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“A Igreja e a
humanização da Cidade”
Homilia na Solenidade
de São Vicente
Sé Patriarcal, 22 de Janeiro de 2006
1. A Diocese de Lisboa celebra hoje São Vicente, seu Padroeiro principal. A
cidade de Lisboa, sede da diocese, sempre reconheceu no Santo Mártir o seu
protector. Este facto é mais uma expressão daquela dimensão espiritual
constitutiva da “alma” de Lisboa, que sempre identificou na Igreja e na fé
cristã a fonte dos valores éticos e culturais que inspiram a construção da
cidade.
A Solenidade do seu Padroeiro é ocasião, para a Igreja e para a cidade, de
consciencializar a sua prece: o que é que uma e outra, Igreja e cidade, pedem a
São Vicente, seu Padroeiro? A Igreja de Lisboa, dois meses depois do Congresso
Internacional para a Nova Evangelização, em que nos propusemos, em diálogo com a
cidade, anunciar Jesus Cristo e aprofundar a matriz cristã da nossa cultura, só
lhe pode pedir que a guie e fortaleça, para continuar este diálogo
evangelizador. Sabemos que a Igreja pode exercer um papel importante no esforço
contínuo de fazer da nossa cidade um lugar de convivência, de harmonia e de
respeito pela dignidade de cada um. Talvez seja possível, depois do Congresso,
que a Igreja e a cidade, possam convergir na mesma prece: pedir a São Vicente
que nos ilumine e nos fortaleça, para, em conjunto, fazermos de Lisboa uma
cidade mais humana. Quando o Senhor Presidente da Câmara teve a amabilidade de
receber os congressistas, nas palavras que lhe dirigi, afirmei: “Não é objectivo
da Igreja dominar a cidade, mas humanizar a cidade”. Essa pode ser, hoje, a
nossa prece comum.
2. Isto só será possível se todos aceitarem que a Igreja faz parte da
cidade, e se os cristãos perceberem que não estão sozinhos na cidade e que não
são os únicos a lutar pela sua humanização. Não querer dominar a cidade é também
aprender a respeitar as diferenças, a reconhecer as convergências, embora
propondo sempre com clareza a sua especificidade. A humanização da cidade é obra
de cultura, pois só esta garante aqueles valores fundamentais que inspiram a
construção da comunidade. Na sociedade portuguesa, ao longo dos séculos, a fé
cristã tornou-se cultura, e a Igreja deseja continuar o diálogo cultural para
que a nossa cultura transmita, espontaneamente, os valores que inspiram uma
sociedade de rosto humano. Só a cultura torna possível que uma grande parte dos
cidadãos, mesmo não praticantes ou até descrentes, se encontrem com os cristãos
na proposta e defesa de valores fundamentais. E estes, para além do
reconhecimento, próprio da fé, da relação de todas as coisas com Deus criador e
com Cristo redentor, resumem-se ao respeito pela dignidade da pessoa humana e
pelo carácter sagrado da vida, à defesa da sua liberdade e do direito à
autenticidade, e à descoberta da inter-ajuda solidária, que encontra no amor
fraterno a sua mais elevada expressão.
É à volta da defesa e promoção destes valores éticos que se esclarece a
convergência ou tensão da presença dos cristãos na cidade, procurando, com todos
os outros, a sua humanização.
Os cristãos, na medida da sua fidelidade a Jesus Cristo, estão em todas as
coisas iluminados pela luz de Cristo e motivados pelo amor. Esta sua presença na
cidade é a primeira expressão da evangelização. Eles aprendem a identificar as
convergências de perspectivas, mas em todas as circunstâncias eles têm de
afirmar, com fidelidade, os valores do Evangelho. E todos sabemos que hoje, no
âmago da cidade, neste campo dos valores a propor, há convergências, mas também
divergências e confrontos. Aceitá-los com realismo e verdade não impede o
empenhamento na construção da cidade, na certeza de que esta só será mais humana
se não transigirmos, nunca e em nada, na defesa da misteriosa dignidade da
pessoa humana.
3. Neste contributo da Igreja para a humanização da cidade há expressões
privilegiadas, pelo que significam de generosidade do amor fraterno, que
queremos claramente assumir, como exigência do Evangelho e expressão da Nova
Evangelização. Refiro-me à ajuda fraterna a prestar aos que mais dela
necessitam: os doentes, os solitários, os pobres e desempregados, os sem abrigo,
os presos. É a cidade silenciosa, ao encontro da qual ou se vai ou não se vai,
sofrimento silencioso e escondido que nenhum processo de desenvolvimento
consegue evitar. A primeira leitura que escutámos nesta celebração, do Livro de
Ben-Sirá, narra-nos uma experiência de morte vivida por quem ainda está vivo e
só encontra resposta na fé e na certeza do amor de Deus. Mas o amor de Deus
exprime-se através do nosso amor. Há nesta cidade muitas experiências de morte,
a que o nosso amor pode dar resposta, ajudando as pessoas a transformá-las em
experiência de vida. E isso é possível, porque no nosso amor de cristãos,
exprime-se o amor de Deus, em Jesus Cristo, como escreve o Apóstolo Paulo aos
Coríntios: “É Deus que nos consola em todas as nossas tribulações, para podermos
consolar aqueles que sofrem qualquer tribulação, por meio da consolação que nós
próprios recebemos de Deus” (2Cor. 1,4).
São Vicente era um diácono e esta predilecção pelos que sofrem é a essência
do ministério diaconal. Saúdo, neste dia, todos os diáconos da nossa Diocese e
repito-lhes que espero que eles sejam, em nome do ministério que receberam, a
linha avançada e dinamizadora desta prioridade que a Igreja de Lisboa quer dar
aos irmãos que mais sofrem.
4. Há um outro contributo importante para a humanização da cidade, que a
Igreja pode dar: a oração. Nunca, como quando reza, o homem se humaniza tão
profundamente. Na oração, ele faz desabrochar aquela profundidade do seu ser,
onde encontra a paz, a confiança, a força de viver. Exprime a sua relação com
Deus, última fonte do sentido de toda a existência, sai de si e abre-se ao amor
dos irmãos; aí se vence a solidão, se ultrapassam as dificuldades da comunhão,
se desabrocha para a solidariedade e para o sentido da comunidade. A oração é
uma força silenciosa de humanização da cidade.
Há problemas da cidade para cuja solução muitas vezes sentimos que pouco ou
nada podemos fazer. Mas rezar, todos podemos, na certeza de que quando rezamos
nos libertamos, e nos tornamos capazes de enfrentar com serenidade, mesmo as
situações mais difíceis. Onde faltam as forças humanas, a oração abre-nos à
misteriosa força de Deus. Ajudar a Igreja de Lisboa a ser um povo orante é,
certamente, uma das interpelações que o Espírito nos lançou através do
Congresso.
A oração e o amor dos irmãos cruzam-se na mesma experiência, abrem-nos ao
mistério da comunhão, ou seja, ajudam-nos a perceber que a cidade tem de ser
comunidade, onde se corrigem egoísmos, se desenvolve a dimensão do bem comum,
onde a competência se alia à generosidade para construir a casa comum. Só na
experiência da corresponsabilidade comunitária a cidade será mais humana. Essa é
a principal responsabilidade da Igreja na cidade: ser a “casa da comunhão”.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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