólida para a esperança da humanidade.

    Servos do Evangelho, nós os Bispos somos chamados a ser profetas da esperança, pela nossa fidelidade ao Evangelho de Jesus, acreditado na unidade da Igreja e pela nossa determinação de servos e discípulos, sermos pastores solícitos e condutores intrépidos do Povo que o Senhor nos confiou, mas atentos e decididos ainda, num momento em que pairam tantas incertezas sobre o destino da humanidade. Aquele "fazei-vos ao largo" da Carta Apostólica de João Paulo II é, afinal, o desafio a que enfrentemos, com uma determinação renovada, neste nosso mundo que começou apenas a gestação de um tempo novo.


    Mosteiro de S. Vicente de Fora, 30 de Outubro de 2001

† JOSÉ, Cardeal Patriarca








Sínodo dos Bispos 2001

O Diálogo, fonte de Esperança

A Esperança do Diálogo

Comunicação do Cardeal-Patriarca de Lisboa



        1. A minha intervenção, a título pessoal, relaciona-se com os n.os 129-131 do Instrumentum Laboris* e inspira-se na Relatio ante disceptationem*, em que se afirma que o diálogo é o último dos desafios que interpelam nesta hora, o ministério dos Bispos. Todos nós o sentimos no dia-a-dia da nossa missão pastoral. Todos esperam de nós uma atitude dialogante que seja compreensível e acolhedora.
   A primeira dificuldade que se nos depara é a noção cultural e sociológica do diálogo. Valor da convivência democrática, o diálogo parte do reconhecimento da liberdade individual e do direito à diferença no modo de pensar, viver e conceber a verdade.
    Nesta óptica, o diálogo significa o reconhecimento dos outros e das suas diferenças e supõe uma aproximação das partes em ordem à convivência social. O diálogo aconselha a amortecer a rigidez das nossas posições, a dispor-se a fazer concessões em nome da concórdia. É em virtude desta concepção do diálogo que a Igreja é frequentemente acusada de rigidez doutrinal.

    2. Para compreender o diálogo como uma parte integrante da nossa missão, devemos partir de uma perspectiva teologal: a primeira concretização do diálogo é a escuta; acolher é com efeito escutar o outro e, para um crente, esta escuta é antes de mais, a escuta da Palavra de Deus. Jesus deu-nos o testemunho acerca d'Ele mesmo: o que vos digo, escutei-o de meu Pai. Escutar o Senhor é pois o fundamento de todo o diálogo. A Palavra abre-nos o horizonte mais profundo da verdade, e ensina-nos que a verdade e a caridade são uma só coisa. Há coincidência entre a "agapê" (caridade) e a "alitheia" (verdade); não é necessário afastar-se da verdade para amar, pelo contrário, a verdade recebida do Senhor leva-nos a um amor mais radical e mais verdadeiro.
    A oração, enquanto escuta de Deus, revela-se como o ponto de partida autêntico de todo o diálogo. É escutando Deus que escuto e compreendo os outros no amor.

    3. O sujeito central deste diálogo é a Igreja, enquanto "pessoa-mística" e não cada um de nós individualmente. É a Igreja que ao longo dos séculos, escutou a Palavra do seu Senhor. É por isso que cada um de nós, ao preparar-se para o diálogo, deve escutar continuamente os Padres da Igreja, os Bispos que nos precederam, muitos dos quais sacrificaram a sua vida por esta verdade que escutaram.
    Colegialidade e comunhão exprimem-se também nesta escuta contínua do magistério da Igreja, do Santo Padre, dos nossos irmãos no episcopado. Que riqueza e que alegria poder escutar permanentemente a palavra dos nossos irmãos e das conferências episcopais que anunciam a mesma verdade em circunstâncias tão diversas e que os media hoje nos tornam possível. A unidade da Igreja, unidade na verdade e na caridade exprime-se sempre no nosso diálogo.

    4. Fortalecidos pela escuta do Senhor e da Igreja, podemos percorrer todos os caminhos de diálogo, sempre certos da unidade do amor e da verdade. A concretização fundamental do diálogo continua a ser a nossa capacidade de acolher e de escutar.
    Escutar os pobres, os jovens, os casais, os que vivem na angústia e não encontram resposta para os seus sofrimentos e dúvidas. Quantas vezes nos encontramos como Pedro não podendo dar-lhes o que nos pedem, mas tendo a coragem de anunciar o que temos verdadeiramente para lhes dar: a Boa Nova que Deus os ama em Jesus Cristo. O verdadeiro diálogo deve ser, da nossa parte, o testemunho da nossa fé e da nossa coerência.
    Ninguém fica excluído desta atitude acolhedora: cada um na sua cultura, na sua crença ou descrença, nos seus erros e na sua partilha da verdade, sejamos peregrinos com todos aqueles que querem percorrer connosco os caminhos da vida, da justiça e da paz e não escondamos a ninguém que connosco, como companheiro de viagem, vai o Senhor que não posso esquecer ou pôr de lado em nome do diálogo com quem quer que seja.


Cardeal José da Cruz Policarpo - Patriarca de Lisboa


* Documentos preparatórios do Sínodo (em Latim)







Homilia do Cardeal-Patriarca na Ordenação Episcopal
de D. António Montes Moreira

    1. A Igreja católica, à qual, por graça de Deus, pertencemos desde o dia do nosso baptismo, é uma Igreja Apostólica, que tem as suas raízes nos doze Apóstolos que Jesus escolheu, consagrou e enviou a anunciar o Evangelho até aos confins da Terra, a santificar com o poder do Espírito Santo e a governar, dirigindo o povo dos crentes pelos caminhos da comunhão e da santidade, até à Casa do Pai.
    Esses doze Apóstolos, que o Senhor quis fossem um Colégio, isto é, um grupo unido na mesma comunhão e na mesma missão, continuam hoje presentes e activos, a serem escolhidos, consagrados e enviados, no Colégio dos Bispos, sucessores dos Apóstolos. É esse Colégio, que o Senhor quer unido na comunhão e na missão, que garante a toda a Igreja que o Evangelho continua a ser anunciado, os sacramentos para a santificação sejam administrados, a Igreja seja regida segundo o desígnio do Senhor. É esse Colégio Apostólico, a que preside o Santo Padre, escolhido para exercer o ministério de Pedro, ministério de unidade, que envia a cada Igreja particular um dos seus membros, para nela ser Pastor, pois só ele tem a solicitude de todas as Igrejas.
    A ordenação de um Bispo é um momento criativo deste prolongar-se, no tempo, da missão dos Apóstolos de Jesus. É o Colégio que, com a autoridade da sua cabeça, agrega a si um novo membro, que com todos os Bispos do mundo, assumirá a responsabilidade da missão universal e que, em nome de todo o Colégio Apostólico, é enviado a esta Igreja particular para que nela seja Pastor. Porque a primeira e fundamental dimensão da sua missão, é a solicitude por todas as Igrejas - fomos enviados ao mundo todo - ao ser-lhe confiada a missão pastoral nesta Igreja, ele garantirá a inserção desta Diocese na universalidade da Igreja, cuidará da unidade da mesma fé, combaterá todos os particularismos de doutrina e de disciplina, abrirá os vossos corações à universalidade da caridade.

    2. Segundo uma antiquíssima tradição da Igreja, o Bispo é entregue à Igreja de que vai ser Pastor por uma delegação do Colégio Episcopal, garantia de que o novo Bispo está em comunhão com o Santo Padre, na unidade da fé católica e que a sua autoridade apostólica não é pessoal mas do Colégio que o envia. Aqui estamos nós para vo-lo garantir, numa certeza enraizada na fé e confirmada por um longo conhecimento de amizade pessoal. Podemos garantir-vos que vos entregamos, em nome do Santo Padre, um bom Pastor.
    Dá-se a feliz coincidência de a Ordenação do Senhor D. António Montes acontecer quando, em Roma, está reunido com o Santo Padre, o Sínodo dos Bispos, que está exactamente a reflectir sobre o ministério do Bispo "como ministro do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo". Porque tive de me ausentar do Sínodo para estar aqui, quero dizer-vos que connosco estão de forma especial, presentes o Santo Padre e os Bispos do mundo inteiro. Gostaria que as palavras do Papa, na homilia da abertura do Sínodo pudessem iluminar também esta nossa celebração.

    3. O Bispo é um servidor do Evangelho. O Papa desafiou-nos a concretizar na tríplice dimensão do nosso ministério aquele "duc in altum", desafio lançado a toda a Igreja no post-Jubileu.

    * "Duc in altum docendo" - Era já a ordem de Paulo a Timóteo: "Consagra-te à proclamação da Escritura, à exortação e ao ensino". O Santo Padre aconselhou os Bispos, à imitação de Maria, que se chamou a Si mesma Serva do Senhor, a considerarem-se "servos do Evangelho". Não um evangelho qualquer, mas o autêntico Evangelho de Jesus Cristo, com toda a sua força de converter e de rasgar caminhos novos, fazendo jorrar rios de água viva no deserto da nossa vida. O vosso Bispo será, no meio de vós, um servidor do Evangelho, pela palavra autorizada, pelo testemunho de vida de oração e de pobreza evangélica, ideal que ele aprendeu na escola de S. Francisco de Assis.

    * "Duc in altum sanctificando" - Diz-nos o Santo Padre: "as redes que somos chamados a lançar no meio dos homens são, antes de mais, os sacramentos, de que somos os principais dispensadores, reguladores, guardas e promotores. Eles formam uma espécie de rede salvífica, que liberta do mal e conduz à plenitude da vida". Pela unção episcopal, o novo Bispo torna-se, para vós, uma fonte inesgotável da vida divina.

    * "Duc in altum regendo" - continua o Papa: "como pastores e verdadeiros padres, coadjuvados pelos sacerdotes e outros colaboradores, é-nos entregue a tarefa de reunir a família dos fiéis e fomentar nela a caridade e a comunhão fraterna".
    O vosso Bispo recebe a missão de governar esta porção do Povo de Deus e governar é conduzir todos à unidade da caridade, na comunhão fraterna. Fiquem-nos na memória as últimas palavras do Evangelho que escutámos: "O que vos mando é que vos ameis uns aos outros".
    Na construção de uma Igreja Diocesana como mistério de comunhão, na caridade, é decisiva a unidade entre o Bispo e o seu Presbitério. Ministros de um mesmo sacerdócio, a consagração sacerdotal para bem dos fiéis, é exigência de uma particular comunhão na caridade. Peçamos a Deus que o prestigiado Presbitério desta Diocese de Bragança-Miranda, construa esta comunhão visível, com o seu Bispo e de todos os sacerdotes entre si, suficientemente visível para ser testemunho, tão forte que possa vencer na caridade os possíveis conflitos ou rupturas, tão autêntica e sobrenatural, de modo a que a Igreja se possa nela rever como mistério de comunhão.
    Permiti que vos deixe o meu testemunho pessoal de Bispo de uma grande Diocese, grande no trabalho, nos problemas, mas também nas alegrias. Sinto uma grande força, que me ajuda a sustentar esta cruz com alegria, na amizade fraterna e na comunhão sincera do meu Presbitério. Os padres e a sua caridade fraterna são a minha força e eu quero ser, em todos os momentos e circunstâncias, a força deles.

    4. O nosso ministério é, necessariamente, participação na Cruz de Cristo. É por isso que Ele é fermento de esperança para o mundo de hoje. Diz o Santo Padre na já referida homilia: "A esperança do mundo está em Cristo. N'Ele as expectativas da humanidade encontram um real e sólido fundamento. A esperança de cada ser humano brota da Cruz, sinal da vitória do amor sobre o ódio, do perdão sobre a vingança, da verdade sobre a mentira, da solidariedade sobre o egoísmo. Temos a missão de comunicar este anúncio salvífico aos homens e às mulheres do nosso tempo".
    O Bispo é um dom de Deus. Tenho a certeza que este anúncio da esperança continuará a ecoar nestas terras transmontanas.

    Bragança, 14 de Outubro de 2001

    † JOSÉ, Cardeal Patriarca







Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa na Peregrinação a Fátima

13 de Outubro de 2001

    1. Nesta peregrinação somos convidados a meditar sobre Deus: "Deus é Espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade". Os dramáticos acontecimentos que o mundo tem estado a viver nas últimas semanas, trouxeram às primeiras páginas da grande informação a invocação de Deus. Ouvimos multidões exaltadas de praticantes de uma das religiões monoteístas, falarem de um Deus guerreiro, justiceiro e vingador. Vimos, por outro lado, o Ocidente, tantas vezes, como sabemos, afastado da fé em Deus, numa cultura que construiu fechada sobre o homem, orgulhoso da sua civilização, confiante no seu poder, poder da riqueza, da ciência e da técnica, a ser identificado com a civilização cristã. Se os muçulmanos radicais misturam demasiadamente Deus nas suas guerras, aceitando a violência para defender a religião e promover a justiça, a civilização Ocidental afastou Deus da história, como se o futuro do mundo dependesse apenas do homem e do seu poder.
    Mas neste momento dramático, os homens de coração recto não podem deixar de pôr-se a questão: onde está o Deus verdadeiro? Quem é, afinal, Deus? Como se torna Ele presente na nossa vida?

    2. Deus é Espírito. A leitura dos Actos dos Apóstolos mostra-nos os Apóstolos de Jesus, com Maria no meio deles, em oração, à espera do Deus Espírito Santo, que manifesta toda a força do Deus amor. E se Ele é amor, ama e quer ser amado, manifesta o Seu poder nessa intimidade amorosa, revela-Se porque se desvela.
    A revelação cristã não se limita a dizer-nos quem Deus é; põe Deus a acontecer nas nossas vidas, Ele torna-se a nossa salvação. O nosso Deus é omnipotente, mas Ele não exerce o Seu poder, como um demiurgo solitário que o usa a seu belo prazer. É no seio de uma relação connosco, que abandonando-nos confiadamente a Ele, permitimos que Ele, porque nos ama, seja poderoso. Deus acontece na vida dos crentes que, pondo em Deus a sua esperança, são amados por Ele. Deus acontece quando rezamos, quando O amamos e nos amamos, quando celebramos; quando nos perdoa, nos revigora, nos ilumina e nos renova.
    O dom do Espírito Santo, esperado em adoração pelos Apóstolos, com Maria, não foi uma definição do Deus Espírito, foi Deus a acontecer, na vida dos homens, podendo, depois da Páscoa de Jesus, amar-nos como se ama a Si Mesmo, na comunhão trinitária e ensinar-nos a amá-Lo como Ele nos ama. Tal como na encarnação do Verbo, o Pentecostes foi Deus a acontecer nas nossas vidas e na nossa história.

    3. Adorar a Deus em espírito e verdade é deixar Deus acontecer na intimidade de uma relação confiante e abandonada, na simplicidade da nossa fé, na coerência da nossa fidelidade. É reagir a Deus no contexto de uma aliança pessoal, que desencadeia em nós todos os sintomas do amor: o desejo do encontro, a entrega generosa e confiante, a aceitação da sua Palavra como projecto para nós, a alegria da comunhão.
    O Evangelho da anunciação mostra-nos essa experiência de Deus em Maria, que O adorou porque se abandonou. Não é um discurso, mas um encontro. A presença de Deus aconteceu, porque Maria lhe respondeu com todas as capacidades do seu coração. O Deus amado é mais vivo que o Deus apenas conhecido.
    O mensageiro divino encontra, certamente, Maria em oração, e manifesta-lhe o amor que Deus lhe tem: "Achaste graça diante de Deus", ou seja, Deus está encantado contigo e por isso está em ti. Amada por Deus, Maria sente-se introduzida na intimidade do amor das Pessoas divinas: o Espírito Santo envolvê-la-á e o Verbo eterno quer ser seu Filho. Ela agora escuta a Sua Palavra, não a partir do mundo, mas a partir do coração de Deus. Jesus, o seu Filho, dará testemunho dessa mesma experiência quando diz aos discípulos: as palavras que vos digo, escutei-as junto do Pai.
    Quando a Palavra é escutada a partir do coração de Deus, a resposta só pode ser o abandono confiante de amor: "faça-se em mim segundo a Tua palavra". Esta é a mais verdadeira adoração de Deus: os que escutam a Palavra de Deus e a seguem, passando-a à prática, permitindo que ela se faça carne, na carne das suas vidas.

    4. É por isso que Nossa Senhora tem um papel tão decisivo na vida da Igreja. Ela é para nós o sinal de que Deus só se pode adorar na verdade da nossa vida e na ternura do nosso coração; que todos os discursos sobre Deus são estéreis se Deus não acontecer numa relação de amor, do amor que nos salva porque nos faz nascer de novo.
    Num mundo enlouquecido no seu discurso sobre Deus, uns porque O consideram supérfluo, outros porque O reduzem à simples medida do homem não redimido, a Igreja, cada cristão, é chamada a dar testemunho do Deus vivo, do Deus que se pode manifestar surpreendentemente na vida de cada um de nós. Na Igreja Deus acontece sempre de novo, em novas manifestações do amor salvador. Acontece na Eucaristia, quando partilhamos na doação de um Filho, que sabendo que o maior desejo de Deus, Seu Pai, é a salvação dos homens, lhe oferece a vida por isso; acontece quando os cristãos, deixando cair resistências e defesas, escutam a Palavra de Jesus a partir do coração de Deus e aceitam que ela seja verdade nas suas vidas; Deus acontece no amor fraterno gratuito e generoso, acontece naqueles que, sentindo-se amados, decidem fazer sua a causa do Reino. Há na vida dos cristãos decisões que têm pouco a ver com a lógica do discurso humano: a virgindade voluntária como consagração de amor, a pobreza voluntariamente escolhida, o dom da própria vida até ao martírio. São atitudes incompreensíveis aos olhos do mundo, mas são momentos em que o Deus vivo se manifesta com a força do Seu amor; são momentos de adoração de Deus em espírito e verdade.
    Sempre que Deus acontece na vida da Igreja e na vida de cada um de nós, Maria está lá, como esteve com os Apóstolos no Cenáculo. Não está como espectadora, mas como participante. No momento em que nos abrimos ao amor de um Deus que é Pai, ela ama-nos como Mãe. Ela é a Mãe do amor formoso; quando balbuciamos a nossa resposta de fidelidade, na timidez da nossa fraqueza, ela faz sua a nossa resposta e ensina-nos a dizer, em cada encontro com a Palavra de Deus: faça-se em mim, Senhor, segundo a Tua Palavra.

    † JOSÉ, Cardeal Patriarca







Carta Pastoral de Sua Eminência o Cardeal Patriarca de Lisboa,
no lançamento do Programa Diocesano de Pastoral 2001-2004

O Cardeal Patriarca de Lisboa torna pública com data de 29 de Junho passado uma Carta Pastoral dirigida aos fiéis do Patriarcado de Lisboa e a quantos a lerem, assinalando de forma solene o lançamento do Programa Diocesano de Pastoral para o próximo triénio 2001- 2004.

Depois de enumerar os traços que definem a identidade da Igreja de Lisboa, o Cardeal Patriarca sublinha as realidades novas que, no início de um novo milénio, constituem desafios de especial exigência à missão da Igreja.

Como resposta a esses desafios, o Bispo de Lisboa avança com a proposta de um Projecto pastoral cujos tópicos são amplamente desenvolvidos (n.os 7 a 13). Para terminar com o anúncio das prioridades ("As nossas prioridades") encabeçadas pelas "novas formas de amor ao próximo": os pobres, os excluidos, os isolados, os aflitos, os que gritam a sua dor … e coroadas com uma declaração generosa de confiança nos jovens, promessa de futuro na sociedade e na Igreja
.

"À Tua Palavra, lançarei as redes!…" (Lc. 5, 5)


I- A IGREJA DE LISBOA: CARTÃO DE IDENTIDADE

    1. A Igreja de Lisboa é a nossa Igreja, comunidade de fé, que pelo baptismo nos gerou para a vida cristã e onde aprendemos a conhecer e a amar Jesus Cristo. Ela é, assim, uma Igreja mãe, de quem recebemos a vida divina e que queremos amar como Jesus Cristo a ama. Desta maternidade espiritual, a Igreja Catedral é um sinal visível, a solicitude pastoral do seu Bispo a manifestação da abundância dos dons de Deus, que brotam de Cristo morto e ressuscitado, através do envio do seu Espírito Santo. Uma Igreja diocesana é obra contínua da solicitude amorosa de Jesus Cristo. O Concílio Vaticano II define-a assim: "Uma Diocese é uma porção do Povo de Deus, confiada a um Bispo para que seja o seu pastor, com a ajuda do seu presbitério. Assim, a Diocese, unida ao seu pastor e por ele reunida, no Espírito Santo, graças ao Evangelho e à Eucaristia, constitui uma Igreja particular, em que está verdadeiramente presente e actuante a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica" (1).
    Neste momento eu sou esse Bispo, o vosso Bispo, a quem Deus pede que conduza esta porção do seu Povo pelos caminhos da fé e da salvação, e faço-o com a ajuda preciosa e imprescindível dos nossos sacerdotes. O meu e o deles é o mesmo ministério sacerdotal e apostólico, para bem de todo o Povo de Deus. Quero servir e amar esta Igreja de Lisboa com todas as minhas forças, pondo ao seu serviço tudo o que sou e o que tenho; porque é o Senhor que edifica a sua Igreja, confio que os meus limites não serão obstáculo à sua fidelidade e crescimento. Tenho plena consciência que o melhor que posso fazer por esta Igreja é amá-la com todas as minhas forças, no trabalho incansável, no sofrimento inevitável, nas alegrias partilhadas, com o mesmo amor com que desejo amar a Jesus Cristo.
    Devo confessar que também me sinto amado por esta Igreja, muito mais do que humanamente mereço, o que me leva a acolher esse amor como uma expressão do amor da Igreja de Lisboa a Jesus Cristo. A união ao Bispo é a primeira expressão e garantia da unidade da Igreja, na comunhão da caridade. Neste momento, ao lançar a nossa Igreja para esse "tempo novo", que é o início do terceiro milénio, tenho presentes todos aqueles e aquelas, silenciosos e anónimos tantos deles, que rezam pelo seu Bispo, amam a Igreja, colaboram generosamente na sua missão, se sentem irmãos e irmãs desta grande família, que é uma porção do Povo de Deus.

    2. Porção do Povo de Deus, a Igreja de Lisboa está em comunhão com a Igreja Universal, presente em todo o mundo. Sente-se irmã de todas as outras Igrejas e quer, na medida do possível, partilhar com elas os seus dons, espirituais e materiais. Não esqueço que a solicitude por todas as Igrejas faz parte do meu ministério episcopal. A principal garantia desta comunhão com toda a Igreja, é a nossa união ao Santo Padre, Cabeça do Colégio Apostólico e Pastor Universal. Ele exerce o ministério confiado por Jesus ao Apóstolo S. Pedro, garantia da unidade da fé e da caridade, dos critérios morais da existência cristã e das grandes linhas da acção pastoral da Igreja no mundo contemporâneo. É por isso que, neste início de novo milénio aceitamos o desafio por ele lançado a toda a Igreja de "fazer-se ao largo", numa nova etapa de fidelidade a Jesus Cristo e à missão. A sua Carta Apostólica "Novo Millenio Ineunte", será, para nós, a carta magna da nossa inquietação pastoral.

    A Igreja que herdámos.
    3. Uma Igreja particular é um Povo que peregrina, através do tempo, o tempo histórico e o tempo da vida de cada um de nós, a partir da nossa adesão a Cristo ressuscitado, na fé, indo ao encontro do Senhor, na Sua glória, na casa do Pai. Esta peregrinação da Igreja de Lisboa começou cedo, em termos de história do cristianismo. O seu primeiro Bispo conhecido data do séc.º III, o que faz crer que a fé cristã chegou a Lisboa logo nos inícios da era cristã. A Igreja que herdámos é o momento actual de um longo peregrinar, uma comunidade crente que foi regada com o sangue dos mártires, edificada com o testemunho dos confessores, que manteve a fé, mesmo no longo silêncio de sete séculos, durante o domínio muçulmano, que influenciou as culturas e fez civilização, expressa num vasto património monumental e artístico que nos legou, tecendo uma tradição viva que enquadrou a nossa própria fé e nos projecta para a missão, nas circunstâncias actuais.
    Ao longo deste peregrinar, algumas características se foram acentuando, que constituem, para nós, inspiração do caminho a seguir e exigência de renovada fidelidade:
    O ardor missionário. Daqui partiram missionários e missionárias a anunciar a fé na África, na Ásia, no Brasil e mesmo na longínqua Oceania. Foi um esforço impressionante, comparado com a exígua dimensão da população, tantas vezes selado com o sacrifício da própria vida. Em todos esses territórios se fundaram Igrejas, que hoje esperam de nós uma generosidade renovada, através da cooperação e da partilha fraternas. A Igreja de Lisboa nunca será completamente fiel, se não desenvolver a sua vocação missionária.

    A prontidão da caridade. O amor dos irmãos, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, será sempre o sinal distintivo dos cristãos e a manifestação da maturidade da Igreja. Ao longo destes séculos é longa a lista das instituições que protagonizaram este amor dos irmãos, surgidas, muitas delas, da iniciativa dos fiéis leigos. As mais conhecidas são, sem dúvida as Misericórdias, ainda hoje pujantes, as principais das quais estão a celebrar cinco séculos da sua fundação. Mas não podemos esquecer outras Irmandades, as acções em favor dos prisioneiros, dos degradados, dos abandonados, dos perseguidos. Cada Mosteiro e cada Igreja guardam uma história de caridade praticada, em favor dos perseguidos, das crianças abandonadas, dos desprotegidos da sorte. O sentido do acolhimento e da partilha, por motivos evangélicos, está no alicerce desta Igreja que herdámos e tem de continuar a ser pedra principal na Igreja que queremos continuar a edificar.

    A intervenção cultural. A Igreja de Lisboa cedo percebeu a importância da cultura para a consolidação da fé. Esteve na origem das primeiras escolas superiores de Lisboa, as escolas claustrais da Sé e de S. Vicente de Fora, o Colégio de Santo Antão e outras. Os Mosteiros foram focos irradiadores de cultura e de saber e tantos leigos ajudaram, com a sua palavra e intervenção social, ao rasgar de horizontes culturais de defesa da verdade, da Igreja e da dignidade humana.
    Em tempos de laicização da cultura e de dispersão na variedade das suas expressões, a Igreja de Lisboa tem de continuar a intervir na mutação cultural, através das suas escolas, dos seus órgãos de comunicação, e da tomada de posição, serena e coerente, dos cristãos, homens e mulheres, que encontram na fé uma luz superior para a análise da realidade. A tolerância exigida pela pluralidade cultural da sociedade, não deve enfraquecer a firmeza da sua convicção.

    O amor e a devoção a Nossa Senhora. Esta já longa peregrinação ao longo do tempo, fê-la a Igreja de Lisboa sempre com Maria. Ela esteve presente na reconquista cristã, acompanhou os navegadores como farol e estrela da manhã que evita o perigo e conduz a bom porto; foi-lhe dedicada a independência reconquistada, declarando-a Rainha de Portugal; e quando aparece em Fátima com uma mensagem universal, é ainda a Diocese de Lisboa que ela escolheu como pedestal de irradiação da mensagem. Os seus santuários distribuem-se por todo o vasto território da Diocese e marcam o ritmo peregrinante deste Povo: Senhora da Nazaré, dos Remédios, do Cabo, da Ajuda, de Belém. A maior parte das Igrejas da Diocese são-lhe dedicadas. Nesses títulos sobressaem os mistérios da vida de Nossa Senhora, em que esta Igreja sempre acreditou: Imaculada Conceição, Anunciação, Visitação, Assunção. Outros títulos mostram a fé com que se põe nas mãos de Maria os nossos problemas humanos: Senhora da Saúde, dos Remédios, do Socorro, dos Aflitos, da Luz. Ela é, para todos e em todas as circunstâncias, Maria Auxiliadora.
    Esta confiança em Maria, como figura maternal e protectora, é elemento constitutivo da nossa tradição religiosa. Nesta nova etapa da caminhada, a Igreja de Lisboa confia na sua protecção maternal, entrega-lhe os seus projectos, põe nas suas mãos os seus propósitos de fidelidade ao seu Filho, Jesus Cristo. A sua protecção é fundamento sólido da nossa confiança.

    4. No século que há pouco terminou, a Igreja de Lisboa fez um caminho de renovação digno da sua história. A valorização do laicado, deu à missão da Igreja uma dimensão mais verdadeira enquanto acção e expressão de toda a comunidade. As Irmandades e as associações laicais desempenharam um papel decisivo nos tempos difíceis do início do século e a Acção Católica formou um laicado maravilhoso que trouxe a missão da Igreja para o coração da cidade, nas realidades temporais, preparando os tempos de renovação conciliar, em que os leigos vêm assumindo, progressivamente, um lugar de maioridade em toda a vida da Igreja.
    A reforma litúrgica, um dos eixos da renovação da Igreja de Lisboa, deu-lhe a consciência de se assumir como comunidade orante, situando, progressivamente, a oração comunitária como autêntica oração da Igreja e foco inspirador da oração pessoal, corrigindo pietismos exagerados. No âmago desta renovação litúrgica, esteve uma compreensão teológica actualizada do mistério da Igreja, como povo de sacerdotes, da Eucaristia enquanto coração da Igreja, da oração concebida, principalmente, como louvor de Deus. Aquela que é, hoje, uma realidade consoladora, a afirmação da dimensão comunitária da Igreja, que se transformou no Plano de Acção Pastoral em opção prioritária e contínua, como objectivo primeiro de toda a acção pastoral é, em grande parte, o fruto amadurecido desta renovação litúrgica.
    Uma pastoral das vocações sacerdotais explicitamente afirmada e a renovação dos Seminários Diocesanos, garantiram à Igreja de Lisboa outra componente essencial da sua renovação: um clero formado em sintonia com o mistério da Igreja, completamente dedicado ao ministério pastoral, unido ao seu Bispo, abnegado no dom da sua vida. A crise de muitos nos anos agitados do post-concílio não toldou definitivamente a qualidade espiritual e eclesial deste maravilhoso presbitério de Lisboa. Esta nova etapa da Igreja de Lisboa que agora encetamos, terá na renovação do nosso presbitério uma expressão decisiva. Uma Igreja viva na sua fé, não pode entrar em desânimo neste ponto fundamental.

    5. Mas neste início de novo século e novo milénio, não queremos esconder as fragilidades que emsombram o rosto da nossa Igreja como Povo do Senhor. Antes de mais, a extensão de um espírito naturalista, que deixa na sombra a dimensão sobrenatural da vida cristã, esquecendo que o baptismo é uma chamada à santidade, num projecto de vida que só a força de Deus torna possível. A vida cristã é um mistério de graça e não apenas de coerência da natureza. O Espírito Santo é presença essencial na fidelidade cristã, pois só Ele nos renova na nossa fraqueza, revela a verdadeira dimensão das capacidades naturais, nos aponta o verdadeiro horizonte que nos conduzirá à plenitude.
    Esta perda do sentido da dimensão sobrenatural, tem consequências vastas e generalizadas: a perfeição humana é concebida, apenas, como coerência com as capacidades naturais; as exigências éticas e a consciência moral tornam-se menos exigentes nos seus objectivos, dilui-se o sentido do pecado como ofensa ao amor exigente de Deus. Os jovens esposos celebram o seu matrimónio sacramental, mas não vivem o casamento como caminho de santidade, só possível com a graça do sacramento. As expressões da vida conjugal e os seus momentos de dificuldade ou de crise, são avaliados com critérios apenas naturais e culturais, tornando a fragilidade do matrimónio e a crise da família inevitáveis.
    Muitos dos nossos cristãos nunca fizeram uma autêntica iniciação cristã, descobrindo o rosto de Jesus Cristo e a especificidade espiritual da vocação cristã. Celebram-se sacramentos, mas não se acredita nem se sente necessidade da graça divina; pratica-se o preceito dominical, mas não se descobriu a Liturgia como encontro e acto de louvor; participa-se nas actividades da Igreja, mas não se tem aquela urgência evangelizadora que só pode brotar do coração de Jesus Cristo. À Igreja não basta servi-la, é preciso amá-la como Cristo a ama e ter por ela a paixão que brota do zelo devorador do coração de Cristo.


III- IGREJA DE LISBOA, TÓPICOS DE UM PROJECTO

    6. "Faz-te ao largo!". Neste início de novo milénio, a Igreja de Lisboa escuta o desafio do Papa João Paulo II, que aceitamos como um novo envio em missão. Queremos fazê-lo, aprofundando o caminho andado, numa fidelidade dinâmica à nossa tradição, passada e recente e lendo os sinais dos tempos, discernindo as novas exigências da missão.
    Queremos aproximar, progressivamente, a nossa Igreja do projecto de Deus, manifestado em Jesus Cristo. Desejamos edificar a Igreja que Cristo deseja, uma Igreja de Jesus Cristo e para Jesus Cristo. Antes e a inspirar todos os nossos programas de acção pastoral, está este nosso desejo: perceber, em cada circunstância concreta, o que o Senhor deseja para a sua Igreja, na certeza consoladora de que Ele está sempre connosco: "Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt. 28, 20). Como diz o Santo Padre, "não se trata de inventar um "programa novo". O programa já existe, é o mesmo de sempre, expresso no Evangelho e na tradição viva. Concentra-se, em última análise, no próprio Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para n'Ele viver a vida trinitária e com Ele transformar a história, até à sua plenitude, na Jerusalém celeste" (2).
    A força dinamizadora da nossa acção pastoral é o Espírito Santo que nos é dado e o projecto de Deus, em Jesus Cristo. Não gastamos as nossas vidas a realizar um programa nosso, mas o desígnio de Deus. O nosso esforço de programação é, apenas, a maneira de melhor pôr ao serviço do Espírito, a nossa acção humana. "Não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que ela nos infunde: Eu estarei convosco" (3).

    Coerência com a dimensão sobrenatural da Igreja.
    7. A Igreja é obra de Deus, através da acção transformadora do Espírito Santo. Em toda a acção da Igreja há uma primazia absoluta da graça divina (4). A plenitude cristã não é apenas o resultado de uma natureza humana rectamente ordenada. A natureza humana é recuperada das suas rupturas e fragilidades, pela redenção e plenificada pela abundância da graça. Só com a força sobrenatural do Espírito, o homem encontra o verdadeiro rosto das suas capacidades, isto é, da sua liberdade e da sua dignidade como filho de Deus. A vida cristã é sempre um processo contínuo de conversão e de abertura ao insondável horizonte de Deus.
    Em termos de acção pastoral, esta coerência com o sobrenatural significa: corrigir todos os naturalismos que, por via cultural, se foram introduzindo na vida cristã; propor e valorizar os meios sacramentais, através dos quais a acção de Deus se exerce em nós. Quando os procuramos, buscamos através deles a força de Deus. A Palavra de Deus é uma mensagem viva, que salva, interpela e transforma e não apenas uma palavra humana a enriquecer o nosso discurso; os sacramentos são momentos da acção eficaz de Deus, e não apenas ritos belos, a embelezar a dimensão simbólica da nossa realidade humana. Não temos o direito de usar os sacramentos como meros ritos ornamentais de uma tradição.
    Eu sei que isto põe problemas muito sérios e muito concretos à prática pastoral normal. Os anunciadores da Palavra, sacerdotes, diáconos, catequistas, têm de ser homens e mulheres devorados pela Palavra, convertidos por ela, para a poderem anunciar como testemunhas.
Quantos baptismos administrados, sem a consciência da sua radicalidade como início de uma vida nova; quantos matrimónios celebrados sem a disposição de viver o casamento como caminho de santidade, o que só é possível com a força de Deus, através da graça sacramental.
    Muitos são os que ainda procuram o casamento religioso; são poucos os que têm consciência do dom da graça sacramental, que os levaria a construir a família como comunhão de amor e de graça, autêntica Igreja doméstica.
    Não vos estou a fazer um convite a atitudes radicais de ruptura. A acção da Igreja tem sempre de ver claramente a perfeição que a atrai e guia, na consciência da gradualidade da vida cristã. Estas situações mostram-nos a urgência da formação, a prioridade a dar à evangelização. Em todas as circunstâncias temos de anunciar, pois a verdade proposta com amor toca sempre os corações. E o resultado desse anúncio pode ser, apenas, a semente lançada à terra, que fica a germinar. As pessoas continuam, por diversas razões e em diversas circunstâncias, a bater à porta da Igreja. Por vezes não lhes podemos dar o que nos pedem e como o pedem; mas devemos anunciar-lhes o que verdadeiramente temos para lhes dar. O acolhimento, como expressão da caridade, é um momento privilegiado de evangelização.

    Uma nova fantasia da caridade.
    8. Desejamos muito que a Igreja de Lisboa, neste início do terceiro milénio, seja uma experiência revolucionária de amor. "É por isto que todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo. 13, 35). Está aí a essência da Igreja, ser um dinamismo de comunhão que brota do amor. "Ao realizar esta comunhão de amor, a Igreja manifesta-se como sacramento, ou sinal, e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano" (5).
    Todos os meios sobrenaturais da graça, dados à Igreja a partir da Páscoa de Jesus, visam apenas isso: abrir o coração do cristão ao amor de Deus e dos irmãos, torná-lo capaz de acolher o Amor e de amar, abrir-lhe os horizontes infinitos do amor, colocar as exigências deste como critério último de discernimento dos caminhos da liberdade e da vida. Ser cristão e edificar a Igreja é aprender a amar, deixar que a beleza e a exigência do amor invadam toda a existência. As exigências do amor e da comunhão devem repassar todos os dinamismos da nossa Igreja Diocesana. Evangelizar é uma expressão de amor, a oração é a busca do amor, a Eucaristia é o amor na sua forma elevada de contemplação e de louvor, os sacramentos são a busca da força para amar, o serviço dos irmãos é amar como Deus os ama. O Senhor ama-nos e ensina-nos a amar, porque sabe que assim, connosco, Ele renovará o mundo. E um amor assim, só Deus no-lo ensina e nos torna capazes dele.

    Buscar a intimidade de Deus.
    9. A fonte da caridade é Deus que, pelo Espírito Santo, deposita o amor nos nossos corações. A fonte da Igreja, como mistério de comunhão é o amor de Deus. O amor é uma experiência de intimidade; a comunidade é uma experiência de intimidade e de partilha; a primeira experiência de intimidade, que gera e possibilita todas as outras, é o amor de Deus.
    A primeira expressão da Igreja como mistério de comunhão é o amor a Jesus Cristo, vivo na sua Igreja. O Santo Padre convida-nos a contemplar o rosto de Cristo (6), isto é, a estabelecer com Ele uma relação viva de compromisso e de amor. Tudo na Igreja parte de Jesus Cristo e nos conduz a Jesus Cristo e Ele indica-nos o caminho do Pai. A própria missão do Espírito Santo é apenas essa, revelar-nos Jesus Cristo, fazer-nos penetrar no sentido da sua Palavra, ajudar-nos a responder às exigências do amor na convivência fraterna com os outros homens. Tudo nos revela Jesus Cristo: a Palavra da Escritura, a oração da Igreja, os sacramentos celebrados, a coerência evangélica da vida, a luta pela construção de um mundo mais fraterno. E tudo isso converge para a Eucaristia, onde a Igreja vive e aprofunda a sua situação radical de Povo do Senhor.
    Buscar o rosto do Senhor leva-nos a compreender que Ele nos dirige um único chamamento que engloba e resume todos os outros: ser santos. E buscar a santidade é descobrir que lhe pertencemos, que a Igreja é o seu Povo, que Ele adquiriu num acto de amor radical, expresso no dom da própria vida.

    Construir comunidade.
    10. Essa tem sido, há alguns anos, uma das prioridades da nossa acção pastoral: edificar a Igreja como comunidade viva, alimentada pela Palavra e capaz de testemunhar o amor, evangelizando. Mas a Igreja como comunidade tem a sua origem na comunhão com Deus. O contrário é construir sobre a areia, é ficar prisioneiro de critérios culturais e organizativos, é querer construir um mistério só com a nossa força de homens. Muitas vezes as nossas comunidades têm aparência e estrutura comunitárias, mas não têm a densidade da comunhão, que só pode ser a da caridade. E o Santo Padre convida-nos a fazer da Igreja "a casa e a escola da comunhão". E "uma espiritualidade de comunhão significa, em primeiro lugar, ter o olhar do coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há-de ser percebida também no rosto dos irmãos". Só a experiência de Deus nos ajuda a construir a Igreja como experiência de comunhão. O Papa acrescenta: "Não haja ilusões! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores de comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento". (7)
    Que grande interpelação aos nossos conselhos diocesanos e paroquiais, às estruturas de todas as obras e movimentos. A força que os dinamiza e o critério que os orienta tem de ser sobrenatural.
    Construir comunhão exige que se recorra aos meios da graça, que se saiba perdoar e reconhecer a necessidade do perdão, que se seja aberto à diferença e à variedade dos dons, que se aprenda a reconhecer e a agradecer todos os dons com que o Espírito de Cristo enriquece a sua Igreja; que o espírito de serviço seja mais forte que a ânsia de dominar e se descubra que não dominamos a Igreja, ao contrário, é ela que nos envolve na ternura de Deus. (8)
    Comunidades assim dinamizadas pelo amor de Deus, transformam-se no verdadeiro sujeito da evangelização, pois esta deve testemunhar com a vida aquilo que anuncia.

    Que comunidades?
    11. O dinamismo comunitário, assente numa espiritualidade de comunhão, deve atravessar toda a Igreja. Ela toda, na sua universalidade, deve apresentar-se ao mundo como comunidade, sinal de uma comunhão universal que abrace toda a família humana. O ecumenismo é exigência desta comunhão universal da Igreja, pois a Igreja não será, no mundo de hoje, sinal de comunhão se não der testemunho do seu empenho na construção da unidade.
    Esta comunhão universal adquire um rosto concreto na Igreja particular, em que o Bispo, sucessor dos Apóstolos, constrói e preside à comunidade. O ritmo e a verdade da Igreja particular garantem a autenticidade de outras comunidades, a primeira das quais é a Paróquia, congregada para a Eucaristia e presidida pelo Pároco, presença viva e actuante do ministério sacerdotal do Bispo.
    Na afirmação da vitalidade destas comunidades, tem grande importância a celebração do Domingo, dia do Senhor e dia da Comunidade, em que a Eucaristia se revela como momento de reunião e de convergência da vida vivida e ponto de partida para o anúncio evangelizador. Num momento em que a falta de sacerdotes está a fazer surgir outros modos de celebrar o Domingo, como as assembleias dominicais na ausência de um presbítero, não podemos perder de vista a centralidade da Eucaristia na afirmação da comunidade. Essas celebrações não substituem a Eucaristia, nem podem tornar-se a solução habitual para uma comunidade. Pastoralmente temos de optar por duas ordens de valores: aproximar a celebração dominical da residência das pessoas, com risco de as privar da Eucaristia, propondo-lhes que celebrem o Domingo de outra maneira; ou formar os fiéis no carácter único e insubstituível da Eucaristia, motivando-os a deslocarem-se para a poderem celebrar. Como toda a acção pastoral, esta questão exige equilíbrios sensatos, centrados na nossa convicção de fé de que não há Igreja sem Eucaristia.

    12. A Diocese e a Paróquia são a comunidade de referência para todas as outras experiências e dinamismos comunitários. Elas são frequentemente apresentadas como "comunidades de comunidades". De facto a comunidade eclesial ganha em densidade de comunhão se os cristãos se habituarem a crescer na fé, congregados em "pequenas comunidades", em que a motivação congregadora pode ser variada. Algumas têm uma longa história e estão institucionalizadas: é o caso da família e das comunidades religiosas e equivalentes. Outras podem surgir apenas como modo de caminhar em conjunto na fé e na partilha fraterna, de modo mais ou menos duradouro. Há ritmos na Igreja que ganham em ter sempre dinamismo comunitário, como é o caso da formação, quer a catequese de iniciação, quer a formação específica para o exercício de um "serviço eclesial". No caso da família, a sua dimensão comunitária pode ser sustentada e enriquecida com as várias formas de associações de famílias.
    Em qualquer caso, esta variedade de ritmos comunitários não pode ser autónoma, pois cada "pequena comunidade" deve convergir para uma comunidade de referência, a Diocese ou a Paróquia.

    A Igreja na cidade.
    13. Cada cristão particularmente e a Igreja como comunidade, devem estar empenhados na construção da cidade dos homens, para o avanço de uma "civilização do amor". A forma da Igreja estar na cidade e contribuir para o seu progresso não é a conquista de qualquer poder, seja ele político, económico ou outro, nem sequer a busca da eficácia imediata, recorrendo para isso a meios poderosos da ciência e da técnica. A Igreja deve estar na cidade como um sinal, que interpele e abra os corações a novos horizontes de vida e de dignidade. O seu traço distintivo deve ser essa "nova fantasia" da caridade, expressa no serviço, sobretudo dos mais pobres e necessitados, na afirmação do transcendente de Deus, na proclamação das verdades perenes acerca das grandes interrogações do coração humano.
    A lógica do natural e do inevitável, acentuada pelas ciências e proclamada pelas análises dá, hoje, à proclamação dessas verdades perenes, acerca da vida e da morte, acerca da justiça e da verdade, a aparência de um anacronismo inaceitável pela evolução da sociedade. Muitos clamam e esperam pela mudança da Igreja, feita com critérios naturalistas. Mas a Igreja não foi fundada por Jesus Cristo, para mudar a esse ritmo. Ao contrário, ela é um convite à mudança, à conversão do coração à verdadeira perspectiva de Deus.
    Nessas questões cruciais que estão hoje no palco da história, somos chamados a dar as verdadeiras razões da nossa "teimosia", isto é, da nossa fidelidade a uma visão do homem e da sociedade, radicada em Cristo e no seu Evangelho. Ouçamos a palavra do Papa a este respeito: "Para a eficácia do testemunho cristão, especialmente nestes âmbitos delicados e controversos, é importante fazer um grande esforço para explicar adequadamente os motivos da posição da Igreja, sublinhando sobretudo que não se trata de impôr aos não crentes uma perspectiva de fé, mas de interpretar e defender valores radicados na própria natureza do ser humano. A caridade tomará então necessariamente a forma de serviço à cultura, à política, à economia, à família, para que em toda a parte sejam respeitados os princípios fundamentais de que depende o destino do ser humano e o futuro da civilização" (9).
    Nem sequer é razoável a análise feita por muitos, segundo a qual é mais aceitável a doutrina da Igreja sobre questões sociais do que as posições doutrinárias acerca da vida, da sexualidade e do amor. Elas são indesligáveis, pois fundamentam-se ambas na radicalidade da exigência do Evangelho e na dimensão sobrenatural da existência. E sinceramente não vejo que seja menos exigente seguir os caminhos evangélicos da construção da justiça e da paz, do que a defesa da dignidade inviolável da vida humana e da dignidade responsável do amor e da sexualidade.
    Nesta linha do aprofundar as razões daquilo que propomos e defendemos, na nossa Diocese procuraremos incluir no dinamismo formativo dos cristãos, um maior conhecimento da chamada "doutrina social da Igreja", enriquecida por um vasto magistério pontifício e conciliar.


III- AS NOSSAS PRIORIDADES

    14. Tratando-se de apresentar o programa de pastoral para a nossa Diocese para o próximo triénio, é compreensível que se fale em prioridades, aliás definidas nos objectivos desse programa. As prioridades dizem respeito às acções pastorais a desenvolver de forma privilegiada, pois a acção da Igreja nunca poderá deixar de contemplar a totalidade das dimensões da vida cristã e humana.
    Nesse sentido, a prioridade inalterável da Igreja, ao longo dos séculos, é Jesus Cristo e o seu apelo à santidade. Como vos disse na homilia da festa da Santíssima Trindade, dia da Igreja Diocesana, "como vosso Bispo, apetecia-me nunca mais vos falar de mais nada, a não ser de Jesus Cristo, pois reconduzindo todas as coisas a Ele, podemos falar de tudo, falando d'Ele". Assim, as prioridades que agora indicamos, pretendem apenas ser a concretização da nossa fidelidade a Jesus Cristo, nas circunstâncias concretas da nossa Igreja, neste "tempo novo" que iniciamos.


    Testemunhar o amor.
    15. Essa é a prioridade das prioridades, que passa tanto pelo aprofundar duma espiritualidade de comunhão, como pela decisão corajosa de encontrar novas formas de amor ao próximo. Os pobres, os que estão mergulhados em solidão, os aflitos, gritam por nós, porque a nossa solicitude fá-los-á sentirem-se amados por Deus. As nossas instituições sociais precisam de se deixar mobilizar por essa "nova fantasia da caridade".

    Anunciar Jesus Cristo como nosso Salvador.
    16. A evangelização não é uma estratégia e não se esgota em programas; é uma paixão de amor. Só o amor a Jesus Cristo nos levará a não esmorecer no ardor evangelizador e missionário. Os evangelizadores devem estar centrados em Jesus Cristo. "A quem iremos Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna" (Jo. 6, 68). A preparação do Congresso Internacional sobre a Evangelização, a realizar em Lisboa, em 2005, deve mobilizar-nos desde já. O anúncio querigmático de Jesus Cristo deve ser uma atitude permanente, a catequese como aprofundamento da vida da fé, um esforço que se prolonga por toda a nossa existência. Sem esta catequese permanente e enraizada na vida, não haverá cristãos comprometidos, famílias cristãs que busquem a beleza da "Igreja doméstica", nem vocações de especial consagração.

    Pastoral familiar e evangelização do amor.
    17. A maior parte dos matrimónios que celebramos não dão origem a famílias cristãs. A evangelização do amor humano tem de fazer parte da catequese fundamental, ser componente explícita da pastoral juvenil, passar por um trabalho específico com namorados e noivos, prolongar-se num acompanhamento do casal e da família ao longo do tempo, integrados numa comunidade de fé. Precisamos de convidar os jovens casais a comprometerem-se num processo eclesial de crescimento e de fidelidade.

    Evangelização dos jovens e pastoral vocacional.
    18. Jesus Cristo continua a poder cativar os corações dos jovens; é só preciso que eles O encontrem e conheçam. Uma evangelização testemunhal é, para eles, decisiva.
    É importante nesse contexto, que os caminhos que escolhem na vida, sejam caminhos de discípulo, em que querem seguir o Senhor. Com Jesus Cristo os jovens perceberão que ser cristão é um chamamento e que para ser fiel a Jesus Cristo é preciso escutar o Senhor sobre a sua própria vocação. O que se escolhe humanamente, discernindo o próprio gosto e vontade, pode não corresponder àquilo que Cristo pede a cada um.
    É um facto que são hoje menos os jovens que seguem o Senhor numa entrega total da vida, em vocações de especial consagração. No caso das vocações sacerdotais, dada a importância dos sacerdotes para a vida das comunidades, essa diminuição sente-se mais como problema e não faltam aqueles que buscam soluções por via naturalista: como não há jovens que se entreguem totalmente, escolhamos para sacerdotes aqueles que se entregam menos. Este não é o bom caminho; a solução do problema das vocações é sobrenatural, passa pela descoberta de Jesus Cristo, no amor e na radicalidade de vida.
    Acredito que se anunciarmos Jesus Cristo aos jovens, o Senhor chamará muitos a seguirem-No na radicalidade do dom e do serviço à sua Igreja, como sacerdotes, religiosos e religiosas e como cristãos consagrados no mundo. Acreditemos e rezemos, e o Senhor não regateará os seus dons.


IV- A CONFIANÇA TRANSFORMADA EM PROGRAMA

    19. Aqui fica um programa. Ele será estéril sem o dinamismo da fé e a ousadia da confiança. Talvez a evangelização esteja apenas a começar. Este mundo do terceiro milénio não é mais avesso ao Evangelho do que os séculos que nos antecederam. Uma Igreja de convertidos a Jesus Cristo, aceitará ser peregrina e missionária. Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, é peregrina connosco, nesta nova etapa do cumprimento da missão do seu Filho Jesus Cristo.

    Lisboa, 29 de Junho de 2001, Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo


    † JOSÉ, Cardeal Patriarca de Lisboa


Notas
1- Decreto Christus Dominus, n. 11
2- Novo Millenio Ineunte, n. 29
3- Ibidem
4- cf. NMI, n. 38
5- LG. N. 1 cf. NMI, n. 42
6- cf. NMI, nn. 23-28
7- NMI, n. 43
8- cf. NMI, nn. 42-51
9- NMI, n. 51






 

HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
NAS ORDENAÇÕES DE 23 DE SETEMBRO DE 2001


    1. Numa missa de ordenações, é normal que a nossa meditação se centre no mistério do sacerdócio, na exigência e na dignidade de um ministério que nos torna sacramentos vivos do próprio ministério de Jesus Cristo, última e definitiva manifestação do amor salvífico de Deus. Através de nós é Jesus Cristo que continua a amar o mundo.
    Nessa meditação devemos deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus, aquela que a Liturgia, expressão maior da pedagogia da Igreja, nos propõe hoje para meditação. Aliás isso é exigido pela atitude fundamental de todo o cristão, o de ser ouvinte da Palavra. Ela revela-nos, em cada momento, o sentido divino da vida e da história. A fé é sempre, no seu início, escuta da Palavra, que penetra o nosso íntimo e nos abre o coração ao horizonte de Deus. Todo o sacerdote é ministro da Palavra, o que lhe cria uma dupla exigência de escuta da mesma Palavra: como crente e como testemunha. Só pode ser ministro da Palavra quem a escuta continuamente, deixando que ela conduza e transforme a nossa vida. Nenhum sacerdote pode servir-se do seu ministério para propor a sua verdade, mas antes a verdade de Deus. Hoje, mais do que nunca, a credibilidade do ensinamento dos ministros da Igreja depende da sua fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo.

    2. A Palavra que acaba de ser proclamada põe, perante nós, a defesa dos pobres face à exploração injusta dos opressores. Os pobres são frágeis, a sua necessidade cria dependências que podem ser injustamente aproveitadas pelos poderosos deste mundo. A Igreja não é contra os ricos, mas tem de estar claramente a favor dos pobres, na defesa da sua dignidade. Esta opção clara pelos pobres, testamento legado pelo próprio Senhor Jesus, torna a Igreja um sinal, na luta por um mundo mais justo e mais fraterno.
    A crise mundial que estamos a atravessar pode ter aí as suas raízes profundas. O fosso criado entre os ricos e os pobres, à escala planetária, cria tensões que potenciam e radicalizam outras causas de conflito. Os países desenvolvidos são chamados a dar um sinal positivo, fundador de uma nova esperança, para a superação da pobreza a nível global. É preciso reparar injustiças cometidas, ser corajoso nas políticas de inter-ajuda, perceber lucidamente as causas profundas do ódio e da revolta. E situá-las apenas em motivações de ordem cultural, étnica ou religiosa é desviar perigosamente a atenção das verdadeiras distorções da actual ordem mundial. A violência é sempre intolerável, mas quando ela acontece, não é construtivo, em termos de progresso da humanidade, responder-lhe com mais violência, sem tentar perceber as suas motivações profundas. Não façamos da crise actual uma guerra religiosa. A todos os opressores dos pobres, independentemente da religião que pratiquem, o Senhor jurou pela boca do profeta Amós: "Nunca esquecerei nenhum dos seus actos".
    Queridos ordinandos! Esta opção pelos pobres deve ser a vossa opção, pois ela é exigência da caridade de Deus. Isso exigirá de vós a virtude da pobreza, que tem a sua máxima expressão num coração liberto em relação ao dinheiro e aos bens materiais. Nada prejudicará tanto o vosso ministério como o apego ao dinheiro. Realmente não se pode servir a dois senhores. Essa liberdade será fundamento da vossa confiança, da disponibilidade para servir, pois a gratuidade é atributo fundamental dos dons de Deus de que sereis ministros.
    Porque será que a vida nos mostra que quanto mais se possui menos disponibilidade se tem para partilhar? Como é bela a generosidade dos pobres, que partilhando o seu pouco, se dão a si mesmos. Aprendei com os pobres; eles ensinam-nos a grandeza de quem confia, de quem põe a sua segurança na confiança em Alguém e não nos tesouros deste mundo. Dai e dar-se-vos-á.
    No presbitério de Lisboa crescemos, nos últimos anos, neste espírito de partilha. Hoje todos os sacerdotes de Lisboa têm o mínimo necessário, porque o Povo de Deus partilha, porque todos partilhamos. Mas as exigências da partilha não podem ficar fechadas no âmbito do nosso presbitério. Há hoje, na Igreja de Deus, Nações e situações em que os nossos irmãos sacerdotes vivem no limiar da miséria. Acabo de regressar de uma reunião das Presidências das Conferências Episcopais dos Países Lusófonos. Um dos assuntos da nossa reflexão foi a sustentação do clero nas diversas Igrejas. Os Bispos de Angola partilharam connosco a situação de um país em guerra. Tinham decidido entre eles garantir a cada padre cinco dólares por mês, mas nem isso conseguem sempre. Na maior parte das paróquias o povo pode apenas partilhar a sua pobreza, aquilo que a terra dá. Esta situação interpelou-me profundamente. Na nossa modéstia, somos chamados a partilhar. Surgiu a ideia, que precisa de ser aprofundada, de geminar dioceses, adoptando um presbitério concreto como o nosso "próximo".

    3. A segunda interpelação da Palavra de Deus é a missão do sacerdote como orante, aquele que reza continuamente pelo Povo. É a ordem de Paulo a Timóteo: "Recomendo, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e acções de graças por todos os homens".
    No nosso contexto actual a exigência das tarefas pastorais pode levar o Padre a não dar prioridade à oração. E no entanto ela é obrigação do seu ministério. Tem aí uma prioridade total a oração litúrgica e, de modo particular, a celebração da Eucaristia. Nunca esqueçais que a Eucaristia a que presidimos é um momento forte de oração, com toda a comunidade, a que preside o próprio Jesus Cristo. Mas dificilmente o sacerdote preside a ela como orante, se continuamente a oração não repassa e penetra todas as suas actividades.
    A falta de sacerdotes pode levar-nos a fazer ainda mais coisas. Eu gostava que essa situação nos levasse a fazer as coisas melhor, o que significa, necessariamente, rezar mais.
    Hoje são apresentados à Diocese os novos Vigários. Em união comigo, com os Senhores Bispos Auxiliares e com todo o presbitério, eles assumirão como primeira responsabilidade esta fraternidade sacerdotal. Sede pastores para os vossos irmãos padres, incansáveis na fraternidade, atentos na solicitude, perspicazes no captar das dificuldades. A nossa caridade sacerdotal será fermento daquela caridade que há-de fazer, cada vez mais, da nossa Igreja de Lisboa, um mistério de comunhão.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca





 
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
NO DIA DA IGREJA DIOCESANA


DIA DA IGREJA DIOCESANA

Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa

    1. Celebramos hoje a festa litúrgica da Santíssima Trindade. É a afirmação da centralidade de Deus na aventura da salvação. Ele, por quem todas as coisas foram feitas e que constituirá a plenitude dos homens que criou. O mistério de Deus é o primeiro problema do homem, pois só Ele encerra a resposta para o mistério que cada um de nós traz no seu coração. Não há solução humana desligada do mistério de Deus.
    Mas celebramos o mistério do Deus Trindade, no ciclo cristológico da redenção. É Nosso Senhor Jesus Cristo quem nos revela e nos introduz no mistério de Deus e no-lo torna acessível no concreto da nossa vida de fé. Em Cristo aprendemos e foi-nos dado experimentar que Deus é sabedoria infinita, que desde o início presidiu à harmonia da criação. Ele próprio é a Palavra eterna de Deus, tornada próxima de nós, na encarnação, abrindo a nossa inteligência e a nossa liberdade para o eterno desígnio de Deus a nosso respeito. Com Ele sentimos e descobrimos que Deus é amor, amor de Pai, de quem Ele próprio se sente Filho e que deseja acolher-nos a todos nessa intimidade filial; amor ardente, intenso e transformador, que cura, fortalece e consola, que é capaz de transformar os nossos corações doentes e desviados, em corações delicados e bondosos, de filhos e de irmãos. Esse amor fecundo e criador permite a cada homem a esperança de encetar um caminho novo, como escreve S. Paulo aos Romanos: temos esperança "porque o amor de Deus se encontra derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi concedido". Só a partir do coração de Cristo podíamos receber esse Espírito de amor. A centralidade salvífica de Deus resume-se, para nós, na centralidade de Jesus Cristo, que nos revela e comunica o amor paterno de Deus através do dom do seu Espírito.

    2. Ao celebrarmos, nesta festa litúrgica, o "Dia da Igreja Diocesana", afirmamos a relação entre a Igreja e o mistério de Deus, comunhão trinitária de pessoas. A Igreja é a comunidade histórica constituída por aqueles e aquelas, que acolheram em Jesus Cristo, a Palavra eterna de Deus e a entenderam como Palavra de vida, reveladora, em cada momento, do desejo de Deus a nosso respeito; por aqueles e aquelas que, em Jesus Cristo, se sentem amados por Deus e deixaram que esse amor recriasse os seus corações, tornando-se capazes de louvar a Deus e amar os seus irmãos como Deus os ama. A Igreja é uma aventura de sabedoria eterna e de amor infinito, que acontecem no realismo da nossa vida e da nossa história. O crescimento da Igreja mede-se na profundidade com que acolhemos, sempre de novo, a Palavra eterna de Deus e nos deixamos envolver pelo seu amor.

    3. Esta é a primeira grande assembleia da Igreja diocesana depois da celebração do Grande Jubileu. O Papa João Paulo II enriqueceu a Igreja toda com uma nova Carta Apostólica, convidando-a, neste início de novo milénio da era cristã, a continuar a experiência de graça que foi o Jubileu, e a trilhar decidida e corajosamente os caminhos da autenticidade e da radicalidade, para maior glória de Deus, e para ter mais capacidade de ser sinal e testemunha, no nosso mundo contemporâneo. Aquele desafio "faz-te ao largo", é um convite a vencer o desânimo, a acomodação e a tibieza, a redescobrir o élan mobilizador dos primeiros tempos do Evangelho, a recuperar a ousadia de anunciar, a coragem para amar, a candura de coração que lhe permita acreditar num mundo novo. Aquele "faz-te ao largo", lança a Igreja, não apenas para a extensão e urgência da missão, mas para a profundidade do mistério de Deus, acessível para nós em Jesus Cristo, onde é preciso mergulhar com a confiança de quem aceita perder-se em Deus.
    Tendo lido e meditado a Carta Apostólica do Santo Padre, neste dia da festa de Deus, Trindade Santíssima, isto é, da festa de Jesus Cristo Glorioso, que nos aproxima de Deus nosso Pai, inundando-nos com o Espírito de amor, ensinando-nos a viver em comunhão, que a nossa prece se eleve ao Céu, pedindo luz e força, para que a nossa Igreja de Lisboa, na intimidade de cada crente, no calor da comunhão fraterna, através de toda a sua acção, seja cada vez mais a Igreja que Cristo deseja, que Ele ama como uma esposa e que envia, sempre de novo, como sinal do amor salvífico de Deus. Não queremos uma Igreja culta, acutilante na sua intervenção social, generosa no cumprimento dos preceitos, bela na sua liturgia, piedosa na sua oração. Queremos isso tudo e mais, porque só queremos construir a Igreja de Jesus Cristo, a Igreja que Cristo deseja e ama, a Igreja que Ele conduz, como peregrina, para o banquete das núpcias eternas. Rezemos com fé, pois é quando rezamos que melhor captamos o desejo de Deus.

    4. Peçamos ao Senhor que nos ensine a edificar uma Igreja, centrada em Jesus Cristo. É a Ele que queremos e servimos; é o seu Reino que nos mobiliza, o seu amor que nos fortalece. Queremo-lo a Ele, como ponto de partida, como companheiro da nossa peregrinação, como termo da nossa fidelidade. Só construímos a Igreja, porque Ele a deseja e ama, como expressão e lugar da salvação. Como vosso Bispo, apetecia-me nunca mais vos falar de mais nada, a não ser de Jesus Cristo, pois reconduzindo todas as coisas a Ele, podemos falar de tudo, falando d'Ele.
    Uma Igreja centrada em Jesus Cristo, é uma Igreja que se apaixona por Ele, que o quer conhecer e amar sempre mais, que contempla o seu rosto, que deseja a sua intimidade. É uma Igreja que O escuta como Palavra e sabedoria de Deus, Palavra que ela escuta em adoração, onde aprende a conhecer Deus e o seu desígnio, uma Palavra que a converte e envia. O desinteresse pela Escritura é o desinteresse pelo próprio Jesus Cristo.
    Uma Igreja que busca o rosto do Senhor, é uma Igreja que vive da Eucaristia e para a Eucaristia. Aí somos oferentes com Cristo e com Ele nos transformamos em oferta de louvor; aí nos comprometemos, com o nosso dom, na redenção actual do mundo contemporâneo; aí adoramos o Senhor e no convívio silencioso, deixamos que Ele nos revele, não apenas o Seu rosto, mas o Seu coração.
    Uma Igreja que ama a Eucaristia e encontra nela a fonte inesgotável do seu vigor espiritual, é uma Igreja que descobre a comunhão como antecipação do Reino, vence generosamente todos os obstáculos que a dificultam, saboreia a riqueza da variedade de dons, na unidade da caridade, aprofunda todas as suas concretizações e expressões, e repete sempre de novo a exultação do salmista: como é belo e bom viver harmoniosamente com os irmãos.
    Uma Igreja que experimenta o mistério da comunhão e sabe que a sua fonte é a comunidade trinitária, por Jesus Cristo, é uma Igreja que se rejuvenesce continuamente no entusiasmo evangelizador do anúncio. Nada torna a evangelização comovente e fecunda, como o ela ser, não apenas o enunciar de uma convicção, mas o testemunho de uma experiência apaixonante e libertadora.

    5. Uma Igreja que ama a Jesus Cristo, que com Ele celebra a Páscoa e constrói a comunhão na ousadia do amor, uma Igreja que testemunha vivendo e daí parte a anunciar essa experiência que vale a pena, é uma Igreja que pertence ao Senhor. Ela é Igreja de Jesus Cristo, Ele é o Senhor da Igreja, e nesse sentido de pertença, ela descobre a sua vocação à santidade. Não se pode ser de Jesus Cristo sem amar, sem viver como Ele deseja. Peçamos ao Senhor que conduza a Igreja de Lisboa pelos caminhos da santidade, e que Maria, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, aquela que Deus assumiu na sua realidade trinitária como a nenhuma outra criatura, seja nossa intercessora, nossa guia e modelo, nossa Mãe e nossa Irmã, porque ela é a Mãe da Igreja.

Mosteiro de Alcobaça, 10 de Junho de 2001


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca





 
MENSAGEM DO SANTO PADRE PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES 2001


"Misericordias Domini in aeternum cantabo" (Sl 89 [88], 2).

Queridos Irmãos e Irmãs!

1. Celebrámos com profunda alegria o Grande Jubileu da salvação, tempo de graça para toda a Igreja. A misericórdia divina, que cada fiel pôde experimentar, estimula-nos a "fazer-nos ao largo", recordando com gratidão o passado, vivendo com paixão o presente e abrindo-nos com confiança ao futuro, na convicção de que "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre" (Hb 13, 8) (cf. Carta Apostólica Novo millennio ineunte, 1). Este estímulo para o futuro, iluminado pela esperança, deve ser a base do agir de toda a Igreja no novo milénio. Esta é a mensagem que desejo dirigir a cada fiel por ocasião do Dia Missionário Mundial, que se celebrará no próximo dia 21 de Outubro.

2. Sim, chegou o tempo de olhar para o futuro, mantendo o olhar fixo no rosto de Jesus (Hb 12, 2). O Espírito chama-nos a "lançar-nos para o futuro que nos espera" (Novo millennio ineunte, 3), a testemunhar e a confessar Cristo, agradecendo "as maravilhas" que Deus fez por nós: "Misericordias Domini in aeternum cantabo" (SI 89 [881, 2)" (ibid., 2). Por ocasião do Dia Missionário Mundial do ano passado, desejei recordar corno o empenho missionário brota da fervorosa contemplação de Jesus. O cristão que contemplou Jesus Cristo não pode deixar de se sentir arrebatado pelo seu fulgor (cf. Vita consecrata, 14) e de se empenhar por testemunhar a sua fé em Cristo, único Salvador do homem.
A contemplação do rosto do Senhor suscita nos discípulos a "contemplação " também dos rostos dos homens e das mulheres de hoje: de facto, o Senhor identifica-se "com os seus irmãos mais pequeninos" (Mt 25, 40.45). A contemplação de Jesus, "o primeiro e o maior evangelizador (Evangelii nuntiandi, 7), transforma-nos em evangelizadores. Faz com que tomemos consciência da sua vontade de dar a vida eterna àqueles que o Pai lhe confiou (Jo 17, 2). Deus quer que "todos os homens se salvem e conheçam a verdade" (1 Tm 2, 4), e Jesus sabia que a vontade do Pai sobre Ele era que anunciasse o Reino de Deus também às outras cidades: "para isso é que fui enviado" (Le 4, 43).
Depois, o fruto da contemplação dos "irmãos mais pequeninos" é descobrir que cada homem, mesmo se o faz de maneira que para nós é misteriosa, procura Deus, porque por Ele foi criado e é amado. Assim o descobriram os primeiros discípulos: "Todos Te procuram" (Mc 1, 37). E os "gregos", em nome das gerações vindouras, exclamaram: "queríamos ver a Jesus" (Jo 12, 2 1).
Sim, Cristo é a luz verdadeira que ilumina todos os homens que vêm a este mundo (Jo 1, 9); todos os homens o procuram "andando às apalpadelas" (Act 17, 27), impelidos por uma atracção interior da qual nem sequer eles conhecem a origem. Ela está escondida no coração de Deus, onde pulsa uma vontade salvífica universal. Dela Deus nos faz testemunhas e arautos. Para esta finalidade nos invade, como num novo Pentecostes, com o fogo do seu Espírito, com o seu amor e com a sua presença: "E eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt 28, 20).

3. Por conseguinte, fruto do Grande Jubileu é também a atitude que o Senhor pede a cada cristão, isto é, a de olhar em frente com fé e esperança. O Senhor honra-nos ao pôr em nós a sua confiança e chama-nos ao ministério sendo misericordioso connosco (1 Tm 1, 12.13). Não é uma chamada que se destina só a alguns, mas a todos, cada um no próprio estado de vida. Na Carta apostólica Novo millennio ineunte escrevi a este propósito: "Esta paixão não deixará de suscitar na Igreja uma nova missionariedade, que não poderá ser delegada a um grupo de "especialistas", mas deverá corresponsabilizar todos os membros do povo de Deus. Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-Lo para si; tem de O anunciar. É preciso um novo ímpeto apostólico, vivido como compromisso diário das comunidades e grupos cristãos... Cristo há-de ser proposto a todos com confiança. Seja feita a proposta aos adultos, às famílias, aos jovens, às crianças, sem nunca esconder as exigências mais radicais da mensagem evangélica, mas adaptando-a, a nível de sensibilidade e linguagem, à situação de cada um, segundo o exemplo de Paulo que afirma: "Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a todo o custo" (1 Cor 9, 22)" (n. 40).
De maneira especial, a chamada à missão adquire uma singular urgência, se olharmos para aquela porção da humanidade que ainda não conhece ou não reconhece Cristo. Sim, queridos Irmãos e Irmãs, a missão ad gentes hoje é mais válida do que nunca. Conservo impresso no coração o rosto da humanidade que pude contemplar durante as minhas peregrinações: é o rosto de Cristo reflectido no dos pobres e dos que sofrem; o rosto de Cristo que brilha em todos os que vivem como "ovelhas sem pastor" (Me 6, 34). Cada homem e cada mulher têm o pleno direito a que lhes sejam ensinadas "muitas coisas" (ibid.).
Perante a evidência da própria fragilidade e insuficiência, a tentação humana, mesmo do apóstolo, é despedir o povo. Ao contrário, é precisamente naquele momento que, pondo-se a contemplar o rosto do Amado, é preciso que cada um volte a escutar as palavras de Jesus: "Não é preciso que eles vão; dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14, 16; Me 6, 37). Desta forma, experimenta-se ao mesmo tempo a debilidade humana e a graça do Senhor. Conscientes da perene fragilidade que nos marca profundamente, sentimos a necessidade de dar graças a Deus por tudo o que Ele realizou para nós e por tudo o que, na sua graça, realizará.

4. Como deixar de recordar, nesta circunstância, todos os missionários e missionárias, sacerdotes, religiosas e leigos, que fizeram da missão ad gentes e ad vitam a razão da própria existência? Eles, com a sua vida, proclamam "sem fim as maravilhas do Senhor" (Sl 89). Não poucas vezes, este "sem fim" chegou até ao derramamento do sangue: quantas foram as "testemunhas da fé" no século passado! Foi também graças à sua generosa doação que o Reino de Deus se pôde dilatar. Dirigimos-lhes o nosso pensamento agradecido, acompanhado pela oração. O seu exemplo serve de estímulo e de apoio para todos os fiéis, que podem haurir coragem ao verem-se "cercados de urna nuvem de testemunhas" (Hb 12, 1), que com a sua vida e as suas palavras fizeram e ainda fazem ecoar o Evangelho em todos os continentes.
Sim, caríssimos Irmãos e Irmãs, não podemos calar aquilo que vimos e ouvimos (Act 4,20). Vimos a obra do Espírito e a glória de Deus manifestar-se na debilidade (2 Cor 12; 1 Cor 1). Também hoje, muitos homens e mulheres, com a sua dedicação e com o seu sacrifício, são para nós manifestação eloquente do amor de Deus. Deles recebemos a fé e sentimo-nos estimulados a ser, por nossa vez, anunciadores e testemunhas do Mistério.

5. A missão é "anúncio jubiloso de um dom, que se destina a todos e, por conseguinte, há-de ser proposto a todos com o maior respeito da liberdade de cada um: o dom da revelação do Deus-Amor, que "amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único" (Jo 3, 16).. A Igreja, portanto, não pode subtrair-se à actividade missionária junto dos povos, e permanece tarefa prioritária da missão ad gentes o anúncio de que é em Cristo, "Caminho, Verdade e Vida" (Jo 14, 6), que os homens encontram a salvação" (Novo millennio ineunte, 56). É um convite para todos, é um apelo urgente ao qual deve ser dada uma resposta imediata e generosa. É preciso ir! É necessário pôr-se a caminho sem hesitações, como Maria, a Mãe de Jesus; como os pastores que despertaram ao primeiro anúncio do Anjo; como Madalena quando viu o Ressuscitado. 'Ao princípio deste novo século, o nosso passo tem de fazer-se mais lesto para percorrer as estradas do mundo... (Cristo ressuscitado marca encontro connosco no Cenáculo, onde, na tarde do "primeiro dia depois do sábado" (Jo, 20, 19), apareceu aos seus "soprando" sobre eles o dom vivificante do Espírito e iniciando-os na grande aventura da evangelização" (ibid., 58).

6. Queridos Irmãos e Irmãs! A missão exige oração e empenho concreto. São muitas as necessidades que a minuciosa difusão do Evangelho requer. Celebra-se este ano o 75º aniversário da instituição do Dia Missionário por parte do Papa Pio XI, que aceitou o pedido da Pontificia Obra da Propagação da Fé para "estabelecer um dia de oração e de propaganda para as missões" a ser celebrado no mesmo dia em todas as dioceses, paróquias e nos institutos do mundo católico... e para solicitar o óbolo para as missões" (Sagrada Congregação dos Ritos, Instituição do Dia missíonário mundial, 14 de Abril 1926: AAS 19 119271, pág. 23 s.). Desde então, o Dia Missionário constitui uma ocasião especial para recordar a todo o Povo de Deus a permanente validade do mandato missionário, visto que a missão compete a todos os cristãos, a todos as dioceses e paróquias, instituições e associações eciesiais" (Carta encíclica Redemptoris missio, 2), É ao mesmo tempo uma ocasião oportuna para recordar que "as missões não solicitam apenas uma ajuda, mas uma partilha do anúncio e da caridade para todos os pobres. Tudo o que recebemos de Deus - tanto a vida como os bens materiais - não é nosso" (ibid., 81). Este Dia é importante na vida da Igreja, "porque ensina como se deve dar o contributo: na celebração eucaristica, ou seja, como oferta a Deus, e para todas as missões do mundo" (ibid.). Por conseguinte, que este aniversário seja uma ocasião propícia para reflectir acerca da necessidade de um maior esforço comum para promover o espírito missionário e para obter as ajudas materiais necessárias das quais os missionários precisam.

7. Na homilia de conclusão do Grande Jubileu, no dia 6 de Janeiro de 2001, eu disse: "É necessário partir de Cristo, com o impulso do Pentecostes, com entusiasmo renovado. Partir d'Ele, inicialmente no compromisso quotidiano da santidade, colocando-se em atitude de oração e à escuta da sua palavra. Depois, partir d'Ele para testemunhar o Amor! (n. 8).
Portanto:
Parte de Cristo, tu, que encontraste misericórdia.
Parte de Cristo, tu, que perdoaste e aceitaste o perdão.
Parte de Cristo, tu, que conheces a dor e o sofrimento.
Parte de Cristo, tu, que és tentado pela tibieza: o ano de graça é um tempo sem limites.
Parte de Cristo, tu, Igreja do novo milénio.
Canta e caminha! (cf. Ritos de conclusão na Santa Missa na Epifania do Senhor de 2001).
Maria, Mãe da Igreja, Estrela da Evangelização, nos acompanhe neste caminho, como permaneceu ao lado dos discípulos no dia de Pentecostes. Dirijamo-nos a ela confiantes para que, por sua intercessão, o Senhor nos conceda o dom da perseverança na tarefa missionária, que diz respeito a toda a Comunidade eclesial.
Com estes sentimentos abençoo-vos a todos.

Vaticano, 3 de Junho de 2001, Solenidade de Pentecostes.
JOÃO PAULO II






 
HOMILIAS DO CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA
NA SEMANA SANTA E PÁSCOA DE 2001

 

"A RESSUREIÇÃO É O FUNDAMENTO DA VERDADEIRA RELIGIÃO
Homilia do Domingo de Páscoa - 15/04/2001


     1. Quando, já no fim da última guerra mundial, Dietrich Bonhoeffer, um Pastor Luterano que morreu mártir do nazismo, pergunta ao seu interlocutor e amigo, a quem dirige as suas já célebres "cartas da prisão", se será possível pensar "um cristianismo sem religião", estava motivado por uma verificação chocante: muitos cristãos declarados estavam entre os protagonistas das grandes violências e injustiças, enquanto outros, "sem religião", pareciam mais sensíveis ao drama que então se vivia e mais abertos às exigências da paz e do respeito pela dignidade do homem. Bonhoeffer teve grande influência na reflexão teológica das Igrejas cristãs, incluindo a católica, nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Desde uma religião sem Deus, explicitamente afirmada, proposta pela corrente chamada da "morte de Deus", à busca de um "cristianismo secular", integrado pelos "homens rectos", que lutam pela justiça e pela dignidade do homem, mesmo sem confessarem a sua fé em Jesus Cristo, até à ousada separação entre cristianismo e religião, reservando aquele para o âmbito da intervenção social, que seria a fé dos tempos modernos, relegando o fenómeno religioso para o âmbito de um intimismo pessoal, sem impacto significativo na cidade.
     Mudou, porventura, a linguagem, mas a problemática de fundo continua presente na sociedade e na cultura actuais. Ninguém rejeita, abertamente, a força inspiradora da mensagem evangélica na sua incidência social, mas a fé religiosa tende a ser considerada como um fenómeno interior, legítimo e que a sociedade deve respeitar, mas que pouco tem a ver com os problemas da cidade. Porque o Estado é laico e deve ser neutro em matéria religiosa, tende a considerar-se a sociedade como "a-religiosa" no fundamento dos valores que prossegue e na inspiração ética das normas por que se rege.
     Ora a festa da Páscoa que celebramos é, para nós cristãos, a afirmação clara de que Cristo ressuscitado é o fundamento da verdadeira religião e que as incidências sociais do Evangelho, enquanto inspiração para a edificação de uma sociedade mais justa, mais pacífica e pacificadora e mais respeitadora da dignidade do homem, são exigência e expressão de uma verdadeira religião. O cristão pratica a sua fé religiosa, tanto quando celebra a liturgia como quando procura ajudar os seus irmãos ou luta contra as injustiças. As actividades sociais da Igreja partem de uma exigência da sua fé e são expressões da religião. Já o Apóstolo S. Tiago escrevia no século I: "Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viuvas em aflição e manter-se livre da corrupção do mundo" (Tg. 1, 27).

     2. Toda a religião procura exprimir a relação entre os homens e Deus e encontrar resposta para questões fundamentais do ser humano, como afirma o Concílio Vaticano II no Decreto sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs: "os homens esperam das diversas religiões a resposta a enigmas escondidos da condição humana que, ontem como hoje, perturbam profundamente o coração humano: o que é o homem? Qual o sentido e a finalidade da vida? O que é o bem e o que é o pecado? Qual a origem e o sentido do sofrimento? Qual o caminho para chegar à felicidade? O que é a morte, o julgamento e a retribuição depois da morte? O que é, afinal, o mistério inefável que rodeia a nossa existência, donde procedemos na origem e para onde tendemos, na busca de um objectivo final?" (Nostra Aetate, 1).
     Cristo ressuscitado é a resposta completa e decisiva para todas estas questões. A sua ressurreição é a manifestação da transcendência da divindade, expressa na própria humanidade. Como diz Pedro no texto dos Actos: "Jesus mandou-nos pregar ao povo e atestar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos" (Act. 10, 42). Na sua ressurreição Ele venceu o enigma da morte, pois como ensina Paulo aos Colossenses, na nossa renovação pascal, já ressuscitámos com Cristo e essa vida nova, agora escondida, há-de manifestar-se um dia, plenamente, com Ele na Glória (cf. Col. 3, 1-4).
     A possibilidade, não apenas de uma proximidade, mas de uma intimidade vital, entre Deus e o homem, garantida na ressurreição de Cristo, é resposta cabal a todas as inquietações do coração humano e a todos os enigmas da existência.

      3. Ao afirmarmos que a ressurreição de Cristo é o fundamento da verdadeira religião, não negamos o valor positivo das outras religiões enquanto busca de respostas àquelas questões fundamentais. Afirmamos apenas que, segundo a nossa fé, a Páscoa de Jesus nos oferece as mais profundas respostas que jamais foram dadas ao coração do homem. Recordemos, a propósito, o já referido Decreto do Concílio Vaticano II: "A Igreja Católica não rejeita nada do que é verdadeiro e santo nessas religiões. Considera, com respeito sincero, essas maneiras de agir e de viver, essas regras e essas doutrinas, embora diferindo, em muitos pontos, do que ela própria propõe e ensina, mas que no entanto deixam transparecer um rasto de verdade que ilumina todos os homens. No entanto a Igreja anuncia e deve anunciar sem cessar, Jesus Cristo que é o "caminho, a verdade e a vida" (Jo. 14, 6) em Quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no Qual Deus reconciliou consigo todas as coisas" (N. Aet. 2).

     4. Celebramos esta Páscoa num momento em que a Assembleia da República se prepara para aprovar uma Lei da Liberdade Religiosa. Apoiámos, desde o início, a iniciativa de tal diploma legal, pois ele vem preencher um vazio juridico-legal que enquadre na sociedade as confissões religiosas, que não a Igreja Católica, uma vez que esta tem os eu enquadramento estabelecido desde há muito, pela Concordata celebrada entre a Santa Sé e o Estado Português.
     A elaboração do Diploma, na normalidade dos processos parlamentares e sua repercussão na opinião pública, exige de nós alguns esclarecimentos, antes demais aos fiéis católicos: nos princípios fundamentais deste Projecto-Lei, afirma-se, na linha da Constituição da República, o princípio da igualdade de todas as confissões religiosas perante a Lei. Não podemos esperar do Estado laico que defina as diferenças qualitativas das diversas religiões, embora esperemos dele que tenha em conta, nas concretizações desse princípio da igualdade, as especificidades decorrentes da implantação de cada uma delas, na nossa história, na nossa cultura, e na realidade do tecido social contemporâneo.
     Mas sobretudo que os cristãos católicos não interpretem este princípio da igualdade legal como uma equivalência objectiva de todas as religiões, como se fossem todas a mesma coisa. A nossa fé e a nossa vivência pascais, fazem-nos descobrir e saborear o dom inaudito da intimidade com Deus, que nos é proporcionada em Cristo ressuscitado e da verdade sublime que daí decorre. Perante as outras religiões, devemos respeitá-las, apreciar o que elas têm de verdade, o que nos ajudará a compreender a novidade do cristianismo e mesmo colaborar com elas, como irmãos, quando as circunstâncias o proporcionarem, para o bem da família humana. Quanto mais profundo for o conhecimento da nossa fé e a nossa fidelidade a Cristo ressuscitado, mais preparados estaremos para conhecer a fé desses nossos irmãos, num sadio diálogo inter-religioso. Afirma ainda o Concílio: "A Igreja exorta os seus filhos a que, com prudência e caridade, pelo diálogo e pela colaboração com aqueles que seguem outras religiões, continuando a testemunhar a sua fé e vida cristãs, reconheçam, preservem e façam crescer os valores espirituais, morais e socio-culturais que se encontram nesses nossos irmãos" (N. Aet. 2). Como decorre da leitura dos Actos dos Apóstolos, o cristianismo é um povo de testemunhas de Cristo ressuscitado e nenhuma circunstância nos impede ou nos dispensa desse testemunho.

     5. O Projecto-Lei sobre a Liberdade Religiosa sugere-me, ainda, outra observação: a sua urgência justifica-se pela necessidade do enquadramento legal das outras confissões religiosas e está a ser discutido numa altura em que se fala abertamente da hipótese, já aceite pela Conferência Episcopal Portuguesa, de uma revisão da Concordata. Este Diploma não pode pretender antecipar, em sede parlamentar, a revisão da Concordata, tentando alterar o enquadramento legal da Igreja Católica, garantido pela Concordata em vigor, porque o Parlamento não é a sede de uma possível revisão concordatária, porque os interlocutores são a Santa Sé e o Estado Português e porque é diferente a natureza intrínseca dos Diplomas, prevalecendo a Concordata sobre as leis do Parlamento Nacional. Na fase actual do processo e para não atrasar o enquadramento legal das outras confissões religiosas, este Diploma só se pode aplicar à Igreja Católica nos seus princípios fundamentais, aliás decorrentes da Constituição da República e da própria doutrina católica, expressa no Concílio Vaticano II. Isto não significa, da nossa parte, nem a recusa de se caminhar para um enquadramento legal de todas as confissões religiosas, que enquadre, no lugar que lhe compete, a Concordata que estiver em vigor, nem o nosso respeito e o nosso apoio a todas as comunidades religiosas, em ordem a um justo e equilibrado estatuto jurídico na sociedade de que todos fazemos parte e em cujo progresso queremos estar comprometidos.
     Como a nossa coerência com a Ressurreição do Senhor é exigente! Quanto precisamos da força e da luz do Seu Espírito! Desejo a todos uma Santa Páscoa.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca




 

"A LUZ E AS TREVAS"
Homilia da Vigília Pascal - 14/04/2001


      1. Esta longa vigília de oração, até pela sua duração, sugere a longa caminhada do homem, até à conquista da harmonia definitiva. Nesta noite desdobram-se perante os nossos olhares as diversas etapas desta caminhada, que tem em Deus a sua origem, a força para o caminho e a harmonia definitiva da criação, que nos atrai: da criação inicial ao aparecimento do homem, rei da criação e primeiro polo de convergência claro de todo o dinamismo criador; da criação do homem à aliança de Deus com Abraão, em que se revela o dinamismo decisivo da humanidade como comunidade e fraternidade, como Povo, que encontra na intimidade com Deus e na fé que ela exige, a força decisiva da história; de Abraão a Moisés, em quem, após a experiência dolorosa do cativeiro e da injustiça, Deus se revela como salvador e libertador do seu Povo; de Moisés a Jesus Cristo, o homem perfeito e o novo e definitivo polo de convergência da criação e da história; de Jesus Cristo até à parusia, plenitude da criação e da história, em que o Espírito de Deus, que já presidiu à criação, conduz o Povo novo, que nasceu da sua páscoa, pelos caminhos do amor, da fraternidade e da justiça.
      De todo este longo processo, emerge o homem como única realidade absoluta, depois de Deus, claramente confirmada na plenitude humana de Jesus Cristo. Ele revelou definitivamente a dignidade absoluta de cada homem e de cada mulher, ponto de referência necessário e incontornável para que a história tenha sentido. Afirmou-se, progressivamente, a dimensão comunitária da vida humana e o amor, a generosidade do serviço dos outros e a denúncia dos egoísmos, revelaram-se os valores decisivos para o progresso da família humana. O Povo da aliança foi descobrindo que o projecto de Deus é para toda a humanidade e que, se Deus o cumulou de dons, é porque o quer enviar, qual sinal mediador, a ser, no seio da humanidade, a semente da fraternidade e da comunhão. Esta missão do Povo bíblico em relação ao todo da humanidade, radicalizou-se e tornou-se mais clara na Igreja, novo Povo de Deus. É esta missão que define o sentido da presença da Igreja na história e do seu compromisso com toda a cidade dos homens.

      2. Em toda a longa caminhada da história a Igreja não se pode desligar do destino da comunidade humana, pois é da construção de uma sociedade à altura da dignidade e da grandeza do homem que se trata. E é no captar o sentido deste esforço que aparece a importância da luz, que inspira a liberdade e esclarece as consciências, define o sentido do progresso e ilumina a cidade futura a alcançar. É por isso que, segundo o texto do Génesis, Deus começou pela criação da luz: "Disse Deus: haja luz. E houve luz. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas" (Gen. 1, 1-2). Separar a luz das trevas, eis o drama da história.
      A luz física, a que se chamou dia, era apenas o símbolo da luz interior que conduz a inteligência e o coração do homem enquanto protagonista e construtor da sua própria história. Essa luz interior, que o ensina a identificar o bem e a evitar o mal, ou seja, os caminhos que não são construtivos da dignidade humana, foi acesa por Deus no mais íntimo da consciência do homem, "criado à Sua imagem" e é alimentada e reavivada por toda a Palavra que nos vem de Deus. É por isso que a Palavra de Deus ganhou um relevo tão decisivo na história do Povo bíblico; ela reacendia, continuamente, essa luz original da consciência. A luta entre a luz e as trevas travou-se no coração do homem e transformou-se na batalha decisiva da história. Ela ecoou na mensagem corajosa de profetas, irradiou no sentido salvífico de acontecimentos libertadores; tornou-se clara e decisiva na palavra e na pessoa de Jesus Cristo. Ele próprio assumiu "ser a luz do mundo".
      A separação da luz das trevas foi decisiva, no que à luz física diz respeito, na ordem da natureza. Mas no que à luz interior diz respeito, a batalha continuou, entre a luz e as trevas, constituindo essa luta a ambiguidade dramática da história humana. O Evangelista S. João apresenta Jesus como um momento crucial nessa luta entre a luz e as trevas: "a luz brilhou nas trevas e as trevas não a apreenderam" (Jo. 1, 5); Ele "é a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Ele estava no mundo e o mundo feito por meio d'Ele, não o conheceu" (Jo. 1, 9-10).
      Tal como na primeira criação aconteceu a vitória da luz física sobre as trevas, assim em Jesus Cristo, início da nova criação, se deu a vitória da luz interior sobre as trevas. Mas essa vitória de Jesus Cristo tem de ser confirmada pela Igreja, para que em toda a humanidade a luz vença as trevas.
      É essa vitória de Jesus Cristo que cantámos, no hino à luz, com que iniciámos esta solene vigília: "Rejubile a terra, inundada por tão grande claridade, porque a luz de Cristo, o Rei eterno, dissipa as trevas de todo o mundo. Alegre-se a Igreja, nossa Mãe, adornada com os fulgores de tão grande luz" (Precónio).
      Este é um compromisso de fidelidade da Igreja para com Jesus Cristo, estar na história e agir na sociedade, guiada pelo brilho desta luz. Enraizada na Palavra de Deus, ela tornou-se no íntimo do nosso coração "luz da fé", fonte de sentido para a nossa liberdade e responsabilidade, fonte dos nossos ideais, guia da nossa acção na luta por um mundo novo. A interacção dos cristãos na sociedade não pode ser julgada a partir de critérios sociológicos do evoluir dos fenómenos; ela é guiada por essa luz de Cristo, comunicada pelo seu Evangelho, enraizada no mais íntimo de nós como "luz da fé", inspiradora de valores e de critérios éticos, fazedora de cultura e de civilização.
      Que ninguém se admire de a Igreja estar a agir na sociedade guiada por esta luz. Essa é a sua missão, é o seu contributo específico para a civilização e para o progresso da humanidade. Que ninguém estranhe se a Igreja denunciar todas as opções de civilização, expressas em leis ou no incentivar de comportamentos colectivos e de visões ideológicas da história, que se afastem dessa luz, que através da fé e da cultura guiou o sentido do nosso viver colectivo. Quando assistimos a uma euforia legislativa, que põe em questão o respeito sagrado da vida humana no momento mesmo da sua concepção, adultera e desresponsabiliza o amor humano no que ele tem de mais sagrado, põe em questão a família, santuário dessa dignidade e viveiro dessa responsabilidade, se pretende resolver problemas preocupantes da sociedade, como é o caso da toxicodependência, com soluções pragmáticas não dignificantes, adiando as verdadeiras soluções, no diagnóstico das causas reais, temos uma sensação dolorosa de civilização em crise. Também entre nós, a luz ainda não venceu as trevas.
      Mas a vitória da luz sobre as trevas não depende, prioritariamente, destas denúncias estruturais. Decide-se no coração de cada um de nós, deixando e procurando que a "luz de Cristo" se transforme em "luz da fé", a iluminar as nossas consciências e a nossa liberdade. É por isso que nesta noite santa, sob o fulgor da luz de Cristo ressuscitado, somos chamados a renovar e reavivar a nossa fé.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca




 

"A CRUZ É A CÁTEDRA DE DEUS NO MUNDO"
Homilia de Sexta-feira Santa - 13/04/2001


      1. O Santo Padre João Paulo II, na homilia da festa da Cadeira de S. Pedro em Roma, celebração em que entregou o anel aos novos Cardeais, afirmou: "Não tenhais dúvidas que, tal como aconteceu com Cristo e com Pedro, o vosso testemunho mais eficaz será sempre aquele que for assinalado com a Cruz. A Cruz é a Cátedra de Deus no Mundo". (Oss. Rom. 23-02-2001).
      A palavra usada evoca um vasto horizonte de significado: a cátedra é o lugar onde o Mestre ensina. Para além da palavra escrita e falada, comunicada através da tradição, a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo é um púlpito vivo e permanente, onde Deus continua a proclamar a sua mensagem de salvação. O que é que podemos ouvir e perceber, contemplando e adorando o crucificado? O Papa enuncia a seguir uma primeira concretização dessa mensagem: "nela Cristo oferece à humanidade a lição mais importante, a de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (cf. Jo. 19, 26), até ao dom extremo de Si Mesmo". A mensagem da Cruz é uma lição de amor, gratuito, generoso, radical porque se exprime no dom da próprio vida.
      Há algo que talvez só se aprenda contemplando a Cruz: a compreensão do sentido do sofrimento e da possível fecundidade da dor. Por inclinação instintiva da natureza, a civilização e a cultura evoluíram no sentido de eliminar o sofrimento e a dor, quase sempre considerados como um mal a evitar. Não estou a insinuar que não é justo e bom lutar para mitigar, até às fronteiras do possível, o sofrimento dos nossos irmãos e isso faz-se, tantas vezes, na generosidade da caridade cristã, correndo riscos, aceitando privações e sofrimentos, dando a sua própria vida. Só se vence o sofrimento do mundo, aceitando dar generosamente a nossa vida em favor dos nossos irmãos. E esse é o tal testemunho assinalado com a Cruz de Cristo.
      Mas somos forçados a reconhecer que o sofrimento foi e continua a ser, em todos os tempos, uma experiência humana tão universal como a da alegria e da felicidade. Ele é físico ou espiritual, causado pela violência e pelas injustiças, pela miséria ou pela doença, ou adquire os contornos da solidão, do abandono, da perda do sentido da vida. E perante uma experiência tão universal e tão intensa, ou nos deixamos esmagar pelo seu peso, ou o assumimos generosamente, oferecendo-o misteriosamente como semente fecunda de redenção. Podemos aprender esse sentido pascal da dor humana, contemplando e adorando a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E essa é uma compreensão que alarga o nosso coração para o sentido da própria morte de Cristo, para a beleza do amor com que nos ama, para o sentido da nossa vida, tomada como um todo, chamada a ser dom e comunhão. A dor integra-se, então, na harmonia da vida, e pode mesmo revelar-lhe a sua beleza mais profunda.
      Contemplar a Cruz de Cristo ensina-nos, também, a actualidade redentora do sofrimento do Senhor. O mistério da Cruz não é um acontecimento passado, mantém a perenidade salvífica em todo o tempo. O Senhor continua a oferecer-Se pela humanidade, sendo a oferta sacrificial objectivada no sofrimento dos cristãos, que, no dizer de S. Paulo, completam no seu corpo o que falta à paixão de Cristo. Há uma unidade misteriosa entre a Cruz, como sinal, e a Eucaristia como sacramento. Contemplar a Cruz é caminho para mergulhar no mistério da Eucaristia enquanto sacramento do amor redentor, onde o sofrimento de Cristo e da Igreja se unem numa mesma oblação a Deus, pela redenção do mundo. Capta-se aí o significado da norma litúrgica que determina que sobre o altar da Eucaristia se erga a Cruz do Redentor.

      2. Mas as palavras do Santo Padre têm, ainda, outra dimensão: aquela cátedra pode ser interpretada como um trono de realeza. "A Cruz é o trono de Deus no Mundo". É uma velha tradição da espiritualidade cristã, o olhar a Cruz como o trono da realeza de Jesus Cristo, pois a sua glória é o triunfo do amor. Já o profeta Isaías interpreta, assim, o sofrimento do Servo: "Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á e será grandemente enaltecido… Numerosas nações hão-de ficar assombradas e diante dele os reis hão-de ficar calados, pois hão-de ver o que nunca lhes haviam contado e observar o que nunca tinham ouvido" (Is. 52, 13 e ss).
      Na Carta aos Hebreus o crucificado aparece com a glória do Sumo Sacerdote, que tendo experimentado o sofrimento, atingiu a grandeza dos corações puros e dos homens livres, capazes de perceber a dimensão dramática da redenção. O sofrimento ensinou-lhe a obediência, isto é, a docilidade ao desígnio de Deus.
      É sobretudo a himnologia litúrgica que canta a Cruz como trono de glória. A Cruz é um estandarte que proclama ao mundo a glória de Jesus na sua morte. Ela é insígnia triunfal, penhor de eterna glória. Relacionando a Cruz com a árvore da vida do paraíso inicial, ela é aclamada como árvore fecunda e refulgente, ornada com a túnica real, ou "árvore santa e gloriosa".
      A fecundidade da morte de Cristo na Cruz, constitui, na compreensão cristã, mais um título de glória. Já Isaías sublinhava essa fecundidade do sofrimento do Servo: "Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento. Mas se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação, há-de ver uma descendência, terá longos dias, e graças a ele se cumprirá o desígnio do Senhor".
      A Cruz é, assim, uma árvore fecunda em abundantes frutos de redenção: "Árvore nobre e gloriosa, nenhuma outra nos deu tal ramagem, flor e fruto".
      Nunca, como na Cruz, Cristo amou a sua Igreja como esposa. Esta dimensão esponsal do amor redentor é também cantada, no louvor da Cruz: "Sois tálamo, sois trono e sois altar", sacrário onde ficou viva a memória do amor infinito de Deus.
      A Cruz é, realmente, o trono de Deus no mundo. É contemplando-a que se descobre a mais bela expressão do triunfo de Jesus: o triunfo do amor. Interpretação chocante e denunciadora para quantos procuram outras manifestações de glória e de grandeza. A humildade do dom e a gratuidade da obediência, anunciam o verdadeiro triunfo da liberdade.

      3. É impossível contemplar a Cruz de Cristo sem abraçar, com o mesmo olhar, a figura de Maria, Sua Mãe, que ficou de pé, junto à Cruz (cf. Jo. 19, 25) e acolheu no seu regaço maternal, com piedade serena, o cadáver do Seu Filho. Ainda vivo, do alto da Cruz, Jesus continuou a ser Mestre, confirmando para todo o sempre que a sua Cruz é uma Cátedra, proclamando que a maternidade de Maria se alargava à maternidade da Igreja. "Mulher, eis o teu filho!". Como em tantas outras vezes da sua vida, Maria foi discípula, acolhendo a última dimensão da sua missão. Junto à Cruz, para todos os que a adoram, ela de discípula tornou-se mestra, participando na missão do seu divino Filho. Não se pode ouvir a mensagem que Cristo continua a proclamar do alto da Sua Cruz, sem a escutar a ela, a repetir-nos, sempre de novo: "fazei tudo o que Ele vos disser".
      Também para Maria a Cruz foi um trono. Com o seu coração ainda mais aberto por aquela espada de dor, na densidade do seu silêncio, na serenidade do seu olhar carregado de uma ternura que abraça o mundo, se soubermos escutar esse silêncio, ouvi-la-emos balbuciar, connosco, para sempre: "Meu Senhor e meu Deus".
      Nesta tarde de Sexta-feira Santa, em que a Cruz de Cristo se eleva sobre a Igreja e sobre o mundo, fixemo-la na ânsia de captar a sua mensagem e adoremo-la como um trono de glória.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca




 

"UM POVO DE UNGIDOS E DE TESTEMUNHAS"
Homilia da Missa Crismal - 12/04/2001


     1. Nas celebrações pascais contemplamos a realidade sobrenatural da Igreja, que brota da fecundidade espiritual da morte e ressurreição de Cristo, enquanto apelo de santidade, meio sacramental de graça, mensageira do anúncio da salvação. A santidade identifica-a com Cristo no mais profundo do seu ser; a fecundidade sacramental torna-a instrumento do próprio Cristo para a realização progressiva da Páscoa; a sua missão evangelizadora, na medida em que o anúncio é o da Páscoa definitiva e da radicalidade da salvação, dá nova dimensão à missão profética. Somos profetas do tempo definitivo, porque experimentamos a plenitude da salvação.
     Na celebração da Páscoa torna-se clara a unidade entre vocação e missão da Igreja, e a dimensão que garante essa unidade é a santidade, recebida como dom radical e vivida como projecto de crescimento e de fidelidade. Porque é chamada à santidade a Igreja é enviada em missão. A fecundidade do seu ministério brota da comunhão com Cristo ressuscitado e, por Ele, com a Santíssima Trindade. A santidade que a Igreja comunga com Cristo é o ponto de partida da missão, que encontra na realização da santidade o objectivo primordial. O Santo Padre anuncia-o claramente: "não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade… apontar a santidade permanece, de forma evidente, uma urgência pastoral" (NMI, n.º30). E dirigindo-se a nós sacerdotes, nesta primeira Quinta-feira Santa do Post-Jubileu, o Papa afirma: "Quinta-feira Santa, dia especial da nossa vocação, chama-nos a reflectir principalmente sobre o nosso ser, e particularmente, sobre o nosso caminho de santidade. É daí que brota o dinamismo apostólico" (Carta aos Sacerdotes).

     2. Segundo a "Novo Millenio Ineunte", a santidade da Igreja exprime o seu mistério como "um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo" e é entendida, antes de mais, como pertença a Deus, Aquele que é três vezes Santo (cf. Is. 6,3). "Professar a Igreja como santa significa apontar o seu rosto de Esposa de Cristo, que a amou entregando-se por ela precisamente para a santificar" (cf. Efes. 5,25-26) (NMI n.º 30).
     Esta pertença ao Senhor, tem a ver com a nossa qualidade de "ungidos", como o próprio Senhor Jesus é o ungido de Deus. "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor me ungiu" (Lc. 4, 16-21). Esta unção é uma consagração, uma acção santificadora. Na sua polémica com os fariseus Jesus define-se a si mesmo "como Aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo".
     A Igreja é pertença do Senhor, seu Povo e sua esposa, porque Deus a ungiu e consagrou, em Jesus Cristo. É essa predilecção de Deus que faz dela "um reino de sacerdotes para o seu Deus e seu Pai" (Apc. 1,5-8).
     A santidade da Igreja consiste, antes de mais, nesta eleição de Deus, que a consagrou pela unção. Ela é santa, porque é obra do Espírito de Deus. Toda a sua vida deve ser uma resposta de fidelidade, em coerência com essa eleição. Santa por iniciativa de Deus, manifesta a santidade na maneira como vive essa aliança de amor com Cristo, seu Senhor.
     Os óleos que vamos abençoar e consagrar mostram-nos a actualidade e perenidade desta atitude de Deus, que continua a ungir novos membros, consagrando-os para viverem em santidade e justiça. Povo de ungidos no baptismo e na confirmação, a Igreja vive, continuamente, da missão de Jesus Cristo, o ungido de Deus, que através da força do Espírito, continua a consagrar e santificar, agindo através dos sacerdotes, membros do Povo sacerdotal, que Ele ungiu de novo, para o sacerdócio ministerial. Só um povo sacerdotal pode acolher e valorizar o dom novo do sacerdócio ministerial que actuando sacramentalmente o ministério do próprio Cristo, possibilita à Igreja viver plenamente a sua situação de pertença ao Senhor, de esposa que acolhe o amor com que é amada.
     Irmãos e irmãs, os sacerdotes que vos são enviados são pertença do Senhor, que os ungiu e consagrou, valem pelo que realizam em nome de Jesus Cristo, são para todo o povo a manifestação da solicitude de Deus. Quantas vezes as comunidades cristãs reagem perante os sacerdotes com critérios demasiadamente humanos, deixando na sombra o verdadeiro significado do seu ministério: a capacidade de agir, em nome de Cristo, para a vossa santificação. O que o sacerdote e só ele pode realizar, para vós, em nome de Cristo, é infinitamente mais importante de tudo o que possamos fazer com as nossas qualidades humanas. Ungido, o sacerdote tem o poder de ungir, consagrar, perdoar, actuando o amor infinito de Deus pela sua Igreja. É por isso que o nosso sacerdócio é um ministério de amor sem limite, continuando a atitude de Jesus, que tendo amado os seus que estavam no mundo, os amou até ao fim (cf. Jo. 13, 1).
     E nós próprios, os sacerdotes, sabemos e acreditamos que o facto de termos sido ungidos, define o nosso mistério e traça o itinerário da nossa fidelidade. Na humildade da nossa fé, começamos por acreditar no que somos, na obra que realizou em nós, para Ele continuar a santificar o seu Povo. Nós sabemos que, ao consagrar-nos, Deus criou em nós uma radical intimidade com o seu Filho Jesus Cristo e que, a partir desse momento, nos faz sentir o apelo contínuo de aprofundar e radicalizar essa intimidade que nos levará à identificação com Ele. Esse é também o apelo que o Papa nos dirige hoje, a nós sacerdotes: "ao mesmo tempo desejo fazer-me eco da voz de Cristo, que nos chama a aumentar, sempre mais, a nossa relação com Ele. "Eis que estou à porta e bato" (Ap. 3,20). Como anunciadores de Cristo, em primeiro lugar somos convidados a viver na sua intimidade: não se pode dar aos outros aquilo que nós mesmos não possuímos" (Carta aos Sacerdotes).

     3. Esta liturgia faz-nos encontrar com a verdade da Igreja como Povo que o Senhor continua a santificar, através da mediação sacramental. Os critérios da edificação da Igreja são sobrenaturais, que nos desvelam a acção amorosa de Deus através da fecundidade sacramental da Igreja e não sociológicos e culturais, apenas baseados na capacidade das nossas forças humanas. Ser cristão é um mistério de graça, a que se abre, em atitude de acolhimento cooperante, a totalidade do nosso ser. Ouçamos o Santo Padre: "há uma tentação que sempre incidia qualquer caminho espiritual e também a acção pastoral: pensar que os resultados dependem da nossa capacidade de agir e programar. É certo que Deus nos pede uma real colaboração com a sua graça, convidando-nos a investir todos os nossos recursos de inteligência e de acção, no serviço pela causa do Reino; mas ai de nós se nos esquecermos que "sem Cristo nada podemos fazer"" (NMI, n.º 38).
     Esta prioridade absoluta da iniciativa de Deus, através do Espírito de Cristo, na edificação do Reino de Deus e na consolidação da santidade, define a verdade do nosso sacerdócio ministerial em favor do Povo de Deus. O que nos especifica e distingue é o poder sacerdotal de Jesus Cristo, que actuamos em nome d'Ele através do ministério sacramental da Igreja. O nosso ministério sacerdotal é, para os cristãos a quem somos enviados como pastores, a afirmação permanente de que a santificação é obra do Espírito de Cristo; e para nós próprios, a consciência da misericórdia infinita de Deus que nos escolheu para tão sublime ministério, apesar da nossa fragilidade pecadora. O mistério da misericórdia exprime-se, continuamente, na Igreja, perante o confronto paradoxal entre o pecado e a santidade de Deus, mas onde esse mistério se torna mais sensível é no coração do Padre que se sente protagonista de uma acção recriadora e santificadora, na incapacidade da sua fragilidade.
      S. Paulo tinha razão: "onde abundou o pecado, super-abundou a graça". Quantas vezes fazemos o raciocínio ao contrário: perante a misericórdia de Deus, que acontece e se actua através de nós, sentimos dramaticamente a pequenez da nossa fragilidade. É por isso que, para nós sacerdotes, o exercício do nosso ministério sagrado é a fonte inspiradora da nossa fidelidade cristã e da nossa santificação.

     4. A Palavra de Deus proclamada nesta celebração, depois de nos apresentar Jesus Cristo como o ungido de Deus, diz-nos que Ele é "a Testemunha fiel" (Ap. 1,5-8). Todo o ministério de Jesus foi um testemunho da Palavra eterna de Deus e do amor paternal de Deus. Toda a Igreja, enquanto Povo de ungidos pelo Espírito e, de um modo especial, nós os sacerdotes, por Ele ungidos para o ministério sacerdotal, devemos ser um povo de testemunhas, da Palavra da vida, proclamando a verdade que tem em Deus a sua fonte, dessa certeza inaudita de que Deus nos ama, ama todos os homens, que Cristo ama a sua Igreja com a ternura de um esposo. No que a nós sacerdotes diz respeito, diz-nos o Papa na carta que hoje nos dirige: "deste grande mistério, nós fomos constituídos, por um título especial, testemunhas e ministros"; testemunhas de um mistério de amor sem limites, mistério de unidade que, da abundante riqueza da Trindade se derrama, sem limites, sobre a Igreja; mistério de serviço dos homens nossos contemporâneos, que sentirão nesse nosso serviço, a ternura do amor de Deus.
     Que esta Páscoa dinamize a Igreja de Lisboa, para se reconhecer como povo de ungidos e de testemunhas e a fazer-se ao largo, confiante na força de Deus, percorrendo os caminhos da santidade e da missão.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca




 

HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA
Mosteiro dos Jerónimos, 4 de Março de 2001


Senhor Presidente da República
Senhor Presidente da Assembleia da República
Senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
Senhor Presidente do Tribunal Constitucional
Senhor Ministro da Presidência
Senhor Núncio Apostólico
Senhores Bispos
Senhores Cónegos
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Reverendos Padres
Irmãos e Irmãs,

    1. A liturgia deste primeiro domingo da Quaresma convida-nos a meditar o texto de S. Paulo aos Coríntios (cf. 1Co. 9, 24-25) em que o Apóstolo compara a vida da fé à corrida de um atleta no estádio. Nós sabemos, por experiência, que a existência crente é uma caminhada, exigente e, por vezes, dolorosa. Trata-se de uma comparação carregada de simbolismo. Tal como o atleta, o crente corre voluntariamente, dinamizado por um ideal. A fé é uma experiência de liberdade, assenta numa luz interior que ilumina a inteligência, comove o coração e fundamenta uma escolha. Tal como o atleta, o crente empenha toda a sua força, compromete toda a energia, para alcançar o seu objectivo: identificar-se com Cristo, seu Senhor, e anunciar aos homens, seus irmãos, a boa nova da esperança e da alegria. E a esperança é a de um mundo novo a edificar e a alcançar, cidade definitiva, perfeitamente humana, onde cada homem seja amado na sua dignidade, respeitado na sua diferença, valorizado na sua capacidade específica; onde a responsabilidade e o serviço sejam expressões da liberdade, onde a paz brote do amor fraterno e a justiça seja o alicerce da convivência. Porque se trata de uma cidade a construir e a alcançar, a nossa corrida tem o sabor de uma peregrinação. E o Senhor, em Quem acreditamos, sendo peregrino connosco, é a luz que nos permite lobrigar, ao longe, o clarão dessa cidade que nos atrai.

    Esta prova da fé é uma corrida em coluna, em grupo, em comunidade, onde a comunhão e o testemunho são a força que a todos entusiasma a continuar. É o mistério da Igreja, é a força da Igreja, é a sorte de pertencermos à Igreja, esse Povo que corre sem desistir, a quem, nem o sofrimento, nem as dificuldades, nem o cansaço desviam da sua meta, que é o seu ideal. Somos um Povo que caminha, que no meio da multidão atravessa a história, convida todos a engrossar a coluna, sem ambições imediatas que não sejam fortalecer, na comunhão, todos esses peregrinos da vida.

    No início do terceiro milénio da era cristã, a Igreja tornou-se multidão, de todas as raças, línguas, povos e nações. Na variegada riqueza das suas diferenças, têm todos em comum o essencial, que receberam, através de tradição viva, dos Apóstolos de Jesus: a fé em Jesus Cristo, a força do seu Espírito, o amor fraterno como expressão de vida, a transformação do mundo como missão, a vida eterna como promessa. À volta desta tradição fundamental e inalienável se constrói a unidade, principal testemunho e serviço prestado à humanidade, ela própria em busca de unidade. A Igreja é chamada por Deus, a ser o sacramento da unidade da humanidade e do próprio universo.

    A peregrinação da Igreja, no tempo, faz-se no meio de perigos e ameaças. As mais graves não são as que lhe vêem do exterior, dos que a atacam ou perseguem. Essas sempre fortaleceram a Igreja na determinação da sua fidelidade. As ameaças mais preocupantes surgem-lhe do seu interior, porque têm o sabor amargo da infidelidade. Antes de mais a quebra da unidade, que ofusca a vocação primeira da Igreja e enfraquece a sua capacidade de ser sinal. A unidade da Igreja, que tem a sua fonte e modelo na própria unidade de Deus, Trindade Santíssima, é tarefa contínua. A firma-se a partir do modelo divino, como comunhão entre pessoas, expressão de amor e não apenas de doutrinas ou de projectos.

    Uma outra fraqueza que ameaça a Igreja, a partir de dentro, é a fragilidade da fé, porque deixa de estar ancorada na Palavra de Deus e se torna afirmação de simples convicção humana, ou porque deixa prevalecer o peso da opinião individual sobre a adesão comunitária à verdade da tradição. O Papa João Paulo II afirmou na homilia do passado dia 22, na Praça de S. Pedro, a propósito da fé da Igreja em Jesus Cristo: "Esta confissão de fé é o grande dom que a Igreja oferece ao mundo no início do terceiro milénio".

    2. O motivo que hoje nos congrega, e que é a repercussão na Igreja de Lisboa, das solenes celebrações de Roma, da criação dos novos Cardeais, situa-nos no âmago desta realidade da Igreja. Ela desvelou-se, perante o nosso olhar maravilhado, no esplendor da sua universalidade, ou seja, da sua catolicidade. O ministério do Papa, Sucessor do Apóstolo S. Pedro, é garantia decisiva dessa unidade, na diversidade da universalidade, unidade da fé e da caridade, que o mesmo é dizer, unidade da verdade fundamental, fonte de inspiração ética para os caminhos de afirmação da dignidade do homem e da vida.

    Fomos agregados ao Papa, no exercício deste ministério da unidade, na experiência da universalidade. Chamou-nos, carinhosamente, "os primeiros colaboradores do ministério da unidade do Romano Pontífice", e mais formalmente afirmou-nos: "o vosso serviço à Igreja exprime-se em prestar ao Sucessor de Pedro a vossa assistência e colaboração, para aliviar a fadiga de um ministério que se estende até aos confins da terra. Em conjunto com Ele (Sucessor de Pedro) deveis ser intrépidos defensores da verdade e guardiões do património da fé e de costumes que têm a sua origem no Evangelho. Sereis, assim, guias seguros para todos e, em primeiro lugar, para os presbíteros, as pessoas consagradas, os leigos comprometidos".

    Reside aqui a grandiosidade deste momento: na universalidade do serviço que me é pedido, em que serei acompanhado, assim o espero, por toda a Igreja de Lisboa. É maravilhosa esta universalidade da Igreja! E nós portugueses, que através da actividade missionária, estivemos na origem de tantas Igrejas irmãs nas diversas partes do mundo, somos particularmente sensíveis a este desafio da universalidade. A Igreja a que pertencemos e com a qual peregrinamos, não é só de Lisboa, não é apenas portuguesa ou europeia: é a experiência de universalidade mais solidamente afirmada, no mundo e na história. A sua universalidade afirma que a humanidade pode ser toda uma só família; a sua unidade é sinal de esperança para um mundo que sofre a violência da divisão. E como garantia dessa unidade, aí está Pedro, a rocha firme sobre a qual Cristo continua a edificar a sua Igreja. Pôr em questão esse ministério, é abrir as portas a todos os particularismos, é ficar mais frágil nessa corrida para a meta.

    3. Eis o horizonte que se nos abriu, a nós novos Cardeais da Igreja: associados ao ministério de Pedro, neste serviço apaixonante da construção da unidade, respeitando a pluralidade própria da universalidade. As cerimónias do recente Consistório, revelaram a forte componente de comunhão humana, na caridade, nesta associação ao ministério de Pedro. A densidade humana do encontro do Papa com cada um de nós, tornou-se visível através dos meios de comunicação. Muitos jornalistas e outras pessoas, têm-me interpelado querendo saber o conteúdo desse encontro pessoal com o Papa, olhos nos olhos. Pouco interessa o pormenor, para deixar ressaltar a intensidade de encontro inter-pessoal, na cumplicidade que entre nós gera Jesus Cristo e o amor pela sua Igreja. Ser associado ao ministério de Pedro é muito mais do que integrar uma estrutura; tem o calor da relação humana de caridade e fraternidade; ficámos mais unidos e corresponsáveis com esta pessoa concreta do Papa João Paulo II; a fidelidade que lhe jurámos, é a fidelidade do amor que nos reúne em Jesus Cristo.

    É por isso que aceitamos apaixonadamente o seu desafio de concretização deste ministério, no nosso mundo contemporâneo, neste Início de milénio: olhar o mundo com esperança, não desistindo de ler os "sinais dos tempos"; ser construtores da unidade, continuando a percorrer, persistentemente, os caminhos do diálogo e do ecumenismo; desenvolver e aprofundar uma espiritualidade de comunhão, mostrando à Igreja e ao mundo que não pode haver, nem dicotomias, nem rupturas, entre a verdade e o amor. O nosso Papa é uma grande testemunha da fé e de serviço da humanidade. Com Ele queremos ser testemunhas de Jesus Cristo e dar à Igreja e ao mundo o exemplo vivo de vidas feitas dom, completamente entregues à condução pastoral do nosso rebanho e ao serviço de todos os homens nossos irmãos. Queremos, com Ele, ser, ao mesmo tempo, os defensores intransigentes da verdade que recebemos do Senhor Jesus e o rosto da misericórdia para com todos os que sofrem, a pobreza e a miséria, a incompreensão e a injustiça, a solidão e a inquietação da consciência. Queremos ajudar esta Igreja, que está em Lisboa, a viver intensamente a experiência da universalidade.

        † JOSÉ, Cardeal Patriarca




 

MENSAGENS DE QUARESMA - 2001 *


 
Mensagem do Papa João Paulo II

    "A caridade não guarda rancor" (cf. 1Cor 13, 5)

    1. "Subamos a Jerusalém" (Mc 10, 33). Por estas palavras, o Senhor convida os discípulos a percorrerem com Ele o caminho que, da Galileia, conduz ao lugar onde se cumprirá a sua missão redentora. Este caminho em direcção a Jerusalém, que os evangelistas apresentam como a coroação do itinerário de Jesus na terra, constitui o modelo da vida do cristão decidido a seguir o Mestre no caminho da Cruz. Este convite a "subir a Jerusalém", Cristo dirige-o igualmente aos homens e mulheres de hoje. Dirige-o com particular intensidade na altura da Quaresma, tempo favorável para a conversão e para o reencontro da plena comunhão com Ele, participando intimamente no mistério da sua morte e ressurreição.

    Para os crentes, a Quaresma é, portanto, uma ocasião apropriada para se entregarem a uma profunda revisão de vida. No mundo contemporâneo, ao lado de generosas testemunhas do Evangelho, existem também baptizados que, diante do apelo a realizarem a "subida a Jerusalém", tomam uma atitude de surda resistência e mesmo, por vezes, de rebelião aberta. São situações nas quais a experiência da oração é vivida duma forma superficial, de tal modo que a palavra de Deus não tem consequências sobre a sua vida. Muitos são aqueles que não atribuem qualquer significado ao próprio sacramento da Penitência e que consideram a celebração eucarística dominical como mera obrigação a cumprir.

    Como acolher o convite que Jesus nos dirige, também, durante esta Quaresma? Como alcançar uma séria mudança de vida? Trata-se, antes de mais, de abrir o coração às mensagens que nos falam na Liturgia. O período de preparação para a Páscoa, representa um dom providencial do Senhor e uma possibilidade preciosa de nos aproximarmos d'Ele, entrando em nós mesmos e escutando as suas inspirações interiores.

    2. Há cristãos que pensam poder dispensar esta força espiritual constante, porque não se dão conta da urgência em se confrontarem com a verdade do Evangelho. Esforçam-se por esvaziar de sentido e tornar inofensivas, para que não se perturbe a sua forma de viver, palavras como estas: "Amai os vossos inimigos, fazem bem aos que vos odeiam" (Lc 6, 27). Palavras como estas são, aos olhos destas pessoas, muito difíceis de aceitar e de traduzir em comportamentos de vida coerentes. Na verdade, se tomarmos a sério estas palavras, elas exigem uma conversão radical. Pelo contrário, quando somos ofendidos e feridos, somos tentados a ceder aos mecanismos psicológicos de auto -comiseração e de vingança, ignorando o convite de Jesus a amar o nosso inimigo. No entanto, a vida humana quotidiana demonstra com a maior evidência, que não podemos renunciar ao perdão e à reconciliação, se queremos alcançar uma verdadeira renovação pessoal e social. Isto é válido para as relações interpessoais, bem como para as relações entre comunidades e nações.

    3. Os inumeráveis e trágicos conflitos que afligem a humanidade e que, por vezes, decorrem de motivos religiosos mal compreendidos, abriram fossos de ódio e violência entre os povos. O mesmo acontece, por vezes, entre grupos e facções no seio de uma mesma nação. Deste modo, acontece que assistimos com uma sensação dolorosa de impotência ao retomar de lutas que se pensava estarem definitivamente apaziguadas, e temos a sensação de que certos povos estão implicados numa espiral de violência sem fim, que continuará a fazer incontáveis vítimas, sem que exista a mínima perspectiva concreta de solução. E os votos de paz emitidos nos quatro cantos do mundo, revelam-se ineficazes: o compromisso necessário para chegar à concórdia desejada não consegue concretizar-se.

    Face a este cenário inquietante, os cristãos não podem permanecer indiferentes.. E é essa a razão pela qual, no decurso do Ano Jubilar que acaba de terminar, me fiz eco do pedido de perdão que a Igreja dirige a Deus pelos pecados dos seus filhos. Temos profunda consciência de que as faltas dos cristãos, infelizmente lhe obscureceram o seu rosto imaculado. Mas, confiantes no amor misericordioso de Deus que, na perspectiva do perdão não leva em conta o mal, sabemos também que é com confiança que incessantemente podemos retomar o caminho. O amor de Deus encontra, precisamente, a sua expressão mais elevada quando o homem, pecador e ingrato, é admitido a viver em plena comunhão com Ele. Nesta óptica, a "purificação da memória" constitui, antes de mais, a profissão renovada da misericórdia divina, profissão que a Igreja, aos seus diferentes níveis, é chamada a toda a hora a fazer sua com uma convicção redobrada.

    4. O perdão é o único caminho da paz. Aceitar e conceder o perdão torna possível que a relação entre os homens adquira uma qualidade nova, que se quebre a espiral do ódio e da vingança e que se desfaçam as cadeias do mal que aprisionam o coração dos inimigos. Para as nações em busca da reconciliação e para todos os que desejam uma coexistência pacífica entre os indivíduos e os povos, não existe outro caminho senão este: o perdão recebido e oferecido. Quanta riqueza de ensinamentos salutares contêm as palavras do Senhor: "Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos céus, que envia o sol sobre os maus e os bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos" (Mt 5, 44-45)! Amar aquele que nos ofendeu desarma o adversário e pode mesmo transformar um campo de batalha num lugar de cooperação solidária.

    Este é um desafio que diz respeito às pessoas mas também às comunidades, aos povos e à humanidade inteira. Diz respeito, de um modo especial, às famílias. Não é fácil converter-se ao perdão e à reconciliação. Reconciliar-se, pode já ser problemático quando, no início, se encontra a nossa própria falta. Se a falta vem do outro, reconciliar-se pode mesmo ser vivido como uma humilhação irrazoável. Para tal objectivo, um caminho de conversão interior é necessário; é necessária a coragem da humilde obediência ao mandamento do Senhor. A sua palavra não nos deixa em dúvida: não apenas aquele que dá aso à inimizade, mas também aquele que a sofre, deve procurar a reconciliação (cf. Mt 5, 23-24). O cristão deve também fazer as pazes sempre que se sinta vítima daquele que o ofendeu e magoou injustamente. O próprio Senhor assim o fez. Ele espera do discípulo que o siga, cooperando deste modo na redenção do seu irmão.

    Nos nossos dias, o perdão surge cada vez mais como uma dimensão necessária para uma renovação social autêntica e para a consolidação da paz no mundo. Ao anunciar o perdão e o amor dos inimigos, a Igreja tem consciência de introduzir no património espiritual da humanidade inteira, uma nova maneira de viver em relação com os outros, uma maneira laboriosa, sem dúvida, mas rica de esperança. Para o fazer, ela sabe que pode contar com a ajuda do Senhor que nunca abandona aqueles que a Ele recorrem nas dificuldades.

    5. "A caridade não guarda rancor" (cf. 1cor 13, 5). Nesta expressão da primeira Carta aos Coríntios, o Apóstolo Paulo recorda que o perdão é uma das formas mais elevadas do exercício da caridade. O tempo da Quaresma, é um tempo propício para melhor aprofundar o alcance desta verdade. Pelo sacramento da Reconciliação, o Pai dá-nos o seu perdão em Cristo e isso leva-nos a viver na caridade, considerando o outro não como um inimigo, mas como um irmão.

    Possa este tempo de penitência e de reconciliação encorajar os crentes a pensarem e agirem sob o signo de uma caridade autêntica, aberta a todas as dimensões do homem! Esta atitude interior conduzi-los-á a produzirem os frutos do Espírito (cf. Ga 5, 22) e a oferecer com um coração novo, uma ajuda material àqueles que sofrem necessidade. Um coração reconciliado com Deus e com o próximo, é um coração generoso. Durante os dias da santa Quaresma, a "colecta" tem um valor significativo, porque não se trata de dar o supérfluo para tranquilizar a consciência, mas de tomar a seu cargo com solicitude e solidariedade, a miséria presente no mundo. Considerar o rosto doloroso e as condições de sofrimento de tantos dos nossos irmãos e irmãs, leva-nos necessariamente a partilhar, pelo menos em parte, os nossos bens com aqueles que estão em dificuldade. E a oferta da Quaresma tem ainda mais valor quando aquele que a faz se libertou do ressentimento e da indiferença, obstáculos que o mantêm distanciado da comunhão com Deus e com os irmãos.

    O mundo espera dos cristãos um testemunho coerente de comunhão e de solidariedade. A este propósito, as palavras do Apóstolo João são particularmente reveladoras: "Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o coração, como estará nele o amor de Deus?" (1Jo 3, 17)

    Irmãos e Irmãs! Comentando o ensinamento do Senhor sobre a subida a Jerusalém, S. João Crisóstomo não deixa os seus discípulos na ignorância das lutas e sacrifícios que os esperam. Ele sublinha que é difícil renunciar ao nosso "eu", mas que não é impossível quando podemos contar com a ajuda de Deus que nos é dada "por intermédio da comunhão com a pessoa de Cristo" (Homilia sobre o Evangelho de Mateus, 65, 2. PG 58, 619).

    Eis por que razão, nesta Quaresma, eu desejo convidar todos os crentes a pedirem ao Senhor, com ardor e confiança, que conceda a cada um de nós a oportunidade de fazer uma nova experiência da sua misericórdia. Somente este dom será capaz de nos ajudar a acolher e a viver duma forma cada vez mais alegre e mais generosa, a caridade de Cristo que "não se irrita, não olha ao mal, não se alegra com a injustiça, mas que se alegra com a verdade" (cf. 1Cor 13, 5-6).

    Com estes sentimentos, invoco a protecção da Mãe de Misericórdia sobre a caminhada quaresmal de toda a comunidade dos crentes e, de todo o coração, dou a todos a Benção apostólica.

Vaticano, 7 de Janeiro de 2001
     JOANNES PAULUS II

* Tradução livre do original em Francês



 

Mensagem do Cardeal Patriarca de Lisboa

    1- A Quaresma, enquanto preparação intensa do mistério pascal, é sempre um tempo especial de graça e de conversão. A Quaresma deste ano tem de ser, necessariamente, a continuação do tempo jubilar. A Carta Apostólica "Novo Millenio Ineunte", do Santo Padre João Paulo II, poderá constituir o nosso guia, os seus desafios o nosso compromisso, as suas sugestões o nosso itinerário. Continuação da graça jubilar, a Quaresma deve ser tempo de conversão e de esforço de fidelidade.
    O grande desafio da Carta Apostólica é o da radicalidade evangélica, na fidelidade a Jesus Cristo, o aceitar a existência cristã como um peregrinar, cuja meta é a santidade. Diz-nos o Santo Padre que não nos podemos contentar com uma prática religiosa rotineira, com uma moralidade pouco exigente. Ser cristão é seguir Jesus como discípulos, abraçar com Ele, por amor, a exigência da cruz, na esperança de participar, com Ele, na plenitude de vida que a sua ressurreição inaugurou e de que recebemos já as primícias, na força do Espírito Santo, que nos conforta e fortalece. "Faz-te ao largo", é o desafio que a Carta Apostólica faz à Igreja. Sejamos exigentes e ousados nas metas que traçamos para a nossa vivência quaresmal.

    2- Contemplar o rosto de Cristo: um encontro mais profundo com o mistério de Jesus Cristo é o legado precioso do Grande Jubileu. O Santo Padre ao significar esta exigência da autenticidade cristã com o convite de contemplar o seu rosto, acentua a dimensão inter-pessoal da nossa relação com Ele. Cristo é uma pessoa viva, uma pessoa humana e divina, que nos conhece, nos ama e tem para todos nós um desígnio de amor. É possível fixar o seu olhar, escutar a sua Palavra, conhecê-Lo melhor numa intimidade amorosa, unir-se a Ele numa relação vital, viver com a autenticidade que nos sugere, oferecer, com Ele, a própria vida em acto de louvor a Deus Pai e em oferta sacrificial para a redenção do mundo.
    Quais são os caminhos quaresmais para este encontro mais profundo com Cristo? O primeiro, que engloba todos os outros, é o nosso baptismo. A Quaresma é um tempo particularmente baptismal, de preparação para os catecúmenos que se baptizarão na Páscoa, de revivência para todos os baptizados. O baptismo, na sua eficácia permanente, encerra uma graça própria de identificação com Cristo.

    2- Escutar a sua Palavra. A pedagogia da Quaresma é profundamente marcada pela escuta da Palavra. A sua Palavra é mensagem do próprio Deus, para toda a Igreja e para cada um de nós. Como nos fala, hoje, Jesus Cristo? Antes de mais através da Sagrada Escritura. Como diz o Santo Padre, "desconhecer a Escritura é desconhecer o próprio Cristo". Sejamos inventivos e generosos, encontrando modos de escutar e interiorizar a Palavra de Deus. Ela escuta-se e acolhe-se em oração, pois é uma atitude de um Deus que quer fazer comunhão connosco. A própria liturgia nos oferece os textos principais de um itinerário de salvação. Escutemo-la em comunidade, em grupo, em família, através do método da "lectio divina" e interiorizemo-la pessoalmente, no silêncio do nosso coração.

    3- O esforço da oração: a oração é o fruto e o ambiente da escuta da Palavra. É uma experiência constitutiva da seriedade da vida cristã. O Santo Padre avisa-nos de que um cristão que não reza, não é apenas um cristão medíocre, é um cristão em perigo. A oração é um exercício principal na vivência da Quaresma. É preciso dar prioridade à oração litúrgica comunitária. A Eucaristia é o momento mais importante da oração da Igreja, pois nela a oração de louvor a Deus, Trindade Santíssima, encontra a sua forma mais perfeita, pois a Igreja participa do próprio louvor de Jesus Cristo a Deus, seu Pai. Seria importante que as comunidade, as famílias, se habituassem a celebrar a liturgia das horas, sobretudo a oração de Laudes e de Vésperas.

    4- A conversão e a penitência: a Quaresma é um tempo de conversão, que há-de ser o fruto da oração e da escuta da Palavra. Converter-se é regressar ao Senhor, à sua intimidade, à obediência à sua vontade, à vida da graça que iniciámos no baptismo. É o regresso do filho pródigo, cuja caminhada continua na peregrinação do discípulo. O caminho da conversão é muito facilitado recorrendo ao Sacramento da Reconciliação, manifestação do amor misericordioso de Deus. Peço aos sacerdotes que se disponibilizem e valorizem pastoralmente a vivência deste sacramento, que sendo atitude individual e pessoal, é espiritualmente muito valorizado com a celebração comunitária da penitência. Na Carta Apostólica, o Santo Padre lembra-nos que a confissão individual é o meio habitual para obter o perdão dos pecados graves cometidos depois do baptismo. Na actual disciplina da Igreja acerca dos Sacramentos, não se pode considerar a absolvição geral, antes da confissão individual dos pecados, uma solução pastoral habitual. A sua prática excepcional deve obedecer às condições previstas no Código de Direito Canónico.
    A valorização pastoral deste sacramento depende muito da qualidade da oração e da escuta da Palavra de Deus. Ele é um acto de fé na bondade misericordiosa de Deus e no ministério da Igreja, enquanto mediadora da graça.

    5- Uma "nova fantasia" da caridade: a expressão de João Paulo II na Carta Apostólica. Desafio post-jubilar, deve ter uma intensidade especial na Quaresma. Façamos exame de consciência sobre a nossa generosidade e gratuidade no amor fraterno, de modo particular os pobres, as pessoas idosas a braços com os limites impostos pela idade, tantas vezes privadas de carinho e afecto, vivendo uma solidão que não nos pode passar despercebida. Tenhamos, este ano, uma atenção especial aos emigrantes que nos rodeiam. Sejamos, para eles, um testemunho acolhedor de caridade fraterna.

    6- Uma renúncia com sentido e destino. A partilha de bens materiais foi sempre uma expressão de "renúncia quaresmal", como afirmação de desprendimento e prioridade dada aos valores espirituais. A nossa Diocese tem já uma longa experiência de "renúncia quaresmal", habitualmente em favor de outras Igrejas mais pobres. Na Quaresma deste ano convido todos os cristãos da Diocese de Lisboa a serem generosos na renúncia, que se concretiza em partilha e oferta para a construção da "Casa de Espiritualidade Imaculado Coração de Maria", cuja construção se iniciará proximamente. É uma estrutura ao serviço da evangelização e do aprofundamento espiritual da vida cristã. A sua importância pastoral justifica que o destino da nossa partilha seja, este ano, uma obra da Diocese. Pelos frutos de autenticidade cristã que gerará, acabará por redundar em benefício de toda a Igreja.

    7- Subamos a Jerusalém: durante o Ano Jubilar saboreámos a beleza da peregrinação. Iniciemos a Quaresma como uma peregrinação, não já para um Santuário Jubilar, mas para a celebração pascal, onde, espiritualmente entraremos, com Cristo, no santuário definitivo, a que Ele preside como Pontífice da Nova Aliança.

      † † JOSÉ, Cardeal Patriarca