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Homilia nas ordenações de diáconos
“É preciso purificar
a esperança”
Homilia no 1º
Domingo do Advento
Ordenações de
Diáconos
Mosteiro dos
Jerónimos, 29 de Novembro de 2009
1.
O Advento é, espiritual e culturalmente, tempo de esperança, de anúncio da
esperança. Mais uma vez a Igreja, através da Liturgia e da Palavra de Deus que
ilumina toda a realidade humana, vai anunciar a esperança. E a nossa sociedade
bem precisa desse anúncio, para reencontrar o sentido da vida e da sua
identidade cultural. A crise económica e as dificuldades reais, por vezes
dramáticas, sentidas hoje por muitos portugueses, desloca facilmente os
objectivos da esperança; a sensação, veiculada pela comunicação social, da
corrupção generalizada, mina a confiança na sociedade e faz brotar um clamor
profundo pela justiça; a discussão pública, agora em curso, sobre possíveis
decisões que ferem a dignidade da família, na sua base antropológica e na sua
solidez institucional leva a substituir as posições solidamente assentes em
valores perenes de ordem espiritual e moral, pelo calor apaixonado da
discussão. Tudo isto leva a interrogar-nos sobre o modo de anunciar a esperança
aos portugueses, perceber o que esperam, ou seja, quais são os conteúdos da esperança.
Segundo a Palavra de Deus, a natureza profunda da esperança é esperar por
alguém, que promova a justiça, nos sirva com generosidade, seja o obreiro de
uma sociedade mais justa e mais fraterna. Em termos bíblicos, leva-nos a
esperar um Salvador.
2. A palavra Advento significa
chegada, vinda próxima. A esperança é o desejo dessa chegada, o anseio por um
encontro. Para o Povo de Israel esse desejado, que restabelecerá a justiça, é o
Messias. Todos os profetas são unânimes no seu anúncio: Ele está próximo. Ele
estabelecerá a justiça, realizando o ideal de Israel como Povo. “Naqueles dias,
naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justiça que exercerá o
direito e a justiça em Israel” (Is. 33,14-16).
Os cristãos identificaram em Jesus
de Nazaré esse Messias esperado. Acreditar em Jesus gera a alegria mobilizadora
de um encontro esperado. Nele sente-se a certeza consoladora de que Deus não
abandonou o seu Povo, que vem ao seu encontro para o salvar. Pela sua Palavra;
porque venceu a morte na ressurreição, cujo dinamismo começou no dom generoso
da sua vida, por amor; na comunicação do seu Espírito, força recriadora, Jesus
tornou realidade presente a salvação, iniciou um homem novo e uma nova criação.
Mas é tão lenta esta transformação qualitativa da realidade humana. Haverá um
dia porém em que a glória do Messias, príncipe da paz e da justiça, será clara
e definitiva: “Então hão-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande
poder e glória” (Lc. 21,27).
Parece que os cristãos da primeira
geração desejaram ardentemente esta vinda definitiva, a manifestação da glória
do Messias, que seria a inauguração da sociedade definitivamente perfeita,
talvez na impaciência de restaurar para sempre a justiça, e com a dificuldade
de aceitar que esta nova ordem é lenta, tem o ritmo de uma semente lançada à
terra, a germinar teimosamente no meio dos espinhos da história. A Igreja
percebeu, no seu longo caminhar, que essa ordem nova se vai construindo desde
já, umas vezes de forma visível, outras menos, reconhecida e aplaudida em
certos momentos, negada e combatida noutros; a Igreja percebeu e acreditou que
era possível realizar esse encontro com Cristo no realismo do presente
histórico. Quem não deseja encontrá-l’O já, acaba por não ser capaz de desejar
esse encontro definitivo na manifestação da glória do Filho do Homem.
É preciso purificar a esperança. E a
interrogação que nos lança este tempo litúrgico dirige-se particularmente aos
cristãos: desejamos verdadeiramente esse encontro com Cristo? Estamos
conscientes de que esse encontro é possível já, na riqueza sacramental da
Igreja, no realismo da caridade e da comunhão fraterna? Se não desejarmos esse
encontro já, dificilmente desejaremos com verdade a sua última manifestação.
3. Os cristãos que desejam e
procuram esse encontro tornam-se artífices da construção de um mundo novo. Se
não formos capazes de transpor para o nosso viver em sociedade esta novidade
cristã, não percebemos a densidade da esperança. Era já essa a pregação do
Apóstolo Paulo: “O Senhor confirme os vossos corações numa santidade
irrepreensível”; “deveis progredir sempre mais”, nesta novidade da vida cristã
(cf. 1Tess. 3,12-4,2).
Este crescimento na sociedade dos
homens, deste reino de justiça, inaugurado na Páscoa de Jesus, acontece com a
força do Espírito Santo, mas exprime-se nos actores da transformação da
sociedade. Os cristãos devem agir e reagir com a luz e a força do encontro com
Cristo, quer no mistério da sua Pessoa, quer na pessoa dos nossos irmãos, com
quem Ele se quis identificar. Se vivermos com o Senhor, desse encontro brota
uma luz que aponta o caminho da verdade e da justiça e uma força que nos fará
lutar por uma sociedade mais justa e mais fraterna. Uma manifestação da
infidelidade dos cristãos, talvez a mais grave, é eles estarem no mundo e não
exprimirem na sua acção e reacção, a luz e a força desse encontro. São
cristãos, mas estão no concreto da vida com os critérios culturais profanos: na
cultura ambiente, na circunstância política ou ideológica, nos triunfos e
revezes da economia. Não se lhes pode aplicar a frase de Jesus: “Vós sois a luz
do mundo”.
O desafio do Advento é o de sermos
capazes de reduzir tudo o que esperamos e desejamos, ao encontro com quem
esperamos e desejamos. Encontremo-l’O, encontremo-nos mais profundamente uns
aos outros, e estaremos a purificar a esperança.
4. Queridos Ordinandos! Estais aqui
porque o Senhor veio ao vosso encontro, chamando-vos, e vós aceitastes o
desafio desse encontro, dizendo sim ao chamamento. Esse desejo de encontro
convosco é, da parte do Senhor, válido para a eternidade. Esse é o verdadeiro
fundamento da nossa esperança de encontrarmos o Senhor, na certeza de que Ele
vem continuamente ao nosso encontro e o deseja ardentemente. A nossa fidelidade
consiste em querermos também responder a essa vontade de Deus, em Jesus Cristo.
O ministério a que sois chamados
será a mais concreta e objectiva resposta da vossa fidelidade. Hoje, sois
consagrados para o ministério dos diáconos, em que o anúncio sincero da Palavra
de Deus e a prática da caridade se revelam como propostas contínuas do encontro
de Deus com o Seu Povo, mostrando-nos que no amor fraterno se encontra o
próprio Senhor. Mas recebeis o ministério diaconal na perspectiva de, a curto
prazo, serdes ordenados sacerdotes. Então, como sacramentos de Cristo, estareis
no âmago do grande e mais radical encontro de Cristo com o Seu Povo e com cada
crente, a Eucaristia. Ela é o lugar certo desse encontro com garantias de
eternidade e, por isso, a exigência contínua da purificação da esperança. É aí
que tornamos possível viver a nossa vida obedecendo à Palavra de Jesus que hoje
escutámos no Evangelho: “Vigiai e orai em todo o tempo, para terdes a força que
vos livra de tudo o que vai acontecer e poderdes estar firmes na presença do
Filho do Homem” (Lc. 21,36).
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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