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Solenidade da Dedicação da Sé Catedral de Lisboa
Homilia do Cardeal Patriarca
“O zelo pela Tua casa devorar-me-á”
(Jo. 2,17)
A solenidade litúrgica da
Dedicação da nossa Catedral reveste-se, este ano, de um significado particular.
Nas vésperas da abertura, em Lisboa, do Congresso Internacional para a Nova
Evangelização, esta celebração constitui, no seu significado profundo, o seu
início, porque é o momento do envio em missão de todos quantos o vão realizar.
Por isso vos convoquei hoje, porque vos quero enviar a anunciar à nossa cidade a
alegria de acreditar em Jesus Cristo, Vivo para sempre e fonte da plenitude da
vida que com Ele partilhamos. Oh! Se fossemos capazes de anunciar que Jesus
Cristo é fonte de vida, da vida que todos receberam, que todos sofrem e fruem, o
maior dom que cada ser humano possui, fonte da sua dignidade e da sua esperança!
Descobrir a vida, defender a vida, aprofundar a vida, lutando pela sua qualidade
e plenitude, é dever inalienável de cada cristão, é atitude de louvor de Deus,
porque Ele, fonte da vida, deseja que nós vivamos, que todos os seres humanos
gerados sejam ajudados pelos outros a viver e a crescer até à plenitude da vida.
O tema central do
Congresso sublinha que a evangelização é o anúncio da Vida, porque o é de Jesus
Cristo, o Vivo. E num contexto histórico-social em que poucos homens e mulheres
experimentam a beleza da vida em profundidade, uns porque nem sequer os deixam
nascer, outros que lutam contra as dificuldades da pobreza, da solidão e da
opressão, e tantos que se contentam com dimensões imediatistas da vida, perdendo
de vista o seu horizonte de profundidade, expresso na fé, na cultura, no amor
fraterno, é urgente anunciar a todos que a vida é possível, é um dever e uma
promessa de felicidade, porque Jesus Cristo nos ama e nos comunica a Sua vida
plena. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo. 10,10).
A Catedral,
enquanto Igreja-Mãe da Diocese, é o símbolo visível do “templo vivo” onde Deus
vive e distribui a vida, a certeza de que a Vida plena é para ser vivida pelos
homens, de que todos são para aí convidados para a festa da vida. O evangelista
São João lembra-nos que Cristo é esse templo, o verdadeiro santuário da vida a
todos oferecida e ao alcance de todos. E o Apóstolo São Pedro, na sua carta,
afirma que a Igreja é esse santuário da vida, porque é constituída por aqueles e
aquelas, que unindo-se a Cristo ressuscitado, descobrem n’Ele o verdadeiro
horizonte da vida, são “templo espiritual”, santuário da Vida, porque construído
de “pedras vivas”, solidamente assentes no alicerce que é Cristo Vivo. É já
desse “templo espiritual” que fala o profeta, manifestando o desejo de Deus de
que o Seu Templo seja “casa de oração para todos os povos”.
Esta é a nossa
dignidade e responsabilidade como Igreja Diocesana, que sentimos com tremor e
alegria ao reunirmo-nos na nossa Igreja-Mãe: sermos santuário da Vida,
acolhedora e aberta a quantos procuram viver. Este Congresso ajudar-nos-á, a
todos, a descobrir o que significa sermos, no meio da cidade, o “santuário da
vida”.
Significa, antes
de mais, saber identificar a beleza da vida e as fontes da vida. Elas estão
gravadas no íntimo do coração humano e encontram no coração de Cristo a sua
revelação e realização. A nossa união a Ele, pela fé e pelo baptismo é um
dinamismo de vida. Tudo n’Ele nos faz viver: a Sua Palavra, o Seu amor, a Sua
fidelidade ao Pai, a oferta da Sua vida, que com Ele partilhamos na Eucaristia.
As fontes da vida são, para nós cristãos, os sacramentos que nos unem a Jesus
Cristo e nos possibilitam viver a nossa vida com Ele e como Ele vive, de modo
particular o Baptismo e a Eucaristia. É sobretudo por isso que a Igreja é o
“santuário da Vida”.
Significa,
depois, defender a vida e ajudar os outros a viver. Ninguém espere dos cristãos
que não sejam defensores da vida, pois ela é um dom sagrado; esperem deles, isso
sim, que sejam promotores da vida, que encontrem a sua própria vida, ajudando os
outros a viver, porque quem dá a vida ao serviço dos seus irmãos, está muito
perto da plenitude da vida.
Significa,
finalmente, anunciar a vida. Proclamar e defender a sua dignidade, ajudar cada
homem e mulher a amar a sua vida e a lutar por ela, sentindo na Igreja, ora um
refúgio, ora uma fonte de alento e de coragem para a luta. Anunciar a vida é
proclamar Jesus Cristo, fonte da vida verdadeira, testemunhar com simplicidade
que n’Ele encontrámos a alegria de viver e que já neste mundo com Ele vivemos,
sofremos e morremos.
O Evangelista
recorda-nos o zelo que Jesus sentia por este templo do Deus Vivo. “O zelo da Tua
casa devorar-me-á”. O Papa João Paulo II ao falar da Nova Evangelização, disse
que era nova porque movida por um “novo ardor”. Este ardor é o zelo de que fala
o Evangelho, revela-nos a urgência da evangelização enquanto proclamação do
Evangelho da vida.
As “Cruzes da
Missão”, depois de terem percorrido grande parte das Paróquias da Diocese,
suscitando esta urgência evangelizadora, regressam hoje a esta Catedral, donde
partiram. Elas vêm carregadas da vossa oração e do vosso entusiasmo, que
encontram sempre no mistério da Cruz a força do seu sentido e eficácia. Ao
regressarem à Catedral, permitem-me enviar-vos a preencher com o vosso
entusiasmo pela missão os sulcos de fé e de generosidade que elas suscitaram.
Sé Patriarcal, 25 de Outubro
de 2005
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
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