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CONGRESSO
INTERNACIONAL PARA A NOVA EVANGELIZAÇÃO
“A
continuidade do Congresso tem de se exprimir na fidelidade da Igreja ao dom de
Deus”
Homilia do XXXIII domingo do Tempo Comum,
no encerramento do ICNE
Mosteiro dos Jerónimos, 13 de Novembro de 2005
1. Com esta celebração
encerramos a Sessão de Lisboa do Congresso Internacional para a Nova
Evangelização. Fazemo-lo em comunhão com as Igrejas de Viena, Paris, Bruxelas e
Budapeste, louvando o Senhor por todo o percurso percorrido, desejosos de
discernir caminhos e escutar os Seus chamamentos para o futuro da missão. O
nosso Congresso, grande realização humana, é apenas um momento de um dinamismo
contínuo e universal, a força transformadora do homem e da história, que brota
de Jesus Cristo, morto e ressuscitado e que se exprime na Igreja, seu sacramento
e principal agente, através do Espírito Santo. O Congresso fez-nos sentir a
importância fundamental da missão da Igreja para a humanidade e a exigência da
fidelidade a essa missão.
A Liturgia de hoje propõe-nos
para meditação a parábola evangélica dos talentos, que simboliza as vicissitudes
da força salvífica de Deus condicionada pela fidelidade humana. É o dinamismo da
Encarnação, em que a força do amor salvífico de Deus se exprime nos homens e
através dos homens. É o drama da salvação, onde, se por um lado Deus eleva o
homem à grandeza de ser protagonista da Salvação, de poder salvar os seus
irmãos, por outro pode comprometer, pela infidelidade dos cristãos à Páscoa de
Jesus, a realização da Salvação. Esse é o maior drama que pesa sobre a Igreja
histórica: ela pode, com a sua infidelidade, atrasar o progresso da humanidade
em ordem à cidade definitiva que Deus deseja.
A parábola dos talentos não
se aplica só às pessoas individualmente, mas à Igreja, Povo do Senhor e
sacramento de salvação. Foi a ela que Deus entregou todos os talentos, ou seja,
toda a energia transformadora do Seu amor salvífico, para que os ponha a render
nela mesma, vivendo em santidade e fecunde com eles o mundo, como força
recriadora da História. Deus entregou-lhe Jesus Cristo Vivo, enriquece-a
continuamente com o dom do Espírito Santo, Espírito de amor divino; deu-lhe a
possibilidade de celebrar com Jesus Cristo a Páscoa da vida, donde jorram
continuamente rios de água viva, que através dos sacramentos, podem transformar
o homem e o mundo; diz-lhe, sempre de novo, a Sua Palavra, que ela é convidada a
escutar como palavra de amor, dita agora, em cada momento da nossa vida, porque
o amor é sempre presente; convida-a à intimidade amorosa, que só a oração e a
contemplação exprimem e envia-a sempre de novo a anunciar a alegria da salvação,
que é a exaltação de se sentir amado por Deus, em Jesus Cristo Vivo, na Sua
contemporaneidade com todos nós. É à Igreja, Seu Povo, que enriqueceu com todos
estes dons, a quem quer dar tudo o que tem para dar, que o Senhor, no fim dos
tempos, há-de perguntar: como fizeste frutificar todos os dons que em ti
depositei? A salvação do mundo depende da fidelidade da Igreja aos dons de Deus.
2. Neste momento uma
interrogação, que é um anseio, brota do coração de todos nós: que novos caminhos
se abrem para a missão da Igreja, depois deste Congresso. E a resposta principal
foi-nos dada pela parábola evangélica dos talentos: a fidelidade da Igreja a
Jesus Cristo Vivo, à Eucaristia que celebra, à Palavra que lhe toca o coração,
ao Espírito que a santifica. O Santo Padre dizia-nos na sua Mensagem: “As vossas
Igrejas locais vivem do dom da carne e do sangue de Cristo, pelo qual Ele nos
quer transformar e fazer semelhantes a Si Mesmo. Estão vivas, porque Cristo está
vivo nelas e, por elas, quer comunicar a todos a vida, e vida em abundância”.
Toda a renovação pastoral que o Congresso nos sugira, deve visar, em primeiro
plano, a fidelidade da Igreja. Percebemos melhor aquelas palavras que Jesus
disse um dia: «Eu fui enviado, em primeiro lugar, às ovelhas perdidas da Casa de
Israel».
Fidelidade da Igreja supõe
aprofundamento da fé, caminhos renovados de catequese, distribuição a todos do
pão da Palavra, conduzindo os crentes para a sabedoria, onde a inteligibilidade
da fé origina uma racionalidade crente, sem dicotomias entre fé e razão,
valorizando a inteligência humana como capacidade de acolhimento da Palavra. O
aprofundamento da fé supõe uma visão renovada da relação entre teologia como
ciência da fé e acção pastoral.
Fidelidade da Igreja supõe
celebrar bem, cada vez melhor, os mistérios da fé. A Liturgia tem de ser o foco
irradiador da profundidade.
Fidelidade da Igreja supõe
aprender a rezar. Só na experiência da comunhão íntima com Deus se entra na Sua
intimidade e se descobre a alegria de ser amado por Ele. A oração é
contemplação, enquanto abandono pessoal à intimidade de amor, mas é também
acção, com frutos fecundos no crescimento do Reino de Deus. Só Deus conhece em
que medida o futuro da cidade depende da oração silenciosa dos íntimos de Deus.
Que um justo pode salvar a cidade é já afirmado por Deus a Abraão, a propósito
da ameaça de destruição de Sodoma e Gomorra (cf. Gen. 18,22-32). Deste Congresso
pode surgir um grande dinamismo de aprendizagem de oração: aprender a rezar
celebrando e a celebrar rezando, ganhar o gosto pela adoração, de modo
particular pela adoração eucarística, descobrir que toda a vida pode ser acto de
louvor.
Fidelidade da Igreja supõe
valorizar as diferenças e os carismas, infinita variedade dos dons de Deus,
pérolas diferentes a embelezar o rosto de uma Igreja una. É humano
supervalorizar o próprio dom o que pode levar a rejeitar as diferenças. O mesmo
Espírito que nos guia no discernimento dos dons de Deus, é o único que nos
tornará humildes e sábios para nos alegrarmos com os dons dos outros, como
acordes de uma única harmonia. O próprio Santo Padre nos convida, na Mensagem
que nos dirigiu, a “reforçar a comunhão entre as estruturas paroquiais e as
várias realidades carismáticas largamente presentes nas vossas cidades, a fim de
que a missão possa atingir todos os ambientes da vida”.
Entre os diferentes carismas
que enriquecem a Igreja de Lisboa, quero referir um de que pouco se fala e pode
exercer papel decisivo na renovação da Igreja e da missão: refiro-me ao carisma
feminino, à maneira feminina de ser cristão, de rezar, de amar, de servir, de
anunciar. Alguém me disse um dia que uma das ameaças que pesa sobre a Igreja dos
nossos dias é o risco de perder a mulher. Seria, de facto, uma grave perda, para
a Igreja e para a mulher.
Na Primeira Leitura desta
celebração é-nos dito: “Quem poderá encontrar uma mulher virtuosa? O seu valor é
maior que o das pérolas” (Prov. 31,10). E é. Toda a mulher que procura ser
plenamente mulher, numa relação amorosa com Jesus Cristo, é um dom precioso para
a Igreja. Muitas lamentam que a Igreja seja demasiadamente masculina. Não é, de
facto, e sê-lo-á cada vez menos na medida em que mais mulheres sejam santas e
sejam capazes de abraçar o mundo num acto de amor.
Fidelidade da Igreja supõe
revitalização contínua das suas estruturas pastorais. Entre estas sobressai,
pela sua importância, a Paróquia. O Santo Padre pede-lhes que “assumam um
comportamento mais missionário na pastoral quotidiana e se abram a uma
colaboração mais intensa com todas as forças vivas de que a Igreja hoje dispõe”.
Esta valorização da dimensão evangelizadora da Paróquia, ponto de convergência
de todas as forças vivas, anuncia, certamente, o principal fruto deste
Congresso. Se isso falhar, o Congresso poderá perder-se como simples evento, na
memória da Igreja de Lisboa.
Fidelidade da Igreja
significa, finalmente, dinamismo missionário. Uma Igreja fiel é, espontaneamente
evangelizadora. Na sua fidelidade a Igreja descobre-se sempre como enviada à
cidade dos homens. Cada cristão vive no meio dos outros homens e mulheres, toda
a Igreja vive no meio da cidade, partilha com todos as alegrias e tristezas, os
projectos e as utopias e essa convivência é o lugar do seu testemunho. Os
problemas de todos os homens, nossos irmãos, são os nossos problemas, as causas
justas da cidade são as nossas causas. E quando damos as mãos para partilhar
problemas e anseios, podemos testemunhar a esperança com que o fazemos. Todas as
causas justas da cultura e da civilização são objectivos da Igreja.
3. Mas o Congresso não acaba
hoje, porque ele continua, em ordem à Sessão de Bruxelas, e ganha uma densidade
nova nas cidades que já organizaram as Sessões, na exigência da fidelidade. É
preciso encontrar a convergência destes dois dinamismos: o entusiasmo das
cidades que vão organizar as próximas sessões, e a riqueza do “post-congresso”
para aqueles que já o organizaram. À Igreja de Bruxelas, a quem entregámos o
testemunho, queremos garantir que o nosso desejo de fidelidade se concretizará,
também, no empenho na próxima Sessão.
E que a Virgem Santíssima,
que abraçou esta Sessão de Lisboa, vos envolva no mesmo abraço.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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