HOMILIA DO CARDEAL-PATRIARCA na Dedicação da Sé 2009
“A Catedral é sinal visível da Igreja Particular como Povo Sacerdotal”
Homilia na Solenidade da Dedicação da Sé Patriarcal
Sé Patriarcal, 25 de Outubro de 2009
1. Nesta celebração da Dedicação da nossa Catedral, a Palavra de Deus
proclamada apresenta-nos a Igreja, na beleza do seu mistério, cidade
nova, ou seja, nova experiência de humanidade, fruto fecundo da Páscoa
de Jesus. Ela tem a dignidade de Cristo ressuscitado, é apresentada
como a “esposa do Cordeiro”, na sua beleza brilha a glória do próprio
Deus. A Igreja não é só um Povo que louva o Senhor; na sua realidade
humana resplandece a própria glória de Deus.
A
Igreja é-nos apresentada como cidade fortificada. Jesus tinha prometido
a Pedro: “as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela (Mt.
16,18). A garantia dessa solidez são os seus fundamentos: Cristo como
pedra angular, os Apóstolos de Jesus como colunas: “Vou pôr em Sião uma
pedra angular, escolhida e preciosa e quem nela puser a sua confiança
não será confundido” (1Pet. 2,6); “A muralha da cidade tinha na base
doze reforços salientes e neles doze nomes: os dos doze Apóstolos do
Cordeiro” (Apoc. 21,14). Estes dois textos dizem-nos que a solidez da
Igreja assenta na perenidade da Páscoa de Cristo e na sucessão
apostólica. Aliás, a apostolicidade da Igreja é a primeira expressão de
Cristo morto e ressuscitado. É por isso que a verdadeira Igreja de
Jesus Cristo será sempre a Igreja apostólica.
A
Catedral é um sinal vivo da apostolicidade da Igreja diocesana, assente
na solidez do ministério do Bispo, sucessor dos Apóstolos do Cordeiro.
Durante este Ano Pastoral, teremos a graça de sentir ao vivo e de um
modo mais forte, esta apostolicidade da Igreja com a visita pastoral do
Sucessor de Pedro, Sua Santidade Bento XVI, à Igreja de Lisboa. Só na
comunhão com Pedro, o vosso Bispo é garantia dessa solidez da Igreja
diocesana, que, por isso mesmo se afirma e define como comunhão
universal com todas as Igrejas católicas do mundo. O Santo Padre
reavivará em nós o que procuramos e desejamos todos os dias: a unidade
na verdade, a universalidade da caridade, a urgência da missão. O
anúncio do Evangelho aos nossos concidadãos, com o ardor dos apóstolos
de Jesus, é uma urgência e uma exigência da missão da Igreja no tempo
presente.
2. A Catedral evoca, para nós, o
mistério do templo, não apenas, nem sobretudo, do templo material,
aliás cheio de história e carregado de mensagem em cada uma das suas
pedras, mas do templo como experiência de encontro e de comunhão com
Deus, presente no meio do Seu Povo, na pessoa do seu Filho Jesus
Cristo, nosso Bom Pastor. A Igreja é o lugar do encontro e da
intimidade com Deus, porque é o lugar de encontro com Jesus Cristo,
onde, com a força do Espírito, se renasce para a vida. E é essa
experiência de encontro que o templo significa e anuncia. Aí se pode
encontrar o Senhor, escutar sempre de novo a Sua Palavra, deixar que
nos transforme o coração, aprender a desejar a plenitude da comunhão. A
fecundidade da Igreja é sacramental. A Catedral é o lugar da afirmação
mais pujante da riqueza sacramental da Igreja; evocá-la é escutar o
desafio lançado a toda a Igreja, pelo Santo Padre, com o Ano Sacerdotal.
A Igreja é sacerdotal na profundidade do seu existir, da sua vocação e
da sua missão. Nela, exprime-se continuamente o amor infinito de Deus
pelos homens, manifestado radical e definitivamente em Jesus Cristo. A
Igreja é fruto contínuo da fecundidade renovadora da Páscoa de Cristo,
através da acção criadora do Espírito Santo. Em toda a fecundidade da
sua Palavra e da sua Páscoa, Cristo é Sacerdote, o único sacerdote.
Todos os que se unem a Ele na consagração baptismal ou na consagração
para o ministério sacerdotal, participam do seu sacerdócio. A igreja é
o fruto precioso dessa fecundidade sacerdotal. É bom recordar a maneira
como o Concílio define a Diocese ou Igreja Particular (cf. C.D. nº11):
é uma porção do Povo de Deus, quer dizer, não é a Igreja toda, mas é o
todo da Igreja, pois nela acontece a plenitude da Igreja. E isto porque
é confiada a um Bispo, sucessor dos Apóstolos, para que seja o seu
Pastor, e que exerce esse sacerdócio apostólico em comunhão com os
presbíteros a quem impôs as mãos. São muitos os sacerdotes, mas é só um
o ministério pastoral, como sacramento de Cristo Bom Pastor. Pontos
centrais desse ministério pastoral são a construção da Igreja comunhão,
porque reunida no Espírito Santo, o anúncio do Evangelho e a celebração
da Eucaristia. A Catedral é o anúncio e desafio desse ministério
pastoral do Bispo, com o seu presbitério, pois ela sublinha a
prioridade do Evangelho, a centralidade da Eucaristia, a beleza de uma
Igreja unida em comunhão.
3. Cristo exerce
continuamente o seu poder sacerdotal através do sacerdócio apostólico,
para que toda a Igreja seja Povo Sacerdotal. O Apóstolo Pedro lembra-o
aos cristãos da primeira geração: “Aproximai-vos do Senhor, que é a
pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos
de Deus. E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção deste
templo espiritual, para constituirdes um sacerdócio santo, destinado a
oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo”
(1Pet. 2,4-5). Jesus já anunciara à samaritana que esse culto
espiritual, liturgia discreta nos sinais físicos e densa da atitude
interior dos crentes, é o que agrada a Deus e é o culto do futuro (cf.
Jo. 4,23-24). Para que toda a Igreja, Povo Sacerdotal, possa oferecer
esse culto a Deus, precisa do sacerdócio ministerial, que actualiza, em
cada momento, o próprio sacerdócio de Jesus Cristo. Nem o Povo de Deus,
Igreja do Senhor, pode oferecer esse culto novo sem a mediação
sacramental do sacerdócio apostólico, nem este tem razão de ser, se não
for a edificação permanente do Povo Sacerdotal, tornando-o capaz de
oferecer a Deus esse culto espiritual. Ao convidar a Igreja para uma
descoberta mais profunda do sacerdócio ministerial, o Papa convida a
Igreja para uma meditação sobre o seu próprio mistério de identificação
total com Jesus Cristo, sacerdote perfeito e pontífice da Nova Aliança.
A Catedral, como Igreja Mãe, sinal visível da comunhão da Igreja
diocesana, desafia-nos a todos a encarnar a urgência do anúncio do
Evangelho e a fazer da Eucaristia o centro do ser e da missão da
Igreja. É nesta Igreja que está a cátedra do Bispo, sucessor dos
Apóstolos, e o altar maior, que se prolonga em todos os altares onde as
nossas comunidades oferecem a Deus o culto espiritual, que é louvor
digno da santidade de Deus e sacrifício redentor para todos nós,
peregrinos da Pátria Celeste, que precisamos de merecer a graça da
redenção.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca