“A urgência da evangelização da sociedade
convida-nos a viver esta Quaresma como uma «peregrinação interior»”
1. O Santo Padre, na sua Mensagem
para a Quaresma, convida-nos a uma “peregrinação interior”, caminho
espiritual que nos conduzirá à Páscoa, e um dos tópicos que sugere é uma
reflexão sobre os modelos de desenvolvimento, que tanto condicionam a dimensão
ética das sociedades em que vivemos. Reflectir sobre os modelos de
desenvolvimento é, no fundo, exercitar a nossa consciência crítica sobre a
sociedade e o papel profético dos cristãos em ordem à sua humanização. Somos
assim convidados a viver esta Quaresma na continuidade dos desafios da nova
evangelização, conscientes da missão dos cristãos na cidade. A coerência da
nossa vida com Cristo morto e ressuscitado, que celebramos na Eucaristia, é a
luz que ilumina toda a realidade, e que rasga, na complexidade da sociedade
contemporânea, sulcos de dignidade e de esperança.
A Igreja não protagoniza um modelo
concreto de organização da sociedade, mas a sua visão do homem, em comunidade,
pode influenciar, positivamente, qualquer modelo de sociedade. A conversão
pessoal dos cristãos aos valores evangélicos tem particular importância na
construção positiva de uma vida social digna do homem. Só as pessoas se podem
converter ou deixar-se corromper, arrastando consigo o destino da comunidade. A
alteração dos males de que enferma a nossa sociedade, tais como as injustiças,
os egoísmos e a corrupção, o alheamento do bem-comum e a abdicação dos valores
éticos que são os alicerces da dignidade humana, só se corrigem se as pessoas se
converterem e aprofundarem os dados positivos da verdade, da justiça, da
generosidade na solidariedade, do amor fraterno. A celebração da Páscoa é a
maior força de conversão que surgiu na história, capaz de nos mobilizar e atrair
para essa peregrinação interior.
2. Trata-se de uma peregrinação.
O peregrino é aquele que, num determinado momento da vida, tempo de procura, de
inquietação, de desejo e atracção, se põe a caminho em busca de uma nova verdade
de si mesmo. A peregrinação envolve a pessoa toda, o passado, o presente e o
futuro, a racionalidade, os sentimentos e a busca da beleza. Supõe uma atitude
humilde e confiante, de quem volta a acreditar na vida, porque a procura numa
nova síntese. É atitude desprendida, que supõe austeridade e mesmo penitência.
Peregrinar é aceitar contentar-se, durante um tempo, com o estritamente
necessário. O peregrino é atraído por uma força interior e conduzido por uma luz
superior. A peregrinação gera a harmonia da tranquilidade e da paz. Nesta
Quaresma esta luz só pode ser a de Cristo ressuscitado, a apontar os caminhos da
salvação.
3. É uma peregrinação interior.
Todas estas atitudes só têm lugar no coração do homem, onde se afirma e define o
carácter único de cada um na sua relação com Deus. Situa-se no âmbito da nossa
intimidade insondável, que só Deus conhece e fortalece, onde o mais recôndito da
nossa consciência e da nossa história ganha um ritmo novo, o da abertura à
surpreendente verdade de Deus. O peregrino é sempre um solitário, apenas
acessível ao olhar de Deus, mesmo quando caminha em comunidade. A própria
partilha com os irmãos desse seu itinerário interior, o que gera a comunhão
fraterna, não anula de forma nenhuma esse face a face com Deus, o único que lê o
nosso coração. Mesmo no sacramento da reconciliação, graça com que Deus
fortalece os peregrinos, não se quebra o mistério deste a sós com Deus. Aí mesmo
abrindo o coração a um irmão, o sacerdote, este escuta em nome de Deus e não
quebra, antes acentua, essa exclusividade do diálogo interior com o Senhor. A
peregrinação interior é um caminho de conversão, de revisão do exercício da
liberdade, de mudança de critérios e de ordens de valores, todos inspirados no
ideal cristão da santidade.
4. A peregrinação não é uma fuga
das realidades concretas do dia a dia. É antes um retomá-las todas à luz da
Páscoa de Cristo. O rosto visível da nossa sociedade está marcado por visões da
realidade que se afastam do ideal cristão de vida e, por vezes, agridem a
própria verdade da Natureza. Perante esse ambiente naturalista e materialista,
onde nem sequer o carácter sagrado da vida humana é respeitado, onde a
sexualidade se desligou do amor, onde a família é agredida e enfraquecida, onde
o dinheiro se tornou rei, onde a verdade foi reduzida às vantagens pragmáticas
de cada circunstância, onde se adivinha a ameaça de algumas leis deixarem de
exprimir a verdade moral da Natureza, o cristão é convidado a esta peregrinação
interior, de purificação da consciência e da mentalidade, revendo a atitude
pessoal perante todas estas realidades. Nunca, como hoje, a purificação da
liberdade se tornou decisiva, porque a reacção transformadora ao amoralismo de
certos traços da sociedade, só pode vir de homens e mulheres livres, que
assumem, com verdade, a responsabilidade da sua liberdade. Nesta peregrinação da
Quaresma ecoa, a orientar-nos, a palavra do Apóstolo Paulo: “foi para a
liberdade que Cristo nos libertou” (Gal. 5,1).
5.
Nesta meditação sobre a civilização que estamos a construir, sobre o modelo de
desenvolvimento, diz o Santo Padre na sua Mensagem, está em questão o modelo de
felicidade por que ansiamos e queremos construir. Onde está a nossa felicidade?
O que é que nos fará felizes? São perguntas que todos aqueles e aquelas que não
desistiram de viver não podem deixar de se pôr. Jesus, no Sermão da Montanha, no
discurso das bem-aventuranças, indicou-nos o caminho onde cada um pode encontrar
a resposta. E na sua Carta Encíclica, “Deus é amor”, Bento XVI diz-nos
corajosamente que só pelo caminho do amor encontraremos uma resposta a todas as
interrogações, resolvemos todos os enigmas e envolvemos todas as manifestações
reais de vidas concretas. E o amor será sempre mais gesto do que afirmação. Só
quem arrisca exprimi-lo em atitudes, aprende a amar.
6. Nesta peregrinação seremos
iluminados pela Palavra de Deus e pela palavra da Igreja. Só pode ser um
peregrinar ao ritmo da Liturgia, iluminada, ela própria, pela Palavra da Igreja.
Como de costume, em todos os Domingos da Quaresma, farei, na Sé, uma catequese
quaresmal. Escolhi como tema geral para estas catequeses a afirmação de Paulo na
Carta aos Romanos: “A Caridade é a plenitude da Lei” (Rom. 13,10). Isso
levar-nos-á a uma meditação sobre a Lei de Deus, referência fundamental para
esta peregrinação interior dos cristãos, no contexto concreto da sociedade em
que vivemos e que nós queremos iluminar com a luz de Cristo. Anuncio já os temas
de cada Domingo da Quaresma:
1º Domingo:
A Lei de Deus e as leis dos homens
2º Domingo:
Um único mandamento: amar a Deus e ao próximo
3º Domingo:
A fantasia da caridade: evangelização e predilecção pelos pobres
4º Domingo:
Honra Pai e Mãe: a Família, comunidade de amor. Do “eros” à
caridade
5º Domingo:
Não matarás. Religião e culturas na promoção da vida
Domingos de Ramos:
A verdade é a base indispensável do amor
7. Respondendo ao desafio concreto
da Encíclica que nos convida a dar prioridade ao amor nesta peregrinação de
revisão de vida, ganha um sentido novo a nossa tradicional partilha, sob a forma
de “Renúncia Quaresmal”.
Como habitualmente, e agora motivados pela Carta
Encíclica de Sua Santidade o Papa Bento XVI, “Deus Caritas est”, os
cristãos da Diocese de Lisboa são convidados a renunciarem a parte do que têm,
em favor de outras Igrejas mais pobres. A “Renúncia Quaresmal” de 2005
destinou-se à constituição de um fundo diocesano de ajuda inter-eclesial, que
permita à Diocese de Lisboa atender os numerosos pedidos de ajuda que chegam um
pouco de todo o mundo. Dessa renúncia de 2005 receberam-se, até a este momento,
242.987 €. Está já nomeado um grupo de trabalho para analisar os diversos
pedidos que, entretanto, se foram amontoando.
Não havendo nenhum pedido que
justifique ser destinatário único da “Renúncia” de 2006, vamos mantê-la
no mesmo quadro de reforço do “Fundo Diocesano de Ajuda Inter-Eclesial”.
Posso, no entanto, indicar algumas necessidades das Igrejas, dificilmente
contempláveis com a verba até agora reunida, e que estarão nas nossas
prioridades: a construção da Maternidade-Escola em Dili (Timor), agora em
processo rápido de construção civil e já em preparação dos projectos de
equipamento; ajuda à nova Diocese do Mindelo (Cabo-Verde); ajuda à Diocese de
Palai (Índia), que está a ajudar a Diocese de Lisboa com o envio de sacerdotes
(esperamos mais dois este ano) etc.
Lembro, também, que por decisão da
Conferência Episcopal, as dioceses contribuirão em 5% das “Renúncias
Quaresmais” para o “Fundo de Apoio Inter-Eclesial” da própria
Conferência Episcopal, onde também chegam muitos pedidos de ajuda.
Acolhamos o desafio do Santo Padre,
que nos convida a partilhar com os pobres do mundo, sejam eles quais forem e
estejam onde estiverem, pois, segundo as suas próprias palavras, vivendo do
amor, faremos entrar a luz de Deus no mundo.
8. A verdade da nossa celebração
pascal dependerá, este ano, da sinceridade e decisão desta peregrinação
interior. A força de Deus, através da Palavra e dos Sacramentos, será a nossa
luz. Peregrinar é sempre ir ao encontro da luz.
Lisboa, 2 de Fevereiro de 2006,
Festa da Apresentação do Senhor.
†
JOSÉ, Cardeal-Patriarca