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Homilia DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS
“A
Quaresma é, para a Igreja, um tempo de verdade e de graça”
Sé
Patriarcal, 1 de Março de 2006
1. Iniciamos, hoje, mais uma Quaresma, a
primeira depois daqueles dias tão belos e tão repletos de um novo entusiasmo,
que foi o Congresso para a Nova Evangelização. Para mim, como cristão e como
vosso Bispo, este é um tempo de esperança e de temor. A esperança de que seja um
tempo de renovação espiritual para a nossa Igreja diocesana, tempo de conversão
e de fidelidade, tornando-a mais profundamente Povo do Senhor. Mas o receio de
que seja apenas mais uma Quaresma, que corre veloz com a velocidade do tempo,
sem pararmos para confrontar toda a nossa vida com Deus e com a Páscoa do Seu
Filho Jesus Cristo. Receio que a Páscoa nos surpreenda na rotina da nossa vida.
Que não tomemos a sério a advertência do Apóstolo Paulo: “Este é o tempo
favorável, este é o dia da salvação” (2Cor. 6,2).
Que significado tem a Quaresma no
contexto da nossa sociedade contemporânea, onde muitos não acreditam em Deus,
onde, mesmo muitos cristãos, não cultivam a fé como relação viva e confiante com
Ele, onde a Sua Palavra não é luz que ilumina a vida, onde a Sua Lei não
interpela a liberdade, onde a doutrina da Igreja é pura sugestão? A Quaresma é,
para a Igreja, um momento de verdade, de se assumir como “resto fiel”,
Povo que o Senhor escolheu e conduz. É tempo para assumirmos corajosamente a
nossa diferença, no mundo em que vivemos: diferença na fé, nas motivações e nos
critérios. É tempo de penetrar no desígnio de Deus a nosso respeito, de
percebermos que Ele tem uma vontade para o Seu Povo, onde revela os caminhos da
vida e que nos fortalece, com o Seu Espírito, para os podermos percorrer.
Tomemos consciência de que a Quaresma tem de ser, para nós, tempo de
discernimento e de fidelidade.
2. A primeira interpelação da
Quaresma é a de tomarmos Deus mais a sério. É o grito, em tom dramático, do
Profeta Joel: “Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e
lamentações. Rasgai o vosso coração, não os vossos vestidos. Convertei-vos ao
Senhor vosso Deus” (Jl. 2,12-13). E São Paulo, em tom igualmente sério, escreve
aos Coríntios: “Nós vos pedimos, em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus”
(2Cor. 5,20). Se nós, os cristãos, não acolhemos estes apelos, quem os há-de
ouvir?
Este é o maior problema espiritual,
com consequências morais, da nossa cultura contemporânea: relativizou-se Deus.
Está na moda fazer profissão de fé de agnosticismo; o homem, considerado como
individuo e não como pessoa, necessariamente comprometido com uma comunidade,
tornou-se o único critério de verdade e de discernimento ético; Deus deixou de
ter lugar na história. Apesar do apregoado respeito pelas religiões e pela fé de
quem acredita, alguns não hesitam em brincar com o sagrado; chegou-se mesmo a
apregoar, em nome da liberdade, o direito à blasfémia. Fiquem sabendo que para
nós que buscamos o rosto de Deus e procuramos viver a vida em diálogo com Ele,
isso nos indigna e magoa, porque temos gravado no nosso coração aquele
mandamento primordial: “não invocarás o Santo Nome de Deus em vão”. Como afirmou
um prestigiado colunista, que aliás se confessa descrente, com o sagrado não se
brinca. O respeito pelo sagrado é algo que a cultura não pode pôr em questão,
mesmo em nome da liberdade. A todos esses que sentem não acreditar em Deus, eu
digo em nome do povo crente: a vossa dificuldade em acreditar em Deus, não toca
na realidade insofismável de Deus. Nós respeitamos a vossa descrença, e não
hesitamos em dar-vos as mãos em todas as lutas pelo bem e por causas justas. Mas
respeitai a nossa fé, mesmo no exercício da vossa liberdade; sobretudo respeitai
Deus em quem acreditamos.
Mas o grande desafio da Palavra da
Eucaristia é dirigido a nós, os crentes: convertei-vos ao Senhor, nosso Deus,
tomai Deus mais a sério, como o fez Jesus Cristo, que em solidariedade com toda
a humanidade, obedeceu a Deus, Seu Pai, até à morte e morte na Cruz.
A primeira manifestação desse
“tomar Deus a sério”, é redescobrir a Sua Lei, a santa Lei de Deus. Ele tem
uma vontade a nosso respeito, que é um desígnio de amor, que nos revela pela Sua
Palavra. A Lei de Deus é revelação e chamamento e o exercício da nossa liberdade
só pode ser uma obediência a essa Palavra. Esse caminho de obediência é difícil
e exigente, mas é possível com a força do Seu amor. Só Deus torna possível a
nossa fidelidade, vivendo a vida segundo a Sua vontade, percorrendo os caminhos
do Seu desígnio.
Isto exige de nós, os cristãos, que
completemos a lógica da natureza com a lógica da graça. Com que facilidade
deixamos reduzir o nosso ideal de vida à ordem natural, contentando-nos com o
que a natureza oferece. Os dons da Natureza são apenas o anúncio de uma
plenitude definitiva, que é como uma segunda criação, um “nascer de novo”,
cujo horizonte de plenitude ultrapassa a felicidade que naturalmente podemos
desejar e realizar. E esse novo horizonte de vida é-nos revelado por Deus, em
Jesus Cristo, que o inaugurou na Sua Páscoa, tornando-se as “primícias”
do homem futuro e do futuro do homem.
Este horizonte da graça não anula a
natureza, antes a liberta do risco de ficar prisioneira da sua finitude e
fragilidade e revela-lhe o esplendor da árvore de que ela é apenas a semente.
A Quaresma é um tempo em que somos
chamados a viver ao ritmo da graça, recorrendo a todas as ajudas que, para isso,
Deus nos dá, por Jesus Cristo, através da força sacramental da Igreja. Não
tenhamos ilusões: muitas das fragilidades dos cristãos devem-se ao facto de
reduzirem a sua vida à ordem da natureza, esquecendo que a rectidão natural,
mesmo que se consiga, não é ainda a santidade.
3. Este naturalismo como perspectiva
de vida é a principal causa e, porventura, expressão dos nossos pecados. É assim
no amor, na busca da verdade que inspira os critérios morais e o sentido da
vida; é assim num individualismo autista, que nos corta da densidade de
corresponsabilidade com os outros; é assim na ganância e na indisponibilidade
para a partilha; é assim na busca do rosto de Deus, glorificando-o com a nossa
vida e experimentando a comunhão com Ele na oração.
A Quaresma contém uma forte
interpelação à conversão, o que significa aceitar os nossos pecados e a
confiança na misericórdia transformadora de Deus. Não tenhamos ilusões, irmãos:
somos todos pecadores e talvez o nosso principal drama seja o já não
identificarmos os nossos pecados, no concreto da nossa vida. E essa situação só
mudará, se nos convertermos ao Deus Vivo e voltarmos a amar a Sua Lei. A
conversão é uma experiência de realismo e de confiança: realismo de quem
reconhece o seu pecado, confiança na infinita misericórdia de Deus: “Ele é
clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos
que promete” (Jl. 2,13).
4. A caminhada da Quaresma não pode
ser só individual. Os caminhos da conversão devem ser percorridos em Igreja e
pela Igreja. A conversão do Seu Povo é o grande desejo de Deus, pois só isso não
tornará inútil a morte de Jesus Cristo. A expressão comunitária tem de envolver
e fortalecer a caminhada individual. Ouçamos o apelo do Profeta e demos-lhe
concretização nos caminhos da Igreja: “Tocai a trombeta sagrada. Reuni o Povo,
convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças” (Jl.
2,15-16).
Tenho esperança que a Igreja de
Lisboa, dinamizada para a missão, viva profundamente esta Quaresma, como caminho
de conversão e de graça. Quero fazer esta caminhada convosco, rezo por vós.
†
JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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