|
http://patriarcado-lisboa.pt
Homilia na
Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus,
Dia Mundial da Paz
Basílica dos
Mártires, Lisboa, 1 de Janeiro de 2006
“A verdade é alicerce
indispensável para se construir a Paz”
1. Neste primeiro dia do ano, os cristãos são interpelados por uma dupla
celebração: a festa litúrgica de Santa Maria, Mãe de Deus, e o “Dia Mundial
da Paz”, em que somos convidados a aprofundar a relação entre o mistério que
celebramos e a construção da paz. Estas duas celebrações não geram
dispersão, antes afirmam que Jesus Cristo e o Espírito Santo que infunde em
nós são o verdadeiro fundamento da paz.
Para nos ajudar nesta meditação, os Papas têm dirigido à Igreja, neste dia, uma
Mensagem, sempre centrada num aspecto da construção da paz a partir de Jesus
Cristo e da exigência, inerente à fé cristã, de construir um mundo novo. Bento
XVI, no primeiro ano do seu pontificado, não interrompeu esta tradição e centrou
a sua mensagem para este dia, na relação que há entre a verdade e a paz. E
explica porquê: este tema “na verdade, a paz”, “exprime esta convicção: sempre
que o homem se deixa iluminar pelo esplendor da verdade, empreende quase
naturalmente o caminho da paz” ( Bento
XVI, “Na Verdade, a Paz”, nº 3).
Esta afirmação aponta, também, a mentira como um dos principais obstáculos à
paz.
Escutemos o Santo Padre: “A busca autêntica da paz deve partir da consciência de
que o problema da verdade e da mentira diz respeito a cada homem e mulher e
aparece como decisivo para um futuro pacífico do nosso Planeta” (Ibidem,
nº 5).
2. Estas afirmações convidam-nos a aprofundar a noção de verdade e de
mentira. Muitos, na maneira de se situar na vida, vivem na mentira, porque tomam
posições e seguem caminhos que sabem ser contrários à verdade; mas outros vivem
na mentira, porque já a identificam com a sua própria verdade.
A busca da verdade é, em cada homem, uma expressão maior da inteligência e
da liberdade, porque a verdade consiste na descoberta da dignidade do homem, do
sentido profundo do seu ser, como membro da família humana, habitando a mesma
casa comum, que é o universo. E esta busca do sentido é influenciada, de modo
decisivo, pelo facto de acreditar em Deus ou de não acreditar. Para quem
acredita em Deus, a verdade sobre o homem e sobre o universo só se pode
encontrar na intenção criadora de Deus. Não haverá harmonia entre os homens e
destes com o universo, se não procurarem perceber e acolher a verdade da
criação. Construir a paz é obra da liberdade de homens que, ao construir a
história, são guiados e atraídos por essa verdade profunda que todas as coisas
encontram em Deus. O homem aceita não ser a única fonte da verdade e assume-se
como peregrino da verdade. É neste sentido que a verdade lhe é revelada pela
Palavra eterna de Deus, que Ele pronuncia continuamente na história e que é luz
para toda a procura da verdade. Este dinamismo atinge a sua plenitude em Jesus
Cristo, a Palavra eterna encarnada. Ele próprio declarou ser a verdade e a luz
que ilumina todo o homem que vem a este mundo. “É Ele que manifesta a verdade
total do homem e da história. Com a força da Sua graça é possível estar na
verdade e viver da verdade, porque só Ele é totalmente sincero e fiel. Jesus é a
verdade que nos dá a paz” (Ibidem,
nº 6).
A fé leva-nos a procurar a verdade na Sua fonte, a aceitar uma verdade
absoluta, pela qual nos sentimos atraídos. É a atitude de Maria, no Presépio de
Belém: “Maria fixava todas estas palavras e pensava nelas no íntimo do coração”.
E São Paulo diz-nos que é o Espírito Santo, enviado por Deus aos nossos
corações, que nos faz descobrir a mais profunda verdade do nosso próprio
mistério, na nossa qualidade de filhos de Deus. A verdade que procuramos é
absoluta e transcendente, e Jesus Cristo é a sua plenitude.
Para quem não acredita em Deus, muda radicalmente o horizonte da busca da
verdade. Fica prisioneira do horizonte do próprio homem, quando muito da
história, absolutizada como fonte da verdade, onde as ideologias que a inspiram
e conduzem, são as mesmas que a explicam e justificam. E bem depressa a
valorização da consciência individual conduziu a uma visão totalmente subjectiva
da verdade, onde cada um tem direito à sua própria verdade. Anulada qualquer
referência a uma verdade objectiva e absoluta, que não se confunde com o homem,
esbatem-se as fronteiras entre a verdade e a mentira.
No concreto da vida das sociedades as consequências destas duas atitudes não
são sempre linearmente claras. Nem todos os crentes se tornam peregrinos da
verdade absoluta, caindo também, seja na mentira, seja na visão subjectiva da
verdade; e muitos homens que buscam sinceramente a verdade, mesmo não sendo
crentes, vencem generosamente os limites do individualismo e aproximam-se do
limiar da verdade objectiva, porventura absoluta. E o ponto de convergência
destes dois caminhos de busca da verdade, é a afirmação da dignidade do homem,
do valor sagrado da vida, do respeito pelas diferenças, valorizando tudo o que
pode construir a harmonia da paz. A verdade fundamenta um quadro ético de
valores, irredutíveis à verdade individual, absolutamente indispensáveis para a
construção da paz. É missão principal das religiões e culturas em diálogo,
apurarem esse “universal humano” de promoção da dignidade do homem, base
indispensável para a paz.
Ressalta a responsabilidade dos crentes, de modo particular os cristãos,
para darem densidade histórica, na construção da paz, à verdade em que
acreditam, porque a história mostra que dificilmente se chega à “verdade para a
paz” longe de Deus. Ouçamos, mais uma vez, a Mensagem do Santo Padre: “Deus é
fonte inesgotável da esperança que dá sentido à vida pessoal e colectiva. Deus,
e só Ele, torna eficaz qualquer obra de bem e de paz. A história demonstrou
amplamente que, fazer guerra a Deus para extirpá-Lo do coração dos homens, leva
a humanidade, assustada e empobrecida, para decisões que não têm futuro. Isto
deve impelir os crentes em Cristo a fazerem-se testemunhas convictas de um Deus
que é inseparavelmente verdade e amor, colocando-se ao serviço da paz numa ampla
colaboração ecuménica e com as outras religiões e ainda com todos os homens de
boa vontade” (Ibidem, nº 11).
A evangelização é um contributo importante dos cristãos para a edificação da
paz.
3. Merece uma referência particular a ciência como busca da verdade, pois a
ciência e a perspectiva que ela gera, chamada “mentalidade científica”, são
componentes importantes de uma cultura para a paz. A ciência busca a verdade
profunda da criação, das suas potencialidades e dinamismos. Está aí o fundamento
da dignidade da ciência, o ser uma busca da verdade, para bem do homem e de toda
a família humana. E é por isso que entre a fé e a ciência, como caminhos
diferentes de chegar à verdade, não pode haver antagonismos intransponíveis (
Cf. João Paulo II, “Redemptor
Hominis”). Isso exige que os
valores éticos, defensores da dignidade do homem, estejam presentes no próprio
processo científico e, sobretudo, na sua aplicação prática à vida dos homens e
das sociedades. É nas decisões políticas, nas opções económicas, nos modelos de
desenvolvimento, que se chocam e se cruzam a verdade e a mentira.
Nem todas as descobertas da ciência, aplicadas sem o rigor ético de defesa
da dignidade da pessoa humana, são factores de paz. O momento presente da nossa
sociedade portuguesa oferece-nos um exemplo preocupante: a preparação de
legislação, aliás necessária, que regule as potencialidades que a ciência
oferece à fecundação assistida. A dignidade da procriação humana, ligada à
família e ao amor, os direitos inalienáveis do nascituro, entre os quais
sobressai o direito de ter uma família, com um Pai e uma Mãe, sobrepõe-se, do
ponto de vista moral, ao entusiasmo de aplicar, ao sabor dos critérios
individuais, todas as possibilidades que a ciência abriu. Do mesmo modo que a
dignidade do embrião humano, cujos excedentes devem e podem ser evitados pelo
próprio processo técnico-científico, não permite que seja alvo, enquanto vivo,
de qualquer investigação, por mais promissora que seja.
Que Maria, Mãe de Jesus, infunda em todas as mulheres que procuram ser mães,
a humildade do mistério e os limites da própria verdade.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
|