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DOCUMENTAÇÃO 2005


Noite de Natal – 2005

Homilia do Cardeal Patriarca

  

“Em Belém nasceu um Príncipe Real”


 

1. Há apenas algumas semanas proclamámos à nossa Cidade que Cristo está vivo, é a fonte da verdadeira vida, o único Senhor que queremos servir. Todos queremos dar continuidade, na normalidade da vida da Igreja, à sinceridade desses dias. E a primeira concretização dessa continuidade tem de ser o aprofundamento da nossa relação com Jesus Cristo: na Eucaristia, que leva à comunhão de amor, que é sempre o lugar do verdadeiro conhecimento das pessoas; no estudo, que contribui para uma sólida cultura cristã; na confissão da fé, que se torna anúncio; na prática revolucionária do amor, força que lança os alicerces dos “novos céus e da nova terra”. Temos de perceber porque é que chamarmos a Cristo “Nosso Senhor”. Temos de nos preparar para podermos enunciar as razões fundamentadas da nossa fé, que se tornou a escolha da nossa vida. Este ano só podemos celebrar o Natal nessa busca da profundidade.

 

A realeza de Jesus Cristo está anunciada na arreigada tradição bíblica, segundo a qual o Messias seria um descendente do Rei David, afirmada, pela primeira vez, pelo Profeta Natan, que sugere a David que não olhe apenas para o imediato da sua realeza, mas que se abra à profundidade dos horizontes de Deus. “Yahwé te tornará grande e te construirá uma casa. E quando se tiverem completado os teus dias e tu repousares com os teus pais, manterei, depois de ti, a linhagem saída das tuas entranhas e confirmarei a sua realeza. Eu serei para Ele um Pai e Ele será para mim um Filho” (2 Sam. 7,11-14). Jesus é a plena realização desta profecia: em Belém nasce um Príncipe Real. Ele construirá definitivamente a “Casa de David”, que será o novo Povo de Deus. O Anjo Gabriel tinha anunciado a Maria: “Conceberás e darás à luz um filho e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Ele será grande e hão-de chamá-lo Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-lhe-á o trono de David, seu pai, reinará para sempre sobre a Casa de Jacob e o seu Reino não terá fim” (Lc. 1,31-33). E Maria é a princesa real, anunciada pelo Profeta Isaías (cf. Is. 14,7), que dá à Casa de David o seu herdeiro definitivo. Trata-se de uma simbologia concretizada nos acontecimentos: José, esposo de Maria, é da Casa de David e Jesus nasce em Belém, a Cidade de David, onde tem raízes o velho tronco de Jessé.

 

Esta realeza definitiva de Jesus está já afirmada na profecia de Isaías que agora escutámos: “Porque um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz». O Seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar, por meio do direito e da justiça, agora e para sempre” (Is. 9,5-6).

 

 

 

2. Neste texto de Isaías é já clara a superação da realeza política por uma Senhoria espiritual, escatológica na sua manifestação definitiva. Desde a profecia de Natan, todos os descendentes de David são considerados “messias”, os ungidos do Senhor, porque o seu poder não era apenas político, mas também espiritual, pois deviam conduzir o Povo no espírito e na fidelidade à Aliança. A degradação da realeza em Israel e a sua humilhação no exílio, levaram os Profetas a abrir-se à dimensão escatológica do Messias esperado, perspectiva que se vai perdendo na classe dirigente, embora sempre alimentada por profetas e por grupos carismáticos. No tempo de Jesus a expectativa messiânica situava esse descendente da Casa de David apenas no plano histórico imediato, com uma missão política de libertador. Por isso Jesus aceita com relutância que lhe chamem Messias ou filho de David, designação que teima em aparecer perante o carácter maravilhoso dos Seus milagres.

 

Depois da solene confissão messiânica de Pedro, Jesus enceta com os discípulos um caminho de correcção da sua expectativa messiânica. E fá-lo, não rejeitando a perspectiva real do Messias descendente de David, mas iluminando-a com a visão do Messias como “Servo sofredor” e “Filho do Homem” escatológico, própria dos Profetas. “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida como resgate da multidão (Mc. 11,45). Este serviço do Messias Servo, escandaliza os discípulos quando Jesus lhes fala da humilhação do Messias, “começou a ensinar-lhes que o Filho do Homem deveria sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, os sumo sacerdotes e os escribas, ser morto e, após três dias, ressuscitar” (Mc. 8,31). Era exactamente o contrário da visão triunfal do messianismo davídico.

 

Ao anunciar a Sua ressurreição, Jesus indica como se realizará a realeza do Messias. Só a Páscoa levará à compreensão da verdadeira natureza real de Jesus. No diálogo com os discípulos de Emaús, Jesus ressuscitado diz-lhes: “espíritos sem inteligência, lentos em acreditar o que foi anunciado pelos Profetas: não era preciso que Cristo suportasse estes sofrimentos para entrar na Sua glória?” (Lc. 24, 25-26). O dom do Seu Espírito, o amor de Deus derramado nos corações e que transformará todas as coisas, é a manifestação definitiva do triunfo de Jesus Cristo. Realmente o seu Reino não é deste mundo, isto é, não se exprime nos critérios do mundo. Pertence ao mundo novo, nova criação, obra do Espírito e fruto do seu sacrifício redentor.

 

 

 

3. Todo este mistério de uma realeza que se exprime no “apagamento” humilde do Rei, está anunciado no presépio. O descendente de David, o Príncipe Real, nasce, não num palácio, mas na simplicidade de uma gruta. E no entanto, a partir desse momento, o Seu Reino já é presente, já está a acontecer na nossa realidade humana, n’Ele próprio, Filho de Deus, em Maria, a Serva do Senhor, de coração imaculado, em José, o justo que se abandona ao mistério, e nunca mais parará de crescer em quantos se fazem seus discípulos. A sua força é a graça, o seu ritmo é a santidade, como escutámos na Epístola de Paulo a Tito. Renunciando à impiedade e aos desejos mundanos, “aguardamos a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tit. 2,13).

 

A Igreja como Povo do Senhor, na medida em que se identifica com Cristo, é a verdadeira manifestação da Sua glória neste mundo e anúncio da manifestação definitiva da Sua realeza. Isto exige dela que esteja no mundo, mas não com os critérios do mundo. Ela assume a condição de serva, não busca poderes ou honras humanas, foi purificada na Páscoa do Senhor e anseia pela santidade. Manifestação da realeza de Cristo, ela é sinal do Seu Reino no conjunto da humanidade, toda redimida, mas ainda não totalmente convertida.

 

Hoje contemplamos a realeza de Jesus Cristo na pobreza da gruta de Belém, em que a única novidade é a pureza dos corações. Continua a ser essa a novidade que nos permitirá acolher com alegria, a mensagem do Anjo aos Pastores.



† JOSÉ, Cardeal-Patriarca