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MENSAGEM DE NATAL 2005
DO
CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA
Senhores telespectadores e rádio-ouvintes
1. Mais uma vez, é-me oferecida a possibilidade
de dirigir a todos os portugueses, espalhados pelo mundo, uma mensagem de
fraternidade e de paz. Faço-o pessoalmente e em nome da Igreja. Dirijo-me a
todos, crentes e descrentes, porque acredito que aquele Menino, que nasceu em
Belém, continua a ser um abraço do amor de Deus por todos os homens.
O espírito do Natal é de paz e de alegria. É
assim desde aquela noite em Belém, quando um mensageiro celeste anunciou aos
pastores: “Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo:
nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor”. Porque
vos falo em nome da Igreja, tenho de vos dizer com simplicidade, que o motivo da
nossa alegria é Jesus Cristo, continua a ser Jesus Cristo, Vivo na Sua Igreja,
expressão sempre actual do amor de Deus por nós, única fonte verdadeira da paz
entre os homens.
Há apenas algumas semanas, a Igreja de Lisboa
exprimiu a toda a cidade a alegria de termos permanentemente connosco Cristo
Vivo, o Deus amoroso no meio do Seu Povo. Fizemo-lo com simplicidade e beleza,
com a autenticidade de quem deseja conviver com todos, partilhando a verdade
mais profunda do nosso coração; fizemo-lo em festa recolhida e serena, e
convidámos todos a juntar-se a nós. E vieram muitos, centenas de milhares, e
como naquela noite em Belém, Maria, a Mãe de Jesus, foi a Rainha da nossa festa.
Ao contemplar a sua imagem entre a multidão, na beleza do seu rosto imaculado,
expressão mesma da ternura de Deus, senti a actualidade da mensagem do Anjo aos
Pastores de Belém: “Não temais; anuncio a todo o Povo uma grande alegria;
nasceu-vos, na casa de David, um Salvador”.
2. Não temais! A mensagem desta noite
convida-nos a vencer os medos que tolhem a nossa vida. Hoje, há muita gente com
medo, o que impede as pessoas de serem felizes. Para enfrentar com liberdade as
realidades que nos atemorizam, é preciso vencer o medo, porque este é um
sentimento que tolhe a liberdade e enfraquece a coragem de lutar. O anúncio
libertador de Jesus Cristo começa frequentemente assim: não temais, Eu venci o
mundo.
A vitória sobre os medos é uma vitória
espiritual, porque o é da liberdade. Paradoxalmente, as chamadas sociedades
evoluídas, que optaram por modelos de desenvolvimento destinados a resolver,
pela ciência e pela técnica, as principais ameaças que pesavam sobre o ser
humano, não anularam o medo. O medo da violência, que gera insegurança; o medo
de perder o trabalho ou de nem sequer conseguir o primeiro emprego; o receio de
que falhe a relação de amor em que se depositou toda a confiança; a aflição das
crianças perante a desavença dos pais; o medo da morte. É preciso enfrentar as
realidades que nos atemorizam, mas isso só é possível, se vencermos o medo.
Nossa Senhora prometeu aos Pastorinhos: “Não
tenhais medo! O meu Imaculado Coração triunfará”. Essa é a verdadeira vitória
sobre o medo, a força de um coração renovado. Esse foi o segredo dos heróis, dos
mártires e dos santos, em todos os tempos. Jesus, preparando os discípulos para
as dificuldades que vão encontrar, diz-lhes: “Não tenhais medo daqueles que vos
podem matar o corpo, mas nunca poderão matar-vos a alma. Temei esses que podem
levar à perdição o vosso corpo e a vossa alma” (cf. Mt. 10,28).
Este “não temais”, dito pelo Anjo, é o grito,
tantas vezes repetido pelos profetas, aos crentes de Israel. Quem confia no
Senhor não terá medo, como canta o salmista: “O Senhor é a minha luz e salvação,
de quem haveria de ter medo? O Senhor é a muralha da minha vida, perante quem
tremerei?” (Ps. 27,1).
3. O Anjo acrescenta a seguir: “anuncio a todo o
povo uma grande alegria: nasceu-vos um Salvador”. A Igreja não pode esquecer
isto: a alegria da Salvação é para ser anunciada a todo o povo. E esta exigência
de anunciar a Salvação, só se torna inevitável para os crentes, que não podem
deixar de evangelizar. Aqueles a quem anunciamos são livres de escolher, ou não,
este anúncio libertador. Aceitar o Evangelho é sempre um acto de liberdade, e só
os homens livres podem acolher a mensagem de Jesus, porque não estão estagnados
no seu presente, mas dispostos a abrir-se a uma luz nova e a uma nova etapa da
liberdade.
Cada homem guarda no íntimo do coração a
simplicidade de se deixar atrair e encantar pela beleza de Jesus Cristo, porque
Ele penetra em portas que ninguém abriu. A luz do Natal aparece sempre como uma
estrela que é preciso seguir, ultrapassando, corajosamente, a fronteira das
nossas certezas. Nesta noite, toda a cidade, cada família, a vida de cada um de
nós, estão envoltas em sinais que nos falam da alegria do Natal, porque na
abordagem do mistério, os sinais significam mais do que os discursos. Convido
cada um de vós, nesta noite, a referir ao nascimento de Jesus e à alegria que
ele significou para a humanidade, os sinais que vos envolvem, porque constituem
a linguagem simbólica desta festa. As estrelas luminosas sugerem-nos a estrela
de Belém, cuja luz levou os Magos ao presépio. A luz é o elemento principal
nesta festa: as ruas estão iluminadas, as árvores resplandecem, os edifícios e
as lojas atraem pela intensidade da luz. Toda essa luz lembra-nos que Cristo é a
luz do mundo, e que a Liturgia há-de celebrar gloriosamente essa luz, na Páscoa
da Sua ressurreição. Não será de uma outra luz que andamos à procura, nos
caminhos, tantas vezes sombrios, da nossa vida?
No Natal trocam-se presentes. Pratica-se uma
generosidade, como em nenhum outro dia do ano, para manifestarmos a amizade,
fraternidade, alegria. Mas essa é a mensagem de Jesus: dai de graça, porque tudo
recebeste de graça. Purifiquemos a nossa intenção em cada presente, façamo-lo
por amor, e recordemos que o mais importante é que sejamos dons uns para os
outros. Na intimidade dos vossos lares encenastes, talvez, o presépio de Belém.
Belíssima tradição cristã de figurar os Mistérios, ele recorda-nos o momento
mais intenso de uma família, a família de Jesus, a quem nem a pobreza e a
dificuldade das circunstâncias impediram a alegria sublime da fé e do amor,
expressos naquele “Menino”, prometido e esperado, dom de Deus que nos é renovado
pelos braços estendidos de Sua Mãe. Saúdo, neste momento, aquelas famílias para
quem é Natal, porque celebram o sentido do seu amor numa criança que nasceu.
Se, nesta noite, pensarmos no sentido de tudo o
que nos rodeia, abriremos o nosso coração à beleza e poderemos celebrar, em
festa, a Missa do Natal, onde a Liturgia nos convida a exultar, porque Jesus
nasceu para nós e continua vivo, no meio de nós.
4. Mas o Anjo acrescenta: “nasceu-vos hoje, na
cidade de David, um Salvador” e esse facto é mais um motivo da alegria
anunciada: aquele Menino é um príncipe real. Que o Messias seria um descendente
de David, era a mais sólida das promessas de Israel. Foi por isso que Maria e
José desceram de Nazaré, na Galileia, até Belém, a cidade de David, porque José
era da casa de David (cf. Lc. 2,4). No relato da Anunciação diz-se que o Anjo
apareceu a uma Virgem, de nome Maria, noiva de José, que era da casa de David
(cf. Lc. 1,27). E na Sua última vinda a Jerusalém, onde será condenado à morte,
Jesus entra na cidade aclamado como Messias Rei e a multidão exclamava: “Hossana
ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt. 21,10).
É por isso que o Rei Herodes quer matar o
Menino, pois teme que Ele ocupe o trono de Israel (cf. Mt. 2,1ss). O Messias que
nasceu em Belém, na simplicidade de uma gruta, é um Príncipe Real. Jesus nunca
rejeitou esta Sua condição real. Mesmo durante o seu processo, em que essa é uma
das acusações que Lhe fazem, Pilatos pergunta-lhe directamente: “Tu és Rei” e
Jesus responde: “Tu o dizes. Sou Rei, para isso vim ao mundo. Mas o meu reinado
não é deste mundo”. (Jo. 18,34ss).
O verdadeiro triunfo da realeza de Cristo, é a
Sua vitória sobre a morte. Isso nenhum Senhor deste mundo jamais conseguiu. É
uma realeza que se afirma pelo serviço e pelo dom, se exprime na proclamação da
verdade, e triunfa na instauração do amor. O Espírito Santo, amor de Deus
derramado nos nossos corações, é a manifestação definitiva da realeza de Jesus
Cristo.
A afirmação clara de que o Seu reinado não é
deste mundo, pode tranquilizar todos quantos ainda hoje temem que a Igreja
queira dominar a sociedade. Se ela tentasse fazê-lo, ou quando o fez, foi infiel
ao Seu Senhor e Rei. Ela quer seguir Jesus Cristo no serviço gratuito e
generoso, na proclamação da verdade, na generosidade do amor. A Igreja não quer
dominar a Cidade, quer humanizá-la. Que ninguém queira expulsar a Igreja da
cidade, porque ela é, na sua pobreza e simplicidade, portadora de um anúncio de
libertação: é possível viver em paz, amarmo-nos uns aos outros como irmãos,
defender quem é atacado ou esquecido, consolar quem está triste, porque um
Salvador nasceu para nós, e continua Vivo, no triunfo da Sua realeza.
Neste Natal deixai que a alegria e a bondade
inundem os vossos corações.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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