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“A Igreja na Cidade, sob o patrocínio de São Vicente”
Homilia proferida na
Solenidade de São Vicente,
Padroeiro Principal do
Patriarcado de Lisboa
Sé Patriarcal, 22 de Janeiro
de 2010
1. A Solenidade de São Vicente convida-nos a reflectir
sobre a presença da Igreja na Cidade, do seu compromisso em procurar, através
da sua missão específica, a construção de uma comunidade humana baseada na
verdade, na justiça e na fraternidade. A construção da cidade é tarefa de todos
os cidadãos, o que supõe o respeito pelas diferenças e a procura de
convergências em prol do bem-comum.
São Vicente abraça, na sua protecção, a Igreja e a
Cidade. A origem histórica da devoção dos habitantes de Lisboa a São Vicente,
pode ser inspiradora do presente. Estávamos no início da nacionalidade do
Portugal independente, depois da reconquista cristã. Conquistada Lisboa por D.
Afonso Henriques, com a ajuda decisiva dos cruzados, a população de Lisboa
sofre o abalo das grandes mudanças. Na Cidade coabitam muçulmanos, cristãos moçárabes,
judeus, e os cristãos ligados à cruzada que, vindos do Norte e de outros países
da Europa, se fixam em Lisboa. Os cristãos moçárabes são o grupo que mais sente
as convulsões da mudança. Eles eram, até aí, o rosto visível da Igreja presente
em Lisboa. Segundo o cronista, autor da Carta a Osbérnio, o seu Bispo foi
assassinado pelos cruzados. Olhados com desconfiança pelos muçulmanos, devido à
sua fé cristã, não reconhecidos pelos cristãos que vieram com a cruzada,
dispersam-se fugindo da Cidade e confiam no seu santo protector, São Vicente.
É, certamente, para lhes dar um sinal de apoio e confiança que D. Afonso
Henriques, com grande sabedoria, consegue trazer para Lisboa a relíquia do
Santo Mártir de Saragoça. É significativo que as comunidades que, ainda hoje,
têm São Vicente como Padroeiro, se situem na periferia de Lisboa, o que resta
dessas comunidades fugidas da confusão da Cidade: São Vicente de Fora, isto é,
fora das muralhas, Alcabideche, Vila Franca de Xira, Cercal nas faldas da Serra
do Montejunto. A devoção a São Vicente aparece como elemento protector e
congregador da nova Cidade, da nova comunidade humana a construir.
Sem tentar definir simplisticamente a Lisboa dos nossos
dias, a pluralidade dos seus habitantes e as suas diferenças exigem novas
forças aglutinadoras em volta de um projecto para Lisboa, digno da sua história
e capaz de construir, com os seus habitantes, uma verdadeira cidade de
prosperidade, de justiça e de paz. É nesse quadro que a Igreja se mostra
disponível e empenhada na construção da nossa Cidade, invocando, para os seus
problemas e projectos a protecção de São Vicente.
2. A participação da Igreja na construção da Cidade tem
de processar-se em convergência cooperante com outras instituições com
responsabilidade: os poderes políticos, de modo particular o poder autárquico,
a Santa Casa da Misericórdia, outras instituições da sociedade civil. Aliás o
princípio da cooperação entre a Igreja e os poderes públicos inspira a nova
Concordata, celebrada entre a Santa Sé e o Estado Português. Nessa participação
no bem-comum da Cidade, a Igreja está com os seus valores próprios: o dinamismo
do amor fraterno, que a leva a conceber a Cidade como comunidade, onde os mais
pobres e necessitados suscitam uma atenção privilegiada. Mas a Igreja está na
Cidade também com a sua verdade, a sua visão sobre o homem, sobre a dignidade
da vida, aberta à dimensão transcendente. Ninguém estranhará que, através da
Igreja, o amor solícito de Deus ganhe foros de cidadania.
Passo a referir alguns pontos concretos que desafiam o
compromisso cooperante de todos os intervenientes na construção da Cidade.
3. A recuperação e valorização do património artístico de
Lisboa. Recuperemos o rosto belo de Lisboa e poremos a claro um aspecto
fundamental da nossa Cidade. A beleza é para ser fruída e abrirá os espíritos
para a afirmação da prioridade da vida em todas as circunstâncias, mesmo as
mais difíceis. Só valorizando o seu património, Lisboa impedirá que se desfeie
a Cidade ao fazê-la crescer. A cidade do futuro tem de ser uma irradiação da
cidade histórica, marcada pela beleza. Todos juntos somos poucos para realizar
este objectivo.
4. A solidariedade com os mais pobres e necessitados,
para que nos alerta o “Ano Internacional da luta contra a pobreza”. Esta ganhou
expressões novas a acrescentar às que já conhecíamos. Urge conhecer, cada vez
melhor, o verdadeiro mapa da pobreza na Cidade. Todos conhecemos o volume e a
importância das instituições da Igreja nesta resposta à pobreza, nas quais se
concretiza, aliás, o princípio da cooperação entre a Igreja e o Estado. Mas
essa cooperação pode aprofundar-se, não apenas com o Ministério do Trabalho da
Solidariedade Social, mas com a Autarquia, com a Santa Casa da Misericórdia,
com outras instituições de solidariedade. Não deveríamos caminhar para um
organismo coordenador de todos estes intervenientes na luta contra a pobreza?
5. A pobreza, sobretudo as novas situações de
precariedade motivadas pela crise económica, atinge de modo particular as
famílias: o desemprego, o endividamento familiar, o custo da casa, as despesas
com a educação, a tendência para a baixa da natalidade. O apoio à família deve
empenhar-nos a todos com determinação renovada. Não se salvará a Cidade se não
se salvar a família.
Mas aqui está um ponto em que a Igreja, no seu empenho a
favor da família, só pode estar com a sua verdade, porque está consciente de
que ajudar a família é, antes de mais, respeitá-la na sua dignidade e na sua
natureza antropológica de instituição baseada no contrato entre um homem e uma
mulher, que origine uma comunidade específica, onde acontece a procriação e a
caminhada em conjunto na descoberta da vida.
O Projecto de Lei, recentemente votado na Assembleia da
República, em ordem a reconhecer que uniões entre pessoas do mesmo sexo são
casamento e fundam uma família, altera a dignidade da família natural, levará
ao enfraquecimento da sua auto-estima, e contribuirá para o enfraquecimento da
comunidade familiar. A Igreja nunca aceitará a equivalência ao casamento das
uniões entre pessoas do mesmo sexo, seja qual for o enquadramento legal que,
porventura, lhe venha a ser dado. Esta circunstância levar-nos-á a um
empenhamento renovado no apoio aos casais, valorizando a complementaridade e a
estabilidade dos esposos, em ordem à fidelidade e à harmonia, hoje, tantas
vezes ameaçadas pela cultura ambiente, que veicula a provisoriedade de tudo e a
dimensão consumista do próprio amor. A comunhão entre os esposos é bela, mas
não é fácil. Os católicos sabem que a fidelidade e a profundidade do seu amor
só é possível com a força de Deus, garantida no sacramento do matrimónio. E
nunca permitiremos em nenhuma expressão da nossa acção com famílias, que as
uniões de pessoas do mesmo sexo toldem a beleza e a verdade dos autênticos
casamentos.
6. E, finalmente, um acontecimento especial dinamizará a
Cidade de Lisboa: a visita do Papa Bento XVI. Muitas vezes, na sua história, a
Cidade de Lisboa peregrinou até Roma, para se encontrar com o Papa. Pela
terceira vez é o próprio Papa que visita Lisboa. Mas o sentido desses encontros
é fundamentalmente o mesmo: a profunda relação de Lisboa e de Portugal à Sé de
Pedro, dimensão fundacional da sua história. É uma visita que nos mobilizará a
todos: Igreja, Estado, Autarquia, Povo de Lisboa. Vamos recebê-lo naquela que é
a mais bela sala de visitas da Cidade: a Praça do Terreiro do Paço, onde a
Cidade e o Rio se abraçam num desafio comum: estar sempre disposto a partir
para ajudar, para anunciar, para sermos cidadãos do mundo; sempre de braços
abertos para acolher quem chega, para nos visitar, para se refugiar entre nós,
para connosco trabalhar. A Igreja é, por excelência, o lugar de intercâmbio
universal e o Papa é o seu sinal visível. Com ele, entre nós, escutando a sua
palavra, vamos certamente sentir-nos mais no coração do mundo.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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